"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 30 de março de 2014

Com a anexação da Ucrânia o que aconteceu com elas? Canta Lhor and Dariya Kuhaykevch


O mendigo poeta das ruas de São Paulo...

No princípio deste mês todo mundo viu o escarcéu que a mídia fez com o "Mendigo poeta"que uma boa samaritana resgatou das fétidas ruas de São Paulo onde o moço vivia há mais de trinta anos sabiamente administrando seus jejuns, suas insônias e seus temores sem grandes escândalos. Por seus rabiscos dá para deduzir que não é lá um Heine e nem um Strindberg, mas o espírito filantrópico dominante com o pretexto de que a família é sempre o melhor lugar do mundo achou melhor arrancá-lo do anonimato e devolve-lo para suas origens e para as neuróticas tertúlias das 17:00 horas, mesmo correndo o risco de interromper e mudar definitivamente seu destino de "poeta maldito"para o de petimetre das 17: 00 horas.. Não é necessário voltar a demonstrar que o abismo existente entre um homem da rua e um "bom burguês"é intransponível, independentemente dele ser um poeta ou não. Aliás, ultimamente, quando me falam em poesia penso logo naquela crítica de Fialho D'Almeida: a poesia como uma doença de pele recolhida. "meu cãozinho não parava de latir. Dei-lhe um purgante e se acalmou. Eis aí os inconvenientes de se não dar sal amargo aos bacharéis..."

sábado, 29 de março de 2014

Revisitando Memórias do subsolo....

Quando quero ler algo com prazer, volto sempre a Dostoiévski. Hoje reabri as páginas 16,17 do livro Memórias do subsolo. onde se pode ler: "não consegui chegar a nada, nem mesmo tornei-me mau: nem bom, nem canalha, nem honrado nem herói, nem inseto. Agora, vou vivendo os meus dias em meu canto, incitando-me a mim mesmo com o consolo raivoso - que para nada serve - de que um homem inteligente não pode, a sério, tornar-se algo, e de que somente os imbecis o conseguem. Sim, um homem inteligente do século XIX precisa e está moralmente obrigado a ser uma criatura eminentemente sem caráter, e uma pessoa de caráter, de ação, deve ser sobretudo limitada. Esta é a convicção de meus quarenta anos. Estou agora com quarenta anos; e quarenta anos são, na realidade, a vida toda; de fato, isto constitui a mais avançada velhice. Viver além dos quarenta é indecente, vulgar, imoral! Quem é que vive além dos quarenta? Respondei-me sincera e honestamente. Vou dizer-vos: os imbecis e os canalhas. Vou dizer isto na cara de todos esses anciães respeitáveis e perfumados, de cabelos argênteos! Vou dizê-lo na cara de todo mundo! Tenho direito de falar assim, porque eu mesmo hei de viver até os sessenta! Até os setenta! Até os oitenta!... Um momento! Deixai-
me tomar fôlego...

quinta-feira, 27 de março de 2014

percam todas as esperanças, estamos todos dentro do inferno... (Entrevista com Marcola? Ou texto do Jabor?



O GLOBO: Você é do PCC?

- Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível… vocês nunca me olharam durante décadas… E antigamente era mole resolver o problema da miséria… O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias… A solução é que nunca vinha… Que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a “beleza dos morros ao amanhecer”, essas coisas… Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo… Nós somos o início tardio de vossa consciência social… Viu? Sou culto… Leio Dante na prisão…

O GLOBO: – Mas… a solução seria…

- Solução? Não há mais solução, cara… A própria idéia de “solução” já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma “tirania esclarecida”, que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (Ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC…) e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios…). E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução.

O GLOBO: – Você não têm medo de morrer?

- Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar… mas eu posso mandar matar vocês lá fora…. Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba… Estamos no centro do Insolúvel, mesmo… Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração… A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala… Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em “seja marginal, seja herói”? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha… Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né? Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante… mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem.Vocês não ouvem as gravações feitas “com autorização da Justiça”? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.

O GLOBO: – O que mudou nas periferias?

- Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$40 milhões como o Beira-Mar não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório… Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no “microondas”… ha, ha… Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados. Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.

O GLOBO: – Mas o que devemos fazer?

- Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas… O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, “Sobre a guerra”. Não há perspectiva de êxito… Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas… A gente já tem até foguete anti-tanques… Se bobear, vão rolar uns Stingers aí… Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas… Aliás, a gente acaba arranjando também “umazinha”, daquelas bombas sujas mesmo. Já pensou? Ipanema radioativa?

O GLOBO: – Mas… não haveria solução?

- Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a “normalidade”. Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco…na boa… na moral… Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês… não têm saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabem por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: “Lasciate ogna speranza voi cheentrate!” Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.

NOtícias e comentários semanais do grupo NU-Sol....



No Rio de Janeiro, na mesma semana em que seis pessoas morreram nos
territórios pacificados, Cláudia Silva
Ferreira, mulher de 38 anos, negra, mãe de oito filhos, foi alvejada por policiais, quando 
saía para comprar pão,
e teve seu coração e pulmão perfurados por um projétil. Como se não 
bastasse, ainda teve o seu corpo esfolado
pelo asfalto quente, ao ser arrastada pela viatura por quase quinhentos metros em
 uma avenida de Madureira.
Sobre o cadáver não faltaram laudos, exames, perícias e outras ciências que visam 
escamotear e justificar o
óbvio: Cláudia não morreu por
“laceração cardíaca e pulmonar de ferimento transfixante do tórax por ação
perfurocortante”. Assim como Amarildo e outros anônimos, essa mulher foi executada
 pela polícia, assassinada
pelo Estado.

Realizou-se no Brasil um congresso para empresários dos negócios sociais, voltado 
para a inovação e
tecnologias sociais de amortização da pobreza e sofisticação da segurança pública. 
O representante da
neoliberal
Open Society Foundations
declarou à mídia paulista que ações da polícia, como a que a arrastou o
corpo de Cláudia Ferreira, devem “escandalizar” a própria corporação. Fez coro ao 
atual mantra neoliberal de
regulamentação do mercado de drogas e pregou a cantilena da polícia mais humana.
Todos
devem lucrar!

A polícia é violenta, as prisões estão sempre superlotadas e funcionando como
 centros de tortura, porque o Estado
existe para zelar pela propriedade desses benevolentes empresários e de seus 
asseclas de fala mansa que
vivem do empreendedorismo da miséria...

terça-feira, 18 de março de 2014

Marcha da família com Deus...

[... O demônio pode citar as Escrituras para o seu propósito. Um espírito maligno que invoca testemunho sagrado é como um vilão com bochechas sorridentes...]
Shakespeare

No próximo sábado dizem que haverá em várias cidades brasileiras uma grande marcha intitulada Da família com Deus, marcha nos feitios daquela de 1964, contra o "comunismo" e que pede entre outras coisas, a volta dos militares ao poder. 
Comunismo? Devem estar loucos! 
Vivemos, com exceção daquelas regiões ainda em estado medieval, o mais descarado, o mais infame, o mais cretino e o mais caipira dos capitalismos onde, sob a batuta dos banqueiros e sob o pretexto da livre concorrência, do liberalismo e da oferta & procura superfatura-se tudo e se rouba de todas as maneiras...
Além disso, há outros equívocos, e muito graves, nessa empreitada. Família? Ora, no Brasil quase ninguém sabe nem sequer quem é seu avô. Os militares? Ainda nem sequer consequiram explicar todas as merdas que fizeram nos vinte ou trinta anos em que comandaram essa pobre nave, e Deus? Ora, Deus.., Segundo Dostoiévski e Nietzsche, está morto e segundo Richard Dawkins não passa de um delírio. 
Que a República está uma zona, está! Que a bandidagem política é a de pior qualidade, é! Que seria saudável uma limpeza geral, ninguém em sã consciência duvida! Que as cortesãs descenderam das alcovas e se infiltraram nos governos, isto é de conhecimento popular!... Que é necessário livrar-se desse modelo fajuto de república e inventar outras formas de administrar os países e as cidades, qualquer pessoa que pensa sabe... Agora.., achar que isto é comunismo, invocar a família, os militares e a Deus para essa incumbência?!, isso é coisa de quem está tomando os remédios em doses erradas...

domingo, 16 de março de 2014

Se meu cachorro comentasse Hegel e soubesse tudo sobre Max Nordau, já poderia ser considerado um filósofo?

Passei a manhã inteira deste domingo lendo Metafilosofia, livro/ tese de mestrado em filosofia (UnB) de Murilo Seabra, prefaciado pelo professor argentino Julio Cabrera, autor de Diário de um filósofo no Brasil.
 Um texto de tirar o chapéu. Um míssil de alto alcance lançado contra a pobreza, a mesmice e a mediocridade das escolas e dos departamentos de filosofia do país, lugar que, ao invés de ser naturalmente um "gerador" de filósofos não faz mais do que obrigar e domesticar os alunos a comentar e a decorar as ideias de [outros filósofos], quase sempre dos já canonizados pelo mercado editorial e pela máquina cult internacional, na maioria das vezes   europeus ou norte-americanos. Tente lembrar-se de já ter lido algo de um filósofo asiático, africano ou latino americano... Nenhum?! Um bom pretexto para recordar que de todas as "sacralizadas" instituições vigentes, - apesar do silêncio sepulcral dos mestres - a universidade é a que com mais urgência necessita ser revolucionada dos pés à cabeça. 
Sem autorização nenhuma do autor, publico cinco ou seis trechos da referida tese, trechos que poderão dar aos leitores uma ideia do que se vai encontrar nas trezentas e tantas páginas do referido trabalho:



