"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A vez do visionário Padre Vieira...


Na última sessão do mensalão, como era de se esperar, ninguém se atreveu a citar Albino Forjaz de Sampaio. Entretanto, entre um solilóquio e outro dos senhores ministros surgiu um nome de referência mais palatável e que não poderia faltar nestas oportunidades: o do ilustre Padre Vieira. Que ninguém se espante se amanhã algum deles citar fragmentos das alucinações de Santo Antônio no deserto ou alguma prece de Madre Tereza em Calcutá... E falar em Vieira, todo mundo está corcunda de saber, principalmente num Tribunal, é sempre oportunidade para mencionar o Sermão do ladrão. Claro que poderiam variar um pouco relembrando o Sermão dos cegos – por exemplo, já que sermão é o que não falta na biografia do pároco - mas não. Como se houvesse um misterioso prurido, uma estranha obsessão ou coisa parecida, aqui por estes lados dos trópicos se fala quase que unicamente do Sermão do Ladrão. O que isso poderá estar querendo nos dizer, afinal? E, o mais curioso, é que tenho ouvido até os gatunos mais manjados e populares soltos por aí ou lá no Senado, na Câmara, nos governos estaduais e municipais e até no clero valerem-se desse texto, escrito lá por 1650, para tentarem simular, diante da turba que rumina em berço esplêndido, uma aura de honestidade. Tive até um conhecido que apesar de ser o mais astuto batedor de carteiras e extremamente ágil em qualquer assunto de gatunagem sabia de cor e salteado esta frase do velho visionário e a recitava com humildade cristã sempre que houvesse uma brecha: 

[O ladrão que furta para comer, não vai nem leva ao inferno: os que não só vão, mas levam, são outros ladrões de maior calibre e de mais alta esfera...] 

Sem nenhum cinismo, leiam novamente o texto acima... Leram? Não lhes parece que de 1650 para cá, - mesmo contra os anseios do padre - ele pode ter incentivado, fomentado e colaborado na estruturação de nossa esquiva personalidade e, bem mais ainda, na propagação dos flibusteiros, no engendramento da escória e na estruturação da criminália e roubalheira generalizada e sem remédio com que estamos tendo que conviver atualmente???

Umas linhas abaixo e o padre continua com algo que também é mais do que verdadeiro:

[Os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com mancha, já com forças roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor nem perigo: os outros se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam...]

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Dos juizes e do sal da terra...


I – Finalmente o Ministério da Saúde resolveu pressionar a indústria para que esta reduza a quantidade de sal nos alimentos. E digo alimentos apenas por dizer, pois na verdade, na grande maioria são porcarias que não têm capacidade nutritiva nenhuma e que não servem para nada além de engordarem as crianças e de tornarem seus pais hipertensos ou diabéticos. O que não se podia entender (ou se podia, mas não se queria) era como o Estado vinha durante tanto tempo doando toneladas de remédios para controlar a hipertensão de seus velhinhos e da população em geral sem interferir de maneira radical na principal e mais vil das causas desse transtorno. Claro que o prazo dado as indústrias para promoverem essa mudança é ridículo (a partir de 2014) mas, como sussurram os otimistas, já é alguma coisa. Se até lá muita gente terá ido prematuramente para o saco, isto é outra coisa... Aliás, e os restaurantes? Como é possível que qualquer ignorante e até analfabeto se autorize a gerenciar um, a preparar e a enfiar para as tripas e para as veias das massas as mais venenosas e estapafurdias gororobas? E o açúcar? É bem provável que os sábios da medicina e do Ministério da Saúde precisem de mais cem anos para descobrirem que nossos canaviais são até mais maléficos que nossas salinas...
II – Sinceramente, estou começando a admirar a performance dos senhores juízes do STF, pelo menos durante o julgamento do affair mensalão. Depois da ministra que anteontem mencionou a Voltaire antes de emitir seu voto mandando cinco ou seis dos réus para atrás das grades ontem foram dois senhores ministros que transitaram pelo mundo da filosofia e da literatura, um recorrendo a Santo Agostinho e o outro, o Decano da casa, a um livro sem autor certo intitulado Arte de roubar. Já, da trupe dos advogados de defesa, dois ou três mencionaram da tribuna e com devoção o livro As  misérias do processo penal, de autoria de Francesco Carmelutti, um velho monarquista e fundador da União de Juristas Católicos Italianos... Quem sabe hoje algum deles se recorde também de Albino Forjaz de Sampaio e cite alguns trechos de Palavras Cínicas...
III – A propósito, o fato dos juízes do Supremo serem nomeados por presidentes da república é o maior de todos os abortos da República e da própria Justiça. Se a ideia de um JUÍZ em si já é quase intolerável, a de um JUÍZ indicado politicamente por alguém é uma afronta à inteligência e ao estômago de qualquer um. Como é que esses homens que ocupam sem legitimidade (talvez só um dos tais concursos públicos os legitimaria) postos tão privilegiados podem verdadeiramente atribuir-se o papel de julgadores daquilo que é delito ou crime e daquilo que não o é? Dizem que Einstein – não sei por qual razão – teria dito: "Quem quer que se arrisque a ser juiz da verdade ou do conhecimento, será destroçado pelas risadas e pelo sarcasmo dos Deuses."

