"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 31 de dezembro de 2017

Cada dia mais transtornadas... Ou: da autofagia ao filicídio... e da placenta ao bebê... é só uma questão de signo e de apetite...

Estudo mostra que ingestão de placenta tem pouco efeito no humor pós-parto





Comer a placenta é comum em algumas culturas e espécies de animais. Mas após celebridades, como a socialite e atriz norte-americana Kourtney Kardashian e a culinarista brasileira Bela Gil, terem revelado ser adeptas da placentofagia, a prática ampliou fronteiras e chamou a atenção de cientistas. Um grupo da Universidade da Nevada, nos Estados Unidos, porém, defende que é preciso ter cautela. A pesquisa conduzida por eles mostra que a ingestão de cápsulas de placenta tem pouco ou nenhum efeito no humor pós-parto, na fadiga e na ligação materna com o bebê, benefícios disseminados por praticantes e curiosos. Detalhes do trabalho foram divulgados recentemente na revista Women and Birth.

A autora, Sharon Young, e sua equipe realizaram o estudo com 27 mulheres saudáveis, recrutadas durante a gravidez e separadas em dois grupos: 12 tomaram as cápsulas de placenta e 15 compuseram o grupo placebo, que ingeriu pílulas de mentira. As voluntárias encontraram-se com os pesquisadores quatro vezes durante a gestação e o pós-parto e responderam a questionários sobre humor, energia, suporte social e ligação com o bebê.

“Nos dois primeiros encontros, elas não tomaram o suplemento de placenta ou o placebo, para que pudessem ser coletados  sangue, saliva e os dados do questionário. A partir do segundo encontro, as participantes começaram a tomar os comprimidos”, conta Sharon Young, que destaca que nem as participantes nem os pesquisadores sabiam qual suplemento a gestante estava tomando até o fim do estudo.
Ao comparar os dados dos dois grupos, a equipe identificou que não houve diferenças significativas nas concentrações de hormônio materno ou no humor pós-parto entre eles. Para Sharon Young, embora o estudo não ofereça suporte a favor ou contra o consumo de placenta, ele dá luz ao assunto com os primeiros resultados de uma análise clínica sobre os impactos da ingestão de cápsulas desse órgão no humor, na energia e nos hormônios após o parto.

Geralmente, as mulheres comem a placenta em cápsula ou em estado bruto. No primeiro caso, esse órgão humano é seco, transformado em pó e encapsulado. No segundo, não há intervenções do tipo. Há mães que misturam a placenta com outros alimentos e os ingerem e aquelas que, como outros animais, praticam a placentofagia imediatamente após o parto.

Para Fernando Reis, pesquisador na área de hormônios placentários e professor do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o fato de existir um comportamento na natureza animal não significa que ele seja adequado para humanos. “Os vendedores do produto alegam que ele serve para repor nutrientes e hormônios. Todavia, os nutrientes podem ser repostos de forma mais natural e prazerosa e a custo mais baixo por meio da alimentação”, explica.


Riscos no preparo

Segundo o professor, os hormônios da placenta não precisam ser repostos e, se precisassem, haveria formas mais precisas e seguras de administrá-los. Há ainda, de acordo com ele, o risco de contrair agentes infecciosos que contaminam a placenta durante o preparo das cápsulas. “O Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos recomenda que se evite a prática pelo risco de contaminação”, complementa. Fernando Reis destaca ainda que estudo americano foi realizado com o melhor método científico para testar o efeito de tratamentos: o ensaio clínico com alocação aleatória de participantes, duplo-cego e controlado por placebo.

De acordo com Lizandra Paravidine, chefe da Unidade Materno-Infantil do Hospital Universitário de Brasília (HUB), os defensores da prática afirmam que a placentofagia promove a prevenção da depressão pós-parto, o aumento da produção do leite, o aumento da energia e disposição da mãe e a diminuição de sangramento pós-parto. Contudo, ressalta a especialista, esses efeitos benéficos não foram comprovados cientificamente, assim como não há certeza se as preparações para o consumo não alteram a composição e a quantidade de hormônios e nutrientes presentes na placenta.

