"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Encontro com o mendigo K...

Um dia depois do natal deparei-me com o mendigo K, estava com um balde de alumínio recolhendo as flores do Cambui que a ventania, os raios e a chuva haviam derrubado. Ria sózinho ao dizer-me que iria vendê-las para chá, como se se tratasse de flores de Tilia. - Mas fazem bem para quê, perguntei-lhe.
- Para porra nenhuma!... Respondeu-me. 
Depois mostrou-me com um certo nojo ao lado dos containers de lixo as penas, as patas e os ossos dos perus que foram devorados na noite anterior...
Não estava bem humorado.
Tentou despistar-me o mais rápido que pode e saiu cantarolando aquela  música do Gonzaguinha que se chama Comportamento geral.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Uma sonata de Paganini...

Nossos parentes: os porcos...

Nazária (PI) A dona de casa Maria da Cruz Costa da Silva, de 65 anos, mora há 28 no bairro Parque Nazária, próximo ao centro da cidade de Nazária — que não possui conselho municipal de saneamento —, a 31 quilômetros da capital piauiense, Teresina, e nunca teve direito à rede de saneamento básico. A água usada no banheiro de sua casa, tanto na pia quanto no sanitário, e a de todo o município correm para valas formadas entre as casas e o calçamento, acumulando esgoto próximo aos imóveis e atraindo os porcos. A casa simples de Maria da Cruz é diariamente cercada de porcos que bebem a água acumulada na rede improvisada de esgoto, bem próxima de seu portão. Ao sair ou entrar do imóvel, a dona de casa é obrigada a desviar de porcos adultos e filhotes, que também usam o lugar para se refrescar na lama escura. Para evitar que os porcos transmitam doenças para os seus sete netos, com idades entre quatro e 12 anos, Maria da Cruz proíbe que as crianças brinquem fora da casa. Mas a ordem da avó nem sempre é cumprida. Quase sempre é desobedecida, já que os netos sempre conseguem driblar a proibição ao pedalarem suas bicicletas ou ao jogarem bola no meio da rua, junto dos animais. — Eu não deixo meus netos sair para rua, não. Eu proíbo. Eles brincam dentro de casa, no quintal — afirma Maria da Cruz, lamentando que a lama e a água do esgoto atraem não só os porcos que cria, mas também dos moradores das ruas vizinhas. Ruas limpas, só depois de chuva forte A dona de casa diz que “não foi feita a construção correta do calçamento da rua onde mora” e que faltam as redes de esgoto, por isso, o acúmulo de detritos em torno ou à frente das casas, segundo a dona de casa, causando doenças de pele. — Com a água empoçada junta muita coisa ruim, muitos vermes e insetos como o mosquito transmissor da dengue. A água fica toda infiltrada e só escorre quando tem uma chuva grande. A limpeza é só quando acontece uma chuva grande, que leva os esgotos para o Rio Parnaíba, poluindo e transmitindo doenças para as pessoas — reclamou Maria da Cruz, adiantando que as crianças e os adultos frequentemente sofrem com gripes constantes e diarreia. PREFEITO ADMITE FALTA DE SANEAMENTO Sem constrangimento algum, O prefeito de Nazária, Ubaldo Nogueira (PTB), afirma que a cobertura de saneamento e de rede de esgotos no município, de 8.200 habitantes, é zero. — No Piauí, não passam de 20, de um total de 224 municípios, os que têm rede de esgotos. Os municípios não têm recursos para saneamento, dependemos do Governo Federal —, tenta justificar Nogueira. De acordo com o prefeito, 90% do Plano Diretor de Saneamento Básico já estão concluídos pela empresa de consultoria JLJ, e o Plano Municipal de Saneamento ainda está no período de elaboração. Ubaldo Nogueira falou que, depois da conclusão do Plano Diretor de Saneamento Básico e do Plano Municipal de Saneamento, será possível a prefeitura de Nazária convocar representantes da sociedade para formar seu Conselho Municipal de Saneamento. — Não temos ainda o Plano Municipal de Saneamento e o Conselho Municipal de Saneamento, que vai convocar assembleias e representantes da sociedade. Caso eu não faça isso o governo federal não mandará dinheiro para obras de esgotos e de saneamento, e a prefeitura não tem recursos para essa área — disse Ubaldo Nogueira, informando que a elaboração do Plano Diretor do Saneamento Básico está sendo financiado pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/brasil/em-cidade-do-piaui-porcos-sao-atraidos-por-esgoto-que-corre-ceu-aberto. (Hoje no Globo)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Stronzofobia...

Hoje, novamente antes da chuva, uma senhora, com cara de bruxa medieval, encrencou comigo por eu não recolher os 6 cm de stronzo que meu pobre cachorro depositou em êxtase sobre a grama.
Ouvi-a com atenção repetindo que isso é "falta de higiene", "falta de cidadania", "falta de consciência política" e por fim "falta de vergonha na cara", já que o stronzo dos cachorros contamina o solo, as águas e etc.
Tentei em vão convencê-la que por ali havia mais merda de mendigos do que outra coisa e que aqueles 6 cm de matéria fecal de meu Lhasa são parte importante para a construção dos iglus que os  João de barro constroem magistralmente entre as forquilhas das aroeiras... mas ela permaneceu irredutível. Relatei-lhe, inclusive, que quando os João de barro me veem saindo de casa com meu cachorro começam a fazer festa e a expressar a maior alegria atras de nossos passos... Ela não se convenceu, baixou a cabeça resmungando e mudou de rumo, possivelmente mais decepcionada ainda com o presente e com o porvir da humanidade... Troquei um olhar de cumplicidade com o responsável por toda aquela encrenca e voltamos para casa para continuar a leitura de Cervantes...

domingo, 7 de dezembro de 2014

FELIZ ANIVERSÁRIO!

Amanhã, 08/12 faço 65 anos!
Ao lado do teclado onde escrevo, mantenho uma caixinha com 5 medicamentos. Um deles é branco e tem o formato de um coração; outro parece uma semente de mamão, outro um feijão de corda e o maior deles, cor de vinho, parece até uma moeda de 10 centavos, o outro não tem uma forma definida. Sem falar do aparelho de pressão que está sempre disponível para uma checagem de emergência. E os mais experientes ainda afirmam que meu arsenal e estoque ainda são extremamente modestos. Qualquer pessoa minimamente sincera sabe que passar dos 60 é entrar num território tipo a Faixa de Gaza ou tipo a Favela da Maré.Tonturas, ansiedades, hiper ou hipotensão são os sintomas mais banais... Felizes os séculos XVII e XVIII quando os sujeitos com cinquenta já haviam "batido as botas". 
E levei um susto ontem ao ouvir um gerontólogo de renome cantando Vivas à longevidade alcançada em tão curto espaço de tempo no Brasil e assegurar que um homem que hoje tem 65 anos tem uma expectativa de vida de mais 17 anos. Mais 17? Fazendo o quê? Lendo jornais? Cortando as unhas? Comendo salsichas?
E é curioso ver que todos ao teu redor querem "curar-te": Vá a um pai de santo - sugerem uns. Outros recomendam uma ida a um especialista em hormônios. Ao nutricionista, pois é necessário ingerir algo de duas em duas horas.Outros mandam fazer caminhadas matinais de Brasilia até o Ceará ida e volta. Outros recomendam devorar limões em jejum. Outros mandam ir dialogar com o padre de plantão, o mesmo que na semana passada foi visto sentado no colo de um travesti nos fundos da catedral.Todos conselhos generosos, evidentemente, mas todos inúteis. 
A natureza (ou quem quer que seja) não deveria ser perdoada jamais por submeter nossa espécie a esse vexame!

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

E lentamente os chineses vão desmascarando e enrabando o mundo...




Obs: Para quem acha esta tese pouco provável a leitura do livro 1434 o deixará boquiaberto...





