"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

BREVIÁRIO DE ERRÂNCIA (Filosofando com a borduna de Caim) IX

... Caim de mochila pelas estradas do mundo! Caim metáfora do odioso e do malefício absoluto. Caim corvo extraviado! Caim solitário no meio fio dos estacionamentos tentando exorcizar seu luto e sua melancolia, camaleão desgraçado exposto ao sol e a todo tipo de possibilidades de autoextermínio. E para que ninguém o pudesse matar, pois a morte viria colocar um fim ao seu castigo de vagar continuamente e sem descanso por sobre a terra, o Demiurgo, num refinamento de sadismo colocou dois pontiagudos chifres em sua fronte fratricida. E foram esses mesmos chifres, que bem mais tarde, movendo-se entre as folhagens, permitiram a Lamech, seu bisneto, que o confundiu com um animal, disparar uma certeira flecha em direção a seu pescoço. Enquanto o sangue do bisavô assassino jorrava, o atirador recitava, amargurado, a frase que Kant surrupiou dos orientais: às vezes o mal é bem e às vezes o bem é mal. (p. 77) (...) Todos os dias que circulo lá pelos lados da Liverpool Street Station me deparo com uma mulher de beleza especial enrolada em trapos e que dialoga consigo mesma. Abotoa e desabotoa os farrapos, lança para os lados olhares de melancolia como se estivesse se perguntando: onde está a consciência negadora dessa gente? Depois senta-se numa pequena mureta de um edifício e fica lá, com as mãos postas como uma intrépida santa da antiguidade. Ela sempre me lembra que foi aqui nesta cidade que Cooper e Laing tentaram olhar a loucura por outro ângulo e com outro prisma, mas que tudo acabou virando poesia e um mosáico de nulidades.. Contra a usina monstruosa que gera o desvario parece que todas as contrainformações são idílicas e inócuas. E depois, se a loucura é a maneira como a pessoa tenta resolver seu conflito com o mundo e consigo mesma, “curá-la” e mandá-la de volta para a "normalidade" não seria a mais abjeta das crueldades??? (p.88) (...) Caim sátiro e anjo caído com superpoderes, herói do submundo, do crime e da desobediência civil! Caim prefeito de todos os cortiços, o rei das putas, dos bêbados, dos traficantes, dos excomungados, dos expatriados, dos divorciados, dos Don Juans... Caim na trilha de Jack, o Estripador! Caim ideólogo da pedofilia! Caim todos os Papas! Caim mestre secreto de Bodhidharma, inventor do Koan e do Zen. Caim cafetão, anticristo, antítese de Gandhi, inimigo mortal dos bispos, inspirador de gangues, fabricante de êxtase e de crack... Caim violinista e muito mais transgressor que Prometeu, aquele Titã grego que roubou o fogo divino e o traficou no cambio negro. Caim editor do Malleus Meleficarum, chefão da família dos Rotshilds e o adestrador de todos os cães do mundo!!! Ele que foi castigado com a imortalidade e mais, com a tortura de uma hiena que lhe devorava diariamente as visceras, é o mesmo Caim que desmata a Amazônia e que contamina os rios no meio da selva, o mentor do menino de oito anos que numa pequena vila do Pará matou outra criança de três anos com uma porretada na cabeça.

-Que fizeste com teu amiguinho Kauã – interroga o delegado de polícia.

-“Dei uma paulada na cabeça. Ele caiu e nem chorou. Fui em casa buscar uma faca e cortei a cabeça dele”.

Cain inspirador também daquele homem de 64 anos que mantinha seu neto, de dois, amarrado com uma corda ao pescoço num canil, ao lado de três pit bulls.

-Por que fizeste uma barbaridade destas com teu neto – interroga a polícia.

