"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

ENQUANTO ISSO... AQUI PELA CORDILHEIRA DOS ANDES...


"Colombia no tiene realidad. Colombia es irreal, un sueño de basuco. Y sabes que es basuco? Crack, cocaína fumada..."
Fernando Vallejo

... Descobri na Carrera 2, número 12-14 de la Candelária, a casa onde nasceu Vargas Vila, autor de Ibis. Mais tarde desci até o Cemitério Central em busca de seus ossos. Tinha informações de que estavam no Panteão maçônico desse cemitério. Ninguém soube dizer-me nada a respeito. Nem uma boa propina ao coveiro estrábico resultou em alguma coisa. O mais importante do dia foi aquilo com que me deparei, meio fascinado e meio horrorizado, no meio do caminho. Umas sete ou oito quadras de verdadeiro horror humano! Um verdadeiro cartucho, como o chamam aqui. Um lugar de arrepiar os bigodes. A verdadeira Bogotá e a verdadeira América Latina... Centenas de mulheres semi-nuas pelas calçadas, nas portas de cortiços, amparadas em paredes, nas janelas, nos espaços entre uma ruína e outra, em degraus que levavam para o piso superior das espeluncas prostitutivas... Umas com falos de madeira ou de borracha gesticulando obscenidades. Risos que delatam tristes desgraças e pequenos retardos, olhares distantes, as unhas da cor das paredes... Mendigos barbudos arrastando trapos, jogados nos meio-fios como mortos, maricones com o traseiro tatuado fazendo gestos agressivos, cortes de faca e cicatrizes no pescoço, pederastas, sujeira, restos de comidas, trabalhadores, traficantes, desempregados, drogados, borrachos, loucos e assassinos... Quem se atrever fazer um documentário clandestino por aqui terá registrado o horror dos horrores e o mais fiel retrato do inferno humano... E, o mais curioso, é que a umas quatro ruas dali já se está na Carrera 7, onde tudo vive na maior naturalidade, com suas igrejas, seus restaurantes, cafés, parrilladas, senhoras com cruzes sobre o busto, homens engravatados na entrada da confeitaria Florida, policiais com suas metralhadoras e com seus cachorros treinados para detectar explosivos, o vegetariano no quarto piso do Edifício Isis, a Candelária com suas universidades, a imensa livraria do Fondo de Cultura Econômico, a Lerner na Avenida Jiménez, o museu do Botero e a Biblioteca Luis Ángel Arango, a mais estupenda da América Latina, sem falar do Centro Cultural do Livro, localizado lá pelos lados da Carrera 8, calle 16. Dezenas de sebos babilônicos, uns ocupando prédios inteiros de três andares. A Livraria Merlin é quase uma fábula! O Brasil, a Argentina e os outros países latinos juntos com suas livrarias não chegam nem próximos dessa maravilha livresca... E lá por trás dos edifícios, as montanhas cobertas de neblina. De vez em quando o sol varando as vidraças dos cassinos, a poesia de um velho indígena recém chegado de algum ponto da mais longínqua cordilheira. Um chá de coca antes de subir para Montserrat, o equivalente a Montmartre... Uns três mil e tantos metros de altitude, Quase um Himalaia. Testo meu coração. Conforme vamos subindo ele matraca como uma britadeira, ou melhor, como estamos na Colombia, igual a uma metralhadora... Cento e tantos anos de terrorismo. A Zona Rosa! Os vícios das elites! O luxo, a vadiagem burguesa! O capitalismo pior, bem pior que o de antes de Marx e cristalizado numa simples camiseta ou no designer de uma esmeralda. 
Que os românticos não se irritem, mas todas as lutas e todas as sangueiras revolucionárias não serviram para nada a não ser para intoxicar os corações de luto, de nostalgia e de passado...
E quando a noite se apresenta no meio de uma nuvem que ninguém sabe de onde surgiu, as lâmpadas cor de sol vão brotando nos vãos entre as paredes seculares, entre os janelões entrevados, sobre os carrinhos dos ambulantes, mais numerosos aqui do que na Índia... E começam a surgir as águas aromáticas nas esquinas, as de hierba buena, de erva doce, de artemísia que jovens nativas fervem em panelas imensas de alumínio e que servem para apaziguar os espíritos malignos do dia e deixar zen todas as nervaduras das pernas e das costas...

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Uma terra construída a bala...