I. Como os comentadores odeiam quem se atreve a sair do território do reescrever para entrar no território do escrever, quem se atreve a sair do território do repensar para entrar no território do pensar, quem se atreve a sair do território da repetição para entrar no território da inovação! Como eles odeiam quem se atreve a sair do território do comentar para entrar no território do filosofar! Como eles odeiam! Como eles odeiam! Trata-se de um ódio profundo... Trata-se de um ódio descomunal... Que fica muito bem escondido atrás de um ar de superioridade: "Você acha que está sendo original? Você só está repetindo o que outros filósofos já disseram! Você está apenas reinventando a roda!", atrás de conselhos aparentemente responsáveis: "Você deveria estudar mais a fundo a história da filosofia! Sim, você deveria estudá-la mais a fundo! É preciso primeiro conhecer o que já foi feito! Só depois você terá condições de saber se as suas ideias são realmente novas! Só depois você terá condições de oferecer uma contribuição verdadeiramente original, verdadeiramente própria", e atrás de uma metafísica assustadoramente fatalista: impossível ser original nos dias de hoje... Nos tempos de Tales, era possível... Nos tempos de Descartes, era possível... Nos tempos de Heidegger, era possível... Mas nos dias de hoje? Ah, é impossível! Tudo já foi escrito!': E o que ele está querendo é que você se conforme a fazer o que ele faz: o que ele está querendo é que você se conforme ao uso das funções de copiar e colar, CTRL+C e CTRL+ V. O que ele está querendo é que você não use a sua energia! O que ele está querendo é que você abra mão das suas forças reflexivas! O que ele está querendo é que você jamais coloque o seu intelecto para trabalhar a todo vapor! O que ele está querendo é que você estabeleça em seu horizonte um objetivo absolutamente medíocre: o de ser um mero comentador, apenas um mero comentador, nada além de um mero comentador. Pois ele estabeleceu para si mesmo um objetivo absolutamente medíocre: o de encontrar o seu próprio Deleuze e tornar-se mais um Roberto Machado! Pois ele estabeleceu para si mesmo um objetivo absolutamente medíocre: o de encontrar o seu próprio Spinoza e tornar-se mais uma Marilena Chauí! Tornar-se um comentador reconhecido, um comentador respeitado, um comentador imbatível: o que mais pode almejar um professor de filosofia brasileiro? Sim, os professores de filosofia brasileiros acalentam o sonho de serem eruditos. E eles querem que os estudantes acalentem o mesmo sonho: o de serem eruditos, apenas eruditos, nada mais do que eruditos.

II. Então, não se espante se o seu professor desdenhar das suas ideias! Não se espante se ele tratá-las com sarcasmo! Ele não quer que você faça o que ele não faz! Ele não quer que você mostre que consegue fazer o que ele não consegue fazer! 

III. Eu não tinha entrado no curso de filosofia para ficar desempoeirando os clássicos, eu não tinha entrado no curso de filosofia para virar um espanador - então, revoltei-me, revoltei-me, revoltei-me: e gritei todos os argumentos que consegui formular contra o fato de que os absurdos escritos pelos estudantes eram vistos de cima para baixo (isto é, com um olhar hipercrítico), ao passo que os absurdos escritos pelos filósofos de renome eram vistos de baixo para cima (isto é, com um olhar hipercondescendente). Gritei, gritei, gritei - até ficar rouco - contra aquilo que queriam fazer de mim: contra o fato de que eu não poderia optar entre ser um filósofo e ser um espanador - contra o fato de que eu precisava, ao contrário, optar entre ser um espanador e não ser nada dentro da academia.