-Porque sou doente, a mãe dele é lelé da cuca e seu pai morreu numa troca de tiros... Respondeu o velho avô… (p.111)



terça-feira, 26 de julho de 2011

BREVIÁRIO DE ERRÂNCIA (Filosofando com a borduna de Caim) VIII

... Ao invés de Caim e Abel poderiam ter dito: Rômulo e Remo; Castor e Polux, Prometeu e Epimeteu ou dezenas de outras duplas que ensanguentaram a história. Os irmãos Ivan e Aliosha não se mataram entre eles, mas, pior, uniram-se para assassinar o velho Karamazov. As vezes me pergunto o que teria acontecido se Caim e Abel tivessem dado um fim em Adão? Se ao invés do fratricídio tivesse acontecido o parricídio? Nos anos subsequentes as professoras e as devotas do entorno voltariam a referir-se a Caim como o precursor do cassetete, aquele que não era apenas a metáfora mais popular do mal, mas também do fracasso da família e de sua pretensão de educar. O homem que havia tornado a vida dos terráqueos mais confusa e problemática e o responsável pelas brigas nos bares, pelos porres dominicais, as desavenças entre irmãos, entre vizinhos, entre pais e filhos por um cache-col ou por um grostoli. Também pelos tiroteios entre jagunços, o sacrifício semanal de galinhas, as glebas de terras ensanguentadas e os títulos falsos do governo Lupión cheios de selos e carimbos.

Um pôster da Virgem Maria na sala principal e um de santos em cada quarto. Sobre a minha cama – que muitas manhãs de inverno amanhecia mijada – havia um anjo da guarda afeminado passeando abobalhado pelos prados do paraíso celeste. As brigas por herança, as infidelidades, a negligência com os velhos, a wingester atrás da porta do quarto paterno, a crueldade com os animais, as vacas com brucelose, os pinhões na chapa, a usura, a pose dos que eram um pouco mais abonados e a lassidão dos vagabundos passeando em seus cavalos que, para mim, eram todos clones do famoso Bucéfalo de Alexandre. A organização daquele germe de acrópole, o desenho das casas e as cores de suas paredes, tudo me parecia uma simplória afronta à modernidade que já explodia em outros cantos do mundo. A mesmice das cozinhas, das privadas, (1) dos oratórios, do tanque, das frases e das crenças, tudo remetia, por uma via ou por outra, ao crime anedótico de Caim. A lenda esdrúxula desses dois fantoches bíblicos passou a fazer parte, aberta ou sutilmente, de quase tudo. Se o pároco falava nela todos os domingos e se estava lá no Gênesis, - palavra que ninguém sabia verdadeiramente o que queria dizer - por que não haveria de estar também nos livretos didáticos e nos calendários dependurados atrás das portas, com o primeiro sendo sempre execrado e o segundo idealizado? Lembro que me incomodava o fato de todas aquelas lendas e todos aqueles crimes fantásticos terem sido sempre escritos e contados por Deus ou por seus mensageiros. Algo naquela criança gostaria de ouvir a versão dos fatos também da boca de Lúcifer, de Belzebu ou de Satanás. Mas não havia a menor possibilidade. A rezadeira sórdida de todos os dias endereçada aos santos e ao papa fazia lembrar a velha de Siracusa que orava pela longa vida de um tirano da época, com medo de que a este pudesse suceder o diabo... (pp. 58, 59)



(1) Não esqueço que Domnique Laporte escreveu “a privada, esse lugar repugnante onde cada um faz silenciosamente seus pequenos afazeres, esfregando-se as mãos é literalmente o lugar da acumulação primitiva, pequena taça de merda.” Naquele vilarejo ítalo-germânico - como ainda em muitos pelo Brasil a fora - a privada era uma casinha separada de onde se comia e se dormia. Algumas tinham apenas um buraco redondo sobre a fossa, onde o usuário se colocava de cócoras e ficava ouvindo o barulho da chegada dos dejetos lá no fundo escuro e tenebroso da fossa. Outras, - inclusive a de minha casa - já tinham uma espécie de cadeira de madeira, onde o conforto era bem maior. Como ainda não havia papel higiênico, cada pessoa levava consigo umas folhas de jornal que, depois de usadas, eram amontoadas num canto do ambiente e onde sempre havia moscas rondando aquele subproduto demasiadamente humano. Só bem mais tarde, com o modernismo, e foram os ingleses a inventarem a privada moderna, foi que o Estado, usando parte dos impostos, planejou e conseguiu canalizar toda aquele imundície para uma espécie de cloaca central.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