terça-feira, 28 de agosto de 2012

PANGLOSS, A SÍFILIS E O MENSALÃO...


 
Durante a sessão de ontem no STF onde estão sendo julgados os atores do mensalão ouve um genuíno momento de transcendência quando uma das excelências, pouco antes de lançar seu voto condenatório sobre todos os réus, mencionou com certo asco ao Dr. Pangloss, personagem doentiamente otimista de uma obra de Voltaire.  Quem é que poderia imaginar que iríamos ouvir naquela casa e da boca de uma ministra, uma menção ao velho e maldito Voltaire? Daquele que passou boa parte de sua vida fugindo da Lei e que, sem pudor, apregoava: [O público é uma besta feroz. Deve-se enjaulá-lo ou fugir dele]? 
Apenas para aguçar a curiosidade dos leitores, reproduzo abaixo um dos pequenos capítulos da obra Cândido ou o otimismo desse pensador genial...
  

CAPÍTULO IV

(De como Cândido encontrou o seu antigo mestre de filosofia, o doutor Pangloss, e do que sucedeu)


     Cândido, mais tocado ainda de compaixão que de horror, deu àquele espantoso mendigo os dois florins que recebera do bom anabatista. O fantasma olha-o fixamente, derrama lágrimas, e salta-lhe ao pescoço. Cândido, horrorizado, recua.
     — Ai! – diz o miserável ao outro miserável, – então não reconheces mais o teu caro Pangloss?
     — Que ouço? Tu, o meu querido mestre! Tu, nesse horrendo estado! Que desgraça te aconteceu? Por que não estás ainda no mais lindo dos castelos? Que foi feito da senhorita Cunegundes, a pérola das donzelas, a obra-prima da natureza?
     — Não posso mais comigo – gemeu Pangloss.
     Cândido o levou para o estábulo do anabatista, onde lhe deu a comer um pouco de pão. E, depois que Pangloss se refez:
     — Então – disse ele, – e Cunegundes?
     — Morreu.
     A esta palavra, Cândido perdeu os sentidos; o amigo o fez voltar a si com um pouco de mau vinagre que havia por acaso no estábulo. Cândido reabre os olhos:
     — Cunegundes morta! Oh! onde é que estás, ó melhor dos mundos? Mas de que morreu? Não seria por me ter visto expulsar a pontapés do castelo do senhor seu pai?
     — Não – disse Pangloss. – Ela foi estripada por soldados búlgaros, depois de ter sido violada o mais possível; rebentaram a cabeça do senhor barão, que queria defendê-la; a senhora baronesa foi cortada em pedaços; o meu pobre pupilo, tratado precisamente como a irmã e quanto ao castelo, não ficou pedra sobre pedra, nem uma granja, nem um carneiro, nem um pato, nem uma árvore; mas fomos bem vingados, pois os abaros fizeram o mesmo em uma baronia vizinha que pertencia a um senhor búlgaro.
     Ao ouvir tais coisas, Cândido desmaiou outra vez; mas, voltando a si, e tendo dito tudo o que devia dizer, Indagou da causa e do efeito, e da razão suficiente que pusera Pangloss em tão lastimável estado.
     — Ai! – suspirou o outro. – Foi o amor; -, amor, o consolador do gênero humano, o conservador do universo, a alma de todos os seres sensíveis, o terno amor.
     — Ai! – disse Cândido. – Eu o conheci, esse amor, esse soberano dos corações, essa alma da nossa alma: nunca me rendeu mais que um beijo e vinte pontapés por detrás. Como pôde essa bela causa produzir, na tua pessoa, tão abominável efeito?
     Pangloss respondeu nos seguintes termos:
     — Ó meu caro Cândido! Bem conheceste Paquette, a linda criadinha da nossa augusta baronesa; gozei nos seus braços as delícias do paraíso, que produziram em mim estes tormentos do inferno de que me vês devorado; ela estava infetada e talvez tenha morrido disso. Paquette ganhara esse presente de um franciscano muito erudito, que havia remontado à fonte, pois o adquirira de uma velha condessa, que o recebera de um capitão de cavalaria, que o devia a uma marquesa, que a tinha de um pajem, que o tomara de um jesuíta que, quando noviço, o herdara em linha reta de um dos companheiros de Cristóvão Colombo. Quanto a mim, não o passarei a ninguém, pois estou para morrer. Ó Pangloss! – exclamou Cândido. – Que, estranha genealogia! Não seria o diabo que foi o tronco?
