"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quarta-feira, 26 de junho de 2013

1500/2013




Além de cordial, somos um povo excelente! Agora todo mundo, até os banqueiros, está a favor das manifestações! Até a policia! A corrupção que nasceu em 1500, falecerá agora em 2013! Os políticos estão sorridentes e felizes! Jogaram a PEC 37 no lixo e a pisotearam com galhardia. Ninguém sabe quem foi o bandidaço que teve tão esdrúxula idéia? Mas que importa? Passou. Agora estamos no auge da agenda positiva! Que povo ordeiro e responsável! Os juristas saíram dos guetos e, diante de suas bibliotecas, dão aulas sobre plebiscito, sobre constituinte, sobre democracia, sobre referendo e sobre reformas as mais diversas. Um juiz até confessou diante das câmeras que ama a constituição! Todo mundo teme um golpe, outro triunvirato de ratos... até mesmo os golpistas históricos. Mas os caminhões do exército já estão lá nos fundos do Congresso para sufocar os vândalos de hoje a tarde, se for necessário! Todos querem uma pátria livre de corrupção e das orgias partidárias. Uns até apregoam a filosofia chinesa para os reincidentes... Com o reembolso do valor da bala pelos familiares do executado. Caso contrário, quê será de nossos filhos!, é o coro mais vigoroso e potente. Os estádios, aparentemente inúteis, que custaram o triplo do que valem, serão usados para solenidades que lembrarão, entre outras preciosidades históricas, o Coliseu Romano... Todos acham que o dinheiro do petróleo e muito mais, deve ser aplicado sim na educação e na saúde, nesses prédios apodrecidos que arquejam por aí e, claro, na felicidade e na saúde mental dos professores... também na segurança... Pois a polícia será substituída por assistentes sociais... Seremos em breve, ao invés de bufões desprezíveis, um povo sóbrio e erudito! Os transportes, daqui para diante, além de gratuitos, serão uma maravilha, com motoristas que, além de escovarem os dentes serão poliglotas... e com passageiros sentados confortavelmente lendo os novos jornais ou até mesmo Primavera negra, de Henri Miller. Todos querem diminuir a quantidade de ministérios, essa triste marca do subdesenvolvimento... Quem foi o louco que teve a ideia de inventar tantos? Dizem que os senadores, mamando há quarenta anos nos ubres da república e ressentidos com os deuses que não compartiram com eles a imortalidade, voltarão definitivamente para suas casas para rabiscar suas memórias e que os deputados, de quinhentos e tantos, serão reduzidos a apenas quarenta e poucos. Dois para cada estado e que serão escolhidos de cinco em cinco anos pela loteria federal... já que as seitas dos partidos terão seu fim. Dizem que não haverá mais Ministros. Que os próprios funcionários públicos gerenciarão suas pastas...Dizem que os presídios serão esvaziados, mas o supremo acaba de mandar para lá um nobre deputado... Dizem que as igrejas serão transformadas em depósitos de grãos, principalmente de trigo, já que passaremos a ter, no lugar desse pãozinho vagabundo e cheio de bromato, um pão tupiniquim original... Seremos felizes! Indiscriminadamente! Todos verão! A cura gay sairá da pauta nacional; os nossos nativos voltarão ao cauim em detrimento da cachaça; os latifúndios se fragmentarão sozinhos para que não haja, no amanhã, o risco de uma guerra civil. Qualquer um poderá ajoelhar-se ao lado de nossos córregos e beber tranquilamente de suas águas sem envenenar-se... nada de pesticidas nos pimentões! Tudo será potável em nossa existência... As raposas serão intimas amigas das galinhas, os lagartos abandonarão a paixão pelos ovos e os lobos passearão abraçados às ovelhas de madrugada, sob o clarão dessa lua que, como deus, também é brasileira...

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Sonâmbulos... pela noite dos tempos...



