"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

BREVIÁRIO DE ERRÂNCIA (Filosofando com a borduna de Caim) II

...Estamos definitivamente numa estação de pau-a-pique onde as noites chegam sinistras, repletas de profecias e de relâmpagos, de lampiões moribundos prestes ao desaparecimento. Matilhas de famintos, a filharada de Caim, espectros e vultos fedorentos que se esgueiram sisudos sob as árvores e junto às muralhas murmurando obsessivamente as duas últimas linhas do badalado verso de Baudelaire em favor de nosso errante diabólico: “Race de Cain, ao ciel monte et sur la terre jette dieu!”[1] Mas, como todo verso é vão e toda poesia é narcisismo condensado e inútil, fica tudo por isso mesmo e tudo como está.[2]

Cheiro de querosene, piolhos e pele descamada. Trazendo um Caim, um Drácula e um Frankenstein sepultados dentro de si a escória vem marchando da escravidão do latifúndio para as vilas e para as cidades em busca de restos de comida, de uma bala perdida ou de um Serial Killer. Gira em espiral ao redor de si mesma, dos muros citadinos e pelas cercanias das majestosas catedrais e de seus campanários farejando um esconderijo onde cuspir, vomitar e cagar sua exclusão, sua lepra, sua esquistossomose e principalmente sua feiura que nada neste mundo dissipará. Tudo infinitamente mais grave do que a velha e sectária ideia de luta de classes. Descobre as marquises e os fundos de terrenos baldios e se resigna sob o estigma da escória cainesca, da maldição metafísica transmutada em maldição social. Com a tatuagem de uma víbora na garganta é a autêntica obra divina arrastando as tripas de lá para cá enquanto, com olhar súplice, rumina sua culpa e soleniza sua longevidade. Réplica e clone de tudo o que é abominável, de tanta miséria, penúria e escassez, não tem competência nem forças para, como sugere Baudelaire, pelo menos subir aos céus e enxotar de lá o Criador. A cada anoitecer se amontoa como pode a espera de que alguém da janela vizinha lhe aponte uma espingarda ou que alguma estrela vagabunda despenque sobre seu crânio e coloque um fim ao seu flagelo e ao seu único crime, o de haver resistido os nove meses uterinos e o de haver nascido.

Mantendo a distancia conveniente, observo o traste leproso que com seus olhinhos esverdeados de coruja descansa numa escada do jardim e apodrece – como diz Derrida – entregue à voracidade roedora, ruminante e silenciosa do animal-máquina com a sua lógica implacável.[3] De tempos em tempos beija uma cruz que leva amarrada ao pulso e resmunga uma oração breve, de apenas uma ou duas frases. De onde advém essa paixão humana pela ficção? Pobre diabo, não teve ainda a capacidade de compreender que um deus que coloca uma lepra no corpo de um crente – parafraseando a Bret Harte – certamente não se comoverá com suas suplicas e com suas orações. A barba, os cabelos, as sobrancelhas e os pelos que emergem de suas narinas e de seus ouvidos parecem ter a função de ocultar um teorema ou a tal marca de Caim que está em todas as partes desse corpo condenado, como um sifão, à precariedade. Alguns racistas insinuam que o tal sinal que Deus colocou em Caim (OTH em hebraico) seria a cor preta.[4] Outros se referem à doenças como a lepra, a tuberculose, o estrabismo, o alcoolismo, a sífilis, o HIV. Também há quem acredite que a marca seja o gigantismo, o nanismo, a circuncisão ou mesmo a ausência de pelos pelo corpo.[5]


[1] Visitar Abel e Caim, em Flores do Mal.

[2] Dizem que nos raros e nauseabundos soirèes poéticos onde Rimbaud marcava presença, sempre que alguém acabava de recitar um poema saia de sua boca o mesmo resmungo: merde!

[3] J. Derrida, em O animal que logo sou, editora Unesp, p.73, SP, 2002.