Por aqui na A. L. há uma excitação quase romântica com a noticia da prisão de El Chapo... Ora, acreditar que o México e que a região melhorará a partir de agora é ter uma ideia pueril a respeito do bem e do mal... E é uma idiotice querer negar que de um extremo a outro dessas terras tudo foi construido a bala...
O relógio da torre marca 12:50. Um sol caribenho de derreter a moela de qualquer um. Dois dos muitos vendedores de chapéus se escondem na sombra da estátua de Pedro Herédia, o fundador desta cidade. Dizem que esse senhor, agora transformado em mito, saqueou inclusive os cemitérios dos Mocanaes e dos Yurbacos, pobres índios que habitavam por aqui e que depositavam junto aos cadáveres de seus mortos também seu Kapital..., quase sempre em ouro.  Época de rapina descarada! Tempo em que um cartógrafo de nome Juan de la Cosa foi fulminado com uma quantidade tão grande de flechas que nem foi possível reconhecer-lhe o corpo... E a gatunagem desse Herédia foi tanta que chegou a levar para a Espanha até um porco-espinho em puro ouro, peça que pesava uns sessenta quilos e que se esfumou por lá... Depois morreu afogado num desses insondáveis mares...
A Cartagena de dentro da muralha é uma, a Cartagena do lado de fora é outra. A diferença que, segundo os pastores, existe entre o céu e o Inferno. Aqui os bifes de palmo e meio, os robalos, o arroz com coco, os sorvetes, as carruagens com cavalos brancos, a salsa e a rumba por todas as esquinas e as pérolas, as esmeraldas... Lá fora as velhas e incuráveis coisas da América Latina, o mercado Bazurto, as buzinas, os mendigos, os lixões, a matança, os taxistas, as frotas macabras de ônibus. Fora dos muros uma manifestação política com os mesmos argumentos milenaristas de sempre, dentro das ruelas, cinco dias de festanças em homenagem a um bizarro "matrimônio".
E o cristianismo hispânico foi tão fundo como a cólera no corpo e na mente dessa gente. A menos de 200 metros do Museu da Inquisição - para que vejam - levantaram recentemente e em plena rua a estátua de um Papa.., lembrando que a história não serve para quase nada...

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Cartagena de Índias...

- Para donde vamos? - pergunta o cocheiro.
- Para donde quieras! Retrucamos com um litro e meio de legitima sangria fazendo uma revolução na ante-sala das tripas...
Impossível ver essas carroças fazendo malabarismos por estas ruelas sem lembrar da transilvânia, do drácula e etc. Sempre gostei do nome desta cidade, remete qualquer um a Cartago e aos cartagineses... Cartagena de Índias! Um fim de tarde no café que fica sobre a muralha e de frente para o mar é uma das poucas maravilhas do mundo... O mar bravio é outra coisa! Por outro lado, observem como a praia afrescalha... Como as ondas quase parando são uma afronta à virilidade marítima e oceânica...
Como olhar para cada pedaço de gelo no fundo do copo sem lembrar da cólera? Amor em tempo de cólera! Faz mais de um século, mas poderia ter sido ontem. Dizem que a peste alterou os genes das comunidades por onde passou... Da praça sobe o som de uma rumba. Arroz de coco e robalo na brasa... O livreiro tem um único livro de Vargas Vila editado quase antes de Colombo. São  os ventos caribeños.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Apple Store... Abre uma nova igreja no Brézil...