Autora de um estudo sobre a percepção das mulheres sobre o ato de comer a placenta, Stephanie Schuette diz que, como a pesquisa conduzida por Sharon Young foi feita principalmente com mulheres caucasianas, tipo físico geral de algumas populações da Europa, ela não pode ser generalizada para mulheres de outras culturas. “Mais pesquisas empíricas são necessárias para validar a crença de que a placentofagia pode ser protetora contra a depressão pós-parto e os outros benefícios descritos pela prática”, defende a doutoranda em psicologia clínica na Universidade de Duke, nos Estados Unidos.

Segundo Sharon Young, o estudo conduzido por ela e a equipe sinaliza outras áreas que devem ser exploradas. “Por exemplo, os pequenos impactos, embora não robustos, em mulheres que tomam as cápsulas de placenta, além de pequenas melhorias no humor e na fadiga desse grupo”, lista. “Pesquisas mais completas são necessárias para descobrir até que ponto essa prática pode oferecer algum tipo de efeito terapêutico.”

* Estagiária sob a supervisão da subeditora Carmen Souza

Defesa e festa

Chamado de placentofagia, o ato de comer a placenta é praticado pela maioria dos animais mamíferos e alguns herbívoros. Geralmente, os bichos fazem isso para não deixar rastros do nascimento dos filhotes, evitando a ação de predadores. Entre os humanos, é até motivo de comemoração. No norte da Califórnia e no Reino Unidos, há a chamada Festa da Placenta, em que se prepara uma refeição com o órgão, compartilhada entre os convidados. Na medicina tradicional chinesa, a placenta humana também é utilizada como ingrediente. (Publicado no Correio Braziliense de hoje)

sábado, 30 de dezembro de 2017

Mientras tanto...

Hoje a festa é sua.., hoje a festa é nossa... é de quem quiser....

Como dizia um pensador anônimo: "Quem quiser ter certeza de alguma coisa neste hospício, que feche os olhos e que caminhe tateando na escuridão..."


...E o populacho, animista, bobalhão, vaidoso e ignorante, toma uns tragos, compra dois ou três rojões dos mais perigosos, daqueles que podem estourar-lhe os tímpanos e arrancar-lhe uma das mãos, pendura os trapos nas janelas e, acreditando que tem alguma coisa a ver com esse embuste festivo das rebarbas monárquicas, mesmo sabendo que o ANO QUE TERMINA foi uma desgraceira sem fim fica gritando para quem passa: Feliz ANO NOVO! 
Sim, é cultural! Sim, é universal! Sim, é civilizatório! Sim, é fraternal! Sim, é para unir a família! Sim, é cristão e ocidental! Sim, as palavras são como cortesãs! Não querem dizer nada! São só um vício! Uma transação entre náufragos! Uma espécie de mugido! Feliz Ano novo! E com prosperidade! resmungam os beatos da Sheicho-no-ie e os do Reino de Deus! Sim, eles que só se hospedam no Hilton. Aliás, quem nunca se hospedou num Hilton ou num Sheraton não sabe nada de nada, muito menos de luta de classes e pensará e terá sempre uma visão enviesada das coisas e do mundo...
Feliz Ano Novo! A frase escapa pelas janelas das mansões e cai sobre a plebe da rua ou dos cortiços como uma esperança! Uma promessa da Casa Grande sobre a miserável senzala, sem voz e travestida de luzinhas e de abraços... a geladeira, comprada em 178 prestações, vazia e transformada num minúsculo armário... Saravá! 
Feliz Ano Novo!? Mas... o número de homicídios no mês de natal triplicou! As estradas estão repletas de carros despedaçados e de cadáveres! Ontem mesmo esfaquearam uma adolescente. Enforcaram uma velha! Metralharam um morador de rua! Encontraram sete ou oito bebês nas lixeiras. As filas desta manhã nos pronto-socorros, quem as viu, pensou que o país estivesse em guerra. A padaria da esquina faliu! O Museu do Divino, em Pirinópolis teve que ser transformado em cadeia para abrigar de emergência novos hóspedes! Os agricultores, mesmo os que estão na faixa da miséria e que vão comungar-se todos os domingos, continuam turbinando seus pimentões, tomates e até o mamão com inseticidas mortais! As mesmas máfias, não apenas do ano que passa mas das décadas anteriores estarão de volta também no ANO NOVO.  De quê felicidade e de quê prosperidade se está falando afinal? Como ser cúmplice dessa fraude e dessa farsa?
Feliz ano novo! Me deseja um velhinho esfarrapado que há 50 anos caminha sem rumo e em desespero aqui pela cidade. Seguramente não estará mais por aqui no ano que vem. E por falar em velhinhos, aquele do Parkinson avançado continua ali na rodoviária balançando descontroladamente os braços. Nem consegue segurar as moedas que algum farsante, para aplacar sua própria culpa, tenta depositar-lhe nas mãos... O circo é geral! A espécie estrebucha! Busca a qualquer preço uma alívio, um engano, um ópio, uma mentira para seguir adiante... E isto sempre me lembra a frase que ouvia quase obsessivamente lá na minha infância: povera gente!
FELIZ ANO NOVO! Vamos beber uma taça em homenagem a todos os canalhas e cantar, todos juntos, otimistas, de mãos dadas, histéricos e felizes: "Hoje a festa é sua... hoje a festa é nossa... é de quem quiser!!!" 
Bah! Que cinismo e que miséria!

