sábado, 23 de setembro de 2017

O Brasil é isso! E Rui Barbosa (apesar do título de sábio que lhe deram) estava redondamente enganado!...

"O Brasil não é isso!  
O Brasil não é sócio do clube de jogo e da pândega dos vivedores que se apoderaram de  sua fortuna e o querem tratar como a libertinagem trata as companheiras momentâneas de sua luxúria. 
Não! O Brasil não é esse ajuntamento coletivo de criaturas taradas, sobre que se possa correr, sem a menor impressão, e sopro  das aspirações que nessa hora agitam a humanidade!  
Não! O Brasil não é essa nacionalidade fria, deliqüescente, cadaverizada, que recebe na testa, sem estremecer, o carimbo de uma armadilha, como a messalina recebe no braço a tatuagem do amante, como o calceta no dorso a flor-de-lis do verdugo.  
O Brasil não aceita a cova que lhe estão cavando os cavadores do Tesouro. Não são comensais do erário, o 
Brasil não são os sanguessugas da riqueza pública, 
O Brasil não são os compradores de jornais. 
O Brasil não são os corruptores do sistema republicano, 
O Brasil não são os publicistas de aluguel. Não são os estadistas de impostura” 
(Rui Barbosa, em discurso a 20 de março de 1919) como fazer um site

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A educação, a fé, as escolas e os senhores juizes...

Muita gente que conheço aqui na cidade está indignada e furiosa com os juízes do STF que hoje voltaram NOVAMENTE a discutir a questão das religiões: se se ensina religião ou não nas escolas públicas.., com tendência a legitimarem esse pormenor delirante da cultura. 
Eu tenho tentado acalmá-los: Tenham paciência, - lhes digo - 



não é tarefa fácil para os senhores juízes. Imaginem que num surto de lucidez eles resolvam reconhecer que a religião é apenas mais uma neurose obsessiva (ver W. Reich) e baní-la completamente das escolas.. E que horas depois, ao chegarem em casa, encontrem lá a família e a comunidade ao redor de uma capelinha, na metade de uma novena a Santo Antonio ou à santa Edvirgem. E que, além dos membros de sua família (mulher, filhos e etc) está a sogra, a síndica, duas professoras, uma do pré escolar e uma da pós graduação, (todas grelo duro - como diria o Lula), mais o vigia do prédio e quatro empregadas domésticas que trabalham no mesmo andar... todos de joelhos e uns até chorando... E que ao tentar refugiar-se no quarto do casal dá de cara com aquele quadro de meio metro quadrado da Sagrada Família sobre a cabeceira da cama. E que se vai para o escritório dá de cara com um Cristo pregado sobre uma cruz de jacarandá... E no quarto das crianças, além de uma vela queimando dentro de uma xícara, se depara com aquele quadro de um anjo surfando sobre nuvens... E que se liga o rádio ouve a voz de freira da radialista acusando os juízes de não terem coração... 
Imagine! Como é que esse homem justificaria seu voto para as "tias" da escola que entre uma aulinha e outra vão ao banheiro fazer um réquiem? E que acham que o papel da escola é, entre outras barbaridades inúteis, adestrar a criança para a fé e para o sobrenatural?

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Galileu teria se equivocado? Ainda é o sol que gira ao redor da terra?...


Para ouvir a música...



"Les superstitions paraissent absurdes seulement à ceux qui n'en possèdent pas les clefs".
(argumento dos ocultistas, citado por Bertrand Solet in: Superstitions et fausses sciences)

No Brasil, Brasília é uma das capitais muito bem servidas não apenas de comida "natural" (macrobiótica, indiana, vegetariana, vegana e etc), mas principalmente de superstições. São inúmeros os restaurantes por aí. Claro que muitos dos frequentadores, além do arroz integral, do azuki, do grão de bico, da bardana, do ginseng e etc, também apreciam uma costela de leitoa, um quilo de cupim ou até umas pombas no espeto acompanhadas de uns tragos de cachaça.. 
Mas o que existe de mais fascinante nesses restaurantes é o mural onde a seita e a tribo prega suas propagandas: cursos, receitas, retiros, descobertas, técnicas respiratórias, posições do Kama Sutra, posições meditativas, técnicas de cinestesia, de jejum, cursos de Tarot, de búzios, de alquimia, de parapsicologia, vidas passadas, baralho cigano, ocultismos, a sabedoria malandra do OSHO, o sal do himalaia, os gatos pretos, o I Ching,  (prefaciado por Jung), shiatsu, Reik, mapa astral, amuletos, Sabbhat nas montanhas pedregosas de Goias Velho, diagnóstico através da iris, fotógrafos da aura, cartomantes, urinoterapia, transmutações espirituais, o mapa da Pedra Filosofal e da Atlantida perdida, a leitura do Alquimista sentados sobre um cupinzeiro. As similitudes entre Brasília e uma das pirâmide do Egito. Juscelino como um faraó. A música de Beethoven como antidepressivo, a reconstrução de hímens, mesmerismo, lavagens intestinais, chá de ibisco, e, claro, recados do além, enviados tanto por Xico Xavier, como por George Ozawa e por Madame Blavatsky a respeito dos truques e dos segredos para atingir a paz interior e claro, a universal. Um verdadeiro mercado de ilusões e um quase cardápio de pré-loucura. 
No almoço de hoje dediquei uns dez minutos para atualizar-me e fiquei fascinado com este anuncio de um curso que "será oferecido em breve para os interessados": FACES DO SAGRADO FEMININO: (Reconectando-se aos arquétipos da donzela, Mãe e anciã).
De imediato pensei em minha passagem, só de ida, para Pasárgada ou para qualquer outro lugar do planeta, mas em seguida, caí na real e lembrei que também no Egito (berço principal da astrologia) em épocas distantes e provavelmente até hoje, os adivinhos previam o futuro das elites, dos reis e faraós, analisando os movimentos de um cachorro... E que em Roma, o faziam analisando o voo de um pássaro sagrado... A respeito da astrologia, (lembrava-me um demônio provocador), foi toda baseada ainda na idéia de que era o sol que girava ao redor da terra... E que, em 1474, num outro país, um galo foi condenado à morte e queimado vivo por ter colocado um ovo...
Bah! Que miséria!
Definitivamente, Je ne suis pas ton frère...

terça-feira, 19 de setembro de 2017

A Cura gay e a idiotice vigente...

[Ne maudis pas les ténèbres, allume ta chandelle!]
Thomas S. Szasz
(In: le péché second)