E a multidão de idiotas em frente à nova loja da Apple no Rio de Janeiro?
 Nem o Edir Macedo ou o Arcebispo Metropolitano conseguiriam reunir quase duas mil almas assim tão facilmente. Bem, o Paulo Coelho sim.., mas aí é outra história! 
E muitos teólogos irresponsáveis, desde seus púlpitos, ainda continuam, ingênua ou malandramente, querendo dar a deus uma conotação etérea, metafísica.., um perfil de onisciente, onipresente e onipotente. Ora!, deus é isso aí! Matéria reciclada! Essa porcariazinha de meio palmo, que custa dez dólares para ser produzida e que é repassada para os fiéis por uma verdadeira fortuna. Sim, apesar da cegueira endêmica, deus é essa porcariazinha movida à bateria que todo panaca leva no bolso ou no lugar do escapulário e através da qual se tagarela o dia inteiro com outros irmãos e iniciados...  Claro.., deus é também esta máquina de dois palmos quadrados através da qual lhes recito e exibo minhas demagogias... Aliás, como eles, também pago meu dízimo e em dia, para que não me excluam da congregação e nem da fé... A maçã mordida estampada no plástico deve ser uma sutil menção à anedota amorosa de Adão e Eva... E Jobs, observem, é quase Jó! Quem já leu a biografia de Jobs e a de Jó sabe como ambas, dependendo de nosso estado de espírito, nos comovem até o pranto e ate às lágrimas... Mater nostra dolorosa!!!
Apple Store! Igreja da Apple! Que como as do Sétimo Dia, as dos Reinos de Jacó, as do Cristo das Galiléias, as da Virgem das  montanhas, etc, para a felicidade e a grandeza de coração dos rebanhos estão espalhadas por todo o reino terrestre... 
Mas não pensem que os cariocas são mais ou menos estúpidos que outros povos. Isso não! Vi multidões até bem maiores se acotovelando diante das sedes em Shangai, em Londres,  em Istambul. Nesta última, aliás, para que vejam, havia até mulheres com burca. Que diria o camarada Maomé? A loja de Bangkok arrebanhava mais público que o Templo do Buda de Ouro. E no Vietnã, até os filhos e netos daqueles que foram queimados por Napalm estavam eufóricos... Euforia que, sinceramente, até se justifica, pois através desta religião e deste deus de plástico, ao contrário do outro, pelo menos podemos, graças ao Santíssimo IPhone ou ao Santo Android fazer uma reserva de hotel, chamar uma funerária, encomendar uma pizza ou um guarda chuva...
Enfim, como se dizia numa antiga peça lusitana: "sacrifiquemos as bestas, mas elevemos os espíritos..."

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Vou-me embora pra Pasárgada... quem sabe, por lá, eu não venha a ser amante da neta do rei...




"... Ó forasteiro, quem quer que sejas, de onde quer que venhas, porque sei que virás, sou Ciro, que fundou o Império dos Persas, não tenhas rancor de mim por causa dessa pequena terra que cobre meu corpo..."

Ao sair de casa hoje, 12 de fevereiro de 2014, meia hora antes das oito, deparei-me com um bilhete do mendigo K enfiado sob o tapete. Com uma letra impecável, no formato de manchete, dizia: Prenderam o pobre garoto que matou acidentalmente um cinegrafista! E continuava. Enquanto uma casta sem rosto se esbalda em luxos, poderes, cátedras, fornicações, massagens, mandatos, helicópteros, advogados de aluguel, carros blindados, bolsa de valores, canais de Tv, concessão de rádios e de jornais, confessores, guarda-costas, proteção judicial e policial e etc., a ralé média, a ralé remediada e a ralé-ralé se debate com o cotidiano, se enfrenta por migalhas, tenta sem sucesso dialogar com seus fantasmas, se desespera, se revolta, se assassina e acaba, como estava previsto até na Carta Magna, lotando as prisões, todas infernais e recheando as estatísticas, normalmente falsificadas, da loucura.

Preste atenção como esses países, essas repúblicas e essas sociedades chamadas "em desenvolvimento", com sua desordem nata, com suas taras seculares, com suas omissões e com suas mentiras institucionalizadas são fábricas e usinas de "transgressores", de "culpados", de "delinquentes", de "estelionatários", de "bandidos", de "loucos" e, por fim, de "assassinos". 

Primeiro, com o pretexto da sobrevivência e da competitividade, se induz a criança, o adolescente e o sujeito, a transgredir e a delinquir, e depois, quando sua transgressão vai além daquilo que a hipocrisia social pode camuflar e suportar, se faz um alarde cretino e espetacular para rotulá-lo, estigmatizá-lo, perseguí-lo, caçá-lo, prendê-lo e sutilmente eliminá-lo, sem dar importância alguma à impressionante similitude social, moral e até afetiva que sempre há entre o agressor e a vítima, entre os bandos e o sistema, entre a lei e os fora-da-lei, entre os pés rapados e os mandatários.
Ah, se pelo menos essas centenas de crimes diários fossem sintomas de uma luta social..! De uma guerra pelo conhecimento! De uma batalha pela soberania pessoal! Mas não são. 
Trata-se de uma pobre, mesquinha, indigente e estúpida chacina fraticida... 
Olhem ao redor. Não precisa nem ter grande imaginação para lembrar da histeria dos coliseus romanos antes de 404. Na arena, os párias e o restolho se degolando, no podium, o simulacro de realeza e de elite que conhecemos. Nas ruas e nos becos, o populacho se assassinando. Nos camarotes, os antigos brâmanes, os antigos santos e os antigos guardiões da moralidade se espremendo e se apalpando enquanto se preparam para as próximas eleições...  Tudo perverso! Tudo falsificado! Tudo imoral!!!