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Eliane Brum: Bela, brilhante e colérica... Ou: de la ansiedade al método...




COLUNA

As mulheres que dizem não

Nem tudo foi retrocesso em 2017: há algo importante que se move e não é para trás




Mulheres protestam contra PEC 181 que pode criminalizar o aborto, na Avenida Paulista, em novembro de 2017
Mulheres protestam contra PEC 181 que pode criminalizar o aborto, na Avenida Paulista, em novembro de 2017 AGÊNCIA BRASIL




Ele estava lá, o homem perplexo. Ele tinha dito qualquer coisa como “gostosa” para uma jovem mulher. E ela tinha mostrado o dedo, bem na sua cara. Tipo “te liga”. Ele explicava que aquilo não era abuso, era cantada. E a cada vez que explicava parecia encolher de tamanho. Acostumado ao topo da cadeia alimentar por quase toda uma vida, porque ele já era um velho, ele não conseguia compreender porque os lugares haviam mudado. Ele não podia mais fingir que era desejado, ele não podia mais dizer o que queria, e por fim ele desabafou que não era capaz de viver num mundo em que uma mulher não gostasse de ser chamada na rua de gostosa por um homem como ele. De repente, ele tinha ficado muito mais velho. E perguntava: mas por quê? E tenho certeza de que ele não estava blefando. Ele não sabia. Porque por tempo demais não precisou saber. E agora precisa. Naquele exato momento, aquele homem perdeu o último pinto que ainda ficava duro. E não tinha a menor ideia sobre como alcançar potência sendo o que não sabia como ser.
De tantas cenas fortes deste ano, a minha foi essa pequena, quase despercebida. Um desacontecimento que desvela um acontecimento feito onda.
Há uma brutalidade objetiva no que vivemos, no Brasil e em boa parte do mundo, que se acentuou ainda mais em 2017, neste período da história que talvez possa ficar conhecido como a paródia que ele também é, a da boçalidade do mal. E como já sabemos, em fases assim os anos não terminam nem começam, apenas se emendam, e a boçalidade do mal acordará em 2018 tão boçal quando dormiu em 2017. Possivelmente sem sequer saber de si, porque é constitutivo dos boçais ter certeza sobre tudo, inclusive sobre aquilo que menos conhecem, que é sobre si mesmos. Quem sabe de si tem dúvidas enormes, acorda sobressaltado à noite duvidando do seu próprio rosto. Os boçais jamais as têm, pensam que a máscara que colaram é sua única face e repetem muito a palavra “verdade”.
Não é preciso fazer aqui a retrospectiva de nossos horrores. Nós os conhecemos, eles se imiscuíra como parasitas íntimos, aproveitando-se das fissuras que eles mesmos abriam na nossa pele e foram nos sugando a alegria. Mas há uma outra tessitura, uma que se costura numa camada abaixo dos acontecimentos, e que nos aponta onde está a vida e a possibilidade. Há algo que se move – e não é para trás.