     — Qual! – replicou o grande homem. – Era uma coisa indispensável no melhor dos mundos, um ingrediente necessário: pois, se Colombo não tivesse apanhado em uma ilha da América essa doença que envenena a fonte da geração, e que é evidentemente o oposto da grande finalidade da natureza, nós não teríamos nem chocolate nem cochonilha; cumpre observar que até hoje, no nosso continente, esta doença nos é peculiar, como a controvérsia, os turcos, os hindus, os pernas, os chins, os siameses, os nipônicos, ainda não a conhecem; mas há uma razão suficiente para que a conheçam, por sua vez, em alguns séculos. Enquanto isto, vai ela fazendo um maravilhoso progresso entre nós, e principalmente nesses grandes exércitos compostos de honrados mercenários, tão bem educados, que decidem do destino das nações; pode-se assegurar que, quando trinta mil homens combatem em formação contra tropas iguais em número, há cerca de vinte mil contaminados em cada campo.
     — Admirável disse Cândido, mas é preciso que te cures.
     — Mas como? Não tenho um vintém, meu amigo; e, em toda a extensão deste globo, não me pode nem fazer uma sangria, nem tomar uma lavagem, sem pagar, ou sem que haja alguém que pague por nós.
     Estas últimas palavras decidiram Cândido; foi lançar-se aos pés do caridoso anabatista Jaques e fez-lhe uma pintura tão comovente do estado a que se achava reduzido o seu amigo, que o nosso homem não hesitou em recolher o doutor Pangloss; mandou-o tratar à sua custa. Pangloss, com a cura, só perdeu um olho e uma orelha. Como tinha boa letra e sabia aritmética, o anabatista empregou-o como guarda-livros. Dois meses depois, sendo obrigado a ir a Lisboa a negócios, embarcou consigo os dois filósofos. Pangloss explicou-lhe como tudo marchava o melhor possível. Jaques não era dessa opinião.
     — Está visto – dizia ele – que os homens corromperam um pouco a natureza, pois não nasceram lobos, e tornaram-se lobos. Deus não lhes deu nem canhões nem baionetas, e eles fabricaram baionetas e canhões para se aniquilarem. Eu poderia ainda levar em conta as falências, e a justiça, que se apodera dos bens dos falidos para ludibriar os credores.
     — Tudo isso era indispensável – replicava o doutor caolho, – e os males particulares constituem o bem geral, de sorte que, quanto mais males particulares houver, tanto melhor irão as coisas.
     Enquanto assim arrazoava, o céu escureceu, os ventos sopraram dos quatro cantos do mundo, e o navio foi assaltado pela mais tremenda tempestade, à vista do porto de Lisboa.

domingo, 26 de agosto de 2012

As nádegas e as bolas azuis do principe...


De um extremo a outro do planeta a mídia, em sua vagueza, só fala da nudez e do rabo do pequeno babaca Harris que se deixou fotografar pelado em Las Vegas. Não há menininha, balzaquiana ou pederasta que ao mencionar o pequeno monarca despido não deixe escapar um teatral e longo suspiro... Hunnmm!! Hunm! Uhhnnn!!! Pura histeria e pantomima... Até uma agência pornô dessas que disponibiliza na internet sexo com cachorros, macacos e cavalos o teria convidado para encenar um filme “só para adultos” em troca de 10 milhões de dólares. No final da proposta ao Palácio de Buckinghan, os cabotinos e empresários da punheta asseguravam:  «che le scene di sesso saranno ben sceneggiate e che i gioielli della corona non saranno in alcun modo minimizzati».
Desde a lenda de Adão e Eva até estes nossos dias de estupidez prodígiosa o mundo assiste a esse pueril escândalo e a essa doentia ambiguidade com a nudez. Oculta e exibe. Proíbe e libera. Despreza e sacraliza. Demoniza e enaltece. No fundo não é tesão e nem moralismo obsceno o que a nudez provoca, mas uma espécie de horror a memória das entranhas. Dizem que o corpo de nenhum outro animal é tão esdrúxulo como o humano. Daí a promessa dos pornógrafos à monarquia: para não macular a moral vitoriana mostraremos o corpo do príncipe de forma menos degradante do que na realidade é... Esconderemos os buracos, as dobras, as brechas, os regos, os fluídos, as penugens, os vestígios de excrementos e, claro, sufocaremos os grunhidos... Não faremos nada parecido a pornochanchada, será um video angelical e quase divino,  mais uma sutil e subliminar mistificação do sangue azul e da monarquia... Em outras palavras: um ópio doméstico e quase gratuíto para o interminável vício onanista da plebe universal... 
Apesar da onipresente demagogia dos erotômanos, da balela do nu artistico, do nu escultural etc., tenho quase convicção de que se não fosse a maquiagem, o abajur, as tarjas pretas, a miopia e a roupa, a espécie já teria se exterminado há muito, não de tanta libido, evidentemente, mas de tanta paranóia, humilhação, timidez e vergonha...

