"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 26 de outubro de 2013

E se os Beagles falassem...


É uma pena não poder ouvir a opinião dos Beagles a respeito de toda a pantomima que se está armando ao redor e sobre eles. Devem estar apavorados com tanta demência e com tanta loucura que testemunharam tanto lá no interior do famoso laboratório como aqui fora... 
A tragédia histórica dos cães foi terem caído na lábia dos humanos e terem se convertido passivamente à vida doméstica. Na realidade, nunca foram muito bem quistos. Quem é que não lembra que na Idade Média quando se queria punir ou humilhar alguém se o obrigava a andar com um cão às costas pelas ruas? Ou então, que para agravar a desonra e o castigo de um condenado se costumava enforcar um cão no mesmo patíbulo? 
E a mistificação dos laboratórios? Observem como os que condenam a "libertação" dos cães querem dar ao laboratório em questão uma importância que ele não tem. Perdeu-se uma década de pesquisas! Cacarejam em estribilho empoleirados nas cercas do canil pátrio! E mais, sobre o câncer! Câncer! O câncer foi transformado num sinônimo cristão de demônio, de satanás, de Belzebu! Pesquisar as causas do câncer tornou-se uma espécie de missão sagrada e, claro, a chave para todos os tipos de verbas públicas. 
Ora, o país está infestado de "laboratórios de pesquisa" e, principalmente depois que se descobriu o caminho das pedras que conduz a milionários financiamentos. Com um avental branco e uma aura de sacerdote se pode passar um século brincando com  microscópios e "pesquisando" sem agregar nada a nada e mesmo assim manter-se no topo das prioridades científicas nacionais. Descobriram o quê, afinal? Desvendaram o quê de verdadeiramente relevante (de verdadeiramente relevante!) nos últimos cinquenta anos, sem contar com.., por exemplo, as variações de pasta de dentes, com os "complementos alimentares" e com as novidades no mundo dos shampoos? Todo mundo sabe que os milhares de medicamentos amontoados nas farmácias poderiam ser reduzidos a uns trinta ou quarenta sem prejuízo algum para a espécie. Mas... mas... e fazer o quê com a máfia das nacionais e das multinacionais? E a ignorância da turba? Mas e os placebos? E a mitologia das doenças? E a mitologia da saúde? E os fabricantes de angústia? E a hipocondria generalizada? E a arte de anomalizar o corpo! E as chantagens administradas através dos medicamentos? 
Ora, é necessário pensar! O cérebro não foi feito apenas para ser protegido por um solidéu ou por um boné! E depois, é até cômico saber que inclusive o fermento Royal do pão que estou ruminando neste momento, já era conhecido pela avó de Sófocles. Que a aspirina já era usada pelos beduínos, que os fumadores de ópio da Birmânia já conheciam a anestesia, que os remédios para pressão eram colhidos nos jardins de Epicuro, que os povos primitivos faziam correções de miopia com estiletes de bambu e que os efeitos do viagra já eram muito bem conhecidos pelos apreciadores das raízes da Mandrágora...
Enfim: Pois é, prá quê?

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Apenas uma sexta-feira! (A arte de furtar)