Abaixo, um texto que analisa o ensaio de Freud Sobre Leonardo da Vinci



LEONARDO DA VINCI: FANTASMA, ARTE E SUBLIMAÇÃO


Beatriz Elisa Ferro Siqueira 1





“Quero fazer milagres”
 Leonardo da Vinci




Foi em 1910 que Freud escreveu sobre “A lembrança infantil de Leonardo da Vinci”, onde ele se propõe a estudar essa “grande figura da humanidade”, e a analisar as inibições de Leonardo tanto na vida sexual como nas atividades artísticas, além de, nesse texto, também desenvolver suas teorias em torno do conceito de sublimação. Freud considerou Leonardo um “gênio poliforme”, com uma versatilidade que o levou a ser artista, escritor e cientista brilhante, cujo desenvolvimento como investigador abafou e desviou em grande parte o seu desenvolvimento artístico. No Seminário 11, “Os quatro conceitos fundamentais em psicanálise", de 1964, Lacan comenta que, em Leonardo, a arte se mistura à ciência e, a partir dele, o quadro passou a ser organizado de uma maneira totalmente nova na história da arte. Leonardo foi considerado um homem à frente de sua época, com uma curiosidade incansável, com muitos talentos numa intensidade assombrosa, mas, na verdade, por mais genial que fosse, era apenas um homem que, como qualquer outro homem, era incapaz de escapar das marcas do Outro que irão constituir o sujeito.
Freud, estudando Leonardo, inquietou-se com o fato dele ter deixado inacabados quase todos os seus trabalhos de pintura, porque buscava neles uma perfeição que ele próprio achava que nunca conseguiria encontrar, o que o levava a abandoná-los e a não se preocupar com o destino dos mesmos. Para pintar um quadro ele fazia vários desenhos, pesquisas e estudos preliminares, e era muito lento na sua execução. Essa lentidão de Leonardo é atribuída por Freud a uma intensa coerção interna para conseguir executar suas obras de uma forma ideal. A famosa frase de Leonardo, “quero fazer milagres”2, nos mostra o que ele buscava realizar, e seu trabalho certamente nos faz vislumbrar esse desejo, que o dirigiu e possibilitou a construção de sua genialidade.
A partir das indicações da personalidade de Leonardo, Freud considerou suas pesquisas como sendo a meditação obsessiva dos neuróticos. Para combater esses excessos surgiu nele um recalque forte o suficiente para afastar sua puberdade de toda atividade sexual, tendo a maior parte de sua sexualidade sido sublimada numa ânsia de saber. Ao mesmo tempo em que Freud o vê como assexuado, em outro momento ele considera que seu amor excessivo pela mãe levou-o a tornar-se um homossexual. Lacan questiona se podemos falar de uma inversão de Leonardo, pois trata-se, na verdade, das marcas de uma inibição singular.
No quadro de Leonardo denominado “A Sant’Ana, a Virgem e o Menino” foi onde Freud observou uma síntese da história da infância do artista. Nele, a Virgem Maria está sentada no colo de sua mãe Sant’Ana e está com os braços estendidos em direção ao Menino Jesus que brinca com um cordeiro. Sant’Ana, mesmo na condição de avó, aparenta
ser ainda jovem, bela, e apenas um pouco mais velha que Maria. Freud interpreta isso como uma intenção de Leonardo de dar ao Menino duas mães, tal como aconteceu de fato na vida de Leonardo que realmente teve duas mães: Caterina, sua verdadeira mãe, que o criou até os quatro anos, e Donna Albiera, esposa de seu pai e sua madrasta, e com quem também teve uma relação de afeto. Freud afirma ter Leonardo fundido as duas figuras maternas, não se conseguindo definir muito bem onde acaba Sant’Ana e começa Maria.

Apesar de Freud admitir que a psicanálise não tem recursos suficientes para falar sobre o valor da criação artística, quando ele fala de Leonardo ele procura analisar a função que o seu fantasma original teve em seu trabalho artístico: a relação com as duas mães que aparecem em seus quadros, tanto no do Louvre quanto no desenho de Londres, com um corpo duplo e uma mistura de pernas; além disso, Leonardo pode ter imaginado que aconteceu com sua mãe o mesmo que com a Virgem Maria, mãe do Menino Jesus, que também teve um filho sem pai, e, portanto, sem a relação sexual e sem a castração. Para Lacan, com o texto sobre Leonardo da Vinci, Freud destaca a importância da função mãe fálica para a criança que depende dela, ou seja, a criança ligada a uma mãe que, por sua vez, está ligada ao falo como falta no plano imaginário.

A mistura de pernas é algo que se repete também no seu desenho sobre a relação sexual, assim como se repete em muitos quadros a aparência andrógina de suas figuras, mostrando que Leonardo tentou fundir o masculino e o feminino numa mesma figura. Lacan vê na Sant’Ana, do quadro ‘Sant'Ana, a Virgem e o Menino’, também uma figura andrógina, e ressalta a necessidade de ter havido um quarto termo no quadro que é o cordeiro. O quarto termo da composição que se encarna numa relação é o tema da morte, que é o que irá matar a sexualidade de Leonardo, seu problema crucial. Lacan percebe na figura da Sant'Ana o personagem mais enigmático, a Outra, que terá a função de equilibrar a cena, e que está numa relação materna e feminina no quadro; toda a obra de Leonardo da Vinci é vista por ele como se estruturando sobre a relação do eu (moi) com o outro, atravessada pelas marcas do grande Outro.
Em seus inúmeros escritos, Leonardo também se comanda através de um outro imaginário, tratando-se na segunda pessoa, perguntando-se sobre assuntos diversos ou pessoais, como “diga-me algo sobre isso ou aquilo”, e terminando às vezes com vários “diga-me”, “diga-me”, “diga-me”. É uma alienação radical, onde sua escrita espelhada evidencia, além de seu processo de sublimação, sua posição diante de si mesmo e o lugar que ocupa em seu fantasma: "Correlativamente a toda sublimação (...) vê-se sempre se produzir, no nível do imaginário, sob uma forma mais ou menos acentuada conforme a maior ou menor perfeição desta sublimação, uma inversão das relações entre o eu e o outro".3 Lacan levanta a hipótese do processo de sublimação poder se chamar também de alienação, onde o sujeito esquece a si mesmo como objeto imaginário do outro. Esse outro não é o Outro radical da psicanálise, a sede do inconsciente, mas ele deve ser levado em consideração no enigma da confusão dos corpos de Sant'Ana e da Virgem a que Freud se refere no quadro da “Sant'Ana, a Virgem e o Menino”. Lacan acha que o que está em questão aí é uma espécie de duplo, que se articula ao estranho (Unheimlich) enquanto algo que se repete, que é estranho e, ao mesmo tempo, familiar.
O tema do ‘estranho’ está relacionado ao fenômeno do ‘duplo’, que diz respeito ao sentimento de experimentar algo em comum com outra pessoa, de tal modo que se fica em dúvida entre o seu próprio eu e o da outra pessoa, incorrendo numa identificação, numa espécie de duplicação, e, finalmente, no retorno constante do mesmo. Há no inconsciente a predominância de uma ‘compulsão à repetição’, inerente à própria natureza das pulsões, e o que quer que nos lembre esta íntima ‘compulsão à repetição’ é percebido como ‘estranho’. Das Ding é o estranho, o estrangeiro, o primeiro exterior, o Outro pré-histórico, impossível de ser esquecido pelo sujeito, e o que o faz retornar sempre ao mesmo lugar. O sujeito constata que a lei está ligada estreitamente à estrutura do desejo, cujo objeto será sempre mantido a uma certa distância íntima, próxima. A questão de das Ding se liga, portanto, ao que existe de faltoso no centro do nosso desejo.