IV. É importante escrever trabalhos acadêmicos! É importante escrever comentários! É importante escrever exegeses! É importante! De fato, não há nada mais importante aos olhos da academia... A maior parte dos professores de filosofia não está realmente interessada no que você pensa, não está realmente interessada nas suas ideias... Apenas em ver se você absorveu bem a matéria! Apenas em ver se você tem uma boa memória! Apenas em ver se você domina com destreza a arte de usar as funções CTRL+C e CTRL+ V! Sim, o que os professores de filosofia brasileiros de hoje fazem é apenas treinar os estudantes a usarem com destreza as funções CTRL+C e CTRL+V! Reescreva a filosofia de Wittgenstein usando as suas palavras! Ou a filosofia de Heidegger! Ou a filosofia de Deleuze! Ou a filosofia de Agamben! Explique as ideias deles! Mostre que você absorveu as descobertas deles e que você é capaz de levá-­las adiante e de desdobrá-las! Mostre que você é um bom discípulo! Mostre que você é um bom boneco de ventríloquo! Sim, mostre que você consegue emprestar as suas cordas vocais aos pensamentos dos outros! Mostre que você pode ser um fiel porta-voz de um filósofo europeu ou norte-americano de renome! Mostre que você tem condições de entrar para o time empenhado em torná-lo um filósofo de renome! 

V. A maioria dos professores não tem o menor interesse em ajudá-lo a desenvolver as suas ideias. Pelo contrário, se você mostrar a eles os seus rascunhos, eles provavelmente tentarão redirecionar a sua energia e transformá-lo em mais um exegeta. É infinitamente melhor discuti-las com amigos! Sim, é infinitamente melhor discuti-las com amigos! Não há espaço para o desenvolvimento de ideias próprias nos departamentos de filosofia brasileiros de hoje... Realmente, não há espaço... Infelizmente, não há espaço... Mas não deixe de trabalhar em seus pensamentos só pelo fato de que a universidade não serve como uma oficina!


VI. Os professores de antropologia querem que os seus estudantes se tornem antropólogos (não simples intérpretes de Lévi­Strauss ou de Viveiros de Castro). Os professores de história querem que os seus estudantes se tornem historiadores (não simples intérpretes de Bloch ou de Vansina). E os professores de filosofia? O que eles querem que os seus estudantes se tornem? (...) O que os professores querem é bem simples: que você mostre aptidão para ser um competente porta-voz de algum filósofo supraequatorial - mais especificamente, de algum filósofo europeu ou norteamericano... O que os professores querem é bem simples: que você mostre que pode ser um bom boneco de ventríloquo! O que os professores querem é bem simples: que você mostre que tem condições de entrar para o time empenhado em canonizá-lo... Porque é absolutamente fundamental canonizá-lo! É absolutamente fundamental insuflar importância nele! Você quer ser visto como alguém que estuda um filósofo sem importância? Então, ele precisa ser canonizado - para que o esforço que você dispensa em estudá-lo seja justificado. (...) Ser um porta-voz do pensamento de outrem e ser um pensador são duas coisas totalmente diferentes. O primeiro é uma espécie de comerciante que ganha a vida importando e distribuindo mercadorias intelectuais entre os famintos de erudição e de civilização. Ele depende inteiramente do segundo. Ele vive às suas custas, ele vive à sua sombra. O status que ele conquista entre os famintos é uma função direta do status do pensador cujos direitos de importação e de comercialização ele detém. 

sexta-feira, 14 de março de 2014

Quando a oportunidade bate à porta o escritor de plantão está sempre em casa...

