quarta-feira, 22 de novembro de 2017

DO CIRCO BUROCRÁTICO/PEDAGOGICO... Ou: Eis aí o sintoma de um país infanticida que virou hospício...


Vigia que substituiu o que matou crianças em Janaúba tem doença mental (Correio Braziliense de hoje)



Luiz Ribeiro/EM/DA Press
O vigia Damião Soares dos Santos, de 50 anos, que em 5 de outubro ateou fogo na creche Gente Inocente, em Janaúba (Norte de Minas), causando as mortes dele próprio e de outras 11 pessoas – nove crianças, uma professora e uma funcionária da instituição –, além de ter deixado mais de 40 feridas, sofria de transtorno psiquiátrico, com delírio persecutório (mania de perseguição), apontam as investigações. Damião, que premeditou o crime, estava afastado da função. Mas o vigia que o substituiu no Centro Municipal Educação Infantil (Cemei) Hélio Soares de Souza, de 50 anos, também sofre de problemas psiquiátricos e chegou a declarar em depoimento que “não suportava ficar perto de crianças quando elas brincavam, por conta dos gritos”. Ele foi afastado depois da tragédia.Continua depois da publicidade
A ação foi protocolada pelo defensor público Gustavo Dayrell. Além de indenizações individuais para as vítimas e/ou suas famílias, ele solicita pagamento pela prefeitura de R$ 3 milhões por danos coletivos, com a destinação do montante para o Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Janaúba, para serem aplicados em ações em favor da infância e da adolescência. De acordo com o defensor, “após o juiz reconhecer a responsabilidade do município”, seriam feitos os cálculos dos valores individuais para as famílias, de acordo com cada caso.
Na ação, é feito também um pedido de liminar para o pagamento imediato pela prefeitura de um valor mensal para as mães e pais que ficaram impedidos de trabalhar pela necessidade de cuidar dos filhos vítimas do incêndio. A mesma solicitação vale para familiares da servidora Geny Lopes Martins, que ajudava a manter o sustento da casa.
Na representação são anexadas cópias de reportagens do Estado de Minas que mostram a situação de pobreza das famílias das vítimas do incêndio no Cemei e a expectativa delas de receber alguma indenização da prefeitura.
O defensor público cobra a indenização sob o argumento de que “em virtude da posição de garantidor, o município é responsável pela incolumidade (integridade) física das crianças enquanto estiverem nas dependências da creche, respondendo por qualquer lesão sofrida, seja qual for sua natureza. Também aponta que houve omissão por parte da municipalidade por permitir o funcionamento da creche mesmo sem alvará do Corpo de Bombeiros, sendo que o prédio não contava com extintores e com saída de emergências.

Negligência

Gustavo Dayrell lembra que o vigia Damião Soares dos Santos tinha “graves problemas psiquiátricos”, com delírio persecutório, quadro que apresentava desde 2014 e que havia indícios de que o fato era de conhecimento poder público, sem o afastamento imediato do servidor. O defensor sustenta ainda que houve negligência por parte da Secretaria Municipal de Educação de Janaúba em relação ao vigia indicado para substituir Damião na Creche Gente Inocente, que também apresenta problemas mentais.
“Há relatos de negligência da Secretaria Municipal de Educação no que tange ao outro vigia da Creche Gente Inocente, Sr. Hélio Soares de Souza, que, muito embora tivesse alertado sobre seus graves problemas psiquiátricos, ainda assim fora designado para trabalhar em creches municipais (..)”, diz a ação.
Em depoimento prestado na Defensoria Pública, Hélio Soares de Souza, que começou a trabalhar na Prefeitura de Janaúba em 2008 (junto com Damião), informa que começou a prestar serviço em uma biblioteca em 2010 e que em dezembro de 2014 foi transferido para a Creche Nesmaria Mendes. Informou que em maio deste ano foi “convocado” para trabalhar no Cemei Gente Inocente, em substituição ao vigilante Damião Soares, que tiraria “férias”. O documento encaminhado à Justiça informa ainda “que o declarante falou sobre seu estado de saúde mental debilitado e alertou que já tinha, inclusive, protocolado há mais tempo em tal Secretaria (Municipal de Educação) os laudos médicos atestando tais problemas (…) e que o remédio que toma lhe dá reações negativas, como desconcentração e sonolência”. 

Alertas

No depoimento, o vigia diz ainda que ficou afastado por 45 dias, mas que depois “recebeu telefonema da Creche Gente Inocente para novamente cobrir ‘férias’ de Damião, que tinha adoecido”. Ele afirma ter alertado “que não tinha condições psicológicas de trabalhar na creche”, mas que mesmo assim foi mantido no trabalho na unidade, de onde foi afastado somente após o incêndio. Ainda no depoimento prestado à Defensoria Pública, Hélio diz que “não suportava ficar perto de crianças quando elas brincavam, por conta dos gritos”.
Na ação é citado ainda depoimento da psicóloga Antunes Cristo Barbosa Costa, que informa ter atendido  Hélio Soares em agosto e que ele “relatou que sentia desconforto com os barulhos habituais das crianças, aumentando seu estado de nervosismo”.
Ouvida pela reportagem do EM na tarde de ontem, a procuradora da Prefeitura de Janaúba, Neide Lopes Lacerda, disse que a municipalidade não tomou conhecimento de nenhuma documentação recebida pela prefeitura que atestasse que o vigia Hélio Soares Souza sofre de problemas psiquiátricos. “A administração somente pode afastar o servidor por doença mental mediante documento que ateste a sua incapacidade para o serviço devido aos problemas mentais”.
A procuradora disse que a prefeitura somente vai se manifestar sobre a ação civil pública ajuizada pela Defensoria Pública Estadual cobrando indenização para as famílias das vítimas da tragédia na Creche Inocente quando for notificada pela Justiça, o que ainda não ocorreu. Ela também não quis comentar sobre uma proposta de acordo da prefeitura a ser apresentada às famílias para evitar demanda judicial, o que já tinha sido anunciado pela própria administração municipal.






segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Saber de utilidade pública...