Não é possível ejacular nas mulheres em nenhum meio de transporte

As mulheres riscaram o chão. Com as unhas. Não é um de repente, é um processo. Mas algo emergiu com força, também por conta da facilidade de mobilização das redes sociais que, se destroem – e destroem –, também rompem. E fazem irromper. E quando escutamos o que nós mesmas dizemos, quando nos escutamos, é chocante que tenha sido preciso dizer.
Não, não é possível ejacular em nós nos ônibus, nos metrôs e nos aviões. Está vetado ejacular em nós em qualquer meio de transporte. Não, não é possível passar a mão na nossa bunda nas ruas ou nos corredores das firmas. Nem dar tapinhas. Não, não é possível dizer que a mulher é a parte chata da buceta ou fazer qualquer outra piada machista em festas ou em qualquer lugar. Não, não é possível mostrar o pinto quando passamos nem nos olhar de cima abaixo como se quisesse nos lamber. Não, não é possível nos chamar de gostosa ou emitir qualquer comentário sexual no espaço público. Não, não é possível dizer que “é das novinhas que eles gostam mais” nem que “panela velha é que faz comida boa”. Não é possível. Acabou.
Um não é um não. Não é um sim disfarçado, não é não mesmo. E um homem terá que ser mais sensível, se esforçar mais, para entender quando há consentimento para olhares e para aproximações e para sexo. Um homem, se ainda não sabe, porque muitos já sabem, terá que aprender a escutar melhor. Não é tão difícil assim, desde que se compreenda algo muito simples: um não é um limite inultrapassável.
E isso vale para os estranhos, isso vale para os amigos, isso vale para os solteiros, para os casados, para os que escolheram o poliamor. Isso vale.
Isso vale para a direita e vale para a esquerda. Isso vale.
Com consentimento, pode experimentar todas as fantasias, até a de não ter consentimento. Sem consentimento, não pode nada. Mas. Há um mas. Se em qualquer momento a mulher mudar de ideia e quiser parar, o consentimento vira um não. E um não é um não.


O homem podia ser abusado pelo patrão ou abusado pelo branco, mas havia uma mulher que ele abusava depois

Não pode bater em mulheres. Não pode assediar e abusar de mulheres. Não pode violentar mulheres.
Não pode matar mulheres.
Entendo que, para um homem que sempre pôde tudo, porque em qualquer classe social e em qualquer raça os homens sempre puderam mais, parece difícil. O homem podia ser abusado pelo patrão ou abusado pelo branco, mas havia uma mulher que ele abusava depois. Em alguma instância da sua vida ele tinha esta outra a quem poderia impor sua vontade, subjugar. Assujeitar. Arrebentar. Um dia matar.
Está terminando o autoconsentimento tácito do homem sobre a mulher, produzido pelo silêncio, pelo preconceito, pelo domínio ainda masculino das instituições. Produzido como direito de nascença, que vinha junto com o pinto. Produzido pelo discurso do “ela provocou”, “ela estava pedindo”, “ela usava saia curta”, “ela tinha aquele decote”, “ela andava na rua tarde da noite”, “ela no fundo queria”. De nossos desejos só nós sabemos. Mas eventualmente podemos contar. E estamos contando. Basta escutar.