Na última linha, escrito com uma letra diferente, uma referência irônica à Pérsia e a Manoel Bandeira: vou-me embora pra pasárgada... quem sabe, por lá, eu não venha a ser amante da neta do rei...

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Descartes e a cannabis...

"Se um homem quer estar seguro de seu caminho, que feche os olhos e caminhe na escuridão".
(Anônimo)

Quando me canso de falar sobre a burrice e a alienação alheia, tomo coragem, preparo um chá de hortelã, arrasto a cadeira de couro até a prateleira de livros e ali, meio a contragosto, meio envergonhado, vou passando um por um e admitindo, cabisbaixo, o tamanho de minha própria ignorância. Deste nem tirei o selo da livraria... Aquele está intacto. Aquela obra completa do gênio inglês, de tanta negligência e abandono foi desfigurada pela poeira. Este aqui nem sei de que trata! De um ensaio recente e inclusive de vital importância para minha profissão, só li a dedicatória. Esse livretinho ao lado, por exemplo - no qual o dono de um café de Amsterdam afirma ao autor que Descartes trocou a França pela Holanda só para poder fumar maconha - li apenas umas vinte páginas.  Um dos dois volumes de Bestemmia, de Pier Paolo Pasolini nem sequer está mais onde devia estar. Do volume II, li apenas uma parte da página 931 titulada La man che trema. Quanta ignorância..! Pelo menos os quatro volumes de Borges estão lidos e relidos... Também a Origem da família, da propriedade privada e do estado... Ufa, Pelo menos isto! E trata-se de uma edição adquirida ainda lá numa feira de rua na Praça de Coyoacan... 
Histoire anecdotique de la scatologie hiberna sobre meu criado mudo desde o ano passado, devo ter lido a introdução de Jean Feixas e me apropriado de algumas ilustrações e nada mais. A verdadeira história do banditismo, foi lida só até a metade, na página que exibe um fuzilamento em Chicago... Vamps & Vadias, da Camille Paglia, (lembram?) só rabisquei cinco ou seis pés de página... Desse jeito, para que serve uma biblioteca..? Apesar de estar aos pedaços, este sim li de verdade: A multidão criminosa. A edição deve ter uns cem anos. O autor? Scipio Sighele. Mas nem sei se suas teorias ainda têm algum fundamento...
Um livro que realmente recebe minha visita com regularidade é um que traz cento e vinte gravuras atribuídas 
a François Rabelais,
com introdução de Michel Jeanneret. Esse sim é uma verdadeira maravilha, principalmente porque não quer provar absolutamente nada..!

sábado, 8 de fevereiro de 2014

E o Zé da esquina?

A última manifestação no Rio de Janeiro onde um cinegrafista ficou gravemente ferido, foi assunto obsessivo e exaustivo de praticamente toda a mídia na noite de ontem. Com o pretexto de chegar à "verdade" e de punir os responsáveis, deixaram mais do que escancarado o velho e asqueroso corporativismo do setor, setor que já foi denominado até de quarto ou quinto poder... 
Tudo bem! É natural! Natural não, comum! O problema é que todo corporativismo é indecente! Seja ele o da mídia, seja o da polícia, dos magistrados, dos políticos, dos advogados, dos larápios, dos traficantes, dos crentes, dos médicos, dos ateus, dos desiludidos... Observem como os membros de toda corporação ou categoria, para mistificarem e protegerem-se mutuamente incorporam ares e praticas de casta, de religião e de seita...
Que o agressor tenha sido um anônimo, um policial, um black bloc, um velhinho demente, uma freira indo para a igreja de Cosme e Damião ou um representante do Bin Laden... isso parece pouco relevante. Que a violência no país tenha alcançado há muito tempo níveis pré civilizatórios também não é o caso, o que se quer realmente fazer crer e deixar claro com esse surto de Don Quijote é que a mídia é uma confraria intocável! Ora, todos deveriam ser intocáveis, inclusive o Zé da esquina. 
Recado aos masoquistas e aos estóicos: Platão estava redondamente equivocado quando afirmou que quem pratica uma injustiça é sempre mais infeliz que o injustiçado!
... E por falar em RJ e em Platão - esse inspirador do cristianismo -, o que se pode esperar de uma cidade (veja mapa abaixo) com tamanha proliferação de 
igrejas?


domingo, 2 de fevereiro de 2014

JUDAS E O BEIJO GAY...