A manhã desta sexta-feira não começou lá muito normal... Primeiro, a avenida bloqueada, depois a biblioteca fora de funcionamento para dedetização e, um pouco mais tarde, num café periférico, a batedora de carteira que investiu duas vezes sobre minha pobre bolsa. Branca, de uns 35 anos, com uma criança no colo e aquela cara de Maria Madalena no funeral de JC, estava acompanhada por uma mulher mais velha, possivelmente sua instrutora. A abordagem clássica: um olhar de sedução, um esbarrão, a criança como escudo, uma tossida para encobrir o ruído do zipper e pronto: lá vai a carteira e a câmera do otário! Sorte que uma de minhas primeiras leituras na vida foi exatamente A arte de furtar. O que mais me impressionou nos segundos durante e posteriores à cena, foi o olhar da criança, um garotinho de no máximo um ano e meio. Olhou-me no fundo dos olhos, tão decepcionado como a mãe e como se soubesse de tudo o que estava acontecendo. Treinado assim em serviço, imaginem o equilíbrio emocional e a competência profissional desse pirralho quando tiver uns sete anos...
Ela baixou o rosto, olhou para a megera mais velha como se justificando e caiu fora ruminando seu fracasso. 
Achar que essa profissão é fácil é puro engano! Uma tremida a mais e pronto, já era! Uma dorzinha de cabeça, uma febre, uma alteração no sistema nervoso e pronto, as mãos já não obedecem como deviam e lá se vai sã e salva a presa. 
Quanto à vítima (no caso, eu), pior do que perder a carteira ou a câmera, é saber que só foi escolhido porque estava com cara e pinta de babaca e de otário! Aquele ali - imaginei a velha dizendo - tem o perfil completo de um idiota e de um lunático. Avante! Podes roubar-lhe até os dentes que não perceberá!
Mesmo assim, por mais estranho que pareça, simpatizo com essa gente. São os verdadeiros representantes do anti-homem, do anti-burocrata, do anti-bundão e fazem uma espécie de contraponto 
aos ladrões oficiais, protegidos pelo sistema, pelas meretrizes leis de mercado e pelo apostolado do progresso.
Sim, esses mãos leves e gatunos estão permanentemente de lazer e analisando as multidões bestificadas, a sinecura dos poetas e os proletários da moral que, como dizia o filósofo, vão perfumados e sorridentes por aí de compadre a compadre.  Cagam sobre todas as éticas e sobre todas as verdades, principalmente as que dizem respeito ao céu ou ao inferno ... pisoteiam todos os princípios. Roubam! Acreditam que roubar é nosso verdadeiro "pecado venial". Estão convictos de que todas as ciências, filosofias, psicologias e até a astrologia, o que pretendem é dar ao sujeito em vias de civilidade, a ilusão de que ele não é, na essência de seu DNA, apenas um mísero, pobre e renegado ladrão!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Obituário moral...


"Se a estátua é ruim, acaba achincalhando a memória que queria celebrar".
Fialho D'almeida

Os jornais noticiam que o TJDF condenou a uma década de cadeia a moça de 19 anos que após receber uma cantada tentou matar o pobre homem que lhe propôs apenas uns instantes de frenesi y de amor... E o Don Juan em questão tem 72 anos, razão pela qual ninguém duvida que possua uma expertise especial sobre a temática, expertise que, neste caso, não lhe serviu para nada, a não ser para premiá-lo com umas boas pauladas na cabeça.
Independente da idade e da dialética do proponente, nunca entendi por que um convite ao sexo, quando não é precedido pelo tempo, pelas artimanhas e pelas hipocrisias formais quase sempre é experimentado e entendido como algo indecoroso... Como um atrevimento, uma agressão, um desrespeito... Como um motivo para logo se enquadrar o cantador na legião dos párias vagabundos e num dos muitos artigos de nosso velho Código Penal como se representasse um risco, uma exploração, um roubo, uma contaminação e um gozo unilateral... E quando a cantada parte de um velho então... o tabu é bem maior... Já se imagina o genital masculino como um lança-chamas... já se pensa num Marques de Sade da terceira idade solto por aí, num Rasputim ou num sodomita recém chegado das estepes dos montes Urais... Ora, que atraso! Será que nesta altura do campeonato e depois de tudo o que já se viu e se disse a respeito, a maioria das mulheres (adolescentes, balzaquianas ou da quarta idade) ainda continua achando o sexo como algo imoral? Uma desonra, algo feio, coisa de puta? Será que realmente não gostam?, não gozam?, não experimentam nenhuma espécie de desfalecimento? Ou será que não pretendem, de jeito nenhum, abandonar o vertiginoso e dissimulado onanismo? Será que só o aceitam se for para casar, se for idealizado ou em estado de embriagues, mesclado com surtos de paixão ou de histeria? Ou só quando o proponente, velhote ou não, tem uma gorducha conta bancária e meia dúzia de duplex na praça?


sábado, 19 de outubro de 2013

Mas... e os ratos?

[Não há nada pior que um doente curado!]
Pensamento alemão.