O mendigo K, Zumbi e o Natal...


"De que pode nos servir um homem que passou a vida inteira filosofando sem jamais inquietar ninguém?"
Diógenes

Hoje, dia em que se lembra e se reverencia a existência de Zumbi dos Palmares (1655-1695), encontrei o Mendigo K. ali em frente ao CONIC onde existe um monumento em homenagem a esse representante da cultura negra no Brasil. Estava sentado ao lado do monumento, vestindo uma roupa afro e com um um livro encorpado e espesso sobre os joelhos. Veio a meu encontro. Pensei que ia falar sobre a data comemorativa, sobre o dia em que cortaram a cabeça de zumbi e etc, mas não, com pose de líder religioso, folheou o livro que trazia, correu o dedo indicador pelas linhas da página ímpar e numa postura meia excêntrica como se estivesse explicando um teorema a um aluno disse: Veja como a cidade inteira já se movimenta em direção às festas de natal. Comemoram o dia 25 de dezembro como sendo o dia do nascimento de Cristo, apesar do nascimento ter sido em outra data... imposturas burocráticas!. 
Devo ter espressado algum sinal de dúvida, pois ele logo tentou explicar: No mês de dezembro a Palestina fica coberta de gelo e não há estrelas guiando reis magos na madrugada...  - soltou um riso cínico mas com um certo pudor de religioso -.  Mas isto não importa. O que é importante entender é a Culpa perpétua e o chamado pecado original dessa gente. - Fez uma longa pausa, leu alguma coisa numa página anterior e continuou: Com a morte de Cristo a humanidade herdou uma dívida impagável! O fato de Deus ter sacrificado seu filho "para nos salvar" nos colocou numa condição bizarra de devedores e de endividados... Observe como a dívida e a culpa da humanidade é impagável, vitalícia, eterna e perpétua! Disse isso ainda com ar professoral e saiu assobiando Noite Feliz...

domingo, 19 de novembro de 2017

Enquanto isso... num cemitério mexicano...


"Lo importante es la transformación que una idea pueda obrar en nosotros, no el mero hecho de razonarla"
(De Nietzsche, citada por Borges)




sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Olha aí a Black Friday...

O ano acabou! As surubas e as orgias de preços acabaram. Há muita porcaria encalhada nos porões e nas garagens... Olha aí a black friday...
Curiosamente nenhum negro ainda entrou na justiça para processar os comerciantes e suas lojas de, - com a tal Black friday (sexta-feira negra) - estarem inconscientemente manifestando algum vestígio de racismo. Pelo contrário, estão lá, excitados, movidos a sentimentos arcaicos, correndo de um lado a outro, no meio de japoneses, portugueses, índios, italianos, judeus, polacos, venezuelanos, paraguaios e etc, em busca de "promoções" e de porcarias sem utilidade. 
Todos os anos, sob o som da musiquinha de natal, se repete essa pantomima humilhante voltada basicamente àqueles que não controlam sua compulsão e que pensam adquirir reconhecimento, auto-estima e amor próprio comprando bobagens e, principalmente, penhorando suas existências...

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Leonardo da Vinci, o 'Salvator mundi' e a sutil clonagem de energúmenos e de trouxas no mundo...

Todo mundo assistiu nesta semana o leilão de uma obra supostamente pintada por Leonardo da Vinci que leva o titulo Salvator mundi por quatrocentos e tantos milhões de dólares. Vou repetir: quatrocentos e tantos milhões de dólares... 
Uma civilização cujos 2/3 passam fome e vivem numa penúria, numa ignorância e numa miséria de dar pena, investir uma quantia dessas em meio metro quadrado de tela é uma infâmia. Uma canalhice e uma mistificação abominável. Até o Da Vinci, se ainda estivesse por aí, vomitaria nas paredes da famosa casa de leilões Christie's e daria um pontapé no traseiro do energúmeno que fez tal aquisição. 
Ah, mas é de Leonardo da Vinci!  - se exaltam em ganidos os otários -.
É do geólogo, do estrategista e do dissecador de cadáveres! - Resmungam excitados os mais sensíveis - . 
Do quase santo do renascimento!!! Esbravejam os eruditos e donos de galerias...
Do mesmo que pintou a Mona Lisa e São Geronimo  no deserto! Do mesmo a quem Freud dedicou 42 páginas de suas Obras Completas! - Cacarejam os leiloeiros. - E depois.., não podemos ignorar que nesse quadro está pintado o Salvador do mundo! Suspiram os crentes... E prosseguem: é verdade que com o mesmo fervor que lhe era peculiar pintou também a Mona Lisa (que era a mulher de um nobre florentino chamado Francesco de Giocondo...) mas também pintou o Salvador do mundo! E isto, para nós ocidentais é o que importa! 
Ah, quem não tem amor a arte é um degenerado! 
Ah, o dinheiro é para isso mesmo! Agora, pelo menos, o quadro estará seguro e protegido dos larápios, dos hereges e dos cupins na parede de uma mansão, de uma catedral ou de um palácio!!! 
Seguem assim cacarejando as massas e os energúmenos clonados mentalmente enquanto roem unhas para repor o cálcio que lhes falta...


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A ocupação de Brasília... que não houve... E o próximo trem para Pasárgada...