Para quem sempre monopolizou o poder, é difícil dividir o poder: para alguns é o privilégio de falar sozinho que está em risco

Quem pensa que está cada vez mais difícil ser homem, com mulheres que dizem não, tem razão. Deve ser bem difícil dividir o poder para quem sempre monopolizou o poder. E para alguns é o poder de falar sozinho que está em risco. Para alguns dos mais envernizados pela educação formal e pelos livros, o que dói mais é a perda do privilégio de ser a única voz na sala, na mesa do bar, nas livrarias. No palco.
E há algo que dói ainda um pouquinho mais, que é a perda do privilégio de se achar tão bacana, tão moderno, tão cosmopolita, até um pouco feminino. E então chega uma mulher – uma mulher! – e diz: seu rosto, este que você vê no espelho, não é o mesmo que eu vejo. E, olha, você não é tão importante assim, você não está aí rompendo paradigmas com seu discurso, seus posts name-dropping não nos impressionam. Quem está quebrando paradigmas são estas mulheres juntas, andando de mãos dadas pelas ruas.
Aí os envernizados, sentindo-se atacados em seus privilégios de homens e de brancos e de esquerda, adaptam o discurso dos toscos, daqueles que têm menos repertório para atacar. As mulheres então não são mais “as loucas”, “as histéricas”, aquelas “em TPM permanente”. Dizer isso seria se expor em demasia. A ideia de que enxerguem sua brutalidade os horroriza, é preciso exercê-la com palavras melhores e com referências, muitas referências, para encobrir a violência do discurso. Os “esquerdomachos”, uma das palavras mais interessantes que se consolidou em 2017, são sofisticados demais para dizer isso. O que eles dizem então, empacotando suas teorias em esperma e citações?
A mulher que conquistou espaços de poder e de fala, apesar de todo o machismo vigente, quando aponta privilégios de gênero e de raça “não entende os conceitos”, “nomeia erroneamente os fenômenos”, “é incapaz de debater”, “estava indo bem, mas perdeu-se”, “em vez de pensamento têm compaixão”, sua ignorância os constrange.


Uma mulher envelhecer virou não só sinônimo de perda de beleza e de potência num mundo masculino, mas também “velha” virou palavrão

Os esquerdomachos arrancam frases do contexto, o que é uma forma de violência no debate público. Deslocam imagens também do contexto. Para ilustrar seus posts, buscam fotos em que a mulher parece raivosa, talvez porque estivesse falando sobre genocídios quando a fotografia foi tirada e jogada na internet. O carimbo machista do momento é justamente mostrar como as mulheres se tornaram “agressivas”, “raivosas”, “violentas”. E nada mais instantâneo que a imagem para “provar” esse “fato”. Vale tudo para exercer a misoginia sem parecer exercer a misoginia. O desonesto fala de honestidade, o sem ética fala de ética.
E então, sentindo cheiro de sangue, os lambaris acreditam que são tubarões, autorizam-se e acusam: “Sua velha!”. Porque uma mulher envelhecer virou não só sinônimo de perda de beleza e de potência num mundo masculino, mas também “velha”, uma palavra tão rica de sentidos e de experiências, passou a ser usada como palavrão. Ou outro clássico: “Espero que você morra de câncer, sem nem mesmo paracetamol para aliviar a dor!”. E, para não deixar dúvidas, passam a perseguir a mãe, a filha, as mulheres que aquela a ser destruída ama.
O truque já é um clichê. As mulheres, que passaram a vida de violência em violência, percebem a obviedade do propósito na primeira linha.


Em 2018 teremos que andar juntas, de mãos dadas, também com os homens capazes de escutar e de dialogar de igual para igual