BREVIÁRIO DE ERRÂNCIA (Filosofando com a borduna de Caim) VII


...Com o movimento hippie aniquilado e sepultado, a obra quase completa de Herman Hesse foi ficando no lugar menos acessível da prateleira. A poeira que vem em revoadas até o quinto andar vai aos poucos aterrissando e colorindo suas lombadas onde pequenas aranhas, em sua solidão aracnídea, também excretam de vez em quando sua gosma. É com uma autentica nostalgia que volto às páginas rabiscadas desse autor alemão que em uma de suas obras também ressuscitou a velha lenda cainesca. Sinclair e Demian reencenam a problemática afetiva vivida pelos filhos de Adão. Numa Alemanha ainda fedendo a pólvora e a cadáveres Hesse, para quem todo sentimento é bom, muito bom, até o ódio, até a inveja, até o ciúme, até a crueldade, tenta romanticamente conciliar os opostos. O yin com o yang, o bandido com o santo, a puta com a freira... Ao invés de interessar-me pela obra sou tomado por uma curiosidade quase perversa pelas anotações e observações que fiz nas margens e nas entrelinhas deste texto, trinta e tantos anos atrás. Londrina não tinha nada de Londres, mas fervilhava de aventuras e de promessas. Mesmo que se vivesse sempre com os bolsos vazios, de migalhas, de pensão em pensão, de biblioteca em biblioteca, nada e nenhum dos problemas cotidianos eram capazes de competir com as artimanhas e o exagero de nossa libido. Cafezais imensos e silenciosos onde à sombra, sempre brotavam alucinantes cogumelos. A gritaria das meninas castas em seus uniformes curtos, seus olhares maliciosos no portão dos colégios reavivava em nós a hipótese do inferno eterno mas também a ideia fixa de que a castidade era uma das mais sofisticadas formas de luxúria. O lago imóvel nas noites enluaradas, o som vibrante de um violino vindo de uma pequena varanda e dos arredores o cheiro da selva em chamas, já quase completamente devastada para ser transformada em cafezais. Cada um daqueles fazendeiros ignorantes e barrigudos se achava no direito de derrubar pedaços imensos da floresta quando e como bem entendesse, ao mesmo tempo em que os exércitos e todos os tipos de policiais da região caçavam ecologistas, intelectuais, artistas, comunistas e confiscavam suas bibliotecas, suas agendas, suas vidas. Jamais se viu tanta burrice em tão curto espaço de tempo. Iguais aos antigos inquisidores, os militares justificavam seus crimes como se fizessem parte de uma cruzada para eliminar a semente de um Caim sociopata, ateu e anticapitalista. Até donas de casa que não sabiam nem limpar-se o cu, cochichavam entre elas sobre um tal Karl Marx que era a reencarnação do demônio. Lênin, então, era um Caim piorado mil vezes e Trotsky, um monstro russo que bebia até sangue menstrual das mulheres e filhas dos ruralistas. Uma mediocridade infame envenenava as ideias e os sentimentos daquela cidade. O medo estava na pauta de todos os dias enquanto bandeiras tremulavam diante das cadeias, das faculdades, dos quartéis e exibiam aquelas duas tolas palavras pirateadas de Augusto Comte: Ordem e Progresso. Só que o que se via por todos os lados era exatamente o oposto: uma zona generalizada, casuísmos sociológicos e celestes por todos os lados, um caipirismo escatológico e fardado, um provincianismo e um subdesenvolvimento de dar pena, do qual ainda não estamos curados. Para a população, dependendo da crença e da ideologia, Caim eram os generais, os torturadores, os agentes da CIA que se disfarçavam de professores, de hippies, de diretores de teatro, de maconheiros, e até de prostitutas. Sem falar dos empresários que financiaram a repressão e das alas da igreja que confessavam e comungavam os assassinos... Para o outro bando, Caim eram os guerrilheiros, os subversivos, os barbudos, os aliados de Moscou, de Cuba e da Albânia, Marighela, Carlos Prestes e qualquer um que vomitasse ao ver uma patrulha militar ou que manifestasse abertamente sua preferência pelo homo ludens em contraposição ao homo faber. Caim era uma metáfora que servia para denegrir quase tudo. Para uns havia sido ele quem arquitetou a farsa do Cavalo de Tróia, a construção das pirâmides e mesmo os hieróglifos. Para outros a teoria da relatividade e a consequente bomba atômica haviam sido artimanhas suas para, cedo ou tarde, detonar o planeta e outros anexos da obra divina. Até o heroico Simon Bolívar usou Caim como metáfora de mau caráter para atacar a nação peruana. Em uma carta de 1928 dizia: “O Peru é o Caim da América Latina”. Mesmo pessoas cultas que poderiam muito bem valer-se de outras referencias e de outros mitos envolvendo brigas entre irmãos - Etéocle e Polynice por exemplo - insistiam em Caim e Abel. Depois aquele circo sanguinário e hermético foi passando, as fantasias caudilhistas se sublimaram, os generais, os torturadores e os presos foram enlouquecendo e morrendo. Finalmente livres, com Deus proscrito e com Satanás aniquilado, os que sobreviveram trocaram de identidade, foram anistiados, receberam indenizações milionárias, se converteram, fizeram plásticas, chegaram ao poder, fundaram jornais e faculdades, descobriram as delícias do dinheiro, trocaram o guarda-roupa, esqueceram todas aquelas bobagens e mergulharam descaradamente no cinismo, na roubalheira, no luxo e na amnésia... Somos de uma espécie tão precária afetivamente que passamos a vida inteira sem ter clareza sobre o que queremos e o que sentimos, nos adaptando como camaleões a quase tudo. Mesmo num caso tão extremado como o de Hitler – lembrando Sandro Toni, em seu ABC de la maldad“se tivesse ganhado a guerra hoje diriamos por aí nos botecos e nas igrejas que era um santo homem" ... (p. 133, 134)