É inegável que haja um senso de mistério na estética de Leonardo, que é apontado pelo seu biógrafo Kenneth Clark: “O dedo apontando e o sorriso – um indicando um poder fora de nosso campo de visão, o outro refletindo um processo interno que está igualmente fora de nossa compreensão – tinham uma importância simbólica para ele, mesmo em suas obras iniciais”.4
Lacan também ressalta o enigma do dedo indicador erguido, que é visto no quadro de São João Batista, no Baco, ou no anjo da Virgem dos Rochedos, e vê esse dedo como uma ilustração da ambigüidade entre a mãe real e a imaginária, entre a criança real e o falo escondido. É nesse ponto que Lacan irá abordar o conceito de sublimação:
"Trata-se aí de uma certa tomada de posição do sujeito com relação à problemática do Outro, que é, ou bem este Outro absoluto, este inconsciente fechado, esta mulher impenetrável, ou bem, por trás desta, a figura da morte, que é o último Outro absoluto. A maneira pela qual uma certa experiência compõe com este termo último da relação humana, a maneira como ela re-introduz no interior disso toda a vida das trocas imaginárias, a maneira como desloca a relação radical e última até uma alteridade essencial para fazê-la habitar por uma relação de miragem, é a isso que se chama sublimação".5

Lacan retoma o conceito de sublimação de Freud que está em jogo na criação da arte e o re-introduz nos efeitos da sublimação da pulsão, uma vez que as obras de criação artística acabam por retornar ao campo dos bens, quando se tornam mercadorias. Mas o homem, na verdade, não sabe o que põe em jogo com sua demanda, a partir do momento em que há o inconsciente. A economia dos bens acaba por se assemelhar à economia do gozo e da dor masoquista, uma vez que queremos compartilhar a dor como compartilhamos muitas outras coisas. Na sublimação, portanto, a mudança de objeto não exclui o objeto sexual e, apesar do sujeito sublimar, ele paga com alguma coisa, ele paga com o seu gozo.

“Quanto maior a sensibilidade, maior o martírio – um grande martírio”,6 nos diz Leonardo da Vinci. Essa frase parece ser uma bela metáfora para a contradição e o paradoxo no discurso de Freud que Lacan irá nos apontar, em 1962, em seu seminário sobre a identificação, que é o fato de que o gozo subsiste e até num certo sentido é realizado na sublimação, pois, uma vez que não haja recalque e sim desvio, o gozo acaba sendo obtido por vias aparentemente contrárias ao gozo.
Freud determina que as transformações das pulsões constituem o limite até onde a psicanálise consegue ir, sendo que ela também não consegue explicar a natureza do talento artístico, embora ele esteja intimamente ligado à sublimação. Para Lacan, o fantasma é o suporte do que se passa na pulsão, que se apresenta no interior do jogo dos significantes, numa estrutura gramatical. É no que se refere à plasticidade das pulsões que a sublimação irá incidir, pois é possível haver substituições, que Freud articula ocasionalmente como uma mudança no objeto da pulsão, e, em outras vezes, como uma mudança no alvo (ziel) da pulsão. No seu texto “Três ensaios sobre uma teoria sexual”, de 1905, a forma sublimada da pulsão tem que passar necessariamente por uma mudança do objeto:
“Essa mudança não se faz por intermédio de um retorno do recalcado, que não se faz sintomaticamente, indiretamente, mas diretamente, de uma maneira que se satisfaz diretamente. A libido vem encontrar sua satisfação nos objetos (...), objetos socialmente valorizados, objetos aos quais o grupo pode dar sua aprovação, uma vez que são objetos de utilidade pública. É desse modo que a possibilidade de sublimação é definida”7.
A sublimação, portanto, não passa pelo recalque, nem pelo sintoma, e é uma forma de satisfação direta, mesmo que substitutiva, da pulsão. Essa satisfação, Lacan nos diz que é paradoxal, pois entra em jogo aí a categoria do impossível, que é o real. Leonardo da Vinci parece ter inferido essa noção de impossibilidade ao definir sua obra como sendo feita “de uma atividade sempre no limite do realizável e do impossível”.8 Na verdade, na teoria de Freud, a satisfação direta da libido é problemática, uma vez que na pulsão há uma força constante que deixa sempre um resto; há plasticidade na pulsão, mas também há limites: “Freud faz intervir uma oposição, uma antinomia como fundamental à construção da sublimação. Ele introduz, portanto, o problema de uma contradição em sua própria formulação”.9
Apesar da sublimação ser muitas vezes vista como sendo apenas um dos destinos da pulsão, talvez devêssemos estar mais atentos ao seu estatuto no interior da clínica da psicanálise, uma vez que a sublimação interage com o fantasma, com o narcisismo, com a repetição, com o gozo, com a falta e com o vazio. Para Lacan é a sublimação que irá presentificar essa opacidade subjetiva que Freud articula como satisfação da repetição. Há algo do real que insiste, que está no lugar da causa, para que algo se inscreva. O sujeito que somos é opaco porque há um inconsciente. Podemos constatar isso em Leonardo, pois uma das impressões mais fortes de sua infância, segundo Freud, e que certamente deixou marcas inconscientes, é externada no famoso sorriso que se repete em suas figuras femininas, sorriso esse que recebeu a definição de “leonardiano”. Sobre o sorriso da Mona Lisa, Muther, professor de história da arte e crítico de arte alemão, escreveu:

“O que sobretudo enfeitiça o espectador é a magia demoníaca desse sorriso. Centenas de poetas e escritores já escreveram sobre essa mulher que ora parece sorrir-nos sedutoramente, ora parece petrificar-se em uma ausência fria e sem alma, e ninguém jamais decifrou o enigma de seu sorriso, ninguém interpretou o que ela pensa. Tudo, até mesmo a paisagem, é misteriosamente onírico, como sob o efeito de uma sensualidade sufocante”10.

Freud atribui o fascínio que Leonardo teria por esse sorriso a uma lembrança de infância tão forte que dela ele jamais se libertou e o relaciona à figura de sua mãe Caterina. Leonardo já estaria sob o forte domínio da inibição quando, mais tarde, reencontra na Mona Lisa o sorriso beato que via no rosto de sua mãe quando o acariciava, não conseguindo desejar reencontrar tais carícias em outras mulheres. No entanto, o mesmo sorriso se repete em muitas de suas obras; embora diferentes, as figuras ainda são andróginas, delicadas e lindas:
“Já não abaixam os olhos, mas olham como no misterioso triunfo, como se soubessem de uma grande felicidade alcançada sobre a qual fosse preciso calar. O sorriso fascinante e arrasador deixa vislumbrar que se trata de um segredo de amor. É possível que nessas figuras Leonardo desmentisse e superasse na arte a infelicidade de sua vida amorosa, figurando, nessa beatífica reunião de uma essência masculina e feminina, o cumprimento do desejo do menino fascinado pela mãe”11.