Quem se assustou o ano passado com a ida da Comitiva dos 70  fazer média na Feira de Francfurt, deve ter uma recaída agora com a divulgação dos números referentes à II Bienal do livro e da leitura do DF. Sabem quantos desses personagens estarão aqui nas tendas da Esplanada de 11 a 21 de abril, dando expedientes, palestras, recitais, contando suas intimidades e aventuras solitárias, revelando os segredos de suas astúcias narrativas, os mistérios poéticos, os truques para colecionar Jabutis, as senhas do saber, da teologia empresarial e o mapa das caixas pretas do mercado livresco? Sabem quantos? 105. E isto, contabilizando só os de pedegree nacional, tupiniquins, filhos da terra etc, pois além deles estarão presentes mais 21 estrangeiros. Se falará praticamente de tudo. Das Veias Abertas da América Latina, com o guru Galeano, até dos Diálogos da Vagina, com a americana Naomi Wolf. Da Geração mimeógrafo com os poetas e lunáticos brasilienses até do Suassuna relembrando seu secular Auto da Compadecida... De Trotsky e a revolução permanente à libertinagem do mercado livresco; dos 50 anos do golpe militar à sexta reimpressão do calhamaço do coronel Ustra. Dizem que haverá, acreditem, até uma mesa redonda, um Seminário, sobre Ditadura e Futebol. Neste estarei presente! Também se falará sobre intolerância religiosa (sempre em defesa, claro, da existência de qualquer seita) e sobre os novos e sedentos ficcionistas etc... Sem falar dos discursos espontâneos e paralelos que com uma centena  desses personagens juntos sempre acontece. Haverá lançamentos que não estavam no programa e surtos de narcisismo que não puderam ser disfarçados. Mas tudo previsto... 
Além disso, em espaços paralelos, mais de meia dúzia de dramaturgos estarão fazendo o que eles chamam de Leituras Dramáticas. Em pauta: Besame mucho; Murro em ponta de faca; Rasga coração; Patética e, como não podia faltar, Liberdade Liberdade do defunto Millor. É realmente surpreendente essa quase súbita paixão pela cultura! Muitos temem que nas fissuras dessa overdose e nas entrelinhas desse show haja uma boa dose de desfaçatez...
Mas não é só isso, haverá também, nos intervalos dos intervalos, música, muita música. Pelo menos umas dez "estrelas" estarão no evento, alegrando a turma e fazendo uma espécie de contraponto às tais leituras dramáticas... Estão pensando que é só isso? Não! Há mais! Como se poderia deixar de fora a Sétima Arte? Nos intervalos dos intervalos dos intervalos haverá cinema a vontade. Todos filmes já praticamente vistos, revistos e decorados pelo publico cult, mas... que sempre é bom recordar... E para completar com chave de ouro, o monsieur Ziraldo - sempre presente - discursará sobre "a criatividade e a esperança como armas contra o medo e a repressão".  Só não entendo por  que não convidaram o Francis Wheen, autor do livro Como a picaretagem conquistou o mundo!.
Enfim, depois de abril, podem estar certos de que todos seremos bem mais felizes. Apesar de meio intoxicados, seremos mais cultos e mais libertários... já que o Estado nos deu esta oportunidade de reparar a miséria de nosso Primeiro Grau. Como diziam os velhos e tiranos pedagogos: "com sangue a letra entra!" 

terça-feira, 11 de março de 2014

De Kuala Lumpur para...

Os ufólogos estão de plantão, ansiosos e passando por horas de extrema excitação com o desaparecimento do avião que partiu de Kuala Lumpur para Beijing e sumiu do mapa. 
Quatro dias desaparecido! Teria sido abduzido por alienígenas e por seus super discos voadores? Se perguntam, mas quase em sigilo para evitar o ridículo, caso os destroços apareçam de uma hora para outra. Essa seria a prova que tanto precisam para, finalmente, demonstrar a hipótese dos ovnis e a tese de que "não estamos sós" nesta louca e estúpida enrascada. 
Algum fenômeno físico-magnético, ou algo extrafísico e sobrenatural? Todos associam e relacionam esse incidente com o famoso Voo 19, daquele avião que, lá pelos anos 40, desapareceu na região do Triângulo das Bermudas ou, Triângulo do Diabo e nunca mais foi localizado... Essas elucubrações teriam algum fundamento?
Ou simplesmente teria caído de bico entre a Malásia e o Vietnã e está lá, intacto, no fundo do oceano
A não ser que algum delirante o tenha desviado para o deserto afegão? 
Sempre que estou voando me permito todas essas fantasias masoquistas para tentar ter pelo menos uma ideia, uma vaga ideia do desespero e do horror dos quatro ou cinco minutos que antecedem o baque...

domingo, 9 de março de 2014

Panóptico geral...

I - Depois da "confissão" do Papa argentino de que surrupiou um crucifico das mãos de um amigo defunto o que se pode esperar de nossos pequenos ladrões, de nossos meninos de rua e de nossos governantes? Sobra alguma moral à recomendação de NÃO ROUBAR contida na "pedras da lei"? E, convenhamos, não foi um roubozinho qualquer tipo, uma gravata nas boutiques de Miami como fez aquele ilustre rabino, nem um livro do Borges na Biblioteca Nacional ou uma taça de cristal na Feira de San Telmo... Trata-se de uma cruz e que estava entre as mãos gélidas de um cadáver. E se essa cruz teria como função afastar o morto do demônio e conduzir sua "alma" pelas veredas do além, quem o fará agora? Quem resgatará aquele pobre ser perdido nos labirintos, nas trevas e nos subterrâneos do nada? Vou consultar meu Libro de los muertos e leio na página 51, capítulo XXXIV a reza que poderia salvá-lo: "Vete demonio de las abiertas fauces, atrás! pues yo soy Khnun, Señor de Pshenú. Las palabras de los dioses yo traigo a Ra, un mensaje al Amo de esta casa".