Muita gente ainda está ou comovida ou furiosa com o pessoal abolicionista que invadiu um laboratório de pesquisas no interior de SP. Entraram lá, como vimos, para resgatar mais de uma centena de animais que eram usados nas tais sessões de vivissecções. Eu mesmo, colocando-me no lugar daqueles bichos, senti uma felicidade imensa ao sair das jaulas no colo daquelas meninas e ganhar as ruas, a liberdade... Sim, as ruas e a liberdade para trotar e para vagabundear! A vida ou está nas ruas ou não está em lugar nenhum! O que não está na rua, lembrava Henri Miller, é pura literatura! 
Mas e a produção de cosméticos? Perguntam sobriamente os petimetres. Ora, fodam-se os cosméticos, as loções, as brilhantinas, os pós-de- arroz,! Se servissem para alguma coisa o mundo não seria essa imensa colônia de enrugados, de enferrujados, de encrespados e de caquéticos! Sejamos realistas: depois do sabão, aquele mesmo feito em casa com abacates e com soda caustica, não se produziu mais cosmético algum que servisse realmente para alguma coisa. Mas e a produção de remédios? Indagam os que ainda defendem a existência de um planeta de múmias e que ainda acreditam na eternidade. Remédios?! Fodam-se os remédios! Além da Emulsão de Scott, dos trinta ou quarenta que já existiam na época de Hipócrates e que já estavam nas prateleiras das pharmácias de nossos tataravós, o resto é tudo embromação e placebo que não tem serventia alguma...
Enfim, a única coisa que me deixou chateado, pensativo e perplexo sobre a invasão, foi a indiferença e o  menosprezo dos abolicionistas para com os ratos. Por que não salvaram também os ratos que havia lá? Por que só os Beagles?

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Lobão e o esotérico Campo de Libra...

Hoje ouvi acidentalmente o ministro de Minas e Energia falando sobre o tal Campo de Libra, aquele que será leiloado na segunda-feira. Falava da quantidade astronômica de petróleo que há por lá e nos 900 bilhões que renderá ao país nos próximos 30 anos, e claro, concluiu o papo com a clássica frase que é patrimônio nacional: dinheiro que será investido na Educação e na Saúde. Quem é que ainda consegue ouvir essa gente falar sobre estas temáticas sem sentir ânsia de vômito? Se os governantes do último século tivessem se interessado pela educação e pela saúde como propagandeavam, os pirralhos de hoje em dia já nasceriam falando cinco seis idiomas, recitando Homero, resolvendo as maiores dúvidas de Poincaré e tocando Schubert no violino. Puro papo furado! Desde criança, lá no meio da solidão paradisíaca daqueles cafezais paranaenses já ouvia dizer que o roubo tributário sobre o café era para, mais tarde, investir na Educação e na Saúde. Também os impostos sobre a fibra do rami, sobre os remédios, sobre os caminhões, sobre as terras, sobre os revólveres e sobre a munição teriam o mesmo destino... Ouvia dizer que o desmatamento insensato de toda aquela região era para, no futuro, com o dinheiro da madeira, garantir uma boa educação e uma boa saúde. Que naquela terra devastada por jagunços, grileiros e por posseiros se plantaria soja e se criaria vacas, muitas vacas.., para quê? Para no porvir, construir bons hospitais para desintoxicar os corpos e boas escolas para desobstruir os cérebros! 
Tudo mentira! 64 anos de mentiras e de imposturas! Querem a prova? Visitem a escola mais próxima e o posto de saúde da esquina lá pelas oito e meia da manhã... 
E o pior, é que a todos esses mentirosos impostores se garantiu um funeral com tiros de canhão e com honras de Estado, e mais, se lhes construiu singelamente mausoléus de luxo, quase monárquicos.

Villa Lobos...

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Controle de natalidade...