[4] Modesto Brocos, pintor espanhol naturalizado brasileiro, interessado na questão negra, dedicou uma tela a essa temática. Intitulada A redenção de Caim, essa pintura mostra uma família negra, cuja avó, orgulhosa de seu neto pardo, ergue as mãos para o céu em agradecimento e em gratidão. Nesse trabalho, Brocos trata da teoria vigente na época que previa o desaparecimento da raça negra através da miscigenação. Ver livro de João Carlos Rodrigues: O negro e o cinema. Ed. Pallas, RJ, 2001.

[5] Como os ameríndios, normalmente, não têm pelos e nem barba, alguns fanáticos chegaram a nomear a América Central como o Reino de Caim.


domingo, 26 de junho de 2011

BREVIÁRIO DE ERRÂNCIA (Filosofando com a borduna de Caim)

...Não foi do dia para a noite que a espécie chegou a esse nível bestial de organização. Fez-se a arma, a roupa, o sapato, o chapéu, o relógio, as tesouras, os óculos, o remédio, a comida em caixas, as malas, os semáforos, os meios de transporte para poupar as pernas e os tendões. Fez-se a casa e depois fizeram com que ela subisse na vertical, e aí precisou inventar as escadas, as janelas, os caibros, os telhados. Os violinos, as cordas, as almas. Vieram as xícaras e os líquidos feitos de raízes e de sementes, o açúcar e alguns animais embalsamados para o acompanhamento. A escrita, o livro, o taxi, o relógio e as horas, o salto alto e as meias-liga para criar também a ilusão. Fez-se o berço e a lápide para o cadáver, a bicicleta, a agulha para furar a língua e as orelhas. A gravata, o pente, a umbrela. E fez-se o frio e o fogo que precisou ser condensado e domado. Surgiram os idiomas e as ruas, as moedas e os bancos para armazenar o dinheiro. Portsoken Street diz a placa pregada no cimento. Band-aid para os calos e capas para a chuva que bate na vidraça. O vidro, o cigarro chegando aos lábios, um véu sobre a cabeça cheia de buracos. A mão administrando tudo e nos seus dedos se introduziram anéis de diamantes. A chave presa a uma corrente, o pescoço cheio de penduricalhos. A fala, a letra, a pizza exposta no mesmo andar do campanário. 122. Fez-se os números, deu-se nome aos porcos e placas aos taxis. Pedestrians look both ways em letras brancas e fundo vermelho. Um pingo fura a vidraça e transborda o capuchino. Um abatjour e o tubo de alumínio que o suporta. Desvendou-se o pulmão e a pneumonia. As horas, o dedo indicador em riste e o riso de dois bêbados. Look rigth escrito no concreto do piso. Look. Os olhos e os colírios para combater as poeiras glaciais, as coxas com suas varizes para correr da chuva e para proteger a vulva. As gotas descendo pela careca e contraindo a massa no interior do crânio. Caim descendo as escadarias da toalete para ladies. O farol e sua linguagem, o volante do lado oposto ao do coração. A disritmia, a hipomania e a mania de grandeza. E fez-se a anestesia. A seringa a ampola e a veia. Um, dois três, quatro e pronto: decolamos no nada. O salto para o nada que é o sono multiplicado por um bilhão. O “Eu”, a “Personalidade”, a “Alma”, o “Ser”, o ‘Corpo”, as “Crenças”, as “Prepotências” nada pode competir com uma simples ampola de três centímetros. E o veículo mais potente de todos é a maca, com a leveza de suas rodas deslizando no concreto de nuvens... Uma buzina. Londres que se espreme sobre si mesma. Fez-se também o ziguezague de olhos e de raças. No mapa a conexão entre os vultos que se encontram para rir, rir de que caveira estressada? O paletó indo sozinho para o escritório, no bolso de dentro a poção pessoal de veneno. Foi-se a chuva, fez-se o sol. Taxi! Palavra enigmática. Voltou a chuva! A nuca encostada na cripta. As pilhas já estão pela metade. Fez-se a esquina e o cruzamento, os pacotes para transportar o pão miserável de todos os dias. Next please! A voz da moça do café que é de outra