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Sinceramente, por uma questão ética, eu não recomendaria este mundo para ninguém...


As três roqueiras que foram presas implorando a "Nossa Senhora" que livrasse a Rússia de Putin correm sério risco de serem enviadas para os mesmos Gulags siberianos da época de Dostoievski que, aliás, no fundo, são os mesmos da época de Ivan (o terrível); de Nicolau I; de Stálin & Cia... Quê vergonha! Se o mundo já é em si mesmo uma imensa penitenciária, para que a necessidades dessas sub-penitenciárias? E dizem que só femininas existem 47 mil naquele pais das Mamuskcas... Povera gente!!! E nós que lá pelos anos 70, quando ainda existia o mito da "esquerda" e da "direita" e quando, manipulados pelos mentirosos de plantão, tantas vezes amaldiçoamos e acusamos ao velho Soljenitsyn de estar dizendo inverdades, de ser um traidor e um covarde...  
E por falar nessas porcas penitenciárias, ontem enforcaram mais um adolescente na que fica logo ali a uns dois quilômetros de minha casa... Em meus obsessivos devaneios sobre a crueldade e sobre a estupidez humana, no meio de tantos outros pensamentos mortíferos, sempre relembro que as pocilgas de minha infância eram bem mais habitáveis que os presídios atuais... 
Bem que nossos bisavós, avós e pais poderiam ter nos alertado de que o mundo era essa babaquice imutável, de que o movimento é apenas circular, de que a mediocridade é rigorosamente dominante, de que a espécie é melancolicamente de centro e sempre reacionária!!! Mas não. Esmagados por suas épocas e contaminados pela fé e pela ideia pueril de um "paraíso celeste", preferiram se omitir e silenciar...
E por falar em "paraíso celeste", ontem o padre Marcelo veio a Brasília lançar seu Ágapezinho... O Shopping ficou lotado de leitores e de admiradores prosternados. Além de autógrafos o missionário dava beijinhos e bênçãos ao público. Para o show ter ficado ainda mais bizarro e completo só faltou o Paulo Coelho lançando seu Manuscrito encontrado em Accra e alguém relançando Harry Potter e a pedra filosofal!!! Sinceramente e sem nenhuma demagogia, eu não recomendaria este mundinho vagabundo e de quinta qualidade para ninguém!
Aos que, desgraçadamente, já estão aqui, só posso lembrar que ficar de olhos bem abertos pode ser um bom antidoto para o envenenamento e para o desespero...

sábado, 18 de agosto de 2012

Apesar dos poetas, o melhor da Capital ainda é a Feira do Paraguai...