[...O mundo não passa de um caos provido de urnas eleitorais].
Leon Bloy

 Transitando pelas chamadas Cidades Satélites, florescidas ao redor, no meio e dentro de uma pobreza e de uma desordem indescritível, fica evidente para qualquer um que a razão fundamental dos 8 homicídios só neste final de semana e do caos vigente, se chama superpopulação, tema que é tabu desde sempre. Com medo da igreja, dos padres e do Papa os governos, os candidatos, os tribunais e os administradores não dão um pio a respeito e ficam fazendo a velha demagogia da misericórdia, distribuindo o arroz com feijão de sempre como se isso fosse resolver alguma coisa e fingindo que os sistemas de saúde, de educação, de moradia de transporte e etc., um dia darão conta dessas comunidades que se reproduzem como cangurus. Não darão! Podem importar médicos, professores, marceneiros, psicólogos, carcereiros, curandeiros, construir uma rede de metrô igual a de Londres, o que quiserem, que todos continuarão em seus postos com a sensação de quem está enxugando gelo ou tirando água do mar. Há gente demais! Há crianças nas janelas, nas calçadas, nos quintais, ao lado dos lixões, na porta dos bares, na barriga das mulheres, na fila da pediatria, nos pátios das escolas, no lombo de cavalos, na traseira de bicicletas, sobre os telhados, de mãos dadas com os irmãos nos quiosques, gritando pelos becos atrás de mães transtornadas e em cólera. Vão inocentes e felizes na traseira de carroças, nos terrenos baldios no meio de cachorros e de mulas, nas favelas das favelas levando e trazendo trouxinhas de baseados de uma boca de fumo a outra, cada uma com sua esperança fundada no supérfluoe, o mais importante, aprendendo a atirar...  E os educadores, além dos últimos cânones da pedagogia, discursam com veemência sobre o crack, sobre Paulo Freire, sobre a merenda, sobre saúde mental, sobre o hino nacional, sobre a dengue, sobre o colesterol e etc., mas não mencionam para nada o Controle de natalidade. Trepar, tudo bem, mas que de cada trepada surja um novo terráqueo, isso é uma indecência que não tem sentido!



domingo, 13 de outubro de 2013

Biografias e canalhografias...

 "Nada é verdade, a não ser aquilo que não se diz..."
(Sófocles, em Antígona)

Parecem intermináveis as discussões entre nossos "artistas", "compositores" e outros malandros sobre as tais biografias. Se devem ser autorizadas, se podem ser livres, se devem ser pagas, dizer só a verdade ou se podem descambar para a gandaia, a inveja, a mentira, o puro panegírico ou para a mitologia que os leitores gostam.., bem como se o biografado já deve estar apodrecido numa cova ou se ainda pode estar por aí tagarelando, pavoneando-se e enchendo o saco do mundo etc. Sinceramente, a biografia em si não lhes parece o registro de um fóssil? Um sintoma tanto da arrogância quanto da miséria humana? E se a biografia já é um gênero suspeito e fútil tipo cobra enroscante, imaginem então as autobiografias... Ah!, e eu sei por experiência própria, que é preciso ter estômago para revirar as porcarias dos outros e pior, as próprias, e ainda por cima, edita-las! É necessário ser muito canalha e algo assim como um verme narcisista para achar que sua história de artista, político ou de traficante (seja ela autorizada ou não) tem algum interesse especial e alguma serventia para a história do resto da manada... tenha o sujeito sido um rato ou um Borges, tenha tido uma existência infernal como a de Sísifo ou protagonizado uma história de banquetes, de surubas e de aventuras nababescas como a de Calígula. E depois, observe como todo biografado, vivo ou morto, consciente ou inconscientemente é um impostor, trate-se de um Dalai Lama ou do bandido da Luz Vermelha, e como seu biógrafo, inevitavelmente assume o papel de coadjuvante dessas imposturas. 
Meu cachorro, que já visitou o cemitério de animais aqui da cidade, sempre me pergunta: por que não contentar-se com a micro narrativa biográfica que em algumas culturas vai na lápide? Aqui jaz fulano de tal! Nasceu em 1812 e pifou as turbinas às 3:45 h, do dia 04 de setembro de 1879? Na melhor das hipóteses pode haver até uma frase tipo: 

Era maçom e gostava de jogar baralho! 
Nasceu na arraia-miúda, mas se tornou misteriosamente uma celebridade! 
Lia os gregos no original, mas isto não lhe serviu para merda nenhuma! 
Matou os vizinhos por motivos legítimos e em seguida engasgou-se com uma sardinha! 
Chamava-se Diana. Ela e suas irmãs todas tinham nomes de divindades ou de cadelas francesas! 
Deixou mais dívidas e ressentimentos que saudades!