Parece que os caciques da CNBB e os da OAB 
reuniram-se por aí nesta segunda-feira, com o vivo propósito de
descolarem uma carona nas manifestações populares e engrossarem a pressão por uma mudança constitucional. Esqueceram de convidar aquele pastor, também timoneiro de circo, que manda em trinta por cento dos deputados e do eleitorado brasileiro. Parece que vão também coletar assinaturas contra a corrupção. Não lhes parece uma repetição inócua e infantil! Quantas e quantas listas já foram feitas com esse propósito e levadas ao Congresso Nacional... com as quais os parlamentares simplesmente se limparam o rabo!? Quantas e quantas passeatas com velas, florezinhas brancas e mãos postas já foram protagonizadas por aí, pedindo paz e concórdia? Outra infantilidade quase demente que nunca resultou em nada!
Que os manifestantes não se deixem enganar e nem intimidar  por essas raposas! Para que o cálice transborde sobre os papéis ou que o caos se instale de maneira irreversível, basta que continuem turbinando suas “ações diretas” por aí, sem grandes teorias e nem grandes propostas, pois a velharia que está no comando sabe, e muito bem, o que deve ser feito.., já e imediatamente, para tornar este lugar minimamente digno e respeitável. Como diria Albino Forjaz de Sampaio: para [Extirpar de todos os corações essa planta maldita que é a esperança, destruir quimeras, limpar dos cérebros a erva maldita da ilusão].
 Mudança na dita Carta Magna? Tudo bem. É o óbvio e inevitável. Agora, com essas duas entidades novamente no páreo, (e com outras que já estão reciclando a demagogia ) corre-se o risco dela vir a tornar-se ainda mais ambígua, delirante, paradoxal e pior!  
Quem estava por aqui na época da Constituinte anterior, lembra muito bem como se via padres e advogados por todos os lados, uns a serviço da bíblia e da metafísica, outros, em defesa de brechas jurídicas e de sutis demandas de classe...  participação falaciosa que resultou nesse estado beato e bacharelesco, comandado pelas igrejas e pelos escritórios de advocacia. Prestem atenção como para tudo neste país, desde o nascimento até a morte, é necessário recorrer às funestas seitas religiosas e às funestas seitas advocatícias.  Ah, aquele é um santo padre! Ah, este é um brilhante  criminalista! Aquele vai rezar-me uma missa e retirar-me do inferno! Este vai conseguir-me um habeas-corpus e arrancar-me da prisão.


sábado, 22 de junho de 2013

A crença no progresso é a mais estúpida de todas as crenças...

[Décidément, la croyance au progrès est la plus niaise et la plus stupide de toutes les croyances...]  Cioran


Frustrante o discurso da presidente. Nenhuma novidade, nenhuma inovação, nenhuma chispa de ação radical... A mesma fala de sempre, com os mesmos argumentos viciados e pobres das tribunas, todos contaminados e infectados das unhas dos pés aos cabelos, há séculos. Difícil escutá-los de sangue frio. Convocar os governadores! Para quê? Fazer um pacto! Que pacto? E logo com eles? Mais dinheiro para isto, mais dinheiro para aquilo?... Mais dinheiro? Ora, todo mundo sabe que crises sociais e tragédias por aí, sempre foram bons pretextos (e até de jubilo secreto) para os governantes e suas famílias, já que são momentos ideais e propícios para mais rapinagem e para mais roubalheira. Lembram das enchentes e dos desmoronamentos no Rio de Janeiro? Os milhões que foram destinados às vítimas, sumiram. Os destroços ainda estão todos lá, com cadáveres que nem sequer foram resgatados... 
Contratar milhares de médicos estrangeiros? Para quê? Isso é ridículo! Nosso problema na saúde é sanitário e preventivo, não é curativo e nem hospitalar! E depois, temos médicos sobrando por aí, o que nos falta é competência e bagos para gerencia-los... 
Enfim, o que se está reivindicando nas ruas, seja ao estilo de Gandhi ou a maneira de Al Capone (tanto faz), não é isso. Isso não interessa verdadeiramente a ninguém. 
Os manifestantes (sejam de esquerda, de direita ou ambidestros) estão simplesmente exigindo: 1. Abaixo o covil legislativo! 2. Abaixo o covil executivo! 3. Abaixo o covil judiciário! 4. Abaixo o covil da imprensa. 5. Fora o covil religioso e 6. Fora o covil partidário. O resto é bobagem. 
E como se atende a essas simples reivindicações? Alterando, EM VINTE DIAS, NÃO EM VINTE ANOS, a  velha, caduca, tendenciosa e bacharelesca Constituição.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