tribo. Tacapes! Setas envenenadas! Os cílios de duas polegadas. Um dia, certamente, ela trocará o next pelo last. Um japonês pisando numa poça de água, cada um tem a sua tsunami. Os desníveis existem apesar de ter-se feito os centímetros e a boca de cristal. Next please! O next sou eu, minha câmera digital e minha segunda caneca de café. Next! Next please! Next um caralho! Amanhã será last! No meio de todos esses objetos, essas coisas, esses instrumentos, esses signos, esses significantes, essas senhas e marcas e álibis, o sistema, fantasma e onipresente que não é um ser com dna, se parece mais a uma serpente de aço, sem núcleo cercada de serviçais e que vai se esticando, esticando, esticando. Os lacáios morrem e passam enquanto o sistema, com um disco lunar sobre a cabeça vai se desenvolvendo como uma doença progressiva, uma verruga, um tumor no interior da alma. São esses imensos blocos de concreto cheios de bandeiras, brasões e de códigos, cada vez mais altos, densos e sem identidade. Onde é a entrada moço? Quem esteve aqui? Quem fez isto ou aquilo? A ordem veio de onde? Tudo há dois mil anos atrás? Não há registro do essencial, só a visão pueril fica nos arquivos de ferro ou nos discos rígidos para dar o que fazer aos professores de história e de “humanidades”. As catedrais, as masmorras, o cheiro da camareira tcheca, os bancos, a filosofia e a ditadura dos mercados, a terra inteira sendo devorada por seus vermes. A música do congo fazendo vibrar minhas células tupinambás. Aqui nos “céus” de Londres um trânsito intenso de aviões que vão para onde? Dá para adivinhar o que cada passageiro leva na mala, nos bolsos e no cérebro e a quantas anda sua ansiedade, o que fará em seu destino, como e quando voltará. E depois desses serão outros como eles, com as mesmas coisas nos bolsos, nas malas e nos cérebros. Há uma indústria imensa de aviões, de malas, de fobias e de pessoas funcionando a todo vapor, e tudo para seguir girando na cegueira e ao redor do essencial, sem a coragem radical para o pouso definitivo. Hare hare, krisna hare!!! Lá vão sete ou oito sujeitos quase hermafroditas vestidos de rosa e saltitantes, rebolando e tocando sininhos por Piccadilly... Krisna, Krisna, Krisna hare. Mas, cadê o Krisna? Atravessam a avenida pacificamente sabendo que mais lá na frente vão encontrar-se com os da Jihad Islâmica, e que mais na frente ainda se juntarão aos da Opus Dei, e mais adiante ainda aos Filhos de Jeová, aos do Reino dos últimos dias, aos mórmons, aos Filhos de Maria e com outros também temerosos do demônio. Aleluia! Aleluia! que lá vem agora uma manifestação dos monarquistas, outra dos democratas, outra dos republicanos, outra dos socialistas, outra dos ditadores esclarecidos e várias dos pseudo libertários de todo o orbe. Não imaginam que de um janelão de mármore da City um big brother sóbrio e entediado assiste a tudo, e que só ele sabe até onde e até quando essa palhaçada "holistica" toda deve e pode durar... A rua ainda está lá. O paredão, o raio, gente de todo o zodíaco, a mulher que se agarra ao guarda-chuva. Next please! Os badalos de um sino, o relógio, a hora, um anônimo que menciona a meretriz da Babilônia e a errância intemporal. Alguém executa no violino Meditação, da Ópera Thais enquanto Caim cobre a cabeça com um chapéu de colono escocês e se embrenha no meio da tempestade resmungando esta frase demoníaca de Rimbaudt: Tenho a idolatria e o amor do sacrilégio; - oh! Todos os vícios, cólera, luxúria, - magnífica luxúria – e principalmente a mentira e a preguiça”. (Fragmento do livro: Breviário de errância – filosofando com a borduna de Caim – que será editado e vendido em breve nos botecos da urbe).


segunda-feira, 20 de junho de 2011

Um cão advogado e um macaco bruxo... E ainda se fala em pós modernidade...