"Senhor, pai, tenha piedade, que eu pedirei eternamente a Deus por Vossa Senhoria"
F. Dostoiévski
(Memória da casa dos mortos, página 219)

Durante a semana inteira circularam boatos, vídeos e noticias  assegurando que no dia 15 de novembro (hoje) dia da Proclamação da República viriam grupos incendiários do Brasil inteiro para invadir e ocupar Brasília e o Congresso Nacional, bem como para esbofetear e prender políticos e vagabundos da cidade e, por fim, fazer uma intervenção militar e livrar o Brasil da cloaca e da situação calamitosa em que se encontra. Muita gente que conheço acreditou nessa ameaça e até ficou excitada imaginando que finalmente, se sairia dessa mesmice desoladora.
 Teve até gente que fez estoque de comida, de água, de ansioliticos e principalmente de papel higiênico em casa...  Alguns síndicos até programaram rezas e terços nas garagens e nas portarias dos prédios... 
Amanheceu o dia... e nada. Só as nuvens magrit (ianas) presagiando um lindo dia...
As donas de casa, visceralmente reacionárias, indignadas e com as tetas apoiadas nas janelas se perguntavam: que aconteceu com o pessoal das cruzadas? Teriam errado o caminho? Chegarão amanhã? Tiveram alguma visão negativa no meio da estrada? Resolveram esperar Godot?  
Em frente ao palco do Congresso Nacional apenas dois ou três caminhões e um ônibus. 50 ou 100  discursantes no estilo dos sindicalistas dos anos 80 e nada mais. 
Muito foguetório e pouca prática. Os discursos e as críticas iam de encontro tanto a figuras legendárias como a do magnata húngaro George Soros como a de comunistas nativos, anônimos e imaginários de fins de semana... 
Fiquei realmente impressionado com o ódio que havia nos discursos contra as universidades brasileiras. O que os professores teriam feito ou estariam fazendo  para gerar tanta fúria? Fiquei lá ouvindo aquela gente mais ou menos desiludida, mais ou menos descontrolada, mas cheia de convicções discursando e apontando com ferocidade para o Congresso nacional vazio como sendo um ninho de bestas, ladrões, larápios que deveriam ser caçados... Com quê argumentos alguém se atreveria a discordar deles? 
Faixas. Muitas faixas fincadas no gramado da esplanada falando do já sabido: tudo está falido! No meio de todos as discursos incluíam com frequência o nome de Deus e de Cristo. Um discursante, do alto de um caminhão que passava em frente à catedral chegou a mencionar e pedir ajuda à padroeira da cidade... O que pensariam essas entidades metafísicas de tudo isso?
 O mendigo K que estava lá usando um uniforme militar daqueles de camuflagem e de luta na selva me cochichou: é impressionante como passamos da antropologia para a teologia em segundos... 
Parole, parole, parole... Todo mundo turvando as aguas para dar impressão de profundidade... Muitas palavras até às 5 horas da tarde diante de um congresso silencioso, literalmente vazio e de uma cidade em plena crise de narcolepsia. 
Por mais alienado que se possa ser, num clima desses é difícil não sentir em si mesmo os sinais doentios do subdesenvolvimento, da misantropia e da melancolia.
Enfim, sem estar lá muito preocupado com a comédia póstuma (como diria Baudrillard em seu La ilusión vital), 
gostaria de saber a que hora partirá o próximo trem para Pasárgada?











segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Queremos DEUS! Gritam os manifestantes nacionalistas em Varsóvia, na Polonia. Tudo bem, mas talvez Deus esteja de saco cheio com eles.. E a recíproca não seja verdadeira....

(Pauline Moulot - Libération - hoje)
Le 11 novembre, la Pologne a célébré sa fête de l’indépendance. A cette occasion, plusieurs manifestations ont eu lieu à Varsovie : douze, selon la correspondante de RFI.
La grande marche nationaliste, à laquelle vous faites référence, a rassemblé 60 000 personnes selon la police. Elle a été organisée par l’extrême droite : le Camp national radical (ONR) et la Jeunesse de la Grande-Pologne. L’ONR se présente comme «un héritier du mouvement fasciste des années 30 du même nom, qui s’est battu pour débarrasser la Pologne des Juifs dans les années précédant l’holocauste» écrit le Wall Street Journal. Ils soutiennent que «l’arrivée de réfugiés syriens en Europe fait partie d’une conspiration menée par des financiers juifs, qui travaillent avec les communistes de l’Union européenne pour amener des musulmans en Europe et, avec, la charia et l’homosexualité. Ce groupe a régulièrement organisé des événements pour commémorer le pogrom de 1936 contre les juifs», écrit encore le quotidien américain.
Voici quelques slogans entendus dans la manifestation : «Pas de Pologne islamiste, pas de Pologne laïque, mais une Pologne catholique», rapporte RFI qui parle de slogans «ouvertement anti-européens, anti-libéraux et islamophobes». «Outre les classiques "Dieu, honneur et patrie" et "Gloire à nos héros", quelques slogans xénophobes ont été entendus : "La Pologne pure, la Pologne blanche", "Foutez le camp avec vos réfugiés" ou "A coups de marteau, à coups de faucille, battre la racaille rouge" – ce dernier compris à la fois comme anticommuniste et antirusse»détaille l’AFP.
Le mot d’ordre de la manifestation, «Nous voulons Dieu», vient d’un chant traditionnel catholique cité par Donald Trump lors d’une visite à Varsovie cet été qui, aujourd’hui, peut parfois être interprété comme un rejet de l’islam, selon l’agence de presse.
Pour autant, plusieurs journalistes ont tenu à préciser que tous les participants à la manifestation ne se réclamaient pas du groupe néonazi et n’étaient pas d’extrême droite. L’AFP écrit ainsi : «Cependant, des participants interrogés par l’AFP ont nié toute motivation politique ou religieuse. "Cette marche n’est pas faite pour soutenir le gouvernement, la plupart d’entre nous n’ont aucune opinion politique", a dit un travailleur manuel de 43 ans venu de Piaseczno, près de Varsovie. "Simplement, en venant ici, je me sens appartenir à la nation, je me sens fier d’être Polonais." […] Une jeune manifestante, cuisinière dans un hôtel quatre étoiles, vient de rentrer au pays après avoir passé trois ans en Grande-Bretagne. "Je n’ai aucun lien avec l’ONR ou la Jeunesse de la Grande-Pologne, je suis venue ici pour me sentir à nouveau Polonaise", confie-t-elle.»
«Je dirais que certaines personnes ici ont des vues extrêmes, peut-être 30% de ceux qui manifestent, mais 70% d’entre eux sont simplement en train de défiler calmement, sans crier aucun slogan fasciste», explique un témoin cité par l’AFP.
«Un certain nombre de manifestants ont affirmé ne pas appartenir à une quelconque organisation raciste ou néofasciste mais ne voyaient pas de problème dans le ton général qu’a pris l’événement le plus important en Pologne de la fête de l’indépendance. "Bien sûr qu’il y a des nationalistes et des fascistes à cette manifestation, a dit Mateusz, 27 ans et enveloppé dans un drapeau polonais. "Ça ne me dérange pas. Je suis juste content d’être ici"», rapporte le Wall Street Journal.
Le reporter du quotidien américain a par ailleurs été accusé d’avoir diffusé une fake news en tweetant son article accompagné du commentaire : «60 000 Polonais ont défilé derrière des manifestants agitant des insignes nazis et un groupe brûle des effigies de juifs.» Il a ensuite annoncé avoir supprimé ce tweet dont la formulation «donnait l’impression que 60 000 personnes ont défilé pour des groupes ethno-autoritaires alors que la majorité a marché joyeusement, en étant à leurs côtés en connaissance de cause.»

