"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quarta-feira, 29 de maio de 2013

"Também, Senhora, do desprezo honesto De vossa vista branda e rigorosa, Contentar-me-ei dizendo a menor parte". (L. de Camões)

Garantir uns dois dias de estadia em Lisboa antes de voltar para a terra natal é sempre um bom truque, principalmente para aqueles que já não têm mais saco de reler as chatices de Le Gof sobre a Idade Média. Em comida, os portugueses são imbatíveis. Os médicos deveriam receitar para as anoréxicas de todos os tipos, um mês em Lisboa. Garanto que aquelas magricelas engordariam, no mínimo, 15 quilos. E nem precisariam participar das bacalhoadas lá do Rocio, do Chiado ou de outros lugares, digamos, grãnfinos, poderia ser até numa marisqueira que existe aqui em frente a Universidade Autônoma. Encontrei nas ruas do centro a mesma  turma do Travailler jamais, nous sommes em grève lá de Marseille, devem  fazer parte do mesmo sindicato. Aí vão alguns retratos, mais como admiração do que como critica:




















Por que querer ser feliz... se é possivel ser normal? (II)



No passado, o objetivo das viagens era apreender, ter acesso ao diferente, ao estranho, ao exótico, ao fantástico, ao bizarro, ao nunca visto... tudo isto acabou. Agora é o famoso deja vu que as rege, sejam elas à esquina de casa ou aos cafundós da indochina. A grande indústria do turismo se apropriou de todas as novidades e de todos os “costumes” e agora os disponibiliza em troca de honorários aos turistas, quase sempre simplórios e deslumbrados.
Não sabe falar outro idioma? Não faz mal! Não atrapalha em nada! Nós lhe daremos tudo mastigado! E depois, tudo está estandardizado. Isto é uma toalha! Esta é sua senha HI FI! Aqui está o mapa de tudo o que lhe interessa e do que vale a pena conhecer. Aqui está um guia sintético em seu idioma. Já sabemos que você não é fumante, que não gosta de edredom e que odeia dar gorjetas. E mais: que na infância mijava na cama e odiava polenta com lambari frito.
Não tem religião? Não importa, somos tudo o que o cliente quer que sejamos. É Cristão? Lhe colocaremos num quarto com um imenso crucifixo sobre o leito. É ateu? Há na gaveta do criado mudo os evangelhos segundo Miguel Bakunin. É antissemita? Aqui estão os principais discursos de Hitler. Ah, odeia os alemães? Aqui está um CD com a Lista de Schindler. Gosta de putas? Temos um book com fotos e preços. Ah, é pederasta? Somos donos de todas as saunas gays da cidade (dizer sauna gay já não é pleonasmo?). É assexuado? Respeitamos sua opção. Estas meio brocha? Há viagra a vontade no armário do banheiro. É intelectual? Podemos agendar-lhe uma reunião com o reitor em exercício. Pratica esportes? Temos descontos nos principais clubes. É narcisista/histérico? Podemos acionar qualquer TV da cidade para uma entrevista. Problemas de ansiedade? Um psicanalista irá ao seu quarto e lhe custará 300 euros a hora. Tens, mesmo que inconsciente, alguma intenção terrorista? Uma vez que nos pague as diárias em dia, não vemos, não ouvimos e somos mudos. Queres conhecer a história real ou a história fantasiosa das coisas? O mesmo agente poderá oferecer-lhe tanto uma como a outra. Se sentes prazer sádico em dar esmolas, lhe informamos que os dois mendigos que ficam ali, um na esquina sul e outro na esquina norte, pertencem a nossa empresa... Daqui vais para a Argélia? Ah, para Frankfourt! Temos lá também nossos representantes. Não sabes falar alemão? Não importa. Essa língua bárbara ainda desaparecerá do planeta. Temos pequenas máquinas que traduzem tudo na hora e depois, você sabendo dizer auvidessem e tankchem, está tudo resolvido. Qualquer coisa, chame a polícia. Ela só existe para garantir a ordem de nossos negócios. Somos uma rede internacional, monsieur! Não temos ideologia, nem filosofia, nem idiossincrasia alguma. Só idolatramos verdadeiramente uma coisa: o dinheiro, isto sim! Nossos sentimentos são apenas reflexos de nossos bolsos e nossa simpatia é movida a moedas, a cartão de crédito e a notas de cem euros.
Hoje em dia, tudo é movido a dinheiro de corrupção. Podes voltar a ler Marx para ver que nas entrelinhas ele já previa esse futuro para o mundo... Todo o dinheiro roubado na corrupção é aplicado no mercado de hotelaria mundo a fora. Não parece bizarro que hotéis de luxo em Paris e Londres, resorts nas ilhas gregas, Spas nos Alpes tenham sido construídos com dinheiro sujo da Bolívia, do Brasil, dos EEUU, da África, dos países árabes, América latina em geral e etc.? Tente saber o nome de seus sócios. Não saberás. Uma sociedade que tolera as chamadas Sociedades Anônimas não é descaradamente uma sociedade mafiosa e bandida?...
Bom., em caso de morte, temos um crematório no subsolo ou podemos conseguir-lhe um enterro no Père-Lachaise, acompanhado pelo arcebispo de Paris e, inclusive, uma tumba ao lado da de Chopin. Ah, você não gosta de música! Então ao lado de Robespierre ou até no Memorial da Marseillaise...
Acabaram as férias? Temos sua ficha completa e até o número de sua conta bancária. Ficaremos em contato. No ano que vem estaremos aqui com muitas novidades para você e sua família.... Good bye!, otário.  

domingo, 26 de maio de 2013

Por que querer ser feliz... quando a gente pode ser normal?