Na semana passada uma Corte judáica (formada por rabinos) condenou à morte por apedrejamento um cachorro de rua por acreditar que ele era a reencarnação de um advogado que tempos antes havia insultado os juízes. E há uns dias mais atrás na cidadela de Kagiso, próxima à Johannesburgo, um macaquinho teve destino ainda pior, pois foi apedrejado e queimado vivo depois que se espalhou a notícia de que ele falava. Lá, mais ou menos como em Jeruzalém, os "juízes" o acusaram de ter um pacto com bruxarias, demônios etc. Que tal??? E isso é apenas o que escapa à censura. Imaginem o que deve acontecer por aí nos bastidores dessa pobre, sinistra e beata espécie. Saravá!!! Meus irmãos!!!

sexta-feira, 17 de junho de 2011

E o mundo segue comandado por seus mortos...


Dos cento e tantos cemitérios que há em Londres sete são considerados mais importantes, o Highgate, onde está Karl Marx, é um deles, o de Bunhil Fields, que guarda as ossadas de William Blake e de Daniel Defoe, o Kensal Green e o de Brompton, com seus corvos etc. Tenho em meu “Curriculum” os registros dos cemitérios gregos, dos chineses, dos de Buenos Aires, México, Paris, o judeu de Praga, o Kerepeto Temeto de Budapeste, os de Roma, os lusitanos, o de Veneza, na ilha onde jazem sem remédio e sem chances de ressurreição as cinzas de Ezra Pound. Conheço o de Goiás Velho onde foi depositado o féretro de Cora Coralina, os de São Paulo, os de animais de Brasília, os de Tanger, onde está o corpo maldito de Jean Genet, os de Barbacena, onde fotografei até caveiras fora das tumbas. Os do Nepal, os do sertão do Cariri, os crematórios de Benares, Macau, Hong Kong, os de Madri e Barcelona, o de Havana etc., etc. Sempre que me perguntam quê obsessão é essa, eu os engano mencionando um suposto interesse pela "arte mortuária" ou outras bobagens da dita pósmodernidade. Claro que não tem nada a ver. Interesse pela arte porra nenhuma! Estou apenas tentando acalmar minha curiosidade e minha ansiedade com relação a esse trágico destino e, quem sabe, encontrar elementos para inventar a minha ars moriendi. Mas já sei que não há chances! Apesar de todos os truques físicos e metafísicos engendrados pela cultura para tentar negá-la e ocultá-la, a morte continua sendo a maior de todas as sacanagens que a existência armou em nossa estrada, tanto na dos homens como na dos ratos, dos cachorros, dos percevejos. Morrer e apodrecer é um horror, uma nojeira inqualificável. E não há mentira ou promessa que console os condenados à morte. A hipótese de um Deus ou de outra vida - por exemplo - além de cabotina e descarada agrava ainda mais essa desgraça. Se existisse um arquiteto ou um responsável por essa história toda, é bem provável que seria chicoteado, apedrejado e decapitado pelo populacho. Ou não? No Cemitério de Brompson, os corvos dão um aspecto ainda mais macabro ao ambiente. Voam famintos de tumba em tumba em busca de uma migalha qualquer de osso ou de pele. No Highgate, como já lhes disse, está a tumba de Marx. Paradoxalmente, só ali ele conseguiu livrar-se para sempre dos furúnculos que o atormentaram por toda a vida. A cripta de Alexandre Fleming (o da penicilina) está na Catedral de São Paulo; Tomas Morus (o da Utopia) está na Torre de Londres; na Abadia de Westminster estão Charles Dickens, Lewis Carrol, Rudyard Kipling etc; Peter Sellers (o cômico) está no Golders Green Crematorium. Ali também estão as cinzas de Freud depositadas no interior de um vaso grego e também as da bailarina Anna Pavlova. Michael Faraday (o da eletricidade) está no The West Cemitery; William Hogarth (o pintor) repousa no Chiswick Old Cemetery e no Kensal Green existe um monumento para a Princesa Sophia. O grande Charles Chaplin Senior (music-hall) está no Lambeth Cemetery & Crematorium. O linguista e errante Sir Richard Burton está no St Mary Magdalen’s, Mortlake; Jack Williams (o socialista) aguarda pela revolução no Walthamstow Cemetery. O banqueiro Nathan Meyer Rothschild (esse sim pode considerar-se um vencedor) está no Brady Street Cemetery. Thomas Crapper (o inventor da toalete moderna) descansa no Becknham Crematotium & Cementery, e Anna Sabatini (a música) tem um monumento no Sutton Cemetery. Se este guía lhe servir para alguma coisa aproveite e boa viagem, no duplo sentido. (25 de maio de 2011, Cemitério de Kensal green)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Mais sigilos e mais segredos. Duvido que a Cosa Nostra tenha tido tantos pruridos com suas intimidades e com seus negócios.