SOMOS TODOS VÂNDALOS...



Nunca as elites, os porta-vozes da pátria e os papagaios da mídia estiveram tão de acordo sobre uma questão e sobre um determinado assunto como estão agora a respeito dos "vândalos" e do "vandalismo".
Quando falam das manifestações que, aliás, prometem incendiar o país nos próximos dias, só se ouve desses nada confiáveis senhores a mesma e enfadonha repetição, a mesma pobre e medíocre lengalenga de que "manifestação é um direito democrático mas..... sem vandalismo...". Esse papo idiota equivale mais ou menos a receitar sexo sem orgasmo!.. Será que estão meio atordoados pela memória de que foram os vândalos que no ano 455 saquearam e derrubaram os facínoras de Roma?... 
E depois.., como se vandalismo fosse apenas queimar um ônibus, depredar um banco, pichar uma parede, derrubar uma cerca, subtrair alguns produtos de uma loja que os compra por 50 dólares e que, com a complacência do estado e do mercado, os vende por 600,.. sem perceberem que as manifestações, ironicamente, são exatamente contra o vandalismo político, bancário, judicial, comercial e etc., instalado de norte a sul do país e que vêm destruindo e sufocando o patrimônio moral, cognitivo e ético dos avós, pais e dos próprios manifestantes, há décadas. 
E é curioso ver a turma dos politicamente entendidos, dos DAS 6, dos donos de programas na TV (que ganham dois três milhões por mês só tagarelando merdas e bobagens moralistas e beatas) fingindo não entender o que está acontecendo. Ou são muito burros e cegos ou são demasiadamente cínicos, uma vez que eles próprios, são exemplos de vandalismo moral, social e econômico pois, em troca de suas suspeitas concessões, sempre apoiaram irrestritamente, a todo e qualquer vândalo de turno... 
Mesmo que nestas manifestações ainda não haja nenhuma reivindicação explícita, que tudo pareça difuso, apenas uma réplica das amotinações das sociedades pré-industriais, apenas uma revolta do desespero... está na cara o que se deseja. Que ninguém se faça de besta! Manifestação pacífica? Um povo que não manifesta seus sentimentos, sua raiva e seu nojo, por vergonha, preguiça ou medo é um povo condenado à ruína. Manifestação não se submete a conselhos e nem a ordenamentos burocráticos, muito menos quando eles são dados por uma corja que sabe muito bem onde estão verdadeiramente enterradas as raízes dessa indignação popular. Como dizia uma das manifestantes de vinte anos: o que é uma lixeira incendiada, diante de um estádio inútil que custou mais de um bilhão de reais? O que é uma pichação nas paredes do Teatro Municipal, diante dos contratos e das conivências entre estado e empresas de transporte urbano? O que significam os rabiscos na cara do busto de um bandeirante, comparados ao MAB fechado há mais de dez anos, com centenas de obras de arte apodrecendo? O que representa a queima do carro de uma TV diante do que faturam as tevês, só com a inútil e superfaturada propaganda estatal? O que significam cinco ou seis feridos nas passeatas, diante dos 400 assassinatos que já aconteceram aqui no DF só nos primeiros cinco meses do ano? O que representa uma agência bancária pisoteada e apedrejada diante do assalto legalizado que os bancos praticam com seus ingênuos clientes? Nada. Absolutamente Nada.