O carinho excessivo de Caterina, segundo Freud, foi fatal para Leonardo, pois determinou o seu destino. A mãe abandonada pelo marido procurava compensar junto ao filho suas frustrações, substituindo o marido pelo filho pequeno, e privando-o de uma parte de sua masculinidade:
“O amor da mãe pelo lactante a quem nutre e cuida é algo que chega muito mais fundo que sua posterior afeição pelo filho crescido. Possui a natureza de uma relação amorosa plenamente satisfatória, que não só cumpre todos os desejos anímicos, se não todas as necessidades corporais, e se representa uma das formas da felicidade accessível ao ser humano isso se deve, não no último termo, à possibilidade de satisfazer sem reprovação também moções do desejo há muito tempo recalcadas e que temos de chamar ‘perversas’”12.
Por mais que esse tipo de sorriso pudesse ter sido estudado nos ateliês daquela época, não foi à toa que Leonardo repetiu tantas vezes o mesmo sorriso enigmático em seus quadros, tanto na Gioconda quanto na Sant’Ana, na Virgem, no São João Batista, no Baco, na Leda, e na figura de alguns de seus anjos. É um sorriso que certamente repete uma cena fantasmática. Repetição da mistura de pernas, repetição das figuras andróginas, repetição do sorriso e, com isso, podemos ver em Leonardo a própria metáfora da sublimação articulada a um fantasma e à repetição. Leonardo repete, então, e instaura com essa repetição um traço, um sorriso que o marcou; é aí, na repetição do traço, que se constrói a obra de Leonardo, ao mesmo tempo em que, na repetição, algo é perdido. Com Lacan, sabemos que “o que a repetição busca repetir é precisamente o que escapa. É esta marca perdida que provoca a repetição buscada, pois a marca não saberia redobrar-se, ela manchou sobre o que é para repetir a marca primeira, deixando-a fora de alcance”13.
Para Lacan, o que a repetição traz à tona é o encontro sempre faltoso com o real. A repetição é a estrutura fundamental da sublimação e comporta essa dimensão essencial e extremamente obscura que é a satisfação. Freud conjuga, portanto, a satisfação com a repetição sob a sua forma mais radical:
“A sublimação é em primeiro lugar Zielgehemmt. Ziel se distingue de Zweck como aim de goal. A Zweckmässigkeit, a finalidade sexual, de nenhuma maneira nos diz que seja gehemmt, inhibida, na sublimação. O pretendido objeto da ‘santa pulsão’ é o que pode sem nenhum inconveniente estar inibido, ausente. Em segundo lugar se trata, sem dúvida, da pulsão sexual e se diz que ela não perde em nada sua capacidade de Befriedigung (satisfação). A satisfação é reencontrada sem nenhum deslocamento, pressão, defesa ou transformação: é nisso que se caracteriza a função da sublimação”14.
A sublimação, nesse sentido, não seria secundária em relação ao sexual, e sim primária, estrutural.
Lacan aproxima o que se produz no ato de criação na sublimação do ato sexual. Na sublimação, é da falta que ela parte para construir a sua obra, e no ato sexual a castração enquanto -φ também designa uma falta fundamental:
“É justamente na medida em que algo, algum objeto do que se chama ‘criação de arte’ pode vir a tomar o lugar que ocupa o -φ no ato sexual como tal, que a sublimação pode subsistir reproduzindo nisso exatamente o mesmo tipo de repetição e dando aí também o mesmo tipo de Befriedigung (satisfação)”15.

No entanto, sabemos que não há completude nem na sublimação nem no ato sexual. O que varia é o que está no lugar do -φ, se é um corpo ou uma obra de arte.
A arte é vista por Freud como sendo uma satisfação substitutiva que é psiquicamente eficaz, devido ao papel que a imaginação e a fantasia ocupam na vida anímica; ela é um modo específico de organização em torno do vazio, e a obra de arte é uma forma de cingir a Coisa. Na arte, “o objeto é instaurado numa certa relação com a Coisa que é feita simultaneamente pra cingir, para presentificar e para ausentificar.(...) É sempre contra a corrente que a arte tenta operar novamente seu milagre”16. A obra da sublimação não se limita à obra de arte, pois ela se estende a toda atividade que reproduz essa estrutura, essa reprodução da falta.
Os três termos que Freud define para a sublimação são a arte, a religião e a ciência. Nesse sentido, Leonardo da Vinci não poderia ser um exemplo melhor, uma vez que ele passeou com a mesma desenvoltura pelos três tipos de sublimação: na arte, com seus belíssimos quadros, esculturas e desenhos; na religião, embora ele não tenha sido uma pessoa especificamente religiosa, mas sua relação com a natureza e sua admiração pelo Criador do universo tinham um caráter religioso; e na ciência, com suas infindáveis pesquisas. Podemos então concluir que foi ao re-trabalhar a falta de um modo infinitamente repetido que Leonardo alcançou o limite da obra de arte.


NOTAS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1. Psicanalista, membro da Escola Letra Freudiana.
2. “Leonardo da Vinci: vida e pensamentos”, Editora Martin Claret, São Paulo,S.P., 2000,

pg 47.
3. Lacan, J.
O Seminário livro 4 A relação de objeto, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor,
1995, p.450.
4. Clark, K.
Leonardo da Vinci, Rio de Janeiro, Ediouro Publicações S.A., 2002, p. 45. 5. ________ O Seminário livro 4 A relação de objeto, op.cit., p. 446.
6. Bramly, S.
Leonardo da Vinci, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1989, p.103. 7.Lacan, J. O Seminário livro 7 – A Ética da Psicanálise, Rio de Janeiro, Jorge Zahar
Editor, 1988, p.119.
8. ________
O Seminário livro 4 A relação de objeto, op.cit., p. 435.
9. ________
O Seminário livro 7 – A Ética da Psicanálise, op.cit., p. 120.
10. Freud, S.“El recuerdo infantil de Leonardo de Vinci”,
in: Obras Completas, Volume
XI, Amorrortu Editores, 1976, p.101. 11. idem, p.110.
12. ibidem, p. 109.
13. Lacan, J.
O Seminário livro 14 – A lógica do fantasma, aula de 23/11/66, inédito. 14. idem, aula de 22/2/67, inédito.
15.
ibidem.
16. Lacan, J. O Seminário livro 7 – A Ética da Psicanálise, op.cit., p. 176.
BIBLIOGRAFIA:
- FREUD, S. “Três ensaios para uma teoria sexual”, in Obras Completas, Tomo II, Madri: Editorial Biblioteca Nueva, 1973 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Adágio in G minor (Albinoni)

Teria Dostoievski realmente antecipado o surgimento do Estado Totalitário???

 Dostoyevsky anticipó el surgimiento del Estado totalitario

  • 30 noviembre 2014






El novelista ruso del siglo XIX Fyodor Dostoyevsky creó personajes que justificaban matar en nombre de sus ideologías. Por esta razón, argumenta el filósofo John Gray, siguió siendo relevante durante el surgimiento de los Estados totalitarios del siglo XX y hasta ahora, en las "guerras contra el terrorismo".
Cuando Fyodor Dostoyevsky describió en sus novelas cómo las ideas tienen el poder de cambiar las vidas humanas, sabía de qué estaba hablando.
Nacido en 1821, el escritor ruso tenía algo más de 20 años de edad cuando se unió a un grupo de intelectuales radicales en San Petersburgo que estaban fascinados con las teorías socialistas utópicas francesas.
Un agente de policía que había infiltrado el grupo reportó las discusiones a las autoridades.

Crimen y castigo




Las ejecuciones por razones ideológicas sí ocurrían: aquí, la de dos nihilistas en San Petersburgo en 1880.
El 22 de abril de 1849, Dostoyevsky y los otros miembros del grupo fueron arrestados y, tras unos meses de investigación, encontrados culpables de planear la distribución de propaganda subversiva y condenados a muerte.
El castigo se conmutó por una sentencia de exilio y trabajos forzados, pero la autoridad del zar de decretar vida o muerte fue confirmada forzando a los prisioneros a experimentar una ejecución simulada.
En una puesta de escena cuidadosamente preparada, en la mañana del 22 de diciembre de 1849, Dostoyevsky y el resto del grupo fueron llevados a un lugar en el que se había erigido un andamio y decorado con crepé negro. Sus delitos y sentencia fueron leídos y un sacerdote ortodoxo les pidió que se arrepintieran.
Tres del grupo fueron amarrados a los postes, listos para la ejecución. Al último minuto, sonaron los tambores y el pelotón de fusilamiento bajó sus rifles. Habiendo sido indultados, los prisioneros fueron esposados y enviados al exilio en Siberia. Dostoyevsky debía cumplir cuatro años de trabajos forzados seguidos de servicio obligatorio en el ejército ruso.

Al borde de la eternidad

En 1859, un nuevo zar le permitió a Dostoyevsky finalizar su exilió en Siberia y un año más tarde estaba de vuelta en el mundo literario de San Petesburgo.
La experiencia lo alteró profundamente. No modificó de opinión respecto a que la sociedad rusa necesitaba cambiar radicalmente. Siguió creyendo que la institución de la servidumbre era profundamente inmoral, y hasta el final de sus días detestó a la aristocracia. Pero su experiencia de haber estado al borde de la muerte, como lo consideraba, le dio una nueva perspectiva respecto al tiempo y la historia.
Muchos años más tarde señaló: "No recuerdo haber estado tan feliz como ese día".