Os direitos das mulheres sobre o seu corpo seguirão sendo atacados em 2018. Os direitos às suas mentes, também, mas de formas mais capciosas. Em ano eleitoral, e numa eleição nebulosa como a que temos pela frente, o corpo das mulheres é convertido em moeda. Todas as formas de controle sobre nossos corpos, das mais evidentes, como a criminalização do aborto até em casos hoje permitidos pela lei, às mais sutis, como nos converterem em insanas ou em burras ou em raivosas, estará valendo.
Mais do que nunca teremos que andar juntas, de mãos dadas, também com os homens capazes de escutar e de dialogar de igual para igual. E andar juntas é também escutar, porque o “outro” tem o direito de problematizar tanto quanto “eu”. O direito que não tem é o de desqualificar a pessoa, em vez de enfrentar o seu argumento com argumentos. A premissa de qualquer diálogo é o respeito pelo interlocutor, mesmo que se divirja de suas ideias. Que venham mais livros com cada vez mais vozes e mais diferenças. E que os textos que buscam silenciar argumentos que perturbam sejam apenas esquecidos.
Nos Estados Unidos o ano começou com a marcha das mulheres contra Trump e termina com o barulho dos corpos dos abusadores caindo de seus postos em Hollywood. Mesmo que um homem seja um superpoderoso de uma das indústrias mais lucrativas, já não pode mais assediar, abusar, estuprar. No Brasil, alguns passos começam a ser ensaiados nesse sentido. Se as brasileiras romperem o silêncio sobre o que acontece nos bastidores de grandes empresas e também de redações da mídia, em universidades e coxias, algo por aqui vai se mover um pouco mais.


O homem branco e heterossexual que ainda não compreendeu que terá que dividir poder e perder privilégios já começa a pagar um preço alto

Pelo menos dois fatos possivelmente inéditos marcaram 2017: a Globo, maior rede de comunicação do país, afastou um de seus principais galãs de novelas por assédio sexual e rescindiu o contrato com um de seus jornalistasmais conhecidos por um comentário racista que se tornou público. São dois fatos de um Brasil que se move – e não é para trás.
Essa é a tessitura, de camada mais profunda, feita pelos feminismos – e também pelos movimentos negros e pelos movimentos LGBTQ. Essa segue, persiste, se complexifica, avança. Há muito para conquistar, uma enormidade. Ainda vivemos a boçalidade do mal da direita à esquerda. Mas o homem branco e heterossexual que ainda não compreendeu que terá que dividir poder e perder privilégios já começa a ser enfrentado. E o custo começa a aumentar.
De certo modo, este ano, que não começou em janeiro de 2017 nem acabará em 31 de dezembro, se iniciou com um retrato. O retrato de grande poder simbólico do primeiro ministério de Michel Temer: branco e masculino. E com a mulher relegada ao papel de primeira-dama “bela, recatada e do lar”, enquanto parlamentares, empresários e jornalistas, especialmente jornalistas, produziam textos e comentários embasbacados com a beleza e a juventude de “dona Marcela” e com a potência de Temer, construindo a paródia de um folhetim de Nelson Rodrigues com efeitos na narrativa política. Há todo um imaginário dos sentidos deste casal presidencial e de seus papéis, que produziu impactos na crônica de Brasília, e que ainda precisa ser desvelado para a melhor compreensão desse momento histórico.
Talvez, no campo das simbologias, seja interessante observar que 2017 termina com o marido de dona Marcela governando o país com uma sonda na uretra.(Que venha 2018! Eu volto a esta coluna em 12 de fevereiro. )
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.comEmail:elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook:@brumelianebrum

domingo, 24 de dezembro de 2017

Eis aí o que a civilização conseguiu produzir de melhor em 2 mil anos de parvidade, de lero-lero, de sofrimentos e de desgraças... Povera gente!!!















"A vida é um parque de diversões no qual metade dos carrosséis não funciona e outra metade só produz emoções medíocres..."W. Allen...

Woody Allen: “Se destruírem meus filmes, para mim tanto faz” (No jornal Elpaís, de ontem)