II - Dizem os jornais que o governo gastará 2 bilhões para garantir a segurança dos jogos da Copa do Mundo. Vou repetir: 2 bilhões, e para proteger quase só energúmenos! Você, amigo zé da esquina, consegue dimensionar esse valor? 
Dizem os matemáticos que daria, por exemplo, para comprar dois mil apartamentos de um milhão de reais cada um... Consegue imaginar o que representam dois mil apartamentos de um milhão de reais cada um? Imagine que cada prédio tenha cinquenta desses apartamentos, blábláblá..... etc, etc, etc...... 
Em outras palavras, daria para trazer o exército argentino, o do Paraguay e o do Uruguay juntos para ficarem por aqui com cachorros e com mísseis em punho durante os trinta dias dos jogos e ainda sobraria um bom troco. 
Sem falar que nós temos os nossos próprios exércitos que já ganham para isso e que há décadas parece que estão em retiro espiritual... E que além deles, cada Estado têm suas policias, que não são poucas. Polícia é o que não falta neste país. Deve haver uns trinta ou quarenta tipos de policias pela pátria a fora, sem contar, evidentemente, com as secretas, que estão por aí disfarçadas de pistoleras e de taxistas. Sem contar também com as câmeras que foram ingenuamente instaladas por todos os lados e que agora registram até os movimentos mais escatológicos e menos dignos da turba...

III. Exatamente no Dia Internacional da Mulher nos chega a notícia de que no estado de Sergipe uma menina foi trocada por uma vaca. Teria sido um bom negócio para quem? Apesar de todo o bafafá acadêmico e beneditino, parece que entre as adolescentes de hoje e as contemporâneas de minha bisavó, na essência, não se alterou quase nada. Essa história de querer emancipar o outro por lei ou por decreto é uma falácia. Essa é uma tarefa que cabe a cada um e a mais ninguém. Quanto à violência contra as mulheres, cursos intensivos de tiro ao alvo e de jiu jitsu especial para elas seriam mais úteis e eficientes que todos os plantões das Delegacias de Mulheres que há por aí...

IV. Em Brasília se vê cada vez mais e mais velhinhos e velhinhas gagás todas as manhãs e finais de tarde sendo conduzidos com dificuldade e com extremo cuidado por enfermeiras ou por cuidadoras, de um lado a outro, em baixo dos blocos.., a espera de quê? Do milagre do rejuvenescimento ou do final?  Sempre que me olham perdidamente nos olhos fico tentando adivinhar quantos, se pudessem, optariam pela eutanásia? Na Alemanha estão despachando os seus para asilos e para moradias especializadas na Polônia onde, segundo familiares, as despesas são menores... Em se tratando de Alemanha e de Polônia, isto não lhes traz à memória os fantasmas de Auschwits?

V - Grou. Esse nome me incomoda. Ainda irei a um dicionário de biologia em busca de um sinônimo. Dizem que esse pássaro está sempre tão atento e tão ligado que mesmo quando dorme, apoiado só em uma perna, na que está encolhida há uma pedra para que se o sono chegar a um grau muito profundo caia e o desperte... Quando tivermos um Primeiro Grau à altura de nossas carências, quem sabe não venhamos a ser como ele...

sexta-feira, 7 de março de 2014

A ESPANHA QUE ESTÁ LOUCA, NÃO EU... (Leopoldo Maria Panero)





Depois de décadas internado em hospitais psiquiátricos, morre o poeta maldito espanhol, autor de Poemas del manicômio de Mondragón. Para quem havia esquecido, aí vai um fragmento introdutório. 
Nota: a mim, seria hipócrita se negasse, sempre me interessou muito mais a loucura que a poesia...


En el obscuro jardín del manicomio
Los locos maldicen a los hombres
Las ratas afloran a la Cloaca Superior
Buscando el beso de los Dementes.

Un loco tocado de la maldición del cielo
Canta humillado en una esquina
Sus canciones hablan de ángeles y cosas
Que cuestan la vida al ojo humano
La vida se pudre a sus pies como una rosa
Y ya cerca de la tumba, pasa junto a él
Una Princesa.

Los ángeles cabalgan a lomos de una tortuga
Y el destino de los hombres es arrojar piedras a la rosa
Mañana morirá otro loco:
De la sangre de sus ojos nadie sino la tumba
Sabrá mañana nada.

El loquero sabe el sabor de mi orina
Y yo el gusto de sus manos surcando mis mejillas
Ello prueba que el destino de las ratas
Es semejante al destino de los hombres.

Cartagena de Índias... a pé...




























quarta-feira, 5 de março de 2014

Mensagem aos garis do Rio de Janeiro...