domingo, 12 de novembro de 2017

O mendigo K, a estagiária de 17 anos e a senhora com aspecto equino...

"Cujo céu tinha a monstruosa imponência de um estábulo incendiado..."
Garcia Marquez
(página 57, O enterro do diabo)

Hoje, domingo, dia 12 de novembro de 2017, com a cidade chuviscando,  encontrei o mendigo K na entrada de um dos shoppings mais sofisticados da cidade, aquele onde estão concentradas aquelas boutiques que vendem chapéus a 2 mil reais, tênis a mil euros, calcinhas a 480, vestidos e bolsas por pequenas fortunas e etc. É lá que a suposta classe alta, as novas ricas se acotovelam nos fins de tarde para bebericar um chocolate e para conseguir gastar os milhões que seus maridos, amantes ou filhos rapinam honradamente por aí...
Estava na entrada principal junto a duas portas de vidro, com uma capa preta de chuva segurando um cartaz de meio metro quadrado onde se podia ler: "CONTRATO ESTAGIÁRIA COM 17 ANOS E QUE FALE VÁRIOS IDIOMAS PARA ORGANIZAR MINHA BIBLIOTECA". 
Achei curioso aquele anuncio, não apenas pelo perfil da moça que ele pretendia contratar, mas porque nem imaginava que ele tivesse uma biblioteca em casa. Uma senhora elegante, exageradamente perfumada e com aspecto equino que passava por lá enquanto falávamos leu o cartaz, resmungou alguma coisa sobre as recentes denuncias de abusos sexuais em Hollywood, perguntou-lhe se sabia que dia 12 de novembro se comemorava o dia do nascimento da feminista Elizabeth Stanton e em seguida o acusou de estar cometendo um crime contra as leis trabalhistas, contra os direitos humanos, assédio moral etc., e por fim, que iria enquadrá-lo numa Lei que agora não lembro o número e nem o nome... 
Vi que ficou furioso, que baixou momentaneamente o cartaz, que lhe lançou um dos principais palavrões que está lá no apocalipse e que, como um banido do mundo, saiu caminhando no meio da chuva... Já estava quase anoitecendo e o céu - como diria o defunto Garcia Marquez - havia adquirido aquela monstruosa imponência dos estábulos incendiados... 

O affair William Waak - Toda discussão e intriga racial evidencia o mesmo desamparo e a mesma imbecilidade em todas as cores...


Ver livro abaixo, do psiquiatra Frantz Fanon, sobre o assunto



http://negrobelchior.cartacapital.com.br/voce-conhece-frantz-fanon/

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A transiberiana e nossa atração por solavancos...