quinta-feira, 14 de julho de 2011

MEIA NOITE EM PARIS...

DOAR LIVROS OU IR PARA A CADEIA???

Daqui uns quinhentos anos, quando as luzes da ribalta já tiverem sido apagadas e os historiadores tiverem a intenção de levantar o mapa de nossos mais insólitos desvarios, principalmente nas questões de lógica jurídica, terão dificuldades imensas e não encontrarão elementos suficientes para tal a não ser nos tratados de psicopatologia cultural. Na cidade de São Carlos/SP - por exemplo - recentemente a Justiça determinou que suspeitos de cometerem crimes "leves", cuja punição não excede a dois anos e cujo transgressor ainda não tenha antecedentes criminais, podem optar entre submeterem-se a um processo mil vezes pior que o de Kafka e depois irem para uma de nossas cadeias imundas e medievais ou simplesmente doarem livros às bibliotecas do Município. Que tal? De todas as funções mistico-esotericas-religiosas e emburrecedoras que os livros já vêm desempenhando em nosso país, esta é inédita. Agora, não pensem que a tarefa será fácil para o condenado, por um lado porque são inúmeras as histórias de bibliotecas particulares inteiras que vão parar no lixo porque as bibliotecas públicas não se interessam por elas, e segundo, porque o "condenado" terá dificuldade, primeiro, em encontrar bibliotecas em seu município, e segundo, em encontrar uma que esteja realmente funcionando.

Além disso, se o condenado não tiver uma boa reserva econômica, já que os livros no Brasil custam mil vezes mais do que valem, ficará rapidamente arruinado. A pessoa que me enviou a notícia desse disparate estava curiosa em saber se a tal LEI estabelece que tipo de livros devem ser doados. Será que podem ser tanto os do Paulo Coelho como os do Sarney, como o recentemente publicado pelo Palloci ou pela Xuxa? Ou deve-se pensar em Montesquieu? Em Voltaire? Em Bernad Shaw? Em Shopenhauer? Em Samuel Rawet? Em João do Rio? Em Emil Michel Cioran, ou em outros da mesma estirpe?