Nesta semana o populacho noveleiro ficou visivelmente afetado e eufórico com o tal beijo gay na televisão. Até os garotinhos e as menininhas de oito nove anos, entre Ipads e bonecas ainda comentam o assunto. Os jornais não deixaram por menos e estamparam na primeira página a foto dos dois machos se lambendo os beiços e se transmitindo cáries... Entre as viroses que podem ser transmitidas pelo beijo estão a gripe, o sarampo, a rubéola, a varicela, a papeira e infecções pelos virus coxsakie A... (e mais umas dezenas de outras patologias).  
O beijo, realmente não é novidade. - Aliás, quem se permitir transitar de vez em quando pelos universo dos vídeos pornográficos verá por lá beijos ardentes e em lugares ainda mais insólitos e ainda mais estranhos do que a boca, os tais "beijos coprófagos".  O que pareceu psicologicamente curioso nesse "primeiro beijo gay na Tv" foi a expectativa quase pueril e infantil da sociedade...
  Os homossexuais o consideraram uma vitória para sua causa; os heterossexuais o classificaram como uma "viadagem desmedida"; as donas de casa "adoraram" já que lhes faz bem tudo o que coloca em xeque a preponderância e a arrogância fálica do macho; os assexuados e os assépticos (e talvez até os dentistas) seguiram com a idéia fixa de que se trata de uma nojeira ainda não superada pela espécie.., enquanto que para a mídia, tudo se resumiu a uma cínica jogada de marketing e de manipulação das neuroses e do afeto social... Existe, para que vejam, até o Dia Internacional do beijo! Existem organizações de beijaços! Existem detergentes e batons especiais para as lambeções! Camisinhas para as línguas!!!
A foto do marinheiro beijando uma enfermeira na Times Square é uma das mais conhecidas e populares do fotógrafo Alfred Eisenstaedt...
Na verdade, a história do beijo é uma bobagem que se confunde com a desvairada história da humanidade. Somos praticamente os únicos animais que cospem e que chupam a língua uns dos outros... A origem desse costume parece estar lá nos homens das cavernas que já tinham suas love-stories e se lambiam mutuamente para buscar no suor do outro o sal que precisavam... 
Os veterinários sabem que essa é uma prática muito comum também entre os felinos e os equinos... 
E o lendário beijo de Judas Iscariotes? Tornou-se um clássico no mundo das falsidades, da trairagem e das traições. 
Claro que muitas regiões do planeta ainda desconhecem o beijo, já que ao invés do tato preferiram o olfato. Se cheiram. Parece até mais higiênico! Será? Os romanos e o cristianismo não poderiam estar ausentes desta temática. Dizem que em algumas regiões cristãs, na meia noite do dia de natal os homens se beijam na boca e murmuram: "Cristo ressuscitou". (!???)
Em um de seus textos Cícero também relata que a estátua de Hércules que havia num templo de Agrigento estava com os lábios e o queixo gastos de tantos beijos que os fiéis lhe davam. Eu mesmo presenciei num dos cemitérios de Paris sete ou oito beatas beijando com frenesi na boca da estátua de Alan Kardec que havia sobre seu túmulo. Dizem que na Roma daquela época não se podia caminhar sem estar jogando beijos para um ou outro deus e que quando se cruzava com um amigo também era de praxe trocar-se beijos vigorosos... Que trafico de bactérias... e quanta falsidade!
Enfim, a lista de tipos de beijos é imensa: Existe o beijo e casamento na igreja primitiva;  o beijo ao leproso; o beijo iniciático;  o beijo no solo; o beijo eucarístico; o beijo de Judas ou o beijo hipócrita; beijos roubados; beijos mágicos; beijos enganadores;  os beijos pedagógicos no templo de Platão; o beijo esquimó; beijos de ruptura; beijos epistolares e claro, não podia faltar o beijo da morte... entre outros...