Os jornais estão bombando com a volta da discussão sobre A CURA GAY. Os pastores insistem que os gays devem ser curados e atribuem à psicologia essa insólita tarefa. Parece que até conquistaram o apoio da justiça, pois ontem um juiz aqui da cidade determinou (derrotando uma petição do CFP) que SIM, os psicólogos podem praticar a Cura Gay. (faltou ao ilustríssimo juiz
dizer com que técnica, com qual método, a partir de qual marco teórico e a serviço de quem).
É evidente que há uma ignorância imensa por trás dessa discussão e que as partes envolvidas parecem não ter a mínima idéia do que é um processo analítico ou um processo psicoterapêutico.  É evidente que a imensa maioria ainda confunde a formação de um psicólogo com a de um teólogo, de uma freira, de um adivinho ou até mesmo de um policial. Por isso é que essa discussão infame toma esses ares de primarismo acabrunhador...  que nos causa vergonha! 
Quem vai a um psicólogo - consciente de que ele não é um feiticeiro e nem um xamã - não vai em busca de cura alguma.  Curar-se? Curar-se de quê? Um psicólogo não cura nada, não foi treinado para curar nada. Seu papel é outro. Quem quiser saber qual, que se debruce sobre as 3426 páginas da Obra Completa de Freud. E se, eventualmente, um sujeito  está em conflito com a sua sexualidade ou com seu cardápio (seja ele homossexual, heterossexual, pansexual, assexuado, pedófilo, zoófilo, teófilo ou o que quer que seja) pode recorrer sim, a um profissional da área da psicologia, da psicanálise ou da psiquiatria para entender e esclarecer para si mesmo o que lhe está acontecendo. E, se a partir daí, resolver mudar radicalmente, direcionar seu desejo para outro objeto qualquer, para as árvores do parque da cidade - por exemplo - poderá fazê-lo ao "bel prazer" sem que ninguém, e muito menos o psicoterapêuta (suposto-saber) interfira em sua decisão. 
Mas, atenção:  É importante reconhecer que esse projeto idiota dos pastores não é inédito na história do mundo, que também os heterosexuais trazem até hoje nas costas as marcas do chicote clerical e que a maioria dos transtornos genitais de homens e mulheres da atualidade está calcada na repressão secular que sofreram. As igrejas, no geral, sempre pretenderam curar, não apenas os gays, as lésbicas e os libertinos, mas todos os seres sexuados. É evidente que o conflito e o problema dos religiosos, não é com a homossexualidade, é com os bagos e com a vulva... Em uma palavra, com a sexualidade. Se sua crença fanática no absurdo não lhes permite conviver nem com o próprio desejo, imaginem então, com o dos outros... 
E já que falei em religiosos, um pormenor importante nesta discussão é registrar que nos últimos anos os religiosos de todas as categorias, seitas e laias praticamente invadiram e se apropriaram das faculdades de psicologia e de direito pelo país afora.  Por que? Porque acreditam (equivocadamente) que ali podem existir  instrumentos de maior eficiência para turbinar o adestramento da fé, da submissão e da moral pré vitoriana sobre o populacho.





segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Cora Coralina, Voltaire e a nova Procuradora Geral da república...

[ O estudo da metafísica consiste em procurar, num quarto escuro, um gato preto que não está lá...]
Voltaire

Hoje, nas primeiras horas da manhã encontrei o mendigo K tentando entrar no STF para assistir a posse da nova procuradora. Estava engravatado e usava um sapato cheio de remendos, mas tão bem engraxado que refletia a fila de políticos credenciados, as vidraças e as colunas daquela casa. Enquanto tentava convencer os guardas de que estava desarmado, de que não tinha antecedentes criminais, que tinha carteira de cidadão, que tinha paixão pela justiça, que tinha dois filhos advogados, que sempre depositou esperanças no judiciário e que desejava testemunhar a posse da primeira senhora na cadeira de Procuradora Geral da República, não descolava da orelha esquerda o radio de pilhas do tamanho de uma caixa de fósforos que sempre o acompanha. 
Lá dentro a procuradora, cercada pelas maiores autoridades do país, recém havia iniciado seu discurso de posse. De repente o vi recuar e desistir de dialogar com o guarda que não desperdiçava a oportunidade de exercer seu micro poder. Cabisbaixo e completamente desolado me dirigiu a palavra.
Desisto! Já não pretendo mais testemunhar essa posse! - permaneci em silêncio e ele continuou -  A doutora acaba de referir-se à Constituição como se fosse uma Cabala e de mencionar além de Deus, o Papa e Cora Coralina... Cora Coralina, a velhinha poetisa de Goiás, ainda vai, mas Deus e o Papa argentino... logo ali nos gabinetes e aposentos de um judiciário?! Quando é que sairemos da Idade Média? Não diziam que estávamos num Estado laico? Agnóstico? E até inspirado em Voltaire?

Enquanto isso... ali na Rocinha...








sábado, 16 de setembro de 2017

Ioga para mendigos... OM Shanti Om!!!

"Adonde volver sus miradas, sin encontrar alguna víctima de la renuncia???"
Max Stirner

Neste sábado de manhã encontrei o mendigo K na Rodoviária. Estava numa fila imensa da Itapemirim com destino ao Rio de Janeiro. Perguntei-lhe se levava uma AR15 na mochila e ele me respondeu que sim, enquanto abria a bolsa para exibir-me o livro do Jack Kerouac: Los vagabundos del Dharma  e para me comunicar: vou praticar Ioga nas ruas do Rio de Janeiro. 
Inicialmente achei que estava me gozando, mas ele logo explicou: Já ouviu falar da Lalita? Trata-se de uma instrutora de Ioga que 3 vezes por semana pratica nas ruas do Rio com os homeless, mendigos, vagabundos, andarilhos, profetas, rejeitados, ladrões, faquires, ambulantes, fumadores de crack e sujeitos terminais, gente que saiu recentemente do Pinel, bandidos de todas as laias, ansiosos em geral que nunca se atreveram a abrir seus "corações" para a alta sociedade... 
Meditar. Preciso meditar. Tenho 40 anos de estradas e de ruas para serem meditadas. Passei 40 anos na prática, agora vou para a teoria. Preciso dar um novo significado a muitas de minhas fraquezas... O desejo, como dizem os budistas, é a fonte de todo o sofrimento... (deu uma risada cética). Todas as manhãs, quase de madrugada, essa tal Lalita (falei Lalita e não Lolita) se encontra com a mendigada na Praça São Salvador, em Laranjeiras ou então no Parque Guinle. Nas segunda-feiras a prática é no Aterro do Flamengo e às quintas-feiras na Praça Paris, na Glória... A partir de agora, - me disse com deboche - sou um vagabundo do Dharma!.
Terminou sua explicação, juntou as mãos numa das mais comuns posições da Ioga e cantou o mantra OM Shanti Om!!! enquanto o motorista, com a mão esquerda tapando o nariz, jogava com a direita sua mochila para os fundos do bagageiro... 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A fome, os coelhos da Venezuela... e a possibilidade de um porvir canibal...

"O homem é a mais forte razão de ateísmo que existe sobre a terra; o homem é um argumento contra Deus..."
Vargas Villa

Foi noticia em diversos jornais latino-americanos de esquerda, de direita e até nos ambidestros, a tentativa quase desesperada do Presidente Maduro para resolver o problema da fome na Venezuela: criar e comer coelhos
E o Estado já começou a doar casais de coelhos para as famílias mais pobres, apostando que eles, (os coelhos) apesar da crise, ainda estejam com o desejo, com a sexualidade e com a fertilidade em dia. Dizem que um casal pode gerar até 80 filhotes por ano, o que daria para comer praticamente sete por mês... O problema - e que se manifestou logo após a primeira leva de coelhos distribuídos às comunidades - é que também lá, o coelho é visto como um animalzinho que mobiliza mais o afeto do que a fome e que, mesmo depois do discurso do ministro da agricultura afirmando que "um coelho além de não ser um mascote significa dois quilos e meio de carne, proteína e pouco colesterol", as pessoas, ao invés de levá-los ao forno os estão criando como animais de estimação. 
Dizem que na época do Presidente Chaves houve um programa parecido, com galinhas, mas que não deu lá muito certo. 
E quando o assunto é a 'revolução das tripas', alguns historiadores lembram os ratos e os cachorros que na China foram dizimados para fins semelhantes e que inclusive, recentemente, aquele país passou a importar até asnos do nordeste brasileiro para serem banqueteados... 
E quem não se lembra que mesmo aqui no Brasil, na época de um dos nossos tantos e velhos demagogos, para aplacar a fúria popular, também houve promoção de frangos?...
Os mais cínicos, quando são convidados a abordar o assunto dos pobres coelhos venezuelanos costumam problematizar: Qual é o problema! Se até na França esse é um prato sofisticado? Qual a diferença entre matar e comer um coelho e matar e comer uma vaca? Um leitão? Uma galinha? Uma  tilapia?
Realmente, ninguém tem dúvidas de que a traição e a canalhice é a mesma! 
Mas é bom que aqueles bobalhões que encostados nos umbrais das churrascarias só sabem palitar os dentes e coçar a barriga fiquem espertos...  Que prestem bem atenção pois, pelo jeito, não demorará muito para que neste sanatório de tradição "judáico-cristã" se volte a instituir, mesmo que seja apenas como um luxo ou como um ritual de exotismo, aquele antigo costume dos tupinambas que os portugueses conheceram tão bem...