De ahí en adelante, se dio cuenta de que la vida humana no era el movimiento de un pasado deficiente a un futuro mejor, como lo había creído o medio creído cuando compartió las ideas de los intelectuales radicales. En cambio, pasó a creer que cada ser humano estaba en todo momento parado en el borde de la eternidad.
Como resultado de esa revelación, Dostoyevsky empezó a desconfiar cada vez más de la ideología progresiva que lo había atraído cuando era joven.
Despreciaba particularmente las ideas con las que se encontró en San Petersburgo a su regreso de una década de exilio en Siberia.
Una nueva generación de intelectuales rusos estaba cautivada por las teorías y filosofías europeas. El materialismo francés, el humanismo alemán y el utilitarismo inglés se fundían en una combinación peculiarmente rusa que terminó llamándose "nihilismo".
Tendemos a pensar que alguien nihilista es alguien que no cree en nada, pero los nihilistas rusos de la década de 1860 eran muy distintos. Creían fervientemente en la ciencia, y querían destruir las tradiciones religiosas y morales que habían guiado a la humanidad en el pasado para abrirle el camino a un mundo mejor.
Hoy en día hay mucha gente que cree en algo similar.

Demonios




La condena de Dostoyevsky del nihilismo es presentada en su gran novela "Demonios". Publicado en 1872, el libro ha sido criticado por su tono didáctico, y no hay duda de que el autor quería mostrar que las ideas dominantes de su generación eran dañinas.
Pero la historia que cuenta Dostoyevsky también es una comedia negra, cruelmente cómica en su descripción de los nobles intelectuales que jugaban con las nociones revolucionarias sin entender lo que significa una revolución en la práctica.
La historia es una versión de eventos que ocurrieron mientras Dostoyevsky estaba escribiendo el libro.
Sergei Nechaev había sido un profesor de divinidad y se había convertido en un "terrorista" que fue arrestado y condenado por complicidad en el asesinato de un estudiante. Nachaev había sido el autor de un panfleto, "El catecismo de un revolucionario", que argumentaba que cualquier medio (incluyendo el chantaje y el asesinato) era válido para promover la causa de la revolución. El estudiante había cuestionado las políticas de Nechaev, por lo que había sido eliminado.
Dostoyevsky indica que el resultado de abandonar la moralidad en nombre de una idea de libertad es un tipo de tiranía más extrema que cualquiera de las del pasado. Como uno de los personajes de "Demonios" confiesa: "Me enredé en mi propia información, y mi conclusión contradice directamente la idea original: partí de la libertad ilimitada, concluí con el despotismo ilimitado".
Es difícil encontrar una mejor descripción de lo que ocurriría en Rusia como resultado de la revolución bolchevique casi 50 años más tarde.
Aunque lo criticaba por depender demasiado en actos de terrorismo individuales, Lenin admiraba a Nechaev por su disposición a cometer cualquier crimen si le servía a la revolución. Pero como anticipó Dostoyevsky, el uso de métodos inhumanos para lograr un nuevo tipo de libertad produjo un tipo de represión que tenía mucho más alcance que las crueldades histriónicas del zarismo.

Poseídos




En Crimen y Castigo, Raskolnikov no mata por ideas pero sí las usa para justificar su crimen (en la imagen, representado por John Simms en una producción de la BBC).
La novela de Dostoyevsky contiene una lección que le sirve no sólo a Rusia.
Las primeras traducciones en inglés llevaban el título "Los poseídos", una lectura equivocada de la palabra rusa cuyo significado más preciso es "demonios". No obstante, el antiguo título quizás se acerca más a la intención de Dostoyevsky. Aunque hay momentos en los que los retrata sin misericordia, los revolucionarios no son los demonios: lo son más bien las ideas que los esclavizan.
Dostoyevsky pensaba que la falla en el corazón del nihilismo ruso era el ateísmo, pero uno no tiene que estar de acuerdo con ese punto de vista para apreciar que cuando escribe sobre las ideas demoniacas de poder está tratando un trastorno humano genuino. Tampoco es necesario estar de acuerdo con la opinión política del autor, que era una versión mística de nacionalismo muy manchada de xenofobia.
Lo que Dostoyevsky diagnosticó –y lo que a ratos sufría en su propia carne- era la tendencia a pensar que las ideas eran de alguna manera más reales que los mismos seres humanos.

Igual de ilusos

Sería un error imaginar que nosotros no hemos caído en esta suerte de pensamiento delirante.
Las guerras que Occidente ha luchado en Medio Oriente durante más de una década a menudo son criticadas por ser intentos de apropiarse de recursos naturales, pero yo estoy seguro de que esa no es toda la historia. Ha sido igual de importante un tipo de fantasía moral, lo que explica las repetidas intervenciones de Occidente y su recurrente fracaso.



Los nombres lo dicen todo: este fue el inicio de la Operación Libertad Iraquí, en marzo de 2003.
Nos imaginamos que ideas como "democracia", "derechos humanos" y "libertad" tienen un poder propio que puede transformar las vidas de quien esté expuesto a ellas. Lanzamos proyectos de cambios de gobiernos cuyo objetivo es hacer realidad estas ideas derrocando tiranos.
Sin embargo, exportar la revolución de esa manera puede tener el efecto de fracturar al Estado -como ha pasado en Libia, Siria e Irak- lo que conduce a la guerra civil, anarquía y nuevos tipos de tiranía.

Nuestros propios demonios

El resultado es la posición en la que nos encontramos en este momento.



No es sólo por petróleo...
La política occidental ahora está impulsada por el miedo a las fuerzas e ideas que han surgido del caos creado por la intervención occidental.
Lamentablemente, ese temor no es infundado. El riesgo de que esos conflictos nos afecten cuando los ciudadanos occidentales que han luchado en ellos regresen a casa es real.
Nos gusta pensar que las sociedades liberales son inmunes al peligroso poder de las ideas. No obstante, es una ilusión pensar que no tenemos nuestros propios demonios.
Poseídos por conceptos grandiosos de libertad, hemos tratado de cambiar los sistemas de gobierno de países que no entendemos.
Como los insensatos revolucionarios de la novela de Dostoyevsky, hemos convertido nociones abstractas en ídolos, e intentando servirlos, hemos sacrificado a otros y a nosotros mismos.

domingo, 30 de novembro de 2014

Sobre a velharada da ABL - SERGIO CONTI - Um texto de tirar o chapéu...