Preparando-se para passar o Natal e o Fim-de-ano longe da república, o mendigo K. abordou-me no estacionamento do Ministério dos transportes visivelmente furioso. Enquanto ia abrindo um mapa da América Latina que levava nas mãos foi blasfemando. Burrice! Caipirismo! Mentalidade atrasada! Atração por solavancos! Inacreditável que não tenhamos uma ferrovia e trens que nos levem daqui para a América Latina e para o resto do continente. Brasília/Canadá, por exemplo. Cinco ou seis noites tomando vinho nos vagões, subindo e descendo montanhas de gelo, florestas, pântanos, desertos, abismos de pedras... Atravessando os andes com suas lhamas e seus condores. Um remanescente dos Incas no alto de uma rocha... Os desertos mexicanos, uma águia no topo de um peyot... a fronteira gringa... 
Todo mundo critica a Russia, falam mal de Lênin e até o confundem com Rasputin. Pura caipiragem! Minha ex sogra era russa. Ia uma vez por ano de São Petsburgo até Vladivostok pela Transiberiana. Vinte dias e vinte noites. Quase dez mil quilômetros! Uma das vezes resolveu ir até a China e trouxe de lá para sua filha de dezoito anos uma pomadinha erótica. Morreu com os lábios roxos e desfigurados imitando o ruído das rodas do trem. Amava os trens. Desenhava com nanquim as paisagens da Sibéria. Uma vez chegou a subir aos Montes Urais. Contava que perdeu um chapéu nas águas do Rio Naroda. E que passou horas lá, sobre uma montanha de gelo, lendo as obras de Nabokov, mas que sua verdadeira paixão era por Dostoievski. Por aquele louco e epiléptico autor de Memórias da casa dos mortos. Gostava de recitar pequenas frases que havia lido naquele tempo, tipo esta, sobre os insultos: "Que morras nas mãos de um turco!". "A dialética do insulto era muito apreciada. Ao bom insultador não faltavam aplausos, como aos autores." "Havia no presídio um polaco desertor, muito repugnante, mas que tocava violino, possuindo um que era mesmo seu e que representava toda sua fortuna..." 
Minha sogra adorava os russos, principalmente por eles terem cortado aquele imenso território com ferrovias. Uma ferrovia - dizia - acalma. Quem já sentiu o cheiro dos trens nunca os esquecerá! Os trens são terapêuticos. Uma nação que não tem trens esta condenada ao subdesenvolvimento, à estupidez dos caminhões e à calamidade mental...



Enquanto isso...

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A ventania de ontem a noite e o sentido trágico da vida...

Não precisa nem ter lido Santo Agostinho, Kierkegaard, Unamuno ou Freud, para ter consciência do que é o tal 'sentido trágico' da vida. Basta sair por aí e falar com qualquer estranho na rua. Parece haver algo de sinistro e de apocalíptico espiando não apenas atrás das córneas, mas atrás de todas as coisas. Como se houvesse uma pressa em acabar. Como se, contra-fobicamente, se desejasse ir logo ao encontro do fim... 
O papo hoje, aqui no coração da república se concentra todo nos comentários sobre a ventania que ontem à noite se abateu sobre a cidade. Um radialista chegou a dizer que parecia um tsunami de vento. Árvores caídas por todos os lados, esgotos entupidos, telhados desfeitos, vidraças despedaçadas, uma escuridão de ponta a ponta... pequenos besouros amassados nas soleiras... Para frustração dos fofoqueiros e dos noticiários, não morreu ninguém. Mas Todo mundo quer contar e aumentar um pouco o que viu, colocando sempre em sua história boa parte de inverdades, mentiras, invenções e fantasias enigmáticas com a ilusão de diminuir o tédio cotidiano e de dar-se um pouco de importância. Como se quisesse que a turba o apontasse na rua e dissesse, com admiração: Aquele ali viveu o Caos e está vivo! Surfou na tempestade e está intacto! Bobagens infantis! Uma ficção que nos vêm de longe, ainda do tempo das cavernas...
O mendigo K falava futilidades com o pessoal da guarda presidencial que retirava pedaços de árvores das ruas que ficam ao redor do Palácio. Contava aos guardas que o vendaval havia começado exatamente às 3:15 da madrugada e que deixou seu barraco em pedaços. Que ficou todo esse tempo no meio do nada e acuado ao lado apenas de um saco de latas vazias e de um armário feito com caixas de ovos mas que também levitou e sumiu. Falava entusiasmado sobre a beleza e a transcendência do vento e da tempestade. Aquela água gelada e aquela falta de ar! Haveria alguma coisa mais fascinante do que uma ventania como aquela no meio da metafísica insinuante da madrugada? Perguntava.  Haveria alguma coisa mais fascinante que as rajadas que assobiavam nos postes e no tronco dos pequizeiros como se estivesse ameaçando limpar radicalmente a área infestada por todo tipo de hipocrisias e de infâmias? Os guardas o ouviam com curiosidade até que ele passou a relatar histórias e estórias de um realismo fantástico que teria presenciado das 3 às 4 da madrugada. De um baú repleto de dinheiro - por exemplo - que teria despencado das nuvens ao seu lado se despedaçado na queda e o dinheiro levantado voo em uma revoada parecida a de morcegos. Disse que no meio das cascatas de água e vento surgiu o padre Dom Bosco - aquele padreco que profetizou que nesta cidade haveria de brotar pão-de-ló e melado dos barrancos - e que fazia um esforço imenso para não deixar que o vento lhe levantasse a batina e lhe exibisse as nádegas... Depois apareceu JK e o Niemayer, sob a chuva, naquele passo moribundo e suspeito da senectude, um acusando o outro de ser responsável pelos descaminhos desta urbe. Os guardas que cortavam árvores com serras elétricas continuavam ouvindo-o mas já meio céticos. Jurou com uma certa alegria e fascinação que sua mulher havia sido levada pelo vendaval agarrada ao único bujão de gás que conseguiu comprar em vida e que os 3 volumes da Divina Comédia que estava lendo haviam ficado encharcados sob o colchão...
Os guardas receberam uma ligação telefônica de um alto escalão da república, desligaram imediatamente as moto-serras e puseram-se a olhar com um certo gozo para as nuvens que, lá por sobre as montanhas de Goiás pressagiavam e prognosticavam novas desgraças...  
Brasília parece gozar, mesmo que secretamente, quando se abate sobre ela um diluvio ou mesmo apenas uma tempestade, quando os carros são levados para os esgotos, o metrô e os ônibus não circulam, quando todo mundo aproveita para não ir enxugar gelo nos Ministérios e dormir. Dormir! O sono, todo mundo sabe, é o prenuncio da morte. Enfim, há um gozo por aqui quando a cidade, como diria Garcia Marquez: torna-se um povoado sem ninguém, com as casas fechadas e em cujos quartos ouve-se apenas o surdo fervedouro das palavras pronunciadas com ódio...