Diante desse impasse, o velho William Blake voltaria a resmungar aquele singela frase que se encontra lá em seus Provérbios do Inferno: "Prisões se constroem com pedras da Lei, Bordéis com os tijolos da religião.


quarta-feira, 13 de julho de 2011

BREVIÁRIO DE ERRÂNCIA (Filosofando com a borduna de Caim) VII


... A fumaceira de um charuto lembra (além de meu pai) a fumaça do sacrifício e que depois do porrete daquele eterno peregrino não veio apenas o dilúvio – como se diz, mas o holocausto inca, asteca, armênio, judeu... o holocausto das vacas, dos frangos, dos porcos e dos faisões, com seus devidos tacapes e facões, as espadas dos samurais, as lanças, as flechas, as espingardas, os 45, os rifles, as metralhadoras, os mísseis, as bombas nucleares, os venenos e as armas químicas. A civilização deve todo o progresso desse arsenal imenso àquele primeiro raizeiro e floricultor porra louca que bateu de frente com as sinistras forças ocultas da época e que, depois do crime, aquele ímpio fugitivo ainda imprimiu no cabo de sua enxada o justo sentimento de todos os libertários: nem deus, nem pátria, nem patrão e nem fraternidade... Apesar de Caim e de todas as cainadas pelo mundo, a uns cinco quilômetros daqui repousa confortavelmente em seu palácio a velha e coitada raposa... A rainha... ( p.106)
... Caim dono dos bordéis de Sodoma e Gomorra! Caim incorporado no brigão das Memórias de um sargento de milícias! Caim uivando no morro dos Pirineus e Caim Ahasverus, aquele que segundo Rawet, foi cão com plenitude e que como cão sondou o mundo! Basta ir de Brasília a Pirenópolis para ver esse noviciado de todas as seitas com seu bornal e sua psicose troteando no acostamento. Os pés como pedra, lá vai o fratricida desconfiado sem levantar os olhos para os seis bilhões de almas deste inferno provisório – seus descendentes e detratores – e sem nenhuma ilusão redentora, apenas cumprindo em silêncio sua interminável sina, maldição e diabolidade, alimentando talvez, uma única esperança: a de reencontrar sua antiga cúmplice e depois, por fim, o verdadeiro apaziguamento. Caim e Abel, as duas faces da mesma lorota e do mesmo sofisma unidas pela jalousie, esse mal que é também uma graça, essa luz que poupou a civilização de uma penumbra, de uma obscuridade e de um tédio ainda pior.
.. (p. 43)



sábado, 9 de julho de 2011

BREVIÁRIO DE ERRÂNCIA (Filosofando com a borduna de Caim) VI

...Em quase todas as novelas e contos famosos, os escritores por astúcia e malandragem colocam uma misteriosa camareira da Martinica, do Marrocos ou do Alentejo. A minha, com seus 28 anos, elegante e de riso malicioso é do Leste europeu e sobe todos os dias as 13:30 em ponto para dar uma geral neste quartinho que mais se parece a uma cela de Guantánamo. Vem com toda a parafernália da modernidade para, no menor tempo possível, deixar o ambiente kleen e perfumado. Hoje, enquanto ela estendia os lençóis rocei acidentalmente em seu traseiro. Ela ficou enrubescida, mas imóvel. Não sei se na expectativa de que eu levantasse seu avental, lambesse seu pescoço e lhe metesse a pica, ou apenas esperando que eu repetisse a impertinência para ter mais elementos para acusar-me de acosso sexual ou mesmo de estupro. Recentemente meteram o cara do Wikileaks e até o Presidente do FMI na cadeia por motivos semelhantes. As fraudes nesse assunto são cada dia mais descaradas e as mulheres, ontem idealizadas e quase santas estão cada dia mais seduzidas pelo submundo e pela delinquência. Enquanto a demi-frigidez feminina lhes dá uma boa soberania sobre seu corpo, o homem, tarado e libidinoso está sempre de joelhos mendigando e implorando que uma dessas loucas o deixe penetrá-la. Um dia ainda pretendo fazer pelo menos um ensaio sobre a heterofobia generalizada no mundo, mas isto não será para agora. Reprimi minhas fantasias primitivas, calibrei minha câmera, ofereci-lhe umas sementes de girassol e desci as escadarias vitorianas e íngremes com todo o cuidado para, de repente, não deslocar-me um quadril ou quebrar-me o pescoço.