Depois da campanha para manter documentos históricos referentes ao Estado sob Sigilo Eterno, agora a movimentação no Congresso Nacional é para manter em sigilo e em segredo também os orçamentos e os gastos governamentais com os preparativos para a Copa do Mundo e para as Olimpiadas do Rio. Que tal? A população é ou não é tratada como indigente? E pela mansidão do rebanho, será que não é? Independente dessa preparação do terreno para assaltar os cofres públicos e transferir dinheiro da nação para contas particulares, como é possível que se mobilize o país inteiro inclusive com algumas de suas instituições mais fundamentais, um país repleto de absurdos, de doentes mentais e de misérias durante cinco anos para viabilizar um projeto futebolistico. O que é o futebol? O que é essa bestalharia que se apoderou de todo o lazer e de todo ócio das massas? O que quer afinal a máfia internacional e a nacional com a alienação do futebol? O que é que tem fomentado e eternizado esse ritual de 22 ignorantes correndo pelo planeta a fora atrás de um pedaço de couro? O que é essa idiotice de mentecaptos levada aos extremos do fanatismo e mil vezes pior que a do Coliseu de Roma, senão uma doença degenerativa, um estágio de pré-demência, uma chaga progressiva incrustrada no cérebro já alterado de milhões e milhões de escravos? Ao invés de construir mais estadios, se deveria era implodir os que já existem e se não se quer abrir Universidades, Bibliotecas, Teatros, Observatórios estelares, Institutos de pesquisa, Plataformas para viagens interplanetárias, Jardins suspensos como os da Babilônia, Fábricas de Pão de ló e de Grôstoli com licor de pêra etc., em seu lugar, que pelo menos abram bordéis, cabarés, zonas de meretrício ou lupanares como os que havia na Grécia no século de Péricles pois, já que se carece completamente de vergonha e de convicções a respeito dos outros e de si mesmo, pode nos fazer muito bem os elevados ensinamentos da prostituição, essa Academia ambulante de lucidez - como dizia Cioran -, tão à margem de nossa sociedade como o bom senso.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

SIGILO ETERNO OU A BUSCA PELO SANTO GRAAL...



A discussão mais recente e mais cômica no Congresso Nacional está tratando do tempo adequado para se manter em sigilo alguns documentos que deveriam estar sob a guarda do governo. Digo deveriam, porque realmente ninguém sabe que documentos são esses, se existem realmente e muito menos onde estão. Por prudência republicana – como gostam de dizer - antes de decidir se serão tornados públicos ou mantidos sob Sigilo Eterno como propõem Sarney e Collor, deve-se fazer uma deligência para encontrá-los. E é bom que todos saibam que o tempo de busca pode igualar-se ao da procura pelo Santo Graal. Estariam no Arquivo Nacional? No Arquivo do Senado? Nos porões do Exército? Em algum canavial de Alagoas ou no Convento das Merces? E se forem encontrados, onde estão as “segundas vias”? Cadê as fotocópias e as partes furtadas? Quem arrancou esta ou aquela folha? Quem adulterou este ou aquele capítulo? Ninguém saberá. Aliás, você conhece alguém que está interessado nos tais arcanos? O sigilo eterno é quase uma consequencia natural nestes pobres, abnegados e bandidos trópicos. E depois, pelo “entusiasmo” de nossos arquivologistas e pela “organização” de nossos Arquivos Nacionais é evidente que não se encontrará mais nada que preste e que interesse a alguém. Sem falar dos documentos que os pesquisadores estrangeiros costumam comprar por aí para incrementar suas teses, se em nossos arquivos não conseguimos localizar nem o que é publico, livre e desimpedido, imaginem o que é sigiloso e o que está marcado com um grotesco carimbo de Sigilo Eterno. Gostaria imensamente de saber o que é afinal que esses senhores pensam da eternidade? Além disso, (podemos apostar) dificilmente os tais documentos serão mais escandalosos e mais imorais do que os fatos escancarados que ocorrem no nosso cotidiano. Duvido que haja neles alguma informação escabrosa e algum crime que chegue aos pés dos que presenciamos na integra e ao vivo, todos os dias das últimas décadas. Agora, o que é mais deprimente nessa proposta medieval e inquisitorial é o silêncio dos pesquisadores, dos historiadores, dos livre pensadores, da Santa Madre Igreja, dos arquivistas, dos homens de ciências, dos antropólogos, dos ditos homens de esquerda, do populacho em geral e até mesmo dos mafiosos esclarecidos. Que a imprensa esperneie, não vale, pois ela quer apenas incrementar suas vendas.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Mysterium tremendum et fascinosum...