Apesar dos elogios descabidos e da benevolência sistemática da mídia para com esta cidade e apesar dos esforços, do lirismo e da incansável apologia dos poetas (esses seres de outro mundo que, de tantos, até parecem ser fruto de uma geração espontânea) a esta urbe, o que existe de melhor aqui em Brasília é a Feira do Paraguai. Localizada à margem direita da Via EPIA, (estrada que leva para Goiânia e para outros cafundós) num terreno que, soube-se na semana passada, também tem origens na grilagem, lembra as medinas de Marrakesh, as de Tanger ou qualquer outra dos países magrebinos com seus souks. E não é por acaso que aos sábados, aos domingos e feriados é para lá que vão os barrigudinhos funcionários públicos com suas esposas e filhas ver as novidades que chegam de madrugada, por debaixo dos panos, não só do Paraguai, mas de Miami, Xangai e etc. O que na China custa 0,50 de dólar, aqui os gestores e os Cargos de Confiança pagam 55 reais sem pechinchar e sem piscar. Mas isto é o de menos. O que faz esse lugar ser mais atraente que o Congresso, que a Catedral, que os espelhados prédios dos juízes, que o templo da LBV, que as antigas Zonas de Planaltina e que toda a monótona arquitetura de Niemayer é que ali é um território verdadeiramente cosmopolita, transnacional e planetário. Há chineses, libaneses, palestinos, judeus, indianos, latino-americanos, mineiros, alagoanos, gaúchos... Os haitianos já estão a caminho... Ex-hippies; ex-contrabandistas e camelôs; aposentados; licenciados pelas mais diversas razões; grevistas, mulheres que já foram da vida e outras que, se pintar uma chance, ainda fazem algum freelancer; cozinheiros, apátridas, policiais infiltrados, videntes dispostos a mentir qualquer coisa sobre a imensidão do mundo, professores de mandarim, pasteleiros, vendedores de cachorros, de acarajé, coco, rapadura, viagra, caldo de cana, coisas legítimas e falsificadas (ao gosto do cliente), baterias, rabichos, óculos mais escuros que a escuridão do Hades, mulheres com véu, espadas, varas de pescar, punhais... E há estagiários; técnicos em eletrônica, batedores de carteira, ex-políticos disfarçados, sujeitos desempregados, concurseiros (todos querendo ingressar no STJ) bandidos em liberdade condicional e, claro, um batalhão de nerds que, por saberem tudo sobre essa infernal Era de porcarias cibernéticas, ensinam pacientemente aos velhotes do século passado a como apertar um botão aqui e a desativar outro ali etc... De vez em quando a polícia aparece por lá de supetão com seus camburões piscando e encana os gerentes de um ou dois clãs, confisca o material clandestino, lacra a tenda, olha enviesado para todo mundo e vai embora... Uma semana depois os detidos voltam como se nada tivesse acontecido e asi se van los dias... Quem está sempre por lá é o meu velho amigo, o mendigo K. Come um resto de pastel aqui, ganha uma água de coco ali, descola uma moeda de uma alma bondosa acolá e circula por aqueles labirintos como se fosse o principe dos vagabundos. Neste sábado, como sempre, estava com um livro debaixo de braço. Veio em minha direção com sua cara de nômade celeste e, sem dizer palavra alguma mostrou-me a epígrafe que estava no rodapé da segunda folha. Era de Arthur Cravan e dizia:

“Eu, a quem basta ouvir um violino para ficar com fúria de viver; eu, que me poderia matar de prazer, morrer de amor por todas as mulheres, que tenho saudades de todas as cidades, para aqui estou, porque minha vida não tem solução...”



terça-feira, 14 de agosto de 2012

Se o mundo pegasse fogo... você salvaria o mundo ou o fogo???

Não sei se por alguma perversidade ou por algum desvio neurológico, um dos elementos que sempre me fascinaram além do normal, foi o fogo. Um incêndio no cerrado e o cheiro da fumaça - por exemplo - já bastam para provocar-me alguma coisa estranha, até mesmo de ordem sobrenatural. Serei um piromaníaco em potencial? Desde minha infância trazia secretamente a Nero como um herói  e foi grande a decepção quando, recentemente, descobri que o tal incêndio de Roma foi uma falácia. Com o incêndio do Reichstag, em 1933, tive durante toda minha adolescência sonhos obstinados. As fogueiras que Hitler e outros loucos e tiranos fizeram com livros, papiros, documentos, assim como as da inquisição incinerando feiticeiras e mesmo as das feministas carbonizando seus sutiãs, nunca me passaram despercebidas. Pensar que a Biblioteca da Alexandria foi incendiada também me causa algo indescritível, quase como quando medito sobre a incandescência dos infernos... Estou convicto de que há algo no movimento das labaredas que até hoje não foi realmente descrito! E não precisa nem ser de uma grande fogueira, mesmo ali nas chamas de um simples isqueiro de querosene pode-se encontrar algo de transcendente. Daí a razão de, nas últimas décadas, nunca ter cruzado o umbral de minha casa sem uma dessas preciosidades no bolso. Diante de uma dificuldade inesperada? De um impulso justiceiro? De um obstáculo? De uma depressão reativa? Lá estou eu escondido do vento e por uns dois minutos, com os olhos cravados nas chamas esperando por sua ação terapêutica... Estes meses e esta semana foram particularmente pródigos em incêndios pelo mundo a fora. A Turquia teve os seus, Londres e a favela de Paraisópolis em São Paulo também. Em Portugal, nas cercanias de Coimbra, centenas de ovelhas que não conseguiram pular as cercas acabaram queimadas. Nas Ilhas Canarias, no Colorado e até mesmo aqui na cidade, um num restaurante e outro numa residência, sem falar daquele de ontem lá de Copacabana que chamuscou, entre outras preciosidades, uma pintura de Di Cavalcanti e o gato do marchant. Indo de Beijing a Xangai, uma das paisagens mais estonteantes vistas da janela do "trem bala" era, no princípio da noite, exatamente a dos imensos fogaréus empurrados pelo vento ao longo dos trilhos e ziguezagueando demoniacamente em todas as direções... Está na cara que quando o titã Prometeu roubou o fogo de Zeus e o disponibilizou de graça aos humanos, sabia muito bem o que estava fazendo...