Enquanto os chefões, miseráveis e mascarados, se agitam... e a república, prostituída, se despedaça...


"Rogar! A quem?
Indignar-se! Contra quê? Contra quem?
A mesma mudez e a mesma solidão refletirão o gesto tanto daquele que dobra a cabeça e se ajoelha, como daquele que, colérico, levanta os punhos no vazio e cospe contra o céu deserto... O mesmo horizonte inerte e impiedoso registrará a manifestação dessas duas larvas realizando o mesmo gesto de impotência... sozinhas, desesperadas e vencidas..."
Vargas Vila

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Apesar das insinuações... tudo acaba em cochichos e em vaidade literária...


[Subo-me aos ombros para atravessar essa vau de silêncio, já me aconteceu antes e não acordei depois, é uma espécie de levitação sem corpo, estou mais alto do que o velho e a sua torre: desabarei sobre mim como um castelo de cinzas...]
Campos de Carvalho

Paulo Coelho pede ao senador Cristovam Buarque para não lhe enviar e-mails


O escritor Paulo Coelho fez um pedido público ao senador Cristovam Buarque, do Partido Popular Socialista. No Twitter, o artista solicitou ao político que parasse de enviar e-mail automáticos com informações sobre a gestão e planos de governo. "Senador Cristovam Buarque, favor remover meu endereço de e-mail da sua lista de spam, tentei várias vezes e não funciona. Não me interessa o que pensa", publicou Coelho. 
O senador, que votou a favor do impeachment da então presidente Dilma Rouseff, não respondeu ao apelo de Paulo Coelho até a publicação desta matéria. Nos comentários da publicação, alguns internautas alegaram terem passado pelo mesmo problema e deram dicas de como resolver a situação. O escritor afirmou que já tentou criar um filtro para que as mensagens dele sejam direcionados ao lixo, mas "nem sempre funciona". 
"É aquele que morreu politicamente em 2016? Depois disso ficou vagando por ai de galho em galho, mas sem ideais", perguntou uma seguidora. "Sempre que recebo e peço que remova, vem uma resposta automática dizendo que nao pode ser entregue o meu e-mail. O dele pode", respondeu Paulo. "Isso também aconteceu comigo. Enviava e-mail quando era ministro. Deixou de ser ministro continuou enviando suas mensagens Tive que insistir", apontou outra internauta. Aos 73 anos, o senador estudou na Escola de Engenharia do Recife e fez mestrado em Economia pela Universidade Católica de Pernambuco. Desde 1979, é professor na Universidade de Brasília, em que se tornou reitor em 1985 e exerceu o cargo até 1989. (publicado no Correio Braziliense)

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

E o mendigo K., começa a falar de literatura... Que decadência!

"Hoje à noite venho urinar nesta porcaria, para ver se ao 
menos nasce uma flor..."
Campos de Carvalho clique aqui

Hoje o encontrei meio assustado com o clima de sinistrose, com a falência social e com as misérias do presente, bem na entrada da Biblioteca Nacional (praticamente fechada desde que foi inaugurada).
Antes de falar-me sobre qualquer outra coisa, apontou para o carrinho de um vendedor de picolés que estava estacionado à sombra de um obelisco e murmurou com sarcasmo: se os tiras do Ministério Público resolverem investigar a vida desse cara, do dono dessa porcaria, com certeza o levarão preso por transgressão e por corrupção! Picolés contaminados, vencidos, com muito mais açúcar do que o permitido, superfaturados, enrolados em papel inadequado, derretidos e congelados várias vezes e sendo vendidos sem Alvará!!! E, pior: com o vendedor que não se lava as mãos desde às cinco da manhã... E explodiu numa gargalhada. 
Depois fez o mesmo comentário ao ver passar um pastor, um jornalista, uma secretária do Ministério da agricultura, um sujeito todo empetecado, de óculos escuros e travestido de doutor, um mendigo (colega seu), uma mocinha saudável e delicada vestindo uma blusinha branca de seda transparente e falsificada que circula por lá todas as tardes sem nenhuma fantasia de empoderamento, apenas interessada na caça de seus burocratas e de seus executivos para faturar seus 70 euros diários. Em seguida, murmurou com um humor absolutamente amoral: Tudo está corrompido my brother! Passou-se quinhentos anos corrompendo, pervertendo, adestrando, adoecendo, enlouquecendo, depravando, prostituindo, aviltando, adulterando, mediocrizando, nivelando por baixo, catequizando, confundindo e pisoteando as massas, (tanto a burguesa como a plebeia) e agora se finge espanto diante do descortinamento de tamanha exiguidade e de tamanha podridão... Agora é tarde!
Em seguida tirou de dentro de um saco plástico um livro de capa branca, escrito em francês por um tal Philippe Pastorino, com o seguinte título: La fabrique des fous. Abriu-o com certa dificuldade na página 30 (estava com uma das mãos machucadas) e pediu-me para ler uns dois parágrafos que ele havia achado pra lá de atual e interessante. Como eu estava sem meus óculos, ele fez uma ironia, encostou-se no paredão da biblioteca e ele próprio iniciou a leitura, fazendo tradução simultânea: [Um meteoro caiu numa noite, próximo a uma pequena vila de província. De início os habitantes nem tomaram conhecimento, ignoraram completamente o fato até que, pouco a pouco, as irradiações emanadas daquele meteoro começaram a atacar seus órgãos sexuais. Os homens começaram a ver seus pênis descascando, apodrecendo e se desfazendo até cairem como frutos maduros, ao mesmo tempo em que o clitóris das mulheres começaram a crescer, a ficarem duros e inflados até tomarem proporções monstruosas. Por fim, os homens tornaram-se mulheres e as mulheres seus maridos...]
Mesmo faltando umas cinco linhas para concluir o texto sublinhado, fez um ponto, olhou para os lados e perguntou-me, novamente, com um descarado cinismo: será que a cidade, o país e o mundo estarão sendo vítimas de alguma irradiação desse tipo?

E a Babilônia???

terça-feira, 12 de setembro de 2017

A exposição de Porto Alegre e o assédio moral contra um jornalista, aqui da cidade por ter escrito uma crônica "politicamente incorreta"...

"Mourir sur le champ de bataille est la plus haute expression du critique d'art"
Moliere
(Citado por Philippe Pastorino: in La fabrique des fous)