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Esfaquearam um sem-teto...

"Observou de perto uma galinha viva, imaginou-a aumentada até o tamanho de uma vaca, e descobriu que era um monstro muito mais aterrorizante que qualquer outro da terra ou da água..."
Garcia Marquez
(Do amor e outros demônios)

Ontem esfaquearam um sem-teto ao lado do mercado de hortaliças. Sempre o vejo mendigando ali, disputando sobras com os cachorros, recolhendo fragmentos de pizza de uma lixeira improvisada e até fazendo la siesta num sofá aos pedaços que alguém instalou em baixo de um abacateiro. Eram mais ou menos cinco da tarde. Os atendentes das farmácias da rua, os verdureiros, os moradores do primeiro andar, uma professora de astrologia, outros mendigos, transeuntes aposentados e uma senhora que vende brotos de bambu... todos formaram espontaneamente um circulo ao redor do esfaqueado que quase impedia o trabalho dos bombeiros e da polícia. Com cara de nojo, assistiam o estado miserável daquele sujeito e o sangue, até com aspecto saudável, jorrando. Por entre as coxas de uma mulher obesa, ainda jovem com duas tranças que lhe chegavam até a altura dos rins, consegui ver que era o lado direito dele que sangrava. E ele, com um bonezinho tipo o dos sem-terra, olhando a multidão de baixo para cima, mantinha um sorriso tímido, heróico e quase cínico nos lábios. Se pudesse, talvez entrasse na paranóia do mundo e jurasse para os curiosos que havia sido um atentado. Sirenes. Chegaram mais bombeiros com uma maca vermelha, tipo as de guerra, esparadrapos, um rolo imenso de gase hospitalar, uma garrafa de éter para higienizar as mãos. Fotografaram o moço antes de qualquer coisa. Ele gemeu meio fingidamente ao ser virado na calçada. Levava um escapulário no pescoço. Parecia feliz! Apalparam o ferimento, retiraram os coágulos que haviam se formado um pouco acima da cintura, o enfaixaram, o amarraram na maca e o transportaram para a ambulância. Vi novamente seu rosto de perfil e não tive dúvidas: estava feliz.  Quando ouviu a sirene aumentar o volume e preparar-se para partir, ensaiou um tchau para a platéia e seus olhos brilharam... Talvez tenha sentido que aquela era a primeira vez na vida que uma multidão o olhava com uma certa compaixão... A primeira vez que tenha se sentido participante deste imenso circo e hospício que é a vida. A faca que lhe havia furado as tripas era apenas um detalhe...

domingo, 5 de novembro de 2017

De volta ao assunto dos alimentos envenenados...

"Um homem que se respeite não tem pátria. Uma pátria é um visco, um engodo."
Cioran


Menos de uma semana depois da denuncia do Greenpeace (publicada no jornal EL PAÍS) de que 60% dos alimentos consumidos em Brasília e em São Paulo contem doses "homicidas" e "suicidas" de agrotóxicos e venenos.., silêncio total. Nenhum pio. Tudo quieto. A mídia prefere transmitir a histeria e os gritos dos rebanhos nos estádios; os padres preferem seguir com suas baboseiras e com seus sermões 'pra boi dormir'; as donas de casa, hipocondríacas, adoram uma intoxicação; os intelectuais estão preocupados e ansiosos apenas com as próprias nádegas e com a vinda da senhora Butler para uma conferência sobre ideologia de gênero em São Paulo e os políticos só pensam na Lava Jato. Não conseguem livrar-se da idéia de que nas próximas eleições terão que ajoelhar-se novamente diante do Lula, do Bolsonaro ou até do Luciano Huck. Já, os militares.., só sabem passar os dias lustrando as botas dos superiores e o cabo de suas carabinas; e a juventude, depois de trinta anos de intoxicação e de alienação, é apenas outra geração estúpida, passiva e perdida... Quê miséria! E la nave vá...
Como um bom militante da quarta idade, turbinei minha cólera e enviei o artigo (abaixo) para uns vinte parlamentares, de esquerda, de direita, do centro, ruralistas, ecológistas e etc, sugerindo que o assunto mereceria de imediato ou a Decretação de Estado de Sitio ou algo parecido... e até agora, resposta nenhuma. Nada. 
Liguei para o Ministério da Saúde e para a ANVISA sugerindo que o Ministro desse explicações urgentes sobre tamanha patifaria... Mas quem me atendeu, como era de se esperar, nem tinha conhecimento da matéria e minha queixa nem sequer ficou registrada. Enfim, como hoje é domingo, que tal uns pimentões recheados a la mexicana? Um peito de frango com cogumelos? E uns morangos com nata na sobremesa? Tudo impregnado de pesticidas, veneno e e até de merda... (sem esquecer dos tragos de cachaça produzida por trapaceiros e por analfabetos por aí, nos fundo de algum alambique insalubre...)

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/27/politica/1509115739_770097.html

sábado, 4 de novembro de 2017

Lupita, a cadela que esta além do bem e do mal...