Pode não ser o programa mais interessante do mundo, mas dar umas voltas pelos prédios em construção aqui da urbe no horário do almoço, nos proporciona o espetáculo proletário da peãozada toda uniformizada e sentada nas calçadas ou nos andaimes palitando os dentes e fazendo a sesta. Se poderia dizer que na essência, é uma imagem não apenas pré Marx, mas até mesmo pré Heráclito. Chegam de vários lugares do mundo, principalmente dos países fodidos dos arredores e do leste europeu para negociar seu sangue e suor por um punhado de libras. Neste particular Judas Iscariotis foi mais nocivo e astuto, entre o trabalho e a delação apostou nesta última. Estão sempre assoviando ou cantarolando alguma canção de seus países tentando dar um clima de normalidade a essa escravidão. Muitas vezes são experiências banais como esta que – como dizia Camus em seu Mito de Sísifo – nos revelam (ou nos fazem relembrar) o absurdo fundamental de nossa condição cainesca... (p. 47)


quinta-feira, 7 de julho de 2011

BREVIÁRIO DE ERRÂNCIA (Filosofando com a borduna de Caim) V

...Faço propositalmente uma salada de cidades, países, continentes, viagens, oceanos, acontecimentos, registros, interpretações, confissões e memórias neste livro, muito mais para confundir do que para orientar, cabe a você leitor, acostumar-se ou não a essa desordem e a essa errância. Aqui tanto as viseiras como as poses de sapiência são plenamente dispensáveis, já que o elogio ou a crítica são igualmente abomináveis. É bom frisar que longe da pretensão de equilibrar ou de apaziguar as hordas, os sujeitos pecantes ou os espíritos endemoniados, meus escritos costumam agravar o mal ou – como dizem os iniciados no zen – levá-lo ao ponto mais agudo e insuportável, lá onde o sujeito se enraivece e toma consciência de que marcha irremediavelmente para o matadouro. E isto, não porque ache bonita ou romântica a ideia do caos, da melancolização, da ferocidade implacável, do abismo e do naufrágio, mas porque é o que tenho de mais genuíno, crônico e pessoal a oferecer.

Já é quase madrugada em Londres. Alguns idiotas bêbados atravessam a rua resmungando e vão em direção às cercas do Hyde Park. Pela janela deste quartinho de merda vejo o quiosque do indiano com as luzes acesas, mas fechado. Foi esse filho-de-uma-puta que, hoje a tarde, quis cobrar-me uma libra por uma mísera colher de plástico. De quando em quando o gemido de alguns pássaros como se estivessem sendo mordidos por uma ratazana ou mesmo se enrabando. Mas a essa hora? A árvore da frente balança levemente seus galhos como se nela estivesse empoleirado um bando de druidas endemoniados. O que há de melhor na insônia – ironizava Cioran – é que ela nos permite mergulhar de vez no território do silêncio. Rumino minhas sementes de girassol. Jogado no piso o jornal de ontem com uma manchete sobre a morte do Bin Laden. Meteram-lhe uma bala no meio da testa. Entre o atirador e o morto, quem era mais Caim? Como dizia, apesar de trotear todos os dias, de manhã à noite entre o rebanho prostrado e de língua para fora, costumo frisar para mim mesmo esta frase de W. Whitman: “Não tenho cátedra, nem igreja, nem filosofia. Não arrasto ninguém a uma mesa posta, nem à biblioteca e nem à bolsa”. Apesar de minha pose de normalidade albergo no mais abismal de meu ser um vulcão de exagerada envergadura. Mas, como por defesa, “não estou nem aí” para os pecados e para os crimes hediondos da humanidade, sejam eles perdoáveis ou imperdoáveis. Não penso com a lógica dos sindicatos, dos partidos, das confrarias ou dos velhos conventos. Mesmo não simpatizando com Machado de Assis na mesma magnitude de meus contemporâneos, tenho sempre presente o texto que ele colocou na boca de Brás Cubas, capítulo VI: “Ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim”. Esse mesmo autor voltará a falar de Caim em seu Alienígena, capítulo C, item 18: “Mas a iniquidade de Caim falou nele, e me feriu a cabeça, a cara e as mãos”. Iniquidade e ruindade de Cain? É uma indecência que Machado de Assis, porra-louca e filho legítimo do lupemproletariado como tantos outros, fale mal de Caim, que tenha, talvez por ter ido demais às missas da Candelária, comido a isca e os chavões de nossa delirante cultura. O escritor que não explicita com todas as letras seu engajamento à causa cainesca – irreverente, maldito, herói negativo – não é confiável, é quase um traidor, um traidor que reforça a tese de que a verdade de um texto é aquilo que se perde na tradução. Mas é compreensível. Ah, Abel mártir! Sim, é compreensível! A cachaça, os transtornos psicológicos, a época e o tempo têm também a nefasta função de despistamento, já que nosso saber é quase sempre uma torre de isopor erigida sobre as ruínas de uma singela choupana de lama. E aqui entre nós, quem é que está interessado em dar uma de Hércules, atravessar o umbral do caos e iniciar o desmoronamento de toda essa merda civilizatória, sabendo que até os pedregulhos do subsolo estão contaminados por essa idiotia generalizada e que desconstruir é sinônimo de dinamitar??? (pp.39,40)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