Nesta semana duas manifestações coletivas de paranóia confirmam que quanto maior o fanatismo e a ignorância vigente, maior é  também o sentimento persecutório e a sensação de que se está sendo perseguido, humilhado, desrespeitado... e etc. 
Em Porto Alegre, a paranóia das massas, fez com que uma exposição no Centro Cultural Santander (com obras de mais de cinquenta pintores) fosse fechada, com o argumento de que promoviam a pedofilia, a zoofilia e o anticristianismo. E aqui em Brasília, o jornalista de um jornal local sofreu acosso e assédio moral depois de publicar uma crônica com o título: A estagiária.
A respeito da exposição em Porto Alegre, pelo que se pode ver nos inúmeros vídeos que circularam por aí, realmente, o material exposto era de uma pobreza de dar dó. Além das quatro ou cinco obras que tinham lá algúm valor,  o resto era praticamente material indigente. Mas, o que realmente assustou a gauchada parece ter sido as telas que tratavam a questão da pedofilia e da zoofilia, cujo sinônimo (para quem não é do ramo) pode ser bestialismo e que na linguagem mais popular é fazer sexo com animais. Curiosamente, vejam só, aquele estado é o maior criador de ovelhas, vacas, porcas e etc, do país. Teria alguma coisa a ver com isso? Ou será que estariam querendo defender  a integridade dos animais? A respeito da pedofilia, outra coincidência: é quase impossível mencioná-la hoje em dia, sem associá-la à igreja católica, e, todos sabemos, aquele estado é também um dos mais católicos do país. E o Santander? Bem o Santander como qualquer outro banco, está interessado apenas em negócios e em grana, a arte é apenas um alibi e uma isca para fisgar trouxas...
A respeito da suposta ironia que fizeram com Cristo fundindo sua imagem com a de Shiwa,  - aquela deusa hindu, com muitos braços - , e colocando em cada uma de suas mãos objetos que, atualmente, se encontram em todas as alcovas de gente esclarecida foi, é verdade, uma brincadeira quase infantojuvenil do curador da exposição, brincadeira que, com certeza, não seria, nem pelo próprio Cristo, como o foi por um bando de energúmenos, considerada uma infâmia. Inclusive, porque, esses religiosos de araque deveriam saber que um filho de Deus que se ofende com uma exposição e com uma bobagem dessas, organizada por uma espécie literalmente moribunda, não pode ser considerado filho de Deus...
Já, a respeito do assédio moral que se fez aqui em Brasília contra um jornalista do quarto escalão, por ele ter escrito uma crônica de meia página e de meia tigela - fazendo aqueles costumeiros, babacas e idiotas elogios masculinos aos atributos musculares e às mucosas de uma estagiária - é outra infâmia desprezível, uma explícita manifestação de analfabetismo, de caipirismo e de intolerância...
Prestem atenção: uma indicação clara de que um país está indo definitivamente para o brejo é quando começam a surgir, e a serem tolerados, patrulhamentos policialescos, moralescos e sexualescos por todos os lados. Quê miséria!.. Mas é em situações como esta que se deve lembrar daquilo que dizia Bernard Shaw: "de todas as perversões a castidade é a mais patológica e a mais perigosa!"

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Arte/Sexo/Religião... Ou: A exposição do Banco Santander que causou um terremoto em Porto Alegre... (Freud explica...)

A balela do livre-arbítrio II.