domingo, 12 de agosto de 2012

Sobre a mesmice do mundo...


Diariamente, antes mesmo dos galos cantarem, acesso nove ou dez dos principais jornais do mundo apenas para constatar que quase todos reproduzem as mesmas fotos e dizem as mesmas coisas. Alguém na Rússia - por exemplo - chamou a Madona de puta velha! 
Naquele mesmo país, Putin, o velho capo da KGB torceu o nariz ao ter sua mão beijada por um padreco ortodoxo! 
Em Taiwan aconteceu o primeiro casamento "budista" entre duas atraentes donzelas. Todo mundo estava feliz na cerimônia e o carequinha e simpático monge, sem preocupar-se com os 8 principais preceitos do mestre, abençoou aquelas duas apaixonadas representantes de lesbos. O que devem fazer sob as cobertas? - indagaria minha ingênua bisavó...
 Para fugir das enxurradas barrentas nas Filipinas, duas crianças deslizavam cheias de vida sobre as águas a bordo de um luxuoso caixão de defunto... 
O julgamento do Mensalão tem deflagrado uma guerra nos bastidores da sociedade e deixado claro quem é quem nessa desvairada pátria. É uma lástima ver toda essa gente apertando para todos os lados o gatilho de suas infames e descarregadas espingardas. Mas a grande decepção mesmo, foi com a trupe dos advogados que tenta defender os réus. Como é possível que aqueles homens tenham sido mistificados e ganhem tanto dinheiro com desempenho tão doméstico e tão desonesto? Eu, que até pouco tempo achava o Exame da OAB uma impostura, agora estou convencido de que ele deve ser realizado sim, e não apenas aos iniciantes, mas inclusive com as raposas já desdentadas. Em outras palavras: como surgiu e como é possível a existência do advogado no mundo..?
Dizem que o presidente de turno no Paraguai está abrindo espaço para os norte-americanos instalarem bases militares em seu território. Eu que me criei lá na fronteira convivendo com aquele povo viciado em erva mate, hábil com facas e adorador de guarânias, sempre achei que um dia, em nome de Solano Lopes, eles, inevitavelmente, dariam um jeito de apresentar-nos a fatura, pelo menos aquela que diz respeito às três mil crianças destroçadas pelos nossos exércitos...

Nat King Cole...

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

ABAJO EL SISTEMA DE MIERDA!!!