Mas não. O cara leva um tiro ou faz um samba e já passa a ser candidato a uma biografia de 400 páginas. Faz um despacho ou uma macumba em latim e já recebe convites de uma editora para contar sua trajetória. A moça é pega trepando nos gabinetes do Congresso Nacional e já é capa de revista, escrevem uma resenha sobre suas medidas e suas intimidades e fazem um curta com ela... Que necessidade e que obsessão é essa - perguntaria Fialho D'Almeida - de ejacular patifarias? E neste caso, também é interessante observar que o biografista sempre começa sua obra mais ou menos assim: Sem imaginar que Brasília era uma toca de jararacas, veio jovenzinha e casta do interior trazida por um bondoso e cristão parlamentar, só que aos poucos, influenciada tanto pelo tilintar das moedas, como pelos hormônios e pelos contos de Boccaccio, foi entregando-se ao pernicioso e saboroso vício genital...

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O BEIJO DA RUA - Filha, mãe, avó e puta.

Morreu ontem no Rio de Janeiro Gabriela Leite, autora do livro Filha, mãe, avó e puta. Seria cabotinagem de minha parte dizer que fui seu amigo, mas que em duas ou três ocasiões, lá na longínqua década de 80, tomamos uns bons tragos juntos, tomamos! Fui seu convidado de desonra na noite do lançamento do primeiro número do jornal O beijo da rua, na Boate Dominó. Era puta e uma das mulheres mais honradas que conheci. Teve a lucidez quase precoce de fazer exatamente o contrário do que muita gente grãnfina faz: trocar a sociologia pelo trottoir. A PUC ou a USP trocadas sabiamente pela zona e pelas ruas nos arredores da Lapa! 
Sabia da pequenez e dos delírios sexuais masculinos, bem mais do que os doutores por aí que ficam arrotando especialidades e saberes que vão de Fritz Kahn a Lacan. E claro, conhecia os abismos e as ambiguidades da "alma" feminina como ninguém. ("alma", aqui, todo mundo entende, é metáfora de xota). Enfim: bateu as botas. Parafraseando os hipócritas e os demagogos de sempre: com sua morte, o país ficará mais broxa!

Abaixo alguns mandamentos de seu evangelho, para as interessadas:


[...Serás discreta. Jamais apontarás um homem na rua e dirás que ele é teu cliente]
[...Não beijarás na boca. Beijo na boca é afetivo. Só o darás a quem quiseres].
[...Não terás cafetão. Não cairás nesta cilada, sob pena de acabares na sarjeta].
[Não revelarás a fantasia do próximo. A fantasia do teu cliente é secreta e sua identidade jamais poderá ser violada].
[...Não te apaixonarás pelo teu cliente].
[Não sairás da zona para morar com o cliente].
[...Terás ética].
[...Cobrarás. Dentro da zona jamais poderás receber um cliente sem que ele pague por teus serviços].
[...Desconfiarás da cafetina. Por mais que a dona da casa seja boazinha, não poderás ficar na mão dela].
[...Terás orgulho de tua profissão].

Obs: texto para ser lido ouvindo a música de Villa Lobos do post abaixo.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Os black blocs, a Lei de Segurança Nacional e a Partícula do diabo...