A Ilusão do Livre-arbítrio


Robert Blatchford
A ilusão do livre-arbítrio foi um obstáculo no caminho do pensamento humano durante milhares de anos. Vejamos se o senso comum e o conhecimento não o podem remover.
O livre-arbítrio é um assunto de grande importância para nós neste caso e devemos tratá-lo com os olhos bem abertos e com a inteligência bem desperta; não porque seja muito difícil, mas porque tem sido atado e torcido num emaranhado de nós cegos durante vinte séculos cheios de filósofos palavrosos e malsucedidos.
O partido do livre-arbítrio clama que o homem é responsável pelos seus atos, porque a sua vontade é livre de escolher entre o certo e o errado.
Respondemos que a vontade não é livre e que se fosse, o homem não poderia conhecer o certo e o errado enquanto não fosse ensinado.
O partido do livre-arbítrio afirmará que, no que respeita ao conhecimento do bem e do mal, a consciência é um guia seguro. Mas eu já provei que a consciência não nos diz e não nos pode dizer o que está certo e o que está errado; apenas nos recorda das lições que aprendemos acerca do certo e errado.
A “suave voz baixa” não é a voz de Deus: é a voz da hereditariedade e do meio.
E agora para a liberdade da vontade.
Quando um homem diz que a sua vontade é livre, ele quer dizer que é livre de todo o controle ou interferência; que pode dominar a hereditariedade e o meio.
Respondemos que a vontade é governada pela hereditariedade e pelo meio.
A causa de toda a confusão neste assunto pode ser mostrada em poucas palavras.
Quando o partido do livre-arbítrio diz que o homem tem livre-arbítrio, eles querem dizer que ele é livre de agir como escolhe agir.
Não há necessidade de o negar. Mas o que o faz escolher?
Este é o eixo em torno do qual toda a discussão gira.
O partido do livre-arbítrio parece pensar na vontade como algo independente do homem, como algo fora dele. Eles parecem pensar que a vontade decide sem o controle da razão humana.
Se fosse assim, não provaria que o homem é responsável. “A vontade” seria responsável e não o homem. Seria tão ridículo censurar um homem pelo ato de uma vontade “livre” como censurar um cavalo pela ação do seu cavaleiro.
Mas vou provar aos meus leitores, apelando ao seu senso comum e ao seu conhecimento comum, que a vontade não é livre; e que é governada pela hereditariedade e pelo meio.
Para começar, o homem comum estará contra mim. Ele sabe que escolhe entre dois percursos a toda a hora, e frequentemente a todo o minuto, e pensa que a sua escolha é livre. Mas isso é uma ilusão; a sua escolha não é livre. Ele pode escolher e, de fato, escolhe. Mas ele pode apenas escolher como a sua hereditariedade e o seu meio o fazem escolher. Ele nunca escolhe e nunca escolherá a não ser como a sua hereditariedade e o seu meio — o seu temperamento e a sua formação — o fazem escolher. E a sua hereditariedade e o seu meio fixaram a sua escolha antes de ele o fazer.
O homem comum diz “Sei que posso agir como desejo agir.” Mas o que o faz desejar?
O partido do livre-arbítrio diz “Nós sabemos que um homem pode e efetivamente escolhe entre dois atos”. Mas o que decide a escolha?
Há uma causa para todo o desejo, uma causa para toda a escolha; e toda a causa de todo o desejo e escolha tem origem na hereditariedade ou no meio.
Pois um homem age sempre devido ao temperamento, que é hereditariedade, ou devido à formação, que é meio.
E nos casos em que um homem hesita ao escolher entre dois atos, a hesitação é devida a um conflito entre o seu temperamento e a sua formação ou, como alguns o exprimem, “entre o seu desejo e a sua consciência”.
Um homem está a praticar tiro ao alvo com uma arma quando um coelho se atravessa na sua linha de fogo. O homem tem os olhos postos no coelho e o dedo no gatilho. A vontade humana é livre. Se ele carregar no gatilho, o coelho é morto.
Ora, como é que o homem decide se dispara ou não? Ele decide por intermédio do sentimento e da razão.
Ele gostaria de disparar apenas para ter a certeza de que é capaz de acertar. Ele gostaria de disparar porque gostaria de ter coelho para o jantar. Ele gostaria de disparar porque existe nele o antiquíssimo instinto caçador de matar.
Mas o coelho não lhe pertence. Ele não tem a certeza de que não se mete em sarilhos se o matar. Talvez — se ele for um tipo de homem fora do comum — sinta que seria cruel e covarde matar um coelho indefeso.
Bem, a vontade do homem é livre. Se quiser, ele pode disparar; se quiser, ele pode deixar ir o coelho. Como decidirá ele? De que depende a sua decisão?
A sua decisão depende da força relativa do seu desejo de matar o coelho, dos seus escrúpulos acerca da crueldade, e da lei.
Além disso, se conhecêssemos o homem muito bem, poderíamos adivinhar como o seu livre-arbítrio agiria antes que tivesse agido. O desportista britânico comum mataria o coelho. Mas sabemos que há homens que nunca matariam uma criatura indefesa.
De um modo geral, podemos dizer que o desportista desejaria disparar e que o humanitarista não desejaria disparar.
Ora, como as vontades de ambos são livres, deve ser alguma coisa fora das vontades que faz a diferença.
Bem, o desportista matará porque é um desportista; o humanitarista não matará porque é um humanitarista.
E o que faz de um homem um desportista e de outro um humanitarista? Hereditariedade e meio: temperamento e formação.
Um homem é, por natureza, misericordioso e outro cruel; ou um é, por natureza, sensível e outro insensível. Esta é uma diferença de hereditariedade.
Um pode ter sido toda a sua vida ensinado que matar animais selvagens é “desporto”; o outro pode ter sido ensinado que é inumano e errado; esta é uma diferença de meio.
Ora, o homem por natureza cruel ou insensível, que foi treinado para pensar que matar animais é um desporto, torna-se aquilo a que chamamos um desportista, porque a hereditariedade e o meio fizeram dele um desportista.
A hereditariedade e o meio do outro homem fizeram dele um humanitarista.
O desportista mata o coelho porque é um desportista, e é um desportista porque a hereditariedade e o meio fizeram dele um desportista.
Isso é dizer que o “livre-arbítrio” é realmente controlado pela hereditariedade e pelo meio.
Permitam-me que dê um exemplo. Um homem que nunca pescou foi levado à pesca por um pescador. Ele gostou do desporto e durante alguns meses praticou-o entusiasticamente. Mas um dia um acidente convenceu-o da crueldade que é apanhar peixes com um anzol e ele pôs de lado imediatamente a sua cana e nunca mais voltou a pescar.
Antes da mudança, se era convidado, ele estava sempre ansioso por ir pescar; após a mudança, ninguém conseguia persuadi-lo a tocar numa linha. A sua vontade foi sempre livre. Como se transformou então a sua vontade de pescar na sua vontade de não pescar? Foi consequência do meio. Ele aprendeu que pescar é cruel. O conhecimento controlou a sua vontade.
Mas, pode perguntar-se, como explica que um homem faça o que não deseja fazer?
Nenhum homem alguma vez faz uma coisa que não deseja fazer. Quando há dois desejos impera o mais forte.
Suponhamos o seguinte caso. Uma jovem recebe duas cartas no mesmo correio; uma é um convite para ir com o seu namorado a um concerto, a outra é um pedido para que visite uma criança doente num bairro de lata. A rapariga é uma grande apreciadora de música e receia bairros de lata. Ela deseja ir ao concerto e estar com o namorado; ela receia as ruas imundas e as casas sujas, e evita correr o risco de contrair sarampo ou febre. Mas ela vai ver a criança doente e não vai ao concerto. Por quê?
Porque o seu sentido do dever é mais forte do que seu amor próprio.
Ora, o seu sentido do dever é em parte devido à sua natureza — isto é, à sua hereditariedade — mas é principalmente devido ao meio. Como todos nós, a rapariga nasceu sem quaisquer conhecimentos e com apenas uns rudimentos de uma consciência. Mas foi bem ensinada e a instrução faz parte do seu meio.
Podemos dizer que a rapariga é livre de agir como escolhe, mas ela age de fato como foi ensinada que deve agir. Este ensino, que faz parte do seu meio, controla a sua vontade.
Podemos dizer que um homem é livre de agir como escolhe. Ele é livre de agir como ele escolhe, mas ele escolherá como a hereditariedade e o meio o fizerem escolher. Porque a hereditariedade e o meio fizeram com que ele seja aquilo que é.
Diz-se que um homem é livre de decidir entre dois percursos. Mas na realidade ele é apenas livre de decidir de acordo com o seu temperamento e a sua formação…
Macbeth era ambicioso; mas ele tinha consciência. Ele queria a coroa de Duncan; mas ele recuava perante a traição e a ingratidão. A ambição puxava-o num sentido, a honra puxava-o no outro. As forças opostas estavam tão uniformemente equilibradas que ele parecia incapaz de decidir-se. Era Macbeth livre de escolher? Até que ponto era ele livre? Ele era tão livre que não conseguia decidir-se e foi a influência da sua mulher que inclinou a balança para o lado do crime.
Era Lady Macbeth livre de escolher? Ela não hesitou. Porque a sua ambição era de tal modo mais forte que a sua consciência que ela nunca teve dúvidas. Ela escolheu como a sua toda-poderosa ambição a compeliu a escolher.
E a maior parte de nós nas nossas decisões assemelhamo-nos a Macbeth ou à sua mulher. Ou a nossa natureza é de tal modo mais forte do que a nossa formação, ou a nossa formação é de tal modo mais forte que a nossa natureza, que decidimos para o bem e para o mal tão prontamente quanto um rio decide correr colina abaixo; ou a nossa natureza e a nossa formação estão tão bem equilibradas que dificilmente podemos decidir.
No caso de Macbeth a competição é clara e fácil de seguir. Ele era ambicioso e o seu meio ensinou-lhe a olhar a coroa como uma possessão gloriosa e desejável. Mas o meio também lhe ensinou que o assassinato, a traição e a ingratidão são perversos e deploráveis.
Se nunca lhe tivessem ensinado estas lições ou se lhe tivessem ensinado que a gratidão é uma tolice, que a honra é uma fraqueza, e que o assassinato é desculpável quando leva ao poder, ele não teria de todo hesitado. Foi o seu meio que impediu a sua vontade…
A ação da vontade depende sempre da força relativa de dois ou mais motivos. O motivo mais forte decide a vontade; tal como o peso mais pesado decide o equilíbrio dos pratos de uma balança…
Como podemos, então, acreditar que o livre-arbítrio é exterior e superior à hereditariedade e ao meio? …
“O quê! Um homem não pode ser honesto se escolher sê-lo?” Sim, se escolher sê-lo. Mas essa é apenas outra forma de dizer que ele pode ser honesto se a sua natureza e a sua formação o levarem a escolher honestamente.
“O quê! Não posso satisfazer-me quer beba ou me abstenha de beber?” Sim. Mas isso é apenas dizer que não irás beber porque te apraz estar sóbrio. Mas apraz a outro homem beber, porque o seu desejo por bebida é forte ou porque a sua autoestima é fraca.
E tu decides como decides e ele decide como decide, porque tu és tu e ele é ele; e a hereditariedade e o meio fizeram de ambos o que são.
E o homem sóbrio pode passar por tempos maus e perder a autoestima, ou achar o fardo dos seus problemas maior do que aquilo que ele pode aguentar e cair na bebida para se consolar ou esquecer, e tornar-se um bêbado. Não acontece isto frequentemente?
E o bêbado pode, devido a algum choque, ou a algum desastre, ou a alguma paixão, ou a alguma persuasão, recuperar a autoestima e renunciar à bebida e levar uma vida sóbria e útil. Não acontece isto frequentemente?
E em ambos os casos a liberdade da vontade permanece intacta: é a mudança no meio que eleva os caídos e lança os honrados por terra.