Está em todas as Folhas Ilustradas e em todas as vitrines um novo abacaxi que já vendeu mais de vinte milhões de exemplares e que, segundo a propaganda, está fascinando as donas de casa e a entediada burguesia: Cinquenta tons de cinza, da britânica E.L. James. Dizem os leitores e os afetados resenhadores de plantão que se trata de uma “apimentada” estória de sexo e de sadomasoquismo entre uma recatada (leia-se frigida) estudante de literatura e um garanhão “bem sucedido”.  Outros até dizem ser uma excelente novela erótica para mulheres e para mamães... Depois de entupirem as mulheres com geladeiras, fogões, panelas, remédios, roupas vagabundas, secadores de cabelos, cosméticos, fraldas, bíblias e mil outras porcarias, agora investem sobre elas com erotismo barato, com a balela sexual e com sadomasoquismo... Ora!, trancadas em suas prisões domiciliares servindo ao macho, aos filhos, aos cléricos, ao Estado e aos netos, já não estão mergulhadas no sadomasoquismo há séculos??? Enfim, na semana que vem, o referido Best Seller estará, com certeza, junto aos de Paulo Coelho e aos do Padre Marcelo na primeira fila dos mais vendidos. Você que nem sabe mais o que leva entre as pernas, está intimada a comprar um exemplar... Não sei se por coincidência, neste sábado um dos jornais locais publicou aqui no DF, sob o título de A tirania do orgasmo, um interessante artigo com as declarações de um ginecologista sobre as dificuldades sexuais das mulheres. Nada novo, mas como a ignorância é epidêmica e o tema é tabu, muita gente ficou ou fingiu ficar de boca aberta diante de tal realidade. Diz o referido estudo feito pela quase sagrada USP: 35% das mulheres (leia-se 75%) sofrem com a ausência de desejo sexual, mais conhecida como frigidez. Segundo declarações de uma outra autoridade em ginecologia, contidas no mesmo artigo, são três os fatores que podem interferir no orgasmo feminino: 1. O transpessoal, isto é, os valores culturais, religião etc., do local onde a menina é criada. Por exemplo: sexo é sujo, coisa do diabo, Jesus não gosta que as meninas gozem etc.  2. O interpessoal, refere-se ao tipo de sujeito com o qual a mulher está se relacionando sexualmente. Tanto um cara estúpido e um brutamonte como aquele banana, delicado e parecido a uma mariposa encantada podem funcionar como interditantes de seu desejo. 3. O intrapessoal, diz respeito a competência ou incompetência da mulher de transitar ela própria por seu corpo e, evidentemente, de querer desfrutar dele. A mesma pesquisa afirma (e esse dado é um golpe mortal nas fantasias e nas perversões masculinas) que “92% das mulheres brasileiras (mulheres brasileiras!) não se masturbam com frequência” (leia-se, quase nunca)... Diante de todos os conhecidos,  repetitivos e chatos rituais na busca de uma remota e idealizada fornicação, não lhes parece que é realmente chegada a hora de livrar-se dessa neurose e de ir estudar harpa?...

domingo, 5 de agosto de 2012

Gulliver, o amo Houyhnhnm e o mensalão...


Na página 182 de Viagens de Gulliver, respondendo a uma pergunta do chefe dos Houyhnnhnm, o autor retrata os juízes e os advogados da época... (e, evidentemente, os de sempre)
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Pergunta – Fale-me agora a respeito de algo que me deixou muito curioso: entre as pessoas de seu navio havia muitos desgraçados a quem as leis arruinaram, não é verdade? Pois bem: como é possível que essas leis, feitas para melhorarem a vida de todos, possam desgraçar alguns? Além do mais, para que leis? A natureza e o raciocínio não são suficientes para que vocês saibam o que devem e o que não devem fazer?
Resposta – Existe entre nós uma quantidade de homens, tão grande como a das lagartas, que são treinados desde muito jovens na arte de provarem que o preto é branco e o branco é preto, conforme sejam pagos para dizer uma coisa ou outra. Todo o resto do povo é escravo desses homens. Por exemplo, se meu vizinho quer ficar com minha vaca, contrata um advogado para provar que tem direitos a essa vaca. Nesse caso tenho que contratar outro advogado para defender também os meus direitos, pois é contrário aos nossos costumes que um homem possa falar em seu próprio nome diante da lei. Ora, eu, que sou o dono, me vejo ante duas desvantagens. Primeira: meu advogado, acostumado desde cedo a defender a falsidade e a mentira, está completamente fora de seu elemento quando precisa defender a verdade e não sabe como desvencilhar-se. Faz essa defesa, portanto, com grande má vontade e habilidade nenhuma. Segunda: meu advogado tem que ser cauteloso e dissimulado, para que seus colegas não o censurem por degradar a profissão. Assim, tenho dois métodos para conservar a minha vaca. O primeiro é subornar o advogado adversário, pagando-lhe um bom dinheiro para que traia seu cliente. O segundo, fazer com que meu advogado afirme diante do juiz que não tenho a menor razão e que a vaca nunca foi minha coisa alguma, pertencendo mesmo a meu adversário. É tiro e queda: o juiz ficará inevitavelmente do meu lado, dando-me ganho de causa.
Os juízes – prosseguiu depois de um suspiro – são as pessoas que decidem quem está com a razão num processo. Escolhidos entre os melhores advogados depois de velhos e preguiçosos, são respeitadíssimos não só por seu poder como pela enorme experiência de lutarem contra a verdade e favorecerem a fraude, a calúnia e a opressão. Tão habituados estão a essas coisas que muitos já recusaram grande quantidade de dinheiro oferecida por certos clientes, só porque teriam de fazer a balança da justiça inclinar-se a favor dos que estavam com a razão. E não há nada que um juiz abomine tanto como a justiça, não combinando esta nem com seu ofício nem com sua inclinação natural... (...) Acham os juízes que tudo o que foi julgado, foi bem julgado. Assim conservam todas as decisões anotadas para que no futuro tomem novas decisões baseadas nas antigas, ainda que estas possam estar erradíssimas. Outra característica dos juízes: detestam que um caso lhes seja explicado de maneira clara e breve, apreciam enormemente quando o advogado foge do assunto – o que acontece quase sempre – e faz uma longa, monótona e ininteligível exposição sobre mil detalhes que nada têm a ver com a questão tratada. Para a felicidade dos juízes, os advogados não lhes ficam atrás. No meu caso, por exemplo, não queriam saber quem era o verdadeiro proprietário da vaca, mas se esta era vermelha ou preta, se tinha os chifres curtos ou compridos, se pastava em campo redondo ou quadrado, se era ordenhada dentro ou fora de casa, de dava muito leite ou não, e assim por diante. Depois disso, consultam as decisões antigas, adiam a questão de tempos em tempos e chegam, dali a dez, vinte ou trinta anos, a uma decisão qualquer. (...) Os homens da lei possuem uma linguagem própria, complicadíssima, que ninguém entende. Nessa linguagem nobre é que são escritas todas as leis, as quais são tão numerosas e intricadas – confundindo tanta a verdade como a mentira -  que foram necessários trinta anos para decidirem se a propriedade que recebi de herança e que pertence à minha família há seis gerações pertencia mesmo a mim ou a um estranho que habitava a trezentas milhas. (...) Há um caso, porém, que se decide com bastante rapidez: quando uma pessoa é acusada de crime contra o Estado. O juiz sonda primeiro a vontade dos que se encontram no poder, depois disso, enforcam ou salvam o criminoso, obedecendo contudo rigorosamente às formas da lei. (...) Esses advogados e esses juízes conhecem apenas seu ofício: fora dele, compõem a classe mais ignorante e estúpida que conheço, e a mais desprezível no trato diário. São inimigos declarados de todo o saber, de toda a cultura, estando sempre dispostos a torcer a verdade e deformar o raciocínio dos homens...