Conformismo e coonestação
"A desimportância da Academia Brasileira de Letras emudeceria até Lobão. Ninguém liga para ela, exceto os 40 autoproclamados imortais. Que eles desfrutem em sossego do privilégio de se fantasiarem de fardão pela eternidade afora.
A Academia é um clube cujos sócios, em graus variados de senectude, se reúnem para tomar chá e trocar dois dedos de prosa acerca de seus sublimes antecessores.
Na plêiade de intelectuais que a engrandeceram figuram eruditos do quilate de Getúlio Vargas, autor de "A Polaca", a Constituição do Estado Novo. E Aurélio de Lira Tavares, o viril ponta-de-lança da Junta Militar, que adotou um heterônimo mimoso –Adelita– formado pelas suas iniciais.
Vargas não conseguiu escrever nem o bilhete de suicida. Teve um apagão criativo e embatucou no rascunho da Carta Testamento, tendo de recorrer a um ghost-writer.
Já o sensível general Adelita perpetrou de próprio punho o pujante "Nosso exército, essa grande escola", bem como os versos inesquecíveis da "Canção da Engenharia", que ainda hoje assobiavam na padaria.
É perda de tempo criticar a Academia. Não importa que ela sobreviva à sombra do Estado. Que jamais tenha emitido um sussurro contra a censura e outros paus-de-arara na vida cultural. Que cultive a mediocridade literária (Nélida Piñon, Murilo Melo Filho etc.) e a bajulação de poderosos (Fernando Henrique Cardoso, Marco Maciel etc.). Ninguém liga.
Não vale nem notar que muito acadêmico não tem obra e a instituição não é representativa. Ela deveria representar quem, ou o quê? Os beletristas de tirocínio, ou ao menos operosos? O estágio atual das letras nacionais? O espírito do tempo?
Tudo isso é fugidio, não vale o espadim que os acadêmicos mais serelepes, Ivo Pitanguy à frente, amam esgrimir de brincadeirinha no chá das quintas-feiras.
Que os membros do clube, pois, façam bom uso dos jetons, do escritório a que têm direito no centro do Rio e do mausoléu que os aguarda em Botafogo, no cemitério de São João Batista. "Requiescat in pace", diria um deles.
A Academia só deixa de ser inócua quando nela entra um poeta de verdade. Isso é chato porque as más companhias têm influência e a instituição os diminui individualmente: todos os ratos são pardos no Petit Trianon.
É o que fatalmente se dará com Ferreira Gullar (colunista dominical da Folha), cuja posse na sua cadeira cativa no clube está marcada para a próxima semana.
"A Academia já fez tudo para eu entrar lá, e eu digo: não. Jamais entrarei para a Academia", afirmou Gullar numa entrevista de agosto de 2011. "Como eu não tenho cabeça acadêmica, como não é a minha, não vou entrar lá."
Pois não é que Gullar virou sócio remido da seleção canarinho das belas letras?
Disputou uma cadeira que já foi ocupada pelo bucaneiro Assis Chateaubriand. Submeteu-se ao vexame de cabalar votos. Fez a prova do alfaiate.
E agora deve estar à cata de elogios raros ao confrade e conterrâneo José Sarney, com os quais abrilhantará o seu discurso de posse.
Precisava? Gullar fez uma poesia rebelde e arriscada. Buscou juntar expressão de vanguarda e participação política, expressão existencial e popular. Por isso, foi neoconcreto, compôs cordéis, fez a lírica do exílio, confessou-se.
Nem sempre conseguiu o que buscava. Seus poemas são às vezes discursivos ou demagógicos; o credo stalinista o fez tropeçar; seus versos perderam voltagem com a passagem do tempo.
O resultado final, porém, é largamente positivo. Pelo que sua poesia tem de inventividade formal e insubmissão.
Envergar o fardão-ostentação, no caso de Ferreira Gullar, significa espargir sobre si mesmo as cinzas do conformismo, coonestar lato senso com o statu quo, dar uma de Lobão. Tomara que elas não maculem "Poema Sujo"."

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Como vão os bagos???




O suposto matador de Che Guevara...

Jornal espanhol entrevista homem que teria matado Che Guevara


MADRI — O jornal espanhol “El Mundo” publicou neste domingo uma entrevista com o militar aposentado que teria matado Che Guevara, aos 39 anos, no dia 9 de outubro de 1967, em La Higuera, na Bolívia. Mario Terán Salazar, de 72 anos, tenta se esquivar dizendo que havia três militares com um sobrenome igual ao seu no Exército boliviano e que por isso ele sempre teria sido confundido com o homem que matou o guerrilheiro. O general Gary Prado, capitão da milícia que encurralou Che, no entanto, confirmou ao “El Mundo” a autoria dos disparos.
A entrevista ao diário espanhol foi feita na casa de Terán, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. Segundo uma confissão escrita que fez aos seus superiores, o militar conta ter se sentido intimidado e tonto com a presença do guerrilheiro.
“Quando cheguei, Che estava sentado. Ao me ver, disse: você veio para me matar? Eu me senti envergonhado e abaixei a cabeça sem responder. Não me atrevi a disparar. Nesse momento, vi o Che grande, muito grande. Quando me olhou senti tontura. Eu pensei que, com um movimento rápido, ele poderia tomar a minha arma”, descreveu na confissão, publicada na íntegra pelo “El Mundo”.
Segundo o militar, Gue teria dito para que ele se acalmasse. Logo depois, veio o primeiro disparo:
“Por favor, acalme-se, você vai matar um homem”, relembra Terán na confissão, citando as palavras de Che. “Então, dei um passo para trás, até a soleira da porta, fechei os olhos e disparei a primeira rajada. Che caiu no chão com as pernas destroçadas, se contorceu e começou a jorrar muito sangue. Recobrei o ânimo e disparei a segunda rajada, que o atingiu seu braço, ombro e coração”.
No que parecia ser uma tentativa de gerar confusão ou camuflar o protagonista, havia três Marios Terán no Exército colombiano: Mario Terán Ortuño, Mario Terán Terán Reque e Mario Terán Salazar. Perguntado se era verdade que ele fazia parte do grupo que deteve Che, o entrevistado se esquivou:
— Não é verdade. Havia dois ou três Marios Teranes (sic) no Exército, mas com diferentes sobrenomes maternos — disse ao jornal, para logo depois se identificar como sendo o homem da única imagem publicada até hoje do suposto atirador. — Sim, sou eu — respondeu aos jornalistas do “El Mundo”, que lhe mostraram a foto.
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A imagem foi tirada dois meses depois da execução pela jornalista francesa Michèle Ray, da Paris Match, que escreveu um livro sobre a morte de Che. 
O general Gary Prado disse que sempre aconselhou Terán que não confessasse seu papel na morte para evitar possíveis retaliações.
Na entrevista, Terán desmentiu uma informação do jornal cubano “Granma” de que médicos cubanos teriam devolvido a visão ao homem que matou Che.
— Não. Não é como eles dizem que eu recuperei a visão. Falso. Eu não estava cego, tinha uma catarata simples — afirmou ao “El Mundo”.
UMA EXECUÇÃO CHEIA DE BOATOS
Che Guevara, braço direito de Fidel Castro, que ajudou a derrotar o ditador Fulgencio Batista em 1959, foi executado numa escola na aldeia de La Higuera, no centro-sul da Bolívia, no dia seguinte à sua captura pelos rangers do Exército boliviano, treinados pelos Estados Unidos. 
Depois de 11 meses nas selvas, os guerrilheiros foram encurralados por soldados da milícia liderada pelo capitão Gary Prado, em uma ravina localizada na região de Vallegrande, no dia 8 de outubro. Durante a luta, Guevara acabou sendo ferido na perna e levado para La Higuera junto com dois companheiros, onde foi morto.
O assassinato encerrou uma operação guerrilheira desastrosa. Com a vitória da revolução em Cuba, Che Guevara, médico formado pela Universidade de Buenos Aires que se iniciara politicamente na oposição a Perón, resolveu levar o ideal marxista para os países da América Latina, contrariando as recomendações do Partido Comunista soviético.
Os boatos que cercaram a execução de Che Guevara levantaram dúvidas sobre a identidade do guerrilheiro morto em Higueras. A confusão culminou no desaparecimento dos seus restos mortais, encontrados apenas em 1997 — quando o mundo recordava os trinta anos de sua morte — sob o terreno do aeroporto de Vallegrande. 
O corpo estava sem as mãos, amputadas para reconhecimento poucos dias depois da morte e contrabandeadas para Cuba. Em 17 de outubro de 1997, Che foi enterrado com pompas na cidade cubana de Santa Clara (onde liderou uma batalha decisiva para a derrubada de Batista), com a presença da família e de Fidel.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O VOO DA TAM & Jucelino Nóbrega da Luz o nosso Nostradamus...


Juscelino Nóbrega da Luz está causando paranóia entre os passageiros do voo TAM, do dia 26 de novembro, São Paulo Brasília ao afirmar e até registrar em cartório que o avião se estatelará na Avenida paulista. Se der certo, merece ser imediatamente canonizado, (eu mesmo queimarei incenso sob as barbas desse charlatão), se errar, lhe fariam bem uns 200 chicotaços. 
Para uma sociedade que acredita mais em um deus imaginário do que em seu vizinho com quem desce o elevador todas as manhãs, para uma sociedade intoxicada com crendices primitivas e misticismos baratos a premonição de Juscelino está tendo quase peso de lei. 
Agora.., uma coisa é certa: se o piloto fizer parte desse time e dessa confraria, (o que é bem provável) e não estiver com seus exames neurológicos em dia, todo cuidado é pouco... e alterar o bilhete é pertinente...
É incrível que por mais que se tente, há uma insistência de nossa gente em não querer sair da Idade Média!