Podemos dizer que a vontade de uma mulher é livre e que ela poderia, se o desejasse, saltar de uma ponte e afogar-se. Mas ela não pode desejar. Ela é feliz, ama a vida e teme o rio frio e rastejante. E, no entanto, devido a alguma cruel volta da roda da fortuna, ela pode tornar-se pobre e infeliz; tão infeliz que odeia a vida e está ansiosa pela morte e, por isso, pode saltar para o temeroso rio e morrer.
A sua vontade é tão livre numa altura como na outra. Foi o meio que forjou a mudança. Antigamente ela não podia desejar morrer; agora não pode desejar viver.
Os apóstolos do livre-arbítrio acreditam que todos os homens são livres. Mas um homem pode apenas desejar aquilo que é capaz de desejar. E um homem é capaz de desejar aquilo que outro homem é incapaz de desejar. Negá-lo é negar os fatos da vida mais comuns e mais óbvios…
Todos sabemos que podemos prever a ação de certos homens em certos casos, porque conhecemos os homens.
Sabemos que nas mesmas condições Jack Sheppard irá roubar e que Cardinal Manning não irá roubar. Sabemos que nas mesmas condições o marinheiro irá namoriscar com a empregada de balcão e o padre não irá; que o bêbado se embebedará, e o abstêmio manter-se-á sóbrio. Sabemos que Wellington recusaria um suborno, que Nelson não fugiria, que Bonaparte agarrar-se-ia ao poder, que Abraham Lincoln seria leal ao seu país, que Torquemada não pouparia um herético. Por quê? Se a vontade é livre, como podemos estar certos, antes de o teste ocorrer, de como a vontade deve agir?
Simplesmente porque sabemos que a hereditariedade e o meio formaram e moldaram de tal modo os homens e as mulheres que em certas circunstâncias a ação das suas vontades é certa.
A hereditariedade e o meio tendo feito de um homem um ladrão, ele irá roubar. A hereditariedade e o meio tendo feito de um homem honesto, ele não irá roubar.
Quer dizer, a hereditariedade e o meio decidiram a ação da vontade antes de ter chegado a altura da vontade agir.
Sendo as coisas assim — e todos sabemos que são assim — o que acontece à soberania da vontade?
Deixemos qualquer homem que acredite que pode “agir como lhe agradar” perguntar a si mesmo por que lhe agrada e ele verá o erro da teoria do livre-arbítrio e irá compreender por que a vontade é escrava e não mestre do homem: porque o homem é o produto da hereditariedade e do meio e estes controlam a vontade.
Como queremos esclarecer tanto quanto possível este assunto, consideremos um ou dois exemplos familiares da ação da vontade.
Jones e Robinson encontram-se e têm um copo de whisky. Jones pergunta a Robinson se quer outro. Robinson diz, “não, obrigado, chega um”. Jones diz “está bem; tome outro cigarro”. Robinson aceita o cigarro. Ora, temos aqui um caso em que um homem recusa uma segunda bebida, mas aceita um segundo cigarro. É porque iria gostar de fumar outro cigarro, mas não iria gostar de beber outro copo de whisky? Não. É porque sabe que é mais seguro não beber outro copo de whisky.
Como sabe ele que o whisky é perigoso? Ele aprendeu-o — no seu meio.
“Mas ele poderia ter bebido outro copo se o tivesse desejado.”
Mas ele não poderia ter desejado beber outro copo, porque havia algo que ele desejava mais — estar seguro.
E por que quer ele estar seguro? Porque ele aprendeu — no seu meio — que era prejudicial, inútil e indecoroso ficar bêbado. Porque ele aprendeu — no seu meio — que é mais fácil evitar adquirir um mau hábito do que eliminar um mau hábito uma vez adquirido. Porque ele deu valor à boa opinião dos seus vizinhos e à sua posição e perspectivas de futuro.
Estes sentimentos e este conhecimento governaram a sua vontade e fizeram-no recusar o segundo copo.
Mas não há nenhum sentimento de perigo, nenhuma lição bem aprendida de risco para impedir a sua vontade de fumar outro cigarro. A hereditariedade e o meio não o previnem contra isso. Assim, para agradar ao seu amigo e a si mesmo, ele aceitou.
Agora suponha que Smith oferece a Williams outro copo. Williams aceita, bebe vários copos e vai depois para casa — como frequentemente vai para casa. Por quê?
Em grande medida porque tem o hábito de beber. Não só a mente repete instintivamente uma ação, como, no caso da bebida, uma grande ânsia física é ativada e o cérebro enfraquecido. É mais fácil recusar o primeiro copo do que o segundo; mais fácil recusar o segundo do que o terceiro; é muito mais difícil para um homem que frequentemente se embebeda manter-se sóbrio.
Assim, quando o pobre Williams tem de fazer a sua escolha, tem o hábito contra ele, tem uma grande ânsia física contra ele e tem um cérebro enfraquecido com que pensar.
“Mas Williams poderia ter recusado o primeiro copo.”
Não. Porque, no seu caso, o desejo de beber, ou de agradar a um amigo, era mais forte do que o seu medo do perigo. Ou pode não ter tido tanta consciência do perigo quanto Robinson. Ele pode não ter sido tão bem ensinado, ou pode não ter sido tão sensato, ou pode não ter sido tão cuidadoso. De modo que a sua hereditariedade e o seu meio, o seu temperamento e a sua formação, o levaram a tomar a bebida com tanta certeza quanto a hereditariedade e o meio de Robinson o levaram a recusar.
E agora é a minha vez de fazer uma pergunta. Se a vontade é “livre”, se a consciência é um guia seguro, como é que o livre-arbítrio e a consciência de Robinson o fizeram manter-se sóbrio, enquanto o livre-arbítrio e a consciência de Williams o fizeram embebedar-se?
A vontade de Robinson foi contida por certos sentimentos que não conseguiram conter a vontade de Williams. Porque no caso de Williams os sentimentos no outro sentido eram mais fortes.
Foi a natureza e a formação de Robinson que o fizeram recusar o segundo copo e foi a natureza e a formação de Williams que o fizeram beber o segundo copo.
O que teve o livre-arbítrio a ver com isto?
Disseram-nos que todos os homens têm um livre-arbítrio e uma consciência.
Ora, se Williams tivesse sido Robinson, isto é, se a sua hereditariedade e o seu meio tivessem sido exatamente como os de Robinson, ele teria agido exatamente como Robinson agiu.
Foi porque a sua hereditariedade e o seu meio não eram o mesmo que o seu ato não foi o mesmo.
Tinham ambos livre-arbítrio. O que levou um a fazer aquilo que o outro se recusou a fazer? Hereditariedade e meio. Para inverter a sua conduta teríamos de inverter a sua hereditariedade e o seu meio…
Dois rapazes têm um emprego difícil e desagradável. Um deixa esse emprego e arranja outro, “sobe na vida” e é elogiado por ter subido na vida. O outro se mantém naquele emprego toda a sua vida, trabalha muito toda a sua vida e é respeitado como um trabalhador honesto e humilde; quer dizer, ele é visto pela sociedade como Mr. Dorgan era visto por Mr. Dooely — “ele é um excelente homem, mas eu desprezo-o”.
O que faz com que estas duas vontades livres sejam tão diferentes? Um rapaz sabia mais do que o outro. Ele “conhecia mais”. Todo o conhecimento é meio. Os dois rapazes tinham livre-arbítrio. Era no conhecimento que diferiam: meio!
Aqueles que exaltam o poder da vontade e menosprezam o poder do meio desmentem as suas palavras pelos seus atos.
Porque eles não mandariam os seus filhos para o meio de más companhias ou permitiriam que eles lessem maus livros. Não diriam que as crianças têm livre-arbítrio e, portanto, o poder de agarrar o bom e largar o mau.
Sabem muito bem que um mau meio tem o poder de perverter a vontade e que um bom meio tem o poder de dirigi-la pelo bom caminho.
Eles sabem que as crianças podem ser tornadas boas ou más por uma boa ou má formação e que a vontade segue a formação.
Sendo assim, eles devem também admitir que os filhos das outras pessoas podem ser bons ou maus por formação.
E se uma criança tem uma má formação, como pode o livre-arbítrio salvá-la? Ou como pode ela ser censurada por ser má? Nunca teve oportunidade de ser boa. Que sabem isto é provado pelo cuidado que colocam em providenciar aos seus próprios filhos um meio melhor.
Como disse antes, cada igreja, cada escola, cada lição de moral é uma prova de que os pregadores e os professores confiam no bom meio, e não no livre-arbítrio, para tornar as crianças melhores.
Nesta, como em muitas outras matérias, as ações falam mais alto do que as palavras.
Isto, espero eu, desata os muitos nós com que milhares de homens eruditos ataram o tema simples do livre-arbítrio e destrói a alegação de que o homem é responsável porque a sua vontade é livre. Mas há uma outra causa de erro, relacionada com este assunto acerca da qual gostaria de dizer umas quantas palavras.
Ouvimos frequentemente dizer que um homem deve ser censurado pela sua conduta porque “ele conhece melhor”.
É verdade que os homens agem erradamente quando conhecem melhor. Macbeth “conhecia melhor” quando assassinou Duncan. Mas também é verdade que frequentemente pensamos que um homem “conhece melhor” quando ele não conhece melhor.
Porque não se pode dizer que um homem conhece uma coisa enquanto não acreditar nela. Se me disserem que a Lua é feita de queijo verde, não se pode dizer que sei que é feita de queijo verde.
Muitos moralistas parecem confundir a palavra “conhecer” com a palavra “ouvir”.
Jones lê novelas e toca música de ópera ao Domingo. O Puritano diz que Jones “conhece melhor” quando quer dizer que disseram a Jones que é errado fazer essas coisas.
Mas Jones não sabe que isso é errado. Ele ouviu alguém dizer que é errado, mas não acredita nisso. Portanto, não é correto dizer que ele sabe.
E igualmente no que respeita à crença. Alguns moralistas sustentam que é mau não acreditar em certas coisas e que os homens que não acreditam nessas coisas serão punidos.
Mas um homem não pode acreditar numa coisa que lhe dizem para acreditar; ele pode apenas acreditar numa coisa em que ele pode acreditar; e ele pode apenas acreditar naquilo que a sua própria razão lhe diz que é verdade.
Seria inútil pedir a Sir Roger Ball que acredite que a Terra é plana. Ele não poderia acreditar nisso.
É inútil pedir a um agnóstico que acredite na história de Jonas e da baleia. Ele não poderia acreditar nela. Ele pode fingir que acredita. Ele pode tentar acreditar nela. Mas a sua razão não lhe permitiria acreditar nela.
Portanto, é um erro dizer que um homem “conhece melhor” quando lhe disseram “melhor” e ele não pode acreditar no que lhe disseram.
Essa é uma questão simples e parece muito banal; mas quanta má-vontade, quanta intolerância, quanta violência, perseguições e assassinatos foram causados pela estranha ideia de que o homem é mau porque a sua razão não pode acreditar no que para outra razão humana [é] absolutamente verdade.
O livre-arbítrio não tem qualquer poder sobre as crenças de um homem. Um homem não pode acreditar por querer, mas apenas por convicção. Um homem não pode ser forçado a acreditar. Podes ameaçá-lo, feri-lo, bater-lhe, queimá-lo; e ele pode ser assustado, irritado ou atormentado; mas não pode acreditar, nem se pode obrigá-lo a acreditar. Até que seja convencido.
Ora, embora isto possa parecer um truísmo, penso que é necessário dizer aqui que um homem não pode ser convencido nem pela ofensa nem pelo castigo. Ele pode apenas ser convencido pela razão.
Sim. Se quisermos que um homem acredite numa coisa, teremos de encontrar umas quantas razões mais poderosas do que um milhão de pragas ou um milhão de baionetas. Queimar um homem vivo por não acreditar que o Sol gira em torno da Terra não é convencê-lo. O fogo é penetrante, mas não lhe parece ser relevante para a questão. Ele nunca duvidou de que o fogo queima; mas talvez os seus olhos moribundos possam ver o Sol a pôr-se no Oeste, à medida que o mundo gira no seu eixo. Ele morre com a sua crença. E não conhece “melhor”.