O que querem os garis do Rio de Janeiro, afinal? Querem ganhar mais e mais! Estão ficando loucos? Que olhem bem para seus contra-cheques! Já ganham atualmente R$: 802,53. Querem mais? Estão loucos? Existem milhares e milhares de pessoas que não ganham nada... Ora!, então que façam horas extras de madrugada ou nos finais de semana! E depois, o governador ainda lhes prometeu aumentar para R$: 874,76. Querem mais? Estão loucos? Viraram capitalistas de uma hora para outra? Para que querem tanto dinheiro? Catar a merda dos ricos diariamente não deve ser muito agradável, isto é verdade, mas e as moedas que acabam achando no meio dos excrementos? E os diamantes que as madames bêbadas deixam despencar no meio de seus vomitos? E as notas que as colombinas e os arlequins deixaram cair pelas ruas de Ipanema e pelos arredores das arquibancadas. Se quiserem, podem também recolher as rolhas de champagne e tentar comercializá-las. Só os jogadores de futebol, os bicheiros e os "artistas" beberam umas duzentas. E os restos de filé mignon que de vez em quando se encontra enrolados em pedaços de plástico nas lixeiras do Leblon? Isto não conta? Isto não é um valor agregado? E as propinas que ganham dos comerciantes quando desentopem alguma privada? Sem falar do Natal e do Ano Novo! E a Sena? Um dia podem até ganhar na Loto! 
- Ah, mas foram destinados vários milhões para o carnaval! 
É verdade, mas o carnaval é tudo para essa gente! É a essência do populacho! Divertir-se é crucial para a sobrevivência dessa plebe endinheirada ou remediada! O samba e o sacolejo está em nosso sangue, em nossas veias! Que é uma besteira tribal é, mas até os antropólogos, os padres e os traficantes defendem essa farra! Veja como a mídia toda está instalada no alto dos prédios! Veja quantas dentaduras expostas, quantas tetas, quantas xotas depiladas e quantas bundas na passarela! Veja quantas mulheres recheadas de silicone. Cada uma tem um preço camarada gari! Aliás, tudo tem um preço! Veja quantos  corruptos, bandidos, hipócritas, mercenários e cafajestes rebolando na avenida... Veja quantos petimetres tremulando as nádegas e se apalpando os esfíncteres! Que um sambista, um jornalista, um vereador, uma bailarina, uma cantora, um ponta direira, uma puta, um otário qualquer travestido de imperador ganhe mil vezes mais que um gari, é lógico e normal. Sem eles o mundo não sobreviveria. Sem vocês não! Sem vocês, é verdade que os abutres se multiplicariam, mas a sociedade logo logo se adaptaria no meio de montanhas de lixo, de merda e de sobras de comida... 
Caiam na real. Desde Lênin, as greves nunca deram em nada...


terça-feira, 4 de março de 2014

La última lágrima...

"Chiavano come cani, ma che 
sono quiete della bocca 
come sassi"
(Fodem como cadelas, mas 
são mudas como pedras).
Acusação das cortesãs romanas contra as grandes damas


- O Papa Francisco é nossa última esperança.., ele ainda tocará fogo naquele antro! 
Ouvi está frase de um grupo de jovens ateus quando me dirigia à Candelária, bem na esquina de um boteco chamado La última lágrima. Referiam-se ao lapsus linguae cometido pelo ilustre argentino durante a benção folclórica na Praça São Pedro.
Dizem que o argentino, no auge de sua prédica engabelou-se com a língua italiana e ao invés de [caso] falou [cazzo].
Não conheço as traduções da palavra Cazzo aqui na Colômbia, mas em português Cazzo/Catzo quer dizer: pinto, pênis, piroca, caralho, cacete, perna-do-meio, pepino, peroba, proaca, peru, pica, piça, picota, pincel, espada, dildo e etc...
É evidente que não tem muito sentido querer crucificar o velho Papa só por ter cometido esse ato falho e deixado escapar uma palavra obscena lá do alto daquela janela, pois cada um de nós comete vários diariamente. E depois, segundo Arango, um psicanalista também argentino, as "malas palabras" ou os "palavrões" são até terapêuticos... 
O que é gozado e irônico (neste catzo) é o recuerdo que ele nos traz de que apesar dessa velha igreja e dessa velha confraria ter vindo pelos séculos a fora se digladiando com os genitais e com os buracos do corpo, não consegue livrar-se deles e vive mergulhada em putarias e em escândalos libidinosos... Que quis e fez de tudo para negá-los - quantos padrecos idiotas se castraram na solidão do deserto - e que se vê cada dia mais e mais involucrada e torturada pelo tal "amor socrático"... Tentaram passar aos beatos durante séculos a ideia de falofobia mas na media-luz das sacristias e dos seminários sempre escancararam sua secreta falofilia.
Prestem atenção como quanto mais moralista e casta se diz uma pessoa, uma congregação e uma cultura mais perversão, vícios, patologias e perversidades se encontra em sua essência...