Do jeito que as coisas andam, além da Lei de Segurança Nacional na qual foram enquadrados alguns manifestantes, em breve se resgatará também o AI5. Parece evidente que por trás da impaciência das vacas sagradas  que representam "os poderes" existe uma secreta nostalgia pelo arbítrio dos anos macabros de camburões sem placa e dos porões de onde não se podia ouvir os gritos. Tudo com o argumento de garantir a ordem, a mansidão e a paz de crematórios que a senectude demanda. Observem o ar de misticismo que colocam nas mandíbulas quando falam em vândalos e em "preservar o patrimônio público"! Patrimônio público? Cadê o patrimônio público? Ora, quem é que não sabe e não vê que tudo é patrimônio privado! E não é curioso que se queira obsessivamente preservar uma sociedade que está, sabidamente, podre até os ossos?! Por que não dar a chance de que alguém desconstrua até suas ruínas?  
E os black blocs, que voltaram, continuam sendo vistos e "interpretados" como se fossem "extraterrestres", como se tivessem surgido por geração espontânea, como se não tivessem sido iniciados desde bebês, numa sociedade esquizoide, vil, desvairada e delinquente de ponta a ponta. E mais, como se a rebeldia, a indignação e o nojo que expressam em sua violência fosse uma espécie da partícula do diabo que entra na corrente sanguínea do sujeito e que o induz a colocar uma máscara e sair por aí quebrando câmaras municipais, bancos e vidraças! Aliás, e por falar em máscaras (esse disfarce que tem causado tantos espantos e cacarejos, esse símbolo de alienação mais antigo que se conhece) a própria polícia se apresenta sempre mascarada quando vai fazer suas incursões por territórios de risco e quando vai lidar com gente na qual não confia... Ah bom!, se for para o BEM pode!!! Ouço duas ou três hienas resmungando. Ora, os black blocs não confiam (e nem têm motivos para confiar) nem nos velhos da mídia, nem na mídia dos velhos e muito menos numa polícia adestrada unicamente para defender os interesses dos patrões de turno e da gerontocracia que está há décadas "governando"... 
Enfim, é uma lástima que o Estado e a sociedade, em nada exemplares, (aqui entre nós) verdadeiras usinas de transtornos mentais, não disponham de instrumentos mais civilizados, mais cultos e menos sujos que uma cadeia para lidar com seus encolerizados e revoltados descendentes...

sábado, 5 de outubro de 2013

A eterna putaria dos partidos...

Durante uma semana o affair Marina e seu suposto partido imperou no meio das manchetes. Que seria dos jornais se não abrigássemos essa fauna? Vai dar isto ou vai dar aquilo! Alia-se a este ou àquele. Desiste! Volta no século que vem. Tem chances! Não tem chances! Vai ser canonizada! Tem novas propostas, é o mesmo  purgante de sempre... Jantares, reuniões, pequenas orgias estomacais, cálculos, frases psicanalíticas e invocações de madre Tereza de Calcutá no átrio cúmplice das mansões, enquanto  setenta gênios nacionais representam a nação na Feira do Livro em Frankfurt. Torcicolos  morais! Vai para o PPS? Volta para o PT? Retorna para o Partido verde, que agora é cor de rosa? E o PMDB? E o partido do pastor tal? E o PSOL, agora que entramos na primavera? E esse que se engendrou na semana passada? E a geografia da vaidade? E o ideal das tripas? Onde essa gente arruma tanto dinheiro? Vamos ao senado consultar o oráculo! Mas ele está fechado para desratização! Mas e o povo? Quê povo? Votar. Mas em que partido? Kadafi assegurava que o partido é uma seita! Ela revolucionará o país e o planeta! Também é Silva, como o outro Silva. Mas vai aliar-se a quem se só tem bandidos? São todos milionários! Chamem o Paulo Coelho! Ah, preferiu o PSB. Bem que a madame havia previsto! Partido Socialista Brasileiro? É isso? Gostaria de rir e de ouvir os clássicos. Que gente ordinária! E os puxa-sacos já a chamam de presidente! Uma mulher, tudo bem, mas duas, uma enrabada na outra! Ah, lá vai o barco se aproximando da Ilha de Lesbos!  Mas são sempre os mesmos! Não há nada de novo e a Amazônia já está no fim... Era Zé, agora é José! Era JOsé agora é Zé! Onde estão os machos? Mas na clandestinidade não há mais ninguém. Todo mundo agora é revolucionário e empresário do vício e da malandragem. Onde ficaram os anarquistas? Agora que tiraram os black blocs do circuito nossa única esperança está nos 3 milhões das passeatas gays ou nos 5 milhões dos evangélicos. E a subversão haverá de vir ou pelo rabo ou pela fé... 
E a candidata promete enterrar a velha república. E nós que nem sabíamos que essa meretriz havia morrido! Quando quero saber alguma novidade leio a Cabala ou Abilio Forjaz de Sampaio, aliás,  hoje recebi 8 títulos de seu mestre, Fialho D'almeida.  Somos o único país do planeta onde os Correios em greve entregam as encomendas. E os ossos de Ulisses Guimarães, para onde as correntezas marítimas os levaram? Quanta gente louca nas ruas... serão os que desertaram dos manicômios? Um besouro envenenou os lábios de meu cachorro. Quando nossos olhos se cruzaram, ele tomando um soro na veia, eu encostado no umbral da porta, entendi novamente a desgraça da existência. Olha os médicos cubanos aí gente! E a ex seringueira filiou-se! O partido da borracha! Todo mundo sorrindo! Somos cordiais e felizes! Será a vice. O stronzo é o mesmo! Se elegerá? Mas ouvir tudo de novo? 
As manchetes dominicais já estão prontas? Quero tudo em negrito, com entusiasmo, fazendo de conta que agora a coisa vai, que a revolução está próxima! Para vender jornal é necessário num dia promover o pessimismo e no outro dia o otimismo! AVANTE CAMARADAS! 
As cigarras em cio no tronco das aroeiras enquanto o populacho despreocupado, já prepara o grito de guerra do Flamengo, para amanhã. Olha os bagos do ponta direita! Olha o rebolado do senhor juiz! Olha a Dona Marina prometendo novamente o impossível!