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Genesis, 1:71`

E Deus, quando percebeu a merda que havia feito, colocou suas mãos leves sobre a cabeça dos dois infelizes e decretou: e sobre aqueles que conseguirem viver mais de setenta anos lançarei os  mais variados tipos de demências para que esqueçam inclusive, das estupendas trepadas que protagonizaram no percurso de suas vidas...

sábado, 15 de novembro de 2014

A idiotice narcisista do Curriculum Vitae ou Leandro Konder e seu Curriculum mortis

"A sociedade, modernizada, precisa de organização, eficiência. Para obter um emprego, para conseguir uma promoção, fazer carreira, o sujeito precisa exibir suas qualidades, ostentar seus êxitos. Já existem até manuais que ensinam o cidadão a preparar seucurriculum vitae. A trajetória ascensional de cada um depende dessa peça de literatura, que lembra as antigas epopéias, porque nelas o protagonista – o herói – só enfrenta as dificuldades para poder acumular vitórias. Os obstáculos servem apenas para realçar seu valor. O passado é reconstituído a partir de uma ótica descaradamente “triunfalista”.
Evidentemente, trata-se de uma imagem que não corresponde à realidade. Em sua imensa maioria os seres humanos não são campeões invictos, não são heróis ou semideuses. Se nos examinarmos com suficiente rigor e bastante franqueza, não poderemos deixar de constatar que somos todos marcados por graves derrotas e amargas frustrações. Vivemos uma vida precária e finita, nossas forças são limitadas, o medo e a insegurança nos freqüentam; e nada disso aparece no curriculum vitae de cada um de nós.
curriculum vitae é a ponta do iceberg: ele é o elemento mais ostensivo de uma ideologia que nos envolve e nos educa nos princípios do mercado capitalista; é a expressão de uma ideologia que inculca nas nossas cabeças aquela “mentalidade de cavalo de corrida” a que se refere a escritora Dóris Lessing. Não devemos confessar o elevado coeficiente de fracasso de nossas existências, porque devemos ser “competitivos”. Camões, o genial Camões, autor de tantos poemas líricos maravilhosos, não poderia colocar em seucurriculum vitae o verso famoso: “Errei todo o discurso dos meus anos”.
A ideologia que se manifesta no curriculum vitae, afinal, aumenta as nossas tensões internas, porque nos dificulta a lucidez e a coragem de assumir o que efetivamente somos; nos obriga a vestir o uniforme do “super-homem”, a afetar superioridades artificiais. Além disso, ela incita à mentira, gera hipocrisia. Por sua monstruosa unilateralidade, a imagem do vitorioso, que ela nos obriga exibir, empobrece o nosso conhecimento de nós mesmos, prejudica gravemente a sinceridade da nossa auto-análise.
É uma ideologia capaz de explorar tanto a burrice como a inteligência; capaz de influir tanto sobre as vaidades primitivas como sobre as culturas refinadas. Para os indivíduos intelectualizados, ela se reveste de máscaras altamente sofisticadas. No caso dos artistas, ela usa a mitologia da genialidade e induz freqüentemente a pessoa a se alimentar de ambições desmesuradas. No caso dos intelectuais em geral, ela se apóia nos mecanismos seletivos da carreira universitária, aproveita as exigências de “publicidade” que se tornaram tão fortes na vida moderna e instiga uns a se afirmarem contra os outros: diminui a simpatia espontânea pelos colegas, a disposição real para aprender com eles, e se fortalece a desconfiança, cresce o impulso no sentido de demonstrar sua própria competência através da denúncia da incompetência alheia.
Claro que não teria sentido imaginarmos que o quadro deveria ser idílico e sonharmos com uma situação na qual os indivíduos jamais colidissem uns com os outros. Sabemos que as contradições nunca vão ser inteiramente suprimidas, que a existência delas é uma dimensão essencial da própria realidade. Sabemos também que o apreço por si mesmo é importante para todo ser humano: se não gostar de si mesma, nenhuma pessoa conseguirá gostar saudavelmente de outra; se não acreditar de fato em suas convicções, não conseguirá comunicá-las a outras pessoas, não conseguirá intervir no mundo, contribuindo para melhorá-lo. A partir de um determinado nível, contudo, a auto-estima fica sobrecarregada de narcisismo e acarreta uma atrofia conservadora da autocrítica.
Podemos então deixar de lado as condenações moralista – inócuas – do narcisismo. Elas são antigas e apresentam escasso interesse teórico. O problema que merece a nossa preocupação é outro: é aquele que se manifesta no efeito conservador da autocomplacência, que coagula o movimento auto-renovador da consciência, enrijecendo-lhe o ímpeto criativo e a abertura para o novo.
É provável que a estrutura da mente humana seja muito mais conservadora do que costumamos reconhecer. Renovar-se, reformular suas idéias, modificar seus valores, é operação dolorosa e arriscada. Quem parece realizá-la com alegre desenvoltura é o espírito frívolo, superficial e sem raízes, que está sempre disposto a acolher as novidades porque na realidade não as assimila (já que não assimila profundamente coisa alguma). Quando a vida obriga o ser humano a mudar os critérios e valores a que ele já tinha se acostumado e nos quais fundara a sua segurança, é natural que ele se angustie. Os próprios neuróticos, embora sofram, se agarram à neurose, porque têm medo de cair em um sofrimento ainda maior.
Nossas sociedades fragmentadas, divididas em grupos, em classes, em nações, em blocos de Estados, tornam muitíssimo mais difícil uma tarefa que por si mesma já é extremamente espinhosa: a de conhecermos as camadas mais profundas da realidade em que vivemos, penetrando gradualmente na essência mais significativa dos fenômenos, enxergando as coisas de um ângulo verdadeiramente universal, quer dizer, comum à humanidade como um todo. A humanidade está dilacerada, os indivíduos não sabem como agir para se tornarem uma encarnação dela. Não sabem o que há de mais universal neles. E isso contribui para que eles desistam da universalidade e se resignem a ser facciosos, unilaterais.
Sofremos todos a brutal pressão decorrente desse quadro, dessas condições. No entanto, volta e meia, no esforço para mudar o mundo, sentimos necessidade de nos unir a outros seres humanos em torno de princípios, que, por definição, precisam ser universais. Como superar o estreitamento dos nossos horizontes, provocado pelo mercado hipercompetitivo, que nos joga constantemente uns contra os outros? Os mecanismos do mercado forçam as pessoas a buscar lucros cada vez maiores, a disputar um lugar de trabalho melhor remunerado, ameçam-nas com o desemprego e a miséria, intimidam-nas com a falência; além disso, disseminam a insegurança e produzem a cristalização não só dos interesses materiais como dos modos de sentir e de pensar. Fortalece-se, nas criaturas, a exigência de forjar álibis.
Marx e Freud descobriram aspectos decisivos da ação das forças que atuam subterraneamente em nós e mostraram que, sob uma capa de “racionalidade”, elas impõem limites aos movimentos da nossa consciência. Mostraram como esquemas explicativos são elaborados e reelaborados em nossas cabeças com a finalidade de nos proporcionar a “boa consciência”, com o objetivo de amenizar nossas dúvidas, atenuar nossas inquietações e evitar a vertigem das nossas inseguranças.
Forjamos para nós imagens que nos ajudem a viver; e nos apegamos a elas. O autoritário se apresenta como “enérgico” e “corajoso”; o oportunista como “prudente” ou “realista”; o covarde com “sensato”; o irresponsável como “livre”. Não existe nenhuma tomada de posição no plano político ou filosófico que, por si mesma, imunize a consciência contra a ação desses mecanismos. Somos todos divididos, contraditórios. Por isso mesmo, precisamos promover discussões, examinar e reexaminar a função interna das nossas racionalizações. Quer dizer: precisamos realizar permanentemente um vigoroso esforço crítico e autocrítico.
A autocrítica é de uma importância decisiva. É por ela que passa o teste da superação do conservadorismo dentro de nós. Um conservador – é claro – pode fazer autocrítica; mas, se a autocrítica for feita mesmo para valer, ele seguramente não estará sendo conservador no momento em que a fizer.