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

DATA VENIA!!! (Haverá expressão mais babaca do que esta???)


Que falta de humor e de bom senso do senhor Thomas Bastos juntamente com o Sr. Lewandowski querendo nos privar desse show!!! Data venia pra lá e data venia pra cá, mas por fim o espetáculo de hoje e do mês de agosto está garantido. O de ontem foi imperdível. E aquelas capas!? E aquela linguagem!? E aquelas mãozinhas delicadas!? E a Constituição e o Código Civil decorados a exaustão pelos magistrados como a Bíblia ou a Cabala o são pelos crentes!?
Passei as quatro horas da sessão sentado diante da TV com uma chaleira de erva doce, um dicionário de latim e um medidor de pressão. Em cinco ou seis vezes os ponteiros chegaram a 15, por coincidência, sempre que ouvia a frase egrégia corte... Independente da condenação ou não dos acusados, o grande golpe que a "direita" desfechou contra a "esquerda" foi deixá-la chegar ao poder. Idealistas e ingênuos (ma non troppo) os novos governantes menosprezaram, ignoraram o terreno minado e caíram nas armadilhas deixadas para trás pelas velhas e criminosas raposas. Resultado: além da destruição pessoal, foram destruídos até mesmo os vestígios daquele excitante frenesi libertário e revolucionário que havia nos anos 70/80. Prova máxima de que a política é maldita e de que os Três Poderes corrompem, prostituem e empurram o sujeito para um pedestal de chumbo ou para a cadeia... E não apenas o capitalismo, mas também o comunismo, o socialismo, o anarquismo, o teísmo...etc., têm se mostrado envenenados pelo Poder e pelo Dinheiro. As fervorosas utopias sociais, descobriu-se, são do mesmo gênero das fervorosas utopias religiosas... Apesar de seus líderes terem vindo pelos séculos a fora tentando inutilmente camuflar e sufocar o egoísmo com o altruísmo, tem predominado na espécie, até hoje, as "teorias fascistas" e o egoísmo dos genes... E a vaidade dessa espécie é tão estrutural e tão doentia que o sujeito, mesmo depois de morto quer continuar em cena, daí os tais Institutos, os tais Monumentos, os nomes de ruas e de prédios e os mausoléus rococós e cheios de lamparinas... E se forem condenados? Mas as cadeias estão todas lotadas! A propósito, o que pensam os senhores juízes e os senhores advogados daquele nobre e conhecido político que, sob as barbas da hipocrisia nacional, vem driblando a Interpol há um bom tempo?