Para Woody Allen (Nova York, 1935), a vida é um parque de diversões no qual metade dos carrosséis não funciona e a outra metade produz emoções muito menos intensas do que se esperava. Seu novo filme, Wonder Wheel, reúne quatro personagens desesperados na Coney Island dos anos cinquenta, a grande feira junto à praia do Brooklyn na qual passou parte de sua infância. A entrevista acontece em um hotel de luxo em Paris. Nela, está terminantemente proibido mencionar os escândalos sexuais que abalaram Hollywood recentemente, revelados por seu próprio filho, Ronan Farrow, com quem há anos está brigado. “Nem Harvey Weinstein, nem Kevin Spacey, nem Oliver Stone”, insiste seu assessor de imprensa antes de nos deixar entrar no quarto, ameaçando interromper a entrevista no momento em que deixarmos de falar do filme. Mas não fala nada sobre as consequências que esse novo clima pode ter em relação a sua obra. Abalado pelas graves acusações que sempre desmentiu, será que Woody Allen deixará de ser um intocável da sétima arte?
Pergunta. Por que escolheu um parque de diversões como pano de fundo?
Resposta. É um lugar cheio de sustos fáceis e falsas aparências. Meus personagens vivem do outro lado do cenário desse grande espetáculo de magia. Eles sabem no que consistem seus truques baratos. Quando são vistos sobre o palco parecem maravilhosos. Mas, sob a superfícies, você descobre que são insossos e que não têm nenhum glamour...
P. Você parece usar isso como metáfora da própria vida.
R. A única diferença é que a vida costuma ser tão feia por fora quanto é por dentro. Poucas coisas escapam a essa regra: um punhado de obras de arte, certos momentos vividos com outras pessoas e alguns instantes encantadores, heroicos ou românticos... Mas não são muitos. A maior parte é só um fardo.
P. Seu filme se inspira em Tennessee Williams e Eugene O’Neill. O que aprendeu com eles?
R. Que é fascinante observar personagens em crise. Quando nos interessamos por eles, pode ser que aprendamos alguma coisa sobre a vida. Mas desde que consigamos sentir alguma coisa...
P. “Obcecado por um conto de fadas, passamos a vida procurando uma porta mágica que nos leve a um reino perdido de paz”, escreveu O’Neill. Você concorda com isso?
R. Sim, ele tinha razão. Passamos a vida esperando que aconteça algo que, pela arte da magia, mude tudo para melhor. Na verdade, a vida costuma mudar para pior. Acreditamos que vamos ganhar na loteria, que nos darão o trabalho de nossos sonhos ou que conheceremos a pessoa perfeita, que conseguirá acabar com nosso casamento horroroso. Mas até quando isso acontece, você acaba se dando conta de que está diante de algo muito pior. Em certo momento, se pergunta para onde vai e entende que só ficará velho e morrerá. No sentido existencial, não se resolve nada.
P. Então, perseguir a felicidade é coisa de idiotas?
R. Não me parece grave, desde que se saiba que não faz qualquer sentido. Enquanto tudo isso durar, sempre é melhor ser feliz do que desgraçado. É melhor ser um homem rico, com boa saúde e uma relação sentimental agradável do que um sujeito amargurado, sem teto e sem amigos. O problema é que, no fim, os dois acabarão enterrados no mesmo cemitério...
P. Este filme, assim como o anterior, Café Society, fantasia a vida que poderíamos ter tido e não tivemos.
R. É algo que autores como Tchecov ensinaram, que sempre fala de personagens que aspiram a que tudo seja diferente. Mas nunca é, porque carregam dentro de si a semente da infelicidade...
P. Você fantasia com outras vidas? O que gostaria que tivesse sido diferente?
R. Teria gostado de não me limitar por certos defeitos do meu caráter. Teria gostado de ser menos covarde, mais disposto a me aventurar, menos hipocondríaco. Mais livre...
P. Wonder Wheel é um estudo sobre o “erro trágico”, esse defeito de caráter que, na tragédia grega, provoca a queda do herói. Qual seria o seu?
R. Meus defeitos não chegam a ser trágicos. No máximo são patéticos. Sou nervoso, míope, fechado, antissocial, desconfiado... Poderia continuar o dia todo...