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

HOJE: Indios de várias etnias enterram e amaldiçoam políticos frente ao Congresso Nacional... Oxalá essa maldição funcione!











Sobre a lepra do papado...

Já pensaram como seria se o Papa Francisco que está desbundando, fazendo o teatro do revolucionário e soltando os cachorros sobre as arcaicas e esclerosadas estruturas do Vaticano e sobre aquele exército de anciões desocupados resolvesse confessar que além de um "ninho de pederastas", de um bando de "narcisistas que se deixaram adular por seus cortesãos" e além de ser "a lepra do papado", aquela instituição é uma aberração histórica? Que toda a história do cristianismo e de seus santos não passou de uma lenda sem sentido que veio pelos séculos se inflando de mentiras exdruxulas, extravagantes e sobrenaturais? Que tudo foi forjado pelos teólogos do absurdo, que nunca houve messias algum, que a história do calvário foi uma fabula, que o catolicismo é uma cópia descarada de outras seitas pagãs que até já desapareceram? Que os 125 anos do Banco do vaticano sintetizam toda a trajetória da seita? Que Deus, como bem disse Sartre, é uma hipótese inútil, que não há vida e absolutamente nada após a morte e que portanto, a idéia da ressurreição é uma fraude?

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O deserto é Deus, sem os homens...

Quando quero sentir-me pleno e fora deste mundo de frenéticas embromações e quando preciso dar umas escandalosas gargalhadas, dedico alguns minutos aos aforismos de Mario Quintana, que são, para mim, de uma leveza, de um ateísmo e de um sarcasmo majestoso. Vejam os que acabo de ler: 

I. Ou anda-se caminhando por debaixo da terra ou pairando em alturas. Se ao menos fossem os jardins suspensos da Babilônia... Onde está o nosso querido chão humano? Tudo é tão desnatural!

II. Era uma vez um ovo. Já disse alguém, talvez tenha sido eu mesmo, que o ovo é a mais perfeita forma da criação. Assim vivia ele, elipsoidal e único, sereno como se tivesse atingido o Nirvana ou essa ausência de si a que alguns fanáticos chamam estranhamente de meditação, e ainda por cima transcendental.

III. Ora, Ora! Não se preocupe com os anos que já faturou: a idade é o menor sintoma da velhice.

IV. Um porteiro estava convencido de que rato, depois de velho, vira morcego. Confessei-lhe que até então ignorava tal coisa. Fosse eu discutir com ele! Fosse eu discutir com aquela senhora que durante a última guerra se comunicou com Joana D'Arc numa sessão espírita do Partenon!

V. As visitas dos médicos têm sido cada vez mais espaçadas e mais rápidas, e sinto que em breve ele cruzará no caminho com o padre: "é a sua vez agora!"
Qual! Isso seria melodramático
que nem novela de Tevê...
na sua cadeira
a morte espera paciente
(ela não é nenhuma assassina).
Ela deveria fazer tricô...
mas para quê? mas para quem?

VI. E pelo que me toca, a verdade é que nunca pude esquecer estas palavras de um personagem de Balzac: "O deserto é Deus, sem os homens".

VII. Perdão! Eu distrai-me ao receber a Extrema-Unção. Enquanto a voz do padre zumbia como besouro eu pensava nos meus primeiros sapatos que continuavam andando, que continuam andando - rotos e felizes - por essas estradas do mundo...
I