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo
04 Novembro 2017 | 11h02

Cadela adota gatos
A cadela Lupita, da auxiliar administrativa Waniceia Nunes da Silva, "adotou" dois gatinhos no interior do Tocantins Foto: Divulgação/Waniceia Nunes da Silva
Desde a última segunda-feira, 30, uma cadela quase não sai de sua “caminha”, tal o desvelo com que cuida de seus pequenos filhotes. Tudo normal, não fosse a “mãe” Lupita, da raça pinscher, e os “filhos”, dois gatinhos resgatados de uma enxurrada. A lição de amor entre não iguais vem de Axixá do Tocantins, cidade localizada na região norte do Estado. A dona dos animais, a auxiliar administrativa Waniceia Nunes da Silva, de 40 anos, conta que os gatos foram jogados por cima do muro da escola em que trabalha e caíram numa poça d'água. 
Chovia muito e a mulher os recolheu antes que fossem arrastados pela enxurrada. “Pensei em levar para casa, mas tinha um problema: minha cachorra Lupita nunca gostou de gatos”, contou. Mesmo assim, ela levou os filhotes imaginando que logo acharia outro lar para eles. Para sua surpresa, a cachorra logo se interessou pelos recém-nascidos. “Eu estava preparando a mamadeira dos gatinhos e, só para testar, coloquei um deles perto dela. De imediato, a Lupita o acolheu.”      
Ela conta que a cachorra, que tem três anos de idade, havia entrado no cio mas não foi cruzada com outro cão da raça. Mesmo assim, ela produziu leite. “Foi a maior surpresa quando vimos ela amamentando os gatinhos. Depois disso, o leite dela até aumentou.” A mulher, que tem outros três cães da raça pinscher, temia a reação dos outros animais e de seus familiares. “Todo mundo ficou muito admirado, mas houve aceitação completa”, disse. 
Em Tocantins, não é a primeira vez que cães e gatos formam uma única família. Em março deste ano, em Palmas, capital do Estado, a cadela Gabi, da raça lhasa apso, adotou o gatinho Zezé levado para casa pela filha da dona do cão, Melissa de Vasconcelos. Em setembro do ano passado, em Crixás do Tocantins, no sul do Estado, após perder dois filhotes próprios, a cadela Lia, uma vira-lata, adotou o gatinho Xavier, que tinha sido abandonado na rua e foi levado para casa pela tesoureira Mareisa Aguiar. O gatinho estava desnutrido e Lia passou a amamentá-lo. 
O veterinário Paulo Nogueira conta que o instinto materno na maioria dos animais é muito forte e a adoção de bichos de outra espécie acontece de forma mais comum com cadelas. “Mas ocorre também com outros animais. Já vi casos de ovelhas que adotaram porquinhos e até de uma galinha que adotou um gatinho. Na natureza, é clássico o caso dos chupins, que põem ovos nos ninhos de outras aves para que seus filhotes sejam criados pela outra família.”

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Dois mil anos de fracassos...


“80% do que se aprende nas aulas de matemática não serve para nada”

Conrad Wolfram, físico que está mudando o ensino de matemática, aposta no fim dos cálculos à mão



cálculos matemáticos
Conrad Wolfram  EL PAÍS

Conrad Wolfram (Oxford, 1970) avalia que nós temos um problema com a matemática. Ninguém está satisfeito: os estudantes acham que é uma matéria difícil e desinteressante, os professores se sentem frustrados com os resultados de seus alunos e os governos sabem que ela é importante para a economia, mas não sabem como atualizar os currículos escolares. “Vivemos em um mundo cada vez mais matemático, mas o seu ensino está estancado”, avalia Wolfram, físico e matemático formado pela Universidade de Cambridge e fundador da Computer Based Math, uma empresa focada na revisão do ensino da matemática que lançou há dois anos o seu programa piloto numa parceria com o Governo da Estônia.


Em 2010, Wolfram chamou a atenção de educadores e especialistas em educação de várias partes do mundo com sua palestra na TED intitulada Como ensinar a matemática do mundo real às crianças, que teve mais de 1,5 milhão de reproduções e na qual analisa os motivos pelos quais os estudantes perderam o interesse pela disciplina que está por trás das “mais emocionantes criações da humanidade”, desde os foguetes até as bolsas de valores.
Um excesso de horas dedicadas a aprender a calcular grandes equações e fazer contas em geral. Essa é a grande falha, segundo Wolfram, que aposta na introdução da computação nas salas de aula, deixando que as máquinas façam os cálculos.
Pergunta. Se as crianças não aprenderem a calcular, fazendo as operações com o computador, como irão entender o que estão fazendo?
Resposta. Os matemáticos vão me odiar por dizer isto, mas antes da existência dos computadores a matemática não era muito útil no dia a dia, para a vida em geral. Como em qualquer campo em que se utilizam muitos dados, como a física, a biologia ou a saúde, a computação elevou a matemática um novo patamar. Os problemas reais do século XXI só podem ser solucionados com o uso do computador, por isso ele deve entrar no sistema educacional como uma parte fundamental da disciplina de matemática. Não tem mais sentido que as crianças façam cálculos de equações de segundo grau em sala de aula; é preciso ensiná-las a interpretar os dados e a explorar a matemática em toda a sua utilidade. Tudo bem ensinar o seu funcionamento básico, mas complicar isso tudo até o esgotamento é uma estratégia equivocada que distancia o aluno da disciplina para o resto da vida. Basta dar o exemplo da condução: não é preciso entender o funcionamento do motor para dirigir um carro.
P. Alguns especialistas dizem que o cálculo ajuda a apreender o sentido dos números e constitui uma boa ferramenta para treinar a tomada de decisões.
R. Quando foi a última vez que você multiplicou 3/17 por 2/15? Provavelmente aprendeu a fazer isso na escola, mas nunca mais voltou a fazer essa conta. Muitos especialistas dirão que ao multiplicar frações você aprende, mas, na verdade, está apenas relembrando um determinado procedimento. Na verdade, não entende para o que faz isso, nem para que isso serve. Um exemplo bastante simples: na equação x+2=4, lhe ensinaram que se você passar o 2 para a direita, o sinal muda e se transforma em menos 2. Nesse caso você também não entende o que está fazendo. A matemática tradicional já não faz sentido e provavelmente 80% do conteúdo das aulas não é útil e você jamais utilizará fora da escola.