BREVIÁRIO DE ERRÂNCIA (Filosofando com a borduna de Caim) IV

...A potência desta cidade me faz bem. A solidão, o atraso e a desordem dos trópicos ainda haverá de ser agregada aos protocolos internacionais de patologias. Abro meu Secret London, an unusual guide e visito em pensamentos todos aqueles lugares, com seus mistérios e arcanos. Caim deve tê-los conhecido todos, ele que desenhou o abismo como arquétipo da mãe amante e apavorante. Ele que foi o teórico da desobediência Civil, contrário à todas as formas de redenção e adversário de qualquer tipo de abnegação. Jung equivocou-se quando elegeu Adão como símbolo do Homem Cósmico. A totalidade primordial de todas as energias psíquicas seria melhor representada por Caim. Caim, repito, Ahsvero, aquele que por ter dado uns cascudos em Jesus durante o interrogatório a que lhe fazia Caifás foi amaldiçoado e obrigado a peregrinar pela terra até o fim do mundo. Que castigo invejável! Caim Herodes! Caim líder dos anões, desses excelentes ferreiros que exercem sua função no centro da terra. São eles que, através do vulcão chileno estão lançando cinzas sobre Buenos Aires. E foi Caim quem inventou a tatuagem e que escreveu também o Apocalipse, esse que é considerado pelos dementes o último livro canônico. Estive pessoalmente lá em Patmos, em sua caverna, a caverna onde o texto foi escrito. Caim, ele próprio era a prostituta da Babilônia, vestida de escarlate e purpura, segurando na mão esquerda uma taça transbordante de abominações. E foi Caim que me vendeu dois bilhetes de Patmos para a Turquia num barco precário que esteve a deriva por horas e que por pouco não foi sepultado nos abismos do Mar Egeu... (P. 108)