domingo, 10 de setembro de 2017

A balela do livre arbítrio: você pode ficar esperando no porão de casa, como um rato.., ou à beira-mar, como um molusco...










O mendigo K e a Guerra do Contestado... com seus monges...



O mendigo K amanheceu ali na Feira da Torre de TV. Antes mesmo dos feirantes abrirem seus negócios já andava de um lado para outro enrolado num cobertor e exibindo a primeira página de um jornal onde aparecia o Palocci fazendo sua delação premiada...
Meio escondido atrás de umas prateleiras de pedras semi-preciosas vindas de Cristalina, ouvi que mentia a um casal que era a reencarnação do monge e curandeiro Zé Maria, lá do Contestado: Se vocês quiserem entender toda a corrupção, toda a zona, o hospício e toda a putaria política atual deste país, - dizia com tom moralista - precisam estudar as causas da Guerra do Contestado acontecida de 1912 até 1916 lá entre o Estado do Paraná e Santa Catarina,  ainda na época do Presidente Hermes da Fonseca... Precisam estudar as entrelinhas do projeto que previa a construção de uma estrada de ferro entre São Paulo e o Rio Grande do Sul sob a responsabilidade da Brazil Railway Company, estudar a atuação da madeireira Lumber (que desmatou praticamente toda aquela região), a matança de moradores nativos e, principalmente, o papel, em tudo isso, de um senhor chamado Percival Farquhar. 
 Em um determinado momento agregou que parte de seus familiares havia nascido naquela região e testemunhado toda  aquela mancebia, prevaricação e putaria entre empresas e governos, etc, etc. Quando percebeu que o casal não tinha a mínima idéia do que ele estava falando, assumindo uma postura de guru, recomendou-lhe que, pelo menos, vissem vários documentários sobre o assunto que existem disponíveis na Internet e desapareceu...

Porque hoje é domingo...

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

E Brasília recebe a todos, de peito aberto... independente de suas ideologias... como uma mãe...




Acabo de cruzar com o mendigo K. numa parada de ônibus que fica ao lado do Conjunto Nacional. Estava meio eufórico, indo para o aeroporto onde, - me disse -, chegará daqui a pouco, num avião da Polícia federal, o Gedel, aquele político a quem se atribui a propriedade dos 52 milhões encontrados em malas, caixotes e mochilas num apartamento em Salvador (Bahia). Alguém lhe havia dito que, na sua chegada, haveria uma rápida distribuição de dinheiro. Quando percebeu minha cara de ceticismo, passou a fazer a defesa do réu: Todo mundo se revolta com esses corruptos, mas no fundo, eles são os verdadeiros patriotas. Veja esse aí, por exemplo: com todo esse dinheiro vivo, poderia, há muito tempo, estar vivendo em Paris, num apartamento de cinco quartos, com varandas para o rio Sena, com elevadores exclusivos e com adegas repletas de champagne e até com passaporte especial. Mas não. Por amor à pátria, permaneceu em solo nativo, comendo o pão branqueado quimicamente, os pimentões envenenados, o peixe cheio de mercúrio, a cachaça falsificada, vendo todas as manhãs a Idade Média se estrebuchando lá fora e ainda correndo o risco de, numa lúdica travessia para Itaparica, ver sua barca soçobrar... Sem falar das vezes que tem que fechar as janelas de casa para não ouvir os gritos da turba pedindo alguma moeda, alguma cesta básica, ou alguma marcação de consulta por amor a Deus... Quer mais patriotismo do que este? me perguntava num tom de provocação enquanto saltava para dentro de um ônibus aos pedaços que acabava de estacionar......


"Porém, se acaba o sol, por que nascia?
Se é tão formosa a luz, por que não dura?" 
Gregório de Matos (Salvador, 1636/1696)








quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Enquanto isso... no Desfile de 7 de setembro...

A delação: esse ato abominável...

"O poder corrompe. A impotência também"
T. Szasz (in: le péché second)

A  delação do Paloci, televisionada ontem, tirou o sono de muita gente Brasil afora, não necessariamente pelo conteúdo de suas denuncias, mas pelo horror que é ver um homem naquele lugar de "delator". Nenhum policial, juiz ou sociedade deveria permitir e muito menos exigir isto de um preso, fosse qual fosse o crime por ele cometido. Se a prisão em si já degrada, o lugar ocupado pelo delator é intolerável... o fundo do poço da solidão e da dignidade. E é curioso que uma sociedade aparentemente alicerçada sobre as anedotas do cristianismo e que sempre se valeu cinicamente da lenda de Judas para desqualificar e atacar seus inimigos, agora, descaradamente, institua em seu Corpus Judicial a delação premiada. 
Não é curioso que a infâmia daquele Judas das trinta moedas seja agora invertida e passe a ser uma espécie de bem, de estratégia e de tática para tentar "sanar"e "salvar" a Pátria e a república?
Independente das lendas e das outras inquisições, por mais ou menos escatológicas que tenham sido, a delação, seja ela da natureza que for, é um ato abominável que não derrota e humilha apenas quem está delatando, mas inclusive aqueles que o interrogam e aqueles que assistem e que testemunham a delação. Ninguém tem mais dúvidas: alguns meses de prisão são capazes de alterar até o DNA de uma pedra. Abaixo todas as prisões!
Enfim, como resmungaria o escritor João do Rio: "As plantas, as flores dos canteiros, o barro das encostas, as grades de ferro dos portões, os homens, as roupas, a rua suja, o recanto do mar escamoso, as árvores, pareciam atacados daquele horror de sangue maculado e de gangrena. Parei. Encarei o sol, e o próprio sol, na apoteose de luz, pareceu-me gangrenado e pútrido..."