Desde que consiga se instalar solidamente na consciência de alguém, o conservadorismo pode administrar uma grande flexibilidade: pode suportar com tolerância liberal as opiniões divergentes, até as provocações e irreverências alheias. Mas não pode se permitir o autoquestionamento radical.
George Bernard Shaw, que conhecia a significação da autocrítica, disse uma vez que o erudito era um homem que se valia de seus conhecimentos para criticar os outros, ao passo que o sábio era um homem que se criticava a si mesmo. No sentido que Shaw atribuiu à palavra, Marx era um sábio, porque não se limitou a criticar os outros, mas também cultivava – e como! – a autocrítica. Embora suas idéias sirvam de base para as certezas de milhões de militantes que invocam seu nome, Marx declarou a sua filha que, se tivesse de adotar um lema, seria a frase latina que recomendava duvidar de tudo: de omnia dubitandum. Ao completar cinqüenta anos de idade, numa situação de extrema pobreza, Marx escreveu para Engels uma carta (30.04.1868) na qual ria de sua própria incompetência para ganhar dinheiro: “Como minha mãe tinha razão quando dizia o Karl defia saper kanharr o capital (enfez de eskreferr sopre ele)…” (Marx imita jocosamente na carta a pronúncia de sua mãe). Em outra carta para o mesmo amigo de sempre concordava com uma observação de sua mulher, Jenny, que assegurava que, embora vivessem muito mal, após a vitória da revolução o casal passaria a viver pior, porque “teria o prazer de ver todos os charlatães comemorarem o triunfo deles.“ (11.12.1858). Marx não excluía a prioria hipótese de estar fazendo, em determinadas situações, papel de bobo.
Esse espírito autocrítico está presente também em Engels e em alguns marxistas de épocas posteriores, com Gramsci e Walter Benjamin. Ele assume traços de ascetismo nos anos “heróicos” do leninismo “puro”, mas se deteriora na ação dos partidos comunistas colocados sob a liderança de Stálin. A autocrítica se desmoraliza, deixa de ser um ajuste de contas do indivíduo consigo mesmo e é delegada à mecânica das agremiações: o militante faz a autocrítica que a direção do partido lhe impõe.
Agora, com os impasses com que se defronta o movimento comunista, com a ampla exigência de uma renovação do marxismo (no espírito de Marx), estão sendo criadas condições para que também os comunistas reaprendam o sentido da genuína autocrítica.
A verdadeira autocrítica exige uma espécie de “complementação negativa” para ocurriculum vitae: depois de apregoar seus êxitos e seus méritos, a pessoa enfrenta o desafio de reconhecer suas frustrações, suas deficiências, seus fracassos, suas fraquezas. Talvez possamos chamar essa reconstituição dolorosa e necessária de curriculum mortis. Os indivíduos mais gravemente contaminados pela ideologia “triunfalista” que se manifesta no curriculum vitae carecem de sensibilidade, de madura lucidez e de coragem intelectual para a elaboração desse curriculum mortis. Eles agem como aquele político conservador que, numa entrevista, respondendo a uma pergunta sobre o maior erro que admitia ter cometido, explicou à estarrecida jornalista: “Meu maior erro tem sido o de dizer as coisas antes de todo mundo, cedo demais, quando os espíritos ainda não estão preparados para compreendê-las; isso desencadeia uma reação muito forte contra o meu pioneirismo.” Num passe de mágica, a autocrítica se transforma em auto-elogio.
Em nossos tempos de desconfiança, esses lances de prestidigitação tendem a surtir cada vez menos efeito. E, mesmo quando ainda conseguem iludir alguns incautos, eles trazem para os mistificadores talentosos vantagens precárias, pelas quais o mágico, afinal, acaba pagando, humanamente, um preço mais elevado do que supõe. Querendo ou não, cada um de nós caminha inexoravelmente para a morte (e o prestidigitador não escapa a esse destino). Reconhecendo francamente nossos fracassos, elaborando nosso curriculum mortis, assumindo autocriticamente os momentos “noturnos” em que vamos morrendo aos poucos, aumentamos as nossas possibilidades de nos conhecermos e de nos aperfeiçoarmos espiritualmente; e, de certo modo, esse talvez seja o único caminho possível de preparação para o fim pessoal inevitável. Quem insiste em se iludir, na realidade, está optando por enfrentar despreparado todas as dores que lhe vão desabar em cima, na hora da desilusão. Os indivíduos que conseguem se elevar a um ângulo mais universal e conseguem discernir com clareza as limitações do ser particular deles, em princípio, devem estar em condições menos ruins para se defrontar com a morte (já que são capazes de reconhecer algo – a humanidade, Deus – acima de suas individualidades; e esse algo não morre).
A abordagem do tema da morte, aqui, pode parecer surpreendente; os marxistas não costumam escrever a respeito desse assunto (e há quem alegue, com alguma ligeireza, que a omissão se deve ao fato de eles se ocuparem preferencialmente dos problemas da vida). Na verdade, a compreensão de alguns dos problemas da vida só pode se aprofundar se nos dispusermos a refleti também sobre a morte, E há um precedente da maior importância na reflexão dialética sobre a morte; ele se encontra na Fenomenologia do Espírito, de Hegel.
Nesse livro, Hegel estuda – num nível notoriamente muito abstrato – o movimento da consciência, que parte da percepção sensível, imediata, e caminha para o que ele chama de saber absoluto. Em sua trajetória, a consciência assume diferentes figuras, A quarta figura desse itinerário é a autoconsciência e a quinta é a razão. Pois bem: para passar da autoconsciência à razão, é preciso pensar a fundo a questão da morte.
Para Hegel, a autoconsciência é uma figura na qual a consciência analisa as coisas, vai completando seu campo de entendimento, mas tende inevitavelmente a se encerrar em si mesma, a excluir o novo, a deixar de fora o negativo; ela tende então a se encastelar numa positividade enrijecida. Na medida em que sente necessidade de avançar, a consciência precisa, por conseguinte, superar essa figura; precisa se desembaraçar da sua segurança artificial, vencer seu medo, encarar o negativo. E a forma universal do negativo é, precisamente, a morte.
A conquista da razão, portanto, depende – segundo Hegel – da capacidade que a consciência venha a adquirir de olhar a morte de frente, aproximar-se dela, permanecer junto dela, conviver com sua presença assustadora (em vez de contorná-la e fingir que ela não existe). Só assim a consciência consegue se enriquecer, assumindo seriamente seus limites, incorporando – dolorosamente – a dimensão do negativo à sua compreensão do mundo e de si mesma. “O Espírito” – lê-se na Fenomenologia do Espírito – “só conquista a sua verdade quando é capaz de se encontrar a si mesmo na mais absoluta dilaceração.”
Essa indicação preciosa se perdeu, na história das lutas travadas pelos herdeiros da dialética hegeliana. A consciência dos marxistas, com o tempo, começou a apresentar sintomas daquela positividade enrijecida a que se referia o autor da Fenomenologia do Espírito. Difundiu-se uma concepção simplificadora, maniqueísta, da revolução: em rígida contraposição à “corrupção” burguesa, as organizações revolucionárias eram levadas forçosamente a exagerar sua “autenticidade nuclear”, sua “justeza fundamental” (minimizando conseqüentemente todas as deformações internas, todas as graves anomalias que se verificavam em seu interior). A genuína autocrítica definhou, o “triunfalismo” se impôs. Os revolucionários foram envolvidos por uma ideologia que não lhes cobrava maior empenho em crescerem porque os convencia de que já eram bastante grandes; uma ideologia que não os pressionava no sentido de indagarem mais a respeito das coisas e deles mesmos, porque lhes sugeria que eles já tinham as respostas essenciais.
Mas a história se rebelou contra os que proclamavam seus direitos sobre ela. A prática desmoralizou a teoria que se considerava sua carcereira e fugiu por todas as janelas. E o revolucionário foi obrigado a constatar, como qualquer homem comum, que a morte o está devorando a cada momento. Volta a se colocar, então, em nome da vida, a necessidade de incorporar o negativo à consciência. Através da autocrítica. Ou – se a expressão em latim não lhes parecer muito rebarbativa – através do curriculum mortis".