sexta-feira, 1 de julho de 2011

(Tattoo) A MARCA DE CAIM

BREVIÁRIO DE ERRÂNCIA (Filosofando com a borduna de Caim) III

...Bem lembrado!, pensei. Bocage também fora um Caim reencarnado e muito mais! Caim pau pra toda obra, um ser híbrido, o horror e o fascínio condensados. Caim cheirador de cocaína, dançador de tango, hippie pelas nevascas do Himalaia, louco numa casa de orates ou atrás de um avental branco realizando um estupro ou uma extorsão. Caim horticultor, gestor do ciganismo, inventor do tacape. Caim menino de rua, cu sujo, aspirador de cola, dono de tripas vazias. Caim ladrão, Caim DAS5, Caim pulha e autêntico gabiru. Caim de joelhos na catedral da esquina com a língua para fora onde outro Caim depositará a circunferência branca da hóstia. Caim louco por tetas e por xotas, Caim comerciante, Caim nos ministérios, Caim brasão da família, ladrão de gravatas, líder sindical, vampiro do leste europeu, avô de Herodes, glutão, pai da burrice insondável e galopante. Caim tio de Diógenes! Caim inspirador do barroco de Aleijadinho, foi sob sua influência que o escultor mineiro cravou sete espadas no peito de Nossa Senhora das Dores. Caim pivô da Perestróica oculto na estátua da liberdade e no concreto do Cristo Redentor! Caim quinta maravilha do mundo, arquiteto do Taj Mahal, amante de Madalena, Caim de calcinhas transparentes, aquela que tem sido o pivô de todas as insônias. Caim cão adestrado! Caim de meias calças na porta dos hotéis e nos porões lá do Conic e aqui dos puteiros do Soho. Caim pretensioso, empedernido, hálito de cadáver! Caim no exílio como águia extraviada, franco-atirador, asno endogâmico! Caim herói da farraparia, lança-torpedos! Candidato em todas as eleições! Caim cagando nas águas do Rio São Francisco, mijando ali no Tamisa e vomitando nas do Ganges! Caim Mercúrio, o Deus mensageiro, padroeiro dos ladrões e dos jogadores! Caim bouquinista nas ruas de Paris, cigano em Valência, usureiro em Nova Iorque, drogado em Amsterdam, sofista na Grécia, iogue nos templos de Bombaim. Caim Hércules que mata os filhos e que está nos olhos do Pensador de Rodin, Caim incorporado em Gildamesh (o herói máximo da Mesopotâmia), Caim sob a máscara de Teseu, entre os Cavaleiros da Távola Redonda e até mesmo do espadachim Cego dos nipônicos. Caim bookmaker aqui em Londres, pugilista no México, barman em Nova Déli e puta de todos os bas-fonds, cuja marca seria identificada pela presença de uma energia especial, aquela que só os bruxos e os xamãs conhecem. Caim em Katmandu querendo vender-me uma faca, na Tailândia por detrás do Buda de Ouro, na Ilha de Creta mantendo vivo o desejo do Minotauro. Caim no meio das tetas das artesãs indianas, no fundo do lago de Puskar, numa loja de tapetes no Bazar de Istambul, nos porões das pirâmides do Cairo... Não adianta, somos dois em um e um em dois. Caim meu descarado alter-ego!

E foi Caim quem derrotou Don Sebastião na Batalha de Alcácer-quibir, na África em 1578 e foi ele também, por ironia que, para iludir aos portugueses, instituiu o Sebastianismo. Caim no sertão do Cariri vendendo pedras de isqueiro, baralhos, carretéis de linha, fotos de Frei Damião e foices sem cabo sob os umbrais da Igreja de São Francisco. Um dia ali, outro na frente da Igreja Batista Regular e outro no interior da Igreja das dores. Nunca imaginei encontrar Caim travestido de alfaiate, dono de um empório, sapateiro ou indigente, com os cotovelos apoiados na janela do casarão que pertenceu ao Padre Cícero. Caim esteve também lá na Chapada do Araripe há 115 mil anos fotografando as minas de gipsita ou registrando a metamorfose dos celacantos em anfíbios e répteis. Ficou entusiasmado com os corvos planando sobre o chapadão como se fossem verdadeiros pterossauros e mais ainda com as libélulas incrustadas na pedra Cariry... Todas essas errâncias e todas essas vagabundagens me chegam de forma inesperada aqui num café londrino a menos de um quilômetro da antiga casa de Freud. Freud Caim! Caim psicanalisado. Uma bruxa o ajudou a ressignificar seu crime. Fim da análise: matar não é crime! Caim como o anti-édipo. Caim dando aulas para Vinnicott e para Melanie Klein. As memórias e os cheiros me arrastam de volta para o sertão e para a caatinga com seus espinhos e com sua violência nata. Caim, cão do mato, fiel escudeiro do velho Conselheiro, com sua verve contra os canhões republicanos. Caim descendo o Rio São Francisco a nado e matando bicho-barbeiro na unha. Plantador de maconha, remeiro, dono de todas as casas de luz-vermelha da margem esquerda... (pp.79, 80)