No Teatro Nacional de Marseille ainda está em cartaz O tartufo. É impressionante como damos uma atenção especial  àquilo que identificamos vivo e imortal dentro de nós... Encenada pela primeira vez há uns 350 anos, continua misteriosamente fazendo sucesso..., apesar da tartufada ter se multiplicado, sofisticado e dominado ainda mais o mundo... Prova de que tanto pedagógica como educativamente nem o teatro e nem a comédia servem para coisa alguma...
E aqui ainda se fuma até charuto. O combate ao fumo deve ter ficado restrito aos almofadinhas de Paris. As calçadas cheias de bitucas que, cedo ou tarde, o vento arrasta para dentro de nossas córneas, parecem querer justificar: "on ne meurt qu une fois et c'est pour si long temps..."
Dou a última e longa caminhada pela cidade depois de comer um verdadeiro couscous berbere. Saber que não se voltará mais a um determinado lugar nos dá quase uma sensação fúnebre. São 17:30 horas e o sol ainda está alto, com a turistada indo e vindo por aí em bandos, tagarelando coisas quase infantis. A máquina internacional do turismo se organizou de tal maneira que a poupança e as economias anuais dos ingênuos turistas acabam irremediavelmente caindo em seus cofres. Aviões, trens, navios, passagens em prestações, milhas, hotéis, travelmoney, bancos, seguros, restaurantes, pacotes, souvenires, taxis, museus, fábricas de seda, perfumes, diamantes etc. Cataratas do Iguaçu, Rio Nilo, Taj Mahal, Torre Eiffel, Big Ben, Cristo Redentor, Terra do fogo, Cassinos de Las Vegas... Nepal, Transiberiana, Terras sagradas de Israel... Tudo mapeado e mistificado conforme o "desejo" e o imaginário doméstico do turista babaca. Até os guias, editados muitas vezes pelas mesmas máfias, são um amontoado de inverdades, exageros e mistificações, para não dizer propaganda enganosa. Nos anos 80, ir a Katmandu era praticamente uma façanha igual a de Marco Polo, hoje, é comum encontrar o porteiro de nosso prédio passeando sobre um elefante nas estradas da Tailândia ou nossa empregada doméstica tomando chá em San Petesburg, no mesmo café em que Dostoievski escreveu Os irmãos Karamazov... A globalização e essa falsa democratização mediocrizou até as andanças. Mas é isso aí..! Se a própria manada volta para casa feliz, quem é que tem moral e argumentos para contestar?  Um exemplo vivo do cinismo literário é a tal da rue Canaviére, logo ali, atrás de meu hotel. Uma vintena de escritores de peso que passaram por aqui, dedicaram-lhe um parágrafo ou uma página transformando-a quase em algo metafisico. E é apenas uma rua por onde cruzam em desordem tranwyas, ônibus, pedestres, motos etc., etc, e por onde o famoso mistral, vindo lá do vieux port, ganha velocidade para levantar em redemoinhos a sujeirada do dia. É nela que os mendigos se acomodam bem de manhã, quase numa messe noire, esperando, além dos clientes, os primeiros raios do sol. Fotografei quase todos, com exceção, evidentemente, daqueles que deixaram claro em seus olhares que se ouvissem um clic, me quebrariam a cara e colocariam minha vida em risco. Um deles, duvidando de minha cristandade, chegou a lembrar-me desta frase de Spinosa: "Les hommes sont plus portés à la vengeance qu'à la pitié..." Tendo em vista o mosaico de nacionalidades e também os dois mil quinhentos e tantos anos da cidade, seriam "geneticamente" o quê? Gregos? Armênios? Árabes? Romanos? Turcos? Italianos? Argelinos? Africanos..? Procedam de onde for, dá no mesmo. O que é clinicamente importante é que nesta secular cité phocéenne, há mais desvairados por metro quadrado do que se poderia imaginar... 
Dizem que ali no número 66, no subsolo do Grand Hotel, existia o cabaré Tyrol, frequentado por Jean Cocteau. Mas, sinceramente, qual a importância dessa notícia? 
Blaise Cendrars dedicou algumas páginas sobre o bas-fonds de Marseille, que, naquele tempo, segundo ele, era um dos maiores do mundo em putas e em distribuição de ópio. Atualmente, apenas vez ou outra, se sente por aí o cheiro de um ashish vagabundo e nos umbrais de alguns prédios velhos, algumas meninas de aluguel limpam as unhas sem muito entusiasmo. Todo mundo sabe que foram completamente eclipsadas pela putaria oficial. Walter Benjamim, aquele judeu deprimido que ainda faz as professorinhas brasileiras ficarem molhadas quando estudam seus textos, também passou por aqui fugindo dos nazis. Antes de meter-se uma over dose de morfina nas veias, lá na fronteira com a Espanha, rabiscou algumas linhas sobre as colinas áridas que se avista por todos os lados.., acho que não conheceu canebiére, senão... Flaubert, André Breton... enfim, a trupe toda delirou por aqui... Inclusive o Mirabeau ficou preso ali no Chateau D’if... etc., etc... Et moi avec ça?
Um homem vestido de preto, sempre acompanhado por sua mulher, também de preto, tem tocado sax durante esses vinte e tantos dias por aí. Quando ouve o barulho das moedas caindo em seu chapéu, parece dar mais fôlego e vida à melodia que está executando. C'est l'argent! É o dinheiro que move moinhos e as hipócritas engrenagens do mundo. Até a simpatia e a esperança estão baseadas na Bolsa de Valores e nele, nesse pacote de papel imundo que, para proteger-se dos ladrões, todo viajante leva amassado por debaixo das cuecas. Realmente é um mistério que muita gente ainda espere alguma coisa do Estado, dos patrões e de deus...
Os cento e dezesseis degraus da Gare Saint Charles me desafiam para a subida... E não conheço nenhum atalho...