Não faz mais sentido que durante as aulas as crianças façam elas mesmas os cálculos de equações de segundo grau

P. Alguém poderia objetar que deixar que o computador faça os cálculos na idade de aprendizado é coisa de preguiçoso.
R. Tentar saber como é que o computador funciona não requer menos trabalho para o cérebro. Muito pelo contrário. Os problemas a serem resolvidos são muito mais complexos, e é aí que as crianças deveriam ser treinadas. A programação é algo que hoje equivaleria ao cálculo à mão. Saber dizer ao computador de forma muito precisa, com códigos e números, o que ele tem de fazer. Matemática, programação e raciocínio computacional devem fazer parte de uma mesma disciplina.
P. Poderia dar um exemplo de uma situação da vida real do que o senhor está falando?
R. Se eu lhe mostro os dados de dois sites e pergunto qual dos dois funciona melhor, a primeira pergunta que você deve fazer é o que significa melhor. Pode ser o tempo que os usuários passam em cada um deles ou as vezes que têm de clicar em algumas das abas... No mundo real, você pode usar a machine learningou a análise estatística para medir e analisar resultados. Escolher qual opção funciona melhor em cada caso é complicado, e esse tipo de conhecimento não é ensinado na escola. A matemática é muito mais do que cálculos, embora seja compreensível que durante centenas de anos tenhamos dado tanta importância a isso, pois só havia uma forma de fazê-lo: à mão. Acontece que a matemática se libertou do cálculo, mas essa libertação ainda não chegou ao ensino.
P. Sua empresa reinventou a disciplina da matemática, introduzindo a computação e novas habilidades a serem avaliadas, como a comunicação matemática. Como foi que conseguiu convencer o Governo da Estônia a implantar essa concepção nas escolas públicas?
R. Com 1,3 milhão de habitantes, a Estônia é considerado o país mais digitalizado da Europa. Seus habitantes podem votar, pagar impostos, acessar arquivos médicos ou registrar uma empresa a partir de seus computadores caseiros em poucos minutos. No último relatório PISA, o país ultrapassou os finlandeses em ciências e matemática e se tornou a nova referência em termos de inovação educacional na Europa. Há três anos, eu conheci em um colóquio o seu Ministro da Educação, que é físico. Dois anos depois, lançamos o primeiro projeto piloto, que está sendo adotado em 10% das escolas públicas do país. Focamos a disciplina, no caso dos estudantes do ensino médio, em probabilidade e estatística e mudamos o sistema de avaliação. Os alunos aprendem a resolver questões reais, como, por exemplo: as meninas são melhores em matemática? Minha estatura está na média? Estamos conversando também com a Irlanda e com a Austrália.
P. Já tentou oferecer o seu programa a escolas inovadoras do Reino Unido?
R. O colégio frequentado pela minha filha, que tem 13 anos, modernizou a disciplina de história. Na nossa época, costumávamos decorar datas e fatos históricos. Agora, o foco está em como pesquisar. O seu primeiro trabalho foi analisar a história da própria escola. O currículo de matemática, porém, continua intocado e estancado. A barreira fundamental, para as escolas, é o diploma; atingir os padrões de conhecimento predeterminados para poder entrar na faculdade. Um fato chama atenção: temos detectado que os países que ocupam as melhores posições no PISA são aqueles que estão mais abertos às mudanças, enquanto os outros, como no caso da Espanha, que está estagnada há 15 anos na mesma posição, são mais resistentes a elas.

A barreira, para as escolas, é o diploma; atingir os padrões para o aluno poder entrar na faculdade

P. A palestra na TED de 2010 marcou uma virada em sua carreira?
R. Trabalhei durante mais de 30 anos com meu irmão em nossa empresa de software Wolfram Research, que tem sede em Illinois, nos Estados Unidos, e conta com cerca de 500 funcionários. No mesmo ano da palestra na TED, eu montei um pequeno departamento em Oxford, com umas 30 pessoas, dedicado exclusivamente a repensar a disciplina da matemática. Nosso lema é redesenhar a matemática reconhecendo a existência dos computadores. A ideia surgiu a partir de um serviço que oferecíamos para a Apple, especificamente para a Siri, o seu sistema de busca por meio de reconhecimento da voz. Se você questiona esse sistema a respeito de qualquer operação matemática complexa, em segundos ele o remete para nós. Foi então que me perguntei por que obrigamos os estudantes a dedicarem tantos anos de suas vidas a aprender o que um telefone resolve em poucos segundos.
P. Acredita que os governos dariam mais atenção às reformas que o senhor propõe se ela partisse de uma grande universidade, com Cambridge, por exemplo?
R. Hoje em dia Cambridge, Oxford, Harvard ou o MIT são organizações comerciais, que buscam o lucro tanto quanto qualquer empresa. Os governos precisam refletir sobre isso e não retirar credibilidade de uma iniciativa determinada só porque ela não vem de uma universidade. O que os paralisa é a falta de evidências, e eles acham que não fazer nada é menos arriscado do que experimentar novos métodos. O sistema educacional está em falta cada vez mais com os estudantes, e isso se explica pela falta de perfis STEM (sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Os jovens precisam ver alguma utilidade neles: ter habilidade para diferenciar uma boa hipoteca ou o ceticismo suficiente para questionar as estatísticas divulgadas pelo Governo. A falta de motivação é uma das grandes tragédias da matemática. (EL PAÍS de hoje)