"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 18 de julho de 2017

Da Bíblia falsificada e censurada & de Sade...

Hoje, terça-feira, um dia estupendo de sol, quase todo mundo tossindo e assoando o nariz aí pelos ministérios ou pelos mercados, deparei-me novamente com o mendigo K. Estava numa parada de taxis, meio eufórico, batendo papo com um grupo de taxistas, aqueles conhecidos e decadentes velhinhos que passam o resto da vida coçando a barriga e jogando dominó enquanto aguardam clientes e esperam Godot. Continuava com o casacão verde dos soldados russos, aqueles que, como já disse, se pode comprar nas feiras hippies ou nos mercados de pulgas por pequenas bagatelas e, com o livro do Luiz Buñuel nas mãos. Obrigou-me a escutar mais este texto (páginas 289, 290) onde Buñuel fala sobre um de seus filmes: "Numa cena do filme um velho diz para seu filho uma passagem que, para mim, é a mais bela de Bíblia, muito superior ao Cântico dos cânticos. Encontra-se no Livro da sapiência, ou da sabedoria, livro que não figura em todas as edições, pelo contrário (II,1 a 7). O autor destas linhas admiráveis as coloca na boca dos ímpios. Senão seriam impronunciáveis. Basta colocar entre parênteses as primeiras palavras e ler": 
(Disseram pois os ímpios no desvario dos seus pensamentos): O tempo de nossa vida é curto e cheio de tédio, e não há nenhum bem a esperar depois da morte, e também não se conhece quem tenha voltado dos infernos.
Pois do nada somos nascidos e depois desta vida seremos como se nunca tivéramos sido. Pois a respiração de nossos narizes não passa de fumaça; e a razão é como faísca para mover o nosso coração.
Apagada ela será e nosso corpo reduzido a cinza e o espírito se dissipará como um ar sutil.
E a nossa vida se desvanecerá como uma nuvem que passa e se dissipará como um nevoeiro que á afugentado pelos raios de sol e oprimido pelo seu calor.
E o nosso nome com o tempo ficará sepultado no esquecimento, e ninguém se lembrará de nossas obras
Pois nossa vida é a passagem de uma sombra, e não há regresso depois da morte. Pois lacrada, ninguém retorna dela.
Vinde portanto, e gozemos dos bens presentes e apressemo-nos a usar das criaturas como na mocidade.
Enchamo-nos de vinho precioso e de perfume, e não deixemos passar a flor da primavera.
Coroemo-nos de rosas antes que murchem; não haja prado algum em que a nossa intemperança não se manifeste.
Nenhum de nós falte às nossas orgias. Deixemos em toda a parte sinais de alegria, porque esta é a parte que nos toca e esta é a nossa sorte.)
Interrompeu a leitura, olhou para os velhinhos taxistas estupefatos e concluiu:
"Palavra alguma a modificar nessa remota profissão de ateísmo. Pensar-se-ia estar ouvindo a mais bela página do Divino Marquês..."
Jogou o livro para o alto, tirou três ou quatro amêndoas chilenas do bolso interno do casaco e explodiu numa gargalhada.

Um comentário:

  1. Existir não tem valor nem finalidade. Em si mesmo, nada tem sentido, importância, propósito ou significado — inclusive a vida. Estamos aqui fazendo o quê? Nada. Só estamos aqui. Acontecemos por acaso, como qualquer fenômeno natural.

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