Arrumo as malas para a volta. 

Aquisições:

1. Cartagena de Índias en el siglo XIX
2. La inquisición en Cartagena de Índias
3. El diablo en la cultura popular del Caribe colombiano
4. Manual de urbanidad y buenas maneras
5. Como mandar a la gente al carajo
6. História de cartagena de Índias
7. Apócrifos contra los "ismos" dominantes
8. Notas de Ruta
9. Elogio de la incertidumbre
10. Tu inquisidor no cree en dios: ése es todo su secreto
11.  Los malditos
12. La última enfermedad, los últimos momentos y los funerales de Simon Bolivar
13. Yo rebelde, yo herege, yo Vargas Vila
14. El divino Vargas Vila
15. Diario secreto de Vargas Vila
16. El azar y la ocasión (provocaciones y profanaciones)


segunda-feira, 3 de março de 2014

Rawet, a sopa Knorr e as mentiras literárias...

"A náusea, o cansaço e este fumo de cigarro se elevando sereno na varanda, me indicam que é tempo de parar. Tempo de por um ponto".
Samuel Rawet

Sabendo que sou brasileiro, o livreiro de uma gigantesca livraria aqui de Bogotá indagou-me hoje a tarde sobre um tal Samuel Rawet, "um marginal que teria morrido em Brasília em 1984 com uma tigela de sopa Knorr nas mãos".  Fiquei atônito e assustado até o momento em que ele apresentou-me a obra de capa vermelha intitulada Los malditos, organizada por Leila Guerreiro e publicado pela Universidad Diego Portales em 2011. A referida obra, como o título já diz, traz 17 pequenos ensaios biográficos sobre autores "malditos", um deles, o oitavo, que vai da página 193 até a 215, é dedicado a Samuel Rawet e foi escrito pela jornalista Graça Ramos.
Além do texto intitulado Samuel Rawet: soledad sobre soledad, há um sobre Pablo Palácio; outro sobre Rodrigo Lira; outro sobre Bernardo Arias Trujillo, Jorge Baron Biza e etc de autoria de autores latino americanos.
Comprei o livro e desci para o café da esquina com uma certa angústia relacionada à sopa Knorr, uma vez que, reconheço, essa mentira é de minha autoria. Pedi um capuchino com algo parecido a um croissant e me deliciei com o texto, muito bem escrito, como é de praxe dessa jornalista. Mas minha ansiedade estava, como já disse, relacionada à estória da sopa Knorr. Por que é que o livreiro foi mencionar logo essa particularidade? Fui me deliciando com a leitura até chegar na linha 20 da página 214, onde era mencionada a tal sopa. "sobre su regazo había un plato de sopa Knorr...". Senti as orelhas pegando fogo. Fui eu que inventei essa estória que agora começa a transformar-se em história.
Quando em 1997, sem nenhuma pretensão literária, escrevi Rapsódia a Samuel Rawet, não tinha a mínima idéia de que os literatos e os especialistas em letras dariam a importância que  deram ao assunto e muito menos à sopa... 
Depois de 1997 foram publicados pelo menos dez livros, teses, contos, poesias e artigos de jornal sobre Rawet pelo Brasil a fora e em praticamente todos se propagou a anedota da sopa Knorr como sendo um dado sociológico e macabro. Até a vizinha do escritor a quem entrevistei e que a época mencionou apenas um prato de sopa, semanas depois de minha intervenção e de minha invenção já falava em sopa Knorr. E nada disso é verdade. Como eu havia recentemente estudado a desidratação dos alimentos e consequentemente a invenção da sopa Knorr pelo alemão Carl Heinrich T. Knorr, resolvi dar um clima fantástico ao trágico e escrevi: "Quando os bombeiros arrombaram a porta e o encontraram morto, ficaram surpresos com a quantidade de velas e de pacotes de sopa Knorr espalhados pela casa..."  p. LXXXII. 
Enfim, se um assunto de tão pouca relevância como este a respeito do pobre Rawet, em tão pouco tempo, já vai se impregnando de inverdades históricas desse jeito, imaginem a história de homens e de personagens míticos como Sócrates, Jesus, Idi Amim, Napoleão, Ali Babá, Al Capone, Messalina e tantos outros...