Enquanto isso... II.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

De volta ao famoso e perigoso PHALO - O ejaculador do ônibus e a repressão sexual...

  1. "Às vezes copulava-se na própria terra, um buraco cavado com os dedos, o indicador ou o médio, conforme o diâmetro: o diabo era a sensação de incesto que não se podia evitar: a tal da mãe pátria..."
"O que eles não compreendem é que uma coisa é o estômago e outra é a consciência, ou se tem ou não se tem, não se apaga uma alma como se apaga um fósforo ou mesmo um incêndio, cada um sabe o que lhe vai por dentro, o resto é demagogia..."site médico
  1. Campos de Carvalho

  2. O ejaculador do ônibus em São Paulo, aquele que na semana passada ejaculou no pescoço de uma passageira ainda está provocando um terremoto tanto na mídia como no inconsciente das massas e da sociedade, evidenciando, - apesar do teatro cotidiano de libertinagem e de emancipação - que, além da violenta e escamoteada repressão sexual vigente ainda há uma imensa confusão cultural entre o que é sensual, sexual e genital. Os professores, os padres e outros supostos moralistas não se cansam de, em suas prédicas, voltar obsessivamente ao tema e os pesquisadores de plantão logo colocaram uma pesquisa nas ruas de 35 cidades brasileiras sobre o assunto, pesquisa que acusou o óbvio: 94% dos entrevistados entendem que uma mulher ser "encoxada" ou ter o corpo tocado sem sua autorização é uma forma de violência sexual. Ora, não precisa nem ser uma mulher, pode ser um homem, uma criança, um cachorro, uma árvore, um extra-terrestre, uma divindade... e em alguns países, até a poltrona das locomotivas... Tudo bem, mas atenção: é importante não esquecer que o toque, o carinho, o afago, um cafuné (tanto na cabeleira superior como na inferior) e etc. são combustíveis fundamentais para a saúde mental, mesmo sem autorização por escrito... 

E todo mundo (defensores da tortura e da pena de morte ou não) esta convicto de que o juiz que soltou o ejaculador cometeu um equívoco e que perdeu a oportunidade de mandar castrá-lo... Quando é que se implantarão novamente guilhotinas no fundo das cadeias?, me indagou uma fervorosa senhora... 

É mais do que evidente que aquele moço, além de ser um ejaculador precoce (aliás, toda ejaculação é precoce) esta com algum transtorno grave de personalidade ou, no mínimo, não conseguindo cumprir os protocolos básicos de civilidade, principalmente naquilo que se refere a esses 5 centímetros de pele que as divindades acharam por bem dependurar entre as pernas dos homens e que, de vez em quando, misteriosamente, resolve colocar-se em pé.

A propósito, sobre este assunto, para começar a entender alguma coisa, é fundamental ler a Obra Completa de Freud e também o livro de Alberto Moravia: Eu e Ele. 

Como dizia, o que me impressionou nessa histeria toda, além da atuação louca, perversa e desvairada daquele sujeito, foi o nojo do sêmem manifesto, principalmente pelas mulheres. Que descoberta terrível! Isso sim, na minha opinião, merece um tratado, um estudo, e não só na linha da psicopatologia, mas também da filosofia. Afinal, quem de nós, num passado bem recente, já não foi uma gota desse fluído tão "asqueroso"? 

Sem nenhum psicologismo babaca, respondam, mesmo do anonimato: Não existiria um nexo comprometedor entre aquela aberração e esta?


sábado, 2 de setembro de 2017

Num ônibus em São Paulo, um homem desvairado ejacula no pescoço de uma passageira enquanto os/as intelectuais, Brasil afora, seguem se masturbando sobre as sutilezas e ambiguidades da linguagem...

Para ouvir a música clicar no canto esquerdo da faixa

Maria Rita Kehl defende música de Chico Buarque considerada machista 

(Caderno Diversão & Arte/Correio Braziliense de ontem)







Facebook/Reprodução
A psicanalista Maria Rita Kehl, uma das mais respeitadas defensoras dos direitos humanos no Brasil e um das integrantes da Comissão nacional da Verdade, que apurou crimes cometidos pela ditadura militar, publicou, nesta sexta-feira (1º/9), um texto em que faz considerações sobre as acusações de machismo que o cantor e compositor Chico Buarque vem sofrendo desde que lançou a música 'Tua cantiga', que traz o verso "Largo mulher e filhos e , de joelhos, vou te seguir".
"Gostaria de fazer uma defesa, não do Chico individualmente, mas da autonomia de qualquer obra de arte. E sobretudo, do livre direito ao uso da ironia", diz Kehl logo no início do texto, intitulado 'Chico machista?' e divulgado em sua página no Facebook
Antes de comentar a nova música de Chico e motivo de toda a polêmica, a psicanalista lembra outras canções de Chico que atestariam seu "feminismo" (ela mesmo usa a palavra entre aspas). Entre essas obras, ela destaca 'Geni e o Zepelim', sobre uma travesti execrada por uma cidade inteira, e 'Deixa a menina', na qual um marido é criticado por não deixar sua mulher "sambar em paz". 
Kehl, então, diz que em outras de suas músicas, Chico utilizou expressões que podem incomodar, caso de "carregar a moça", na música 'Sou eu': “Porém, depois que essa mulher espalha/ seu fogo de palha no salão/ pra quem que ela arrasta a asa/ quem vai lhe apagar a brasa/ quem é que carrega a moça pra casa?" A psicanalista entende que não é certo uma mulher ser carregada, mas argumenta: "Chico estava mergulhado no ponto de visa do 'narrador'. É o narrador da música que se vangloria de não sentir ciúmes dos olhares masculinos, enquanto ela dança, porque sabe que depois vai 'carregar' a moça pra casa."
Responsabilidades 
Após essas considerações, ela comenta 'Tua cantiga': "Por fim, um comentário sobre 'largo mulher e filhos'... Sim, é triste ser mulher largada por um homem que vai atrás de outra. Mais triste ainda se ele nem se responsabiliza por compartilhar o cuidado e a responsabilidade com os filhos. Porém, não sei se o compositor não estaria levando ao ponto de saturação a rendição do apaixonado que se arrasta aos pés da amada (ops... machistas fazem isso?). Se não for isso, devo admitir que também não gosto da expressão, já que não aprovo a prática de 'largar' qualquer responsabilidade, afetiva ou não, para trás.
Mulheres em geral são mais responsáveis com os filhos, mas todo psicanalista conhece uma ou duas histórias nas quais uma mulher que se apaixonou por outro “largou homem e filhos” pra ir atrás dele.

Chico e Marieta (Severo), um casal apaixonado e livre (ao que se sabe, nenhum dos dois se privou de ter outros casos durante o casamento) se separaram amigavelmente há alguns anos. Ela casou-se com Aderbal Freire Filho, um grande (e muito bonito) diretor teatral. E continua amiga do ex-marido, que teve (ou ainda tem, não sei) uma bela história de amor com uma jovenzinha alardeada em canções do penúltimo CD. Ele não 'largou mulher e filhos' (filhas). Casais se separam, novos amores acontecem. Para homens e mulheres. Os filhos continuam a ser responsabilidade de ambos. Isso nunca aconteceu com vocês?"