Neste final de semana, como de rotina, 07 assassinatos nos arredores do Distrito Federal onde, apesar do silêncio das autoridades e dos poetas, vive-se como em uma autêntica Idade Média. A polícia vai lá torcendo o nariz, anota alguns dados superficiais do acontecido, (faca, tiro, paulada, veneno etc.,) enfia o cadáver no camburão, atualiza as estatísticas, atribui a culpa às drogas, compartilha as informações principais com a mídia, esta cumpre sua pauta matutina com uma pseudo classe média dorminhoca e com seus patrocinadores e estamos conversados. O que deveria ser motivo até para se pensar num Estado de sítio imediato, não move uma folha sequer – parafraseando a Bobbio – dessa floresta imensa e porca que é a sociedade. Passou-se a semana inteira falando nefastamente sobre o affair Palocci, com suas “consultorias” e com suas fortunas clandestinas. Sinceramente, a quantidade e a origem do dinheiro, o pedigree de seus “clientes” e outras barbaridades são até secundárias neste momento, o que é verdadeiramente insólito, broxante – revolucionariamente falando - e até cômico, é imaginá-lo, como um ex-militante das Pastorais cristãs e das causas perdidas proletárias ou como um ex-socialista com tempero comunista se locomovendo de pantufas, pijama ou de gravata dentro de um apartamento de quase cinco milhões de dólares. Isto sim, companheiros, sinceramente, não tem nada a ver. É ridículo, coisa de tupiniquim deslumbrado, uma traição, no mínimo simbólica, ao populacho. Mysterium tremendum et fascinosum!!!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Sobre um pretendido direito de mentir por humanismo (Kant)



Nos últimos anos voltei várias vezes a leer Sur un prétendu droit de mentir par humanité, trabalho de Emmanuel Kant, 1797, numa tentativa de acalmar minha fúria com relação às mentiras políticas e às que vêm diariamente embutidas na Publicidade e na Propaganda, nessas duas escolas de mentirosos e de cínicos. O resultado, como se percebe, não tem sido lá grande coisa! O governo diz descaradamente – por exemplo – que reformou as escolas e os postos de saúde, vou conferir e constato que é tudo mentira. A publicidade enganosa permanece no ar, segue sendo exibida pela mídia, juntamente com outras sobre automóveis, café, aço, comidas, remedios, cursos, viagens, sapatos, seguros, jornais etc, etc. Tudo falso e mentiroso, algo já previsto, uma vez que a propaganda nunca foi mais do que um território ignóbil de trapaças e gerenciado por crápulas. Nossos produtos isso! Nossos produtos aquilo! Nosso governo isto, nosso governo aquilo! Tudo mentira! Da igreja ao bordel, do público ao privado, da putaria à purificação do espírito, da ética à prédica… Sempre a mesma horda de porcos chouvinistas que vai com suas mandíbulas grunhindo, devorando tudo e rindo por onde passa.. Rindo? Sim, rindo. É imune à critica, acredita que tudo isso é normal e que a publicidade faz parte do show. Normal? Mas como? A sociedade é assim mesmo, respondem. O povo precisa desse veneno propagandistico, precisa iludir-se, prefere morrer enganado, intoxicado e febril do que sóbrio e torturado pela consciência… A mentira como tempêro para a condição humana. Como álibi imundo forjado pelas contrações estomacais, como uma falsificação do próprio rosto… Um ópio secreto injetado no Outro e em si mesmo… Eu minto, tu mentes ele mente! Propaganda: arte de propagar mentiras! Usina de falsificações, religião do engano, da má indole e a alma dos negócios. Vilania coloquial! Vomitório! Pênico! Escudo! Relho! Antesala da infâmia! Protocolo do escárnio! Covil de dissimulados! Triunfo da ambiguidade! Mãe do estupor! Academia de repugnância! Aos otimistas e aos crentes só lhes resta rezar. Rezar? Sim, mas mesmo assim com uma certa dificuldade pois, parafraseando a Cioran, como rezar em português, num idioma de onde já foram engendradas tantas inverdades? É, parece cada dia mais evidente que qualquer crente pode dirigir-se a uma abóbora ou a deus com veemência e em todas as línguas, menos na nossa!!!