P. Sua protagonista, essa atriz em decadência interpretada por Kate Winslet, se vê carcomida pelo remorso. Do que você se arrepende?
R. Tenho muitos remorsos, apesar de que talvez não sejam os que os outros acreditam. Teria gostado de continuar estudando. Teria gostado de tomar decisões artísticas diferentes. Teria gostado de ser mais decidido com certas mulheres, para conseguir conhecê-las, sair com elas e viver experiências bonitas...
P. O que lamenta no artístico?
R. Teria preferido ser menos comercial quando comecei. Na época me incitaram a ser cômico. Minha carreira teria sido mais difícil, mas lamento não ter tido a coragem de fazer o que tinha em mente.
P. Lamenta ter sido divertido em excesso?
R. Não, também não, porque o humor salvou minha vida. Não sei com que trabalharia se não fosse divertido. Mas gostaria de ter estudado poesia e me transformado em poeta... Meu humor foi bastante escapista, como uma pátina de entretenimento. Gostaria de ter feito mais tragédia, porque é sempre mais beligerante.
P. Lamenta ter feito algum filme?
R. Não posso dizer isso, mas existem filmes que gostaria de ter feito melhor. Lamento ter dito sim a Crisis in Six Scenes [sua minissérie para a Amazon]. Foi mais difícil do que eu imaginava. Não acho que voltarei a fazer televisão, a não ser que pense em algo sensacional.
P. Há anos, quase todos os seus filmes são protagonizados por mulheres? Qual é o motivo?
R. Eu me acostumei a trabalhar assim desde que comecei a escrever para Diane Keaton. De certa forma, são mais complexas do que os homens. Os homens têm menos dimensões. Nos filmes norte-americanos costumam ser somente brutamontes armados. As mulheres vivem, sentem e expressam mais coisas. Quando se pretende falar das emoções da vida, as mulheres tornam o trabalho mais fácil.
P. Nesse sentido, sua psicologia é mais feminina do que masculina?
R. Sim, existe um elemento feminino nela. Tenho certeza disso. Quando você o tem, tem mais empatia com as mulheres.
P. Pela primeira vez desde Roosevelt, um nova-iorquino ocupa a Casa Branca. Como avalia Trump?
R. É ridículo. Não entendo porque ele quis ser presidente. Está claro que não é algo que ele saiba fazer. Uma vez saiu em um de meus filmes [Celebridades]. Naquele tempo ele se dedicava a jogar golfe e ir a concursos de beleza. Não sei o que ele não entende da escalada nuclear com a Coreia do Norte e da luta contra a mudança climática. Como disse P.T. Barnum, pioneiro do circo no século XIX, nunca devemos subestimar o gosto do público norte-americano. Não é um público muito sofisticado...
P. A filmagem de Vicky Cristina Barcelona completa 10 anos. Acompanha a situação política na Catalunha?
R. Sim, um pouco. Nunca consegui entender a intensidade do sentimento catalão em relação à independência. Agora leio que é uma questão financeira. Quando pensamos na Espanha, não conseguimos imaginar um país sem Barcelona. Certamente têm suas razões, mas é triste que queiram a separação. Espero que possam resolver essa questão e que a Espanha continue sendo o grande país que sempre foi.
P. A posteridade lhe preocupa? No contexto atual, como acha que a História irá tratá-lo, o senhor e seus filmes?
R. Não sou alguém que se preocupa por seu legado. Não me importo com o que as pessoas possam achar de mim e de meus filmes. Quando estiver morto, o único valor que terão será como fonte de renda para meus filhos. Se não precisarem do dinheiro, que os peguem e os destruam em uma trituradora de papel, não me importo... Quando eu partir, acabou.
P. O que responderia aos espectadores que, de um tempo para cá, se negam a ver seus filmes?
R. Acho perfeitamente legítimo. Existem pessoas que gostam e outras que não. Eu também tenho meu gosto próprio. É um sentimento totalmente aceitável.
P. O que pensa em fazer após essa entrevista?
R. Irei ver uma exposição sobre Gauguin. Sua história é interessante: quando chegou ao Taiti, descobriu que o paraíso não era tão belo como havia imaginado, de modo que decidiu embelezá-lo em seus quadros. Mas isso não evitou que acabasse morrendo de sífilis...