E já que estamos falando em Cioran e em Almas Pervertidas, para dar um clima poético a estes insultos, reproduzo aqui uma frase de d’Emily Dickinson, mencionada na página 828 dos Cahiers de Cioran, que diz: A alma escolhe a sociedade que lhe convém e fecha a porta. (“The soul selects her own society then shuts the door”)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Brasil, meu Brasil brasileiro...

Mesmo que você tenha viajado para o outro lado do mundo, para outro planeta ou até mesmo para outra galáxia, voltar ao Brasil é sempre uma aventura inigualável, é sempre deparar-se com situações surpreendentes e surrealistas. Neste momento - por exemplo - , todas as atenções dos mais renomados especialistas em comportamento e em perversões humanas e todo o Congresso Nacional estão voltados para a liberação ou não de uma determinada Cartilha Escolar que ensinaria às crianças, entre outras coisas de máxima importância, que deus, aquele barbudo que criou o Universo, os pepinos contaminados da Espanha e todas as coisas, não fez aquele buraquinho de trás só para soltar pumm e nem só para fazer cocô... As crianças, e também alguns maestros, certamente ficarão mais do que felizes com a descoberta... Também está em pauta a possibilidade do Ministério da Educação ter ou não a liberdade de, com seus livros escolares, ser um Ministério que Des-educa e que faz de tudo para respeitar e manter o populacho no clima da Idade Média. Nisto eu até estou de acordo com o Ilmo. Sr Ministro. Abaixo a ditadura das letras, dos verbos, das crases, dos advérbios, das preposições. Chega dessa rigidez e dessa repressão lingual! Nóis fala do jeito que nóis qué! Viva a diversidade! Viva a ignorância instituída! Ainda chegaremos a ser o primeiro país do planeta em termos de defensoria das "diversidades" e, finalmente, através delas, dessa busca cega por uma anti-identidade e dessa frouxidão psicopática nos desintegraremos por completo.

Outro tema dominante neste principio de junho é o relacionado a bandidagem e aos assassinatos no campo. Desde que nasci se discute essa questão e com a mesma inutilidade. Ainda no berço ouvia tiroteios e sentia o cheiro da pólvora por um alqueire, por uma gleba, por dez palmos de terra onde semear algumas mandiocas e algumas ilusões. Até a espingarda que havia sobre a mesa de minha casa estava sempre fumegando. Mas agora, dizem, é diferente, somos todos socialistas e toda a Justiça, todos os padres, todos os latifundiários e a jagunçada estão conosco, mobilizados para refletir sobre o assunto. Agora o assunto se resolve. Agora tudo se esclarecerá... Deus continua sendo bom! Deus, sem dúvidas é brasileiro! É inclusive ele quem dá forças ao dedo indicador desse pessoal para que consiga puxar o gatilho. Realmente, 1800 jurados de morte em pleno século XXI é alarmante, é mais do que uma loucura... Mas, e a humanidade inteira, que já nasce com sua pena de morte decretada???