"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 29 de maio de 2011

Notícias de Lilipute 14

Tentei ir conferir as “finanças” no Banco do Brasil aqui na 34 King Street EC2, mas encontrei um prédio fechado, ainda com o letreiro na parede, com poeira, vestígios de teias de aranha e correspondências enfiadas por uma fenda, o que simboliza bem, dois terços de nuestra pátria e lhe dá um ar genuíno e francksteniano de abandono. Com o reinado do Lula devem ter se mudado para um endereço mais nobre e mais próximo ao Palácio de Buckingham.

Agora que todo mundo anda por aí com seus fones enfiados nos timpanos, com seus óculos escuros e com burkas, começo a entender melhor aquelas três estatuetas asíáticas que sempre foram um enigma para mim: NÃO escuto, NÃO vejo e NÃO falo. Condição ideal para todos os governos, para todas as corporações e para todas as agremiações seja no mundo da política ou da fé, no mundo dos negócios ou no mundo das máfias. Orwel foi otimista e até ingênuo com suas previsões no livro 1984, pois o sistema sofisticado de repressão social e de controle do rebanho que já está montado e funcionando é muito mais avançado. O território onde reina a suposta “democracia”, a suposta “tolerância” e a suposta “liberdade” é rigorosamente demarcado. Imagine uma vaca no pasto, com um número nas ancas e um sininho no pescoço... Ali nesse pedaço de chão o populacho pode até ser feliz, basta que não anseie pelo impossível. Do lado de dentro do cercado as multidões podem pintar e bordar, gritar, encher a cara, optar por comprar queijo de cabra ou coalhada grega, atormentar-se mutuamente, fazer plástica, ouvir seus roqueiros preferidos, morder-se as carnes em público, ir cacarejar ideologias baratas no Hyde Park, ficar cantando os Beatles até os noventa anos, fumar seu baseado, ir ver a Troca das Armas e achar o máximo, vestir-se de boneca e ficar desfilando pela Oxford Street como uma débil mental, ler os anarquistas, ir ao Museo de Cêra abraçar-se a seu ídolo preferido, vestir-se de general alemão ou de Madame Pompidou, desfilar em seus brilhantes automóveis, ir novamente à Ópera, quantas vezes desejar, até encher o saco, para ouvir (ad eternum) as 4 Estações de Vivaldi. Pode ir, inclusive, se você já faz parte da Quarta Idade, jogar bingo no Shopping de Elephant & Castle, fotografar, comer à vontade, engordar, trepar, reproduzir-se igual ou até mais que os esquilos do Green Parque etc.,etc.,etc., mas, agora... se der um passo para fora desse território, se mijar fora do pênico ou se começar a berrar demais, se der prejuízo a um comerciante, a um banqueiro ou ao Estado... Ah... aí um braço sem nome e sem identidade lhe esmagará imediatamente os miolos e, mais, respaldado na LEI. Entendeu, my brother? E por falar em esmagar miolos, um dos lugares mais concorridos pela turistada às sextas-feiras é a Torre de Londres, antigo centro de tortura do Reino, uma casa de horrores medieval, possivelmente até inspiradora dos centros tupiniquins e latinoamericanos de tortura. Para ali eram levados os que discordassem das paixões e das decisões dos monarcas e, claro, de seus lacáios. As celas úmidas e o machado com que se cortava o pescoço dos discordantes devem causar um certo arrepio nos visitantes, ou não?

Você pode ir cinquenta vezes sózinho ao Restaurante do Mr. WU, ali na Shaftesbury Av., esquina com a Wardour street, que a chinesa que te recepciona vai te perguntar: lugares para quantas pessoas? Hoje, que já estou de malas prontas, que a cidade está um verdadeiro inferno, que as ruas estão iguais às da José Paulino na semana do dias das mães, que as torcidas de um time espanhol e as de um daqui estão gritando pelas ruas como verdadeiros débeis mentais, respondi-lhe cinicamente num idioma meio parecido ao mandarim que costumo inventar quando estou vagabundeando: moça, você não vê que estou acompanhado pelo Chico Xavier e pelo Allan Kardek? Ela, evidentemente, não entendeu o conteúdo, mas desconfiou da forma e me conduziu, como sempre e meio chateada – outra característica da casa – a um lugar em pleno sol. Porra, comida chinesa em pleno sol! Puxei meu mandarim novamente: moça, se eu quisesse almoçar ao sol teria ido passar férias no Ceará...

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Notícias de Lilipute 13

Com a presença do Obama por aqui a policia esteve excitadíssima. Era sirene prá lá e prá cá o tempo todo, enquanto o Pharaó (como o chamam) no ritual clássico de demagogia, como fez há pouco aí no Brasil, jogava sinuca com a ralé e com os deserdados. Ou a cidade estava cheia de perigos invisíveis para aquele visitante ou era puro histerismo dos “homens da lei” que usavam as sirenes para recalcar ainda mais as massas. Enquanto não forem extintas todas as caregorias de policiamento, seria de bom senso que só ingressasse nessa profissão aqueles que já tivessem sido psicanalizados. Não esqueço que entre meus colegas de adolescência os que pretendiam ser ginecologistas eram mais ou menos tarados e os que sonhavam em se tornar policiais tinham na raíz dessa pretensão um imenso desejo de vingança...
 
Londres, em termos de livrarias, tem muito que aprender com Paris. É visível a preferência em exibir os Best-sellers de setecentas páginas e principalmente Biografias. Apesar da monstruosidade da Waterstone’s – por exemplo - com seus quatro andares aqui na Piccadilly, falta-lhe clima, cheiro e títulos. Os pequenos livros de cinquenta ou cem páginas, as edições de bolso etc, que são as relíquias e que dão vida a esses ambientes aqui são precárias. Nessa mesma livraria, numa mesa titulada: Latin American Novels com um sub-título: Magical literatura from South America, havia: Borges, 2; Carlos Fuentes, 3; Juan Rulfo, 1; Garcia Marquez, 3; Vargas Llosa, 2; Roberto Bolaño (sempre escrevo boludo!), 2. Fomos salvos novamente por 2 de Machado de Assis, Dom Casmurro e A chapter of hats (and other stories). Lá no quarto andar, na mesa People Problems, quem manteve presença foi o velho Paulo Freire, com Pedagogy of the oppressed, que pelo menos aí no Brasil, pela situação educativa atual, além de retórica, não deve ter servido para nada. Ou estou desatualizado, senhores educadores?

Ao senhor de dois metros de altura que a retirou bruscamente do caminho onde mendigava a cigana lançou esta maldição no mais arcáico dos dialetos búlgaros: uma tormenta de pedras haverá de despedaçar-lhe absolutamente todos os ossos!!!

terça-feira, 24 de maio de 2011

Notícias de Lilipute 12

Quem quiser encontrar italianos nem precisa ir à Itália, é só vir para cá. Parece que entraram em férias todos de uma só vez. E a frase que mais se ouve desses camponeses natos é: ma non se capice un catzo!!! Assim como me admira muito que os portugueses tenham conseguido navegar por tantos mares sem naufragar definitivamente, me intriga na mesma intensidade o fato dos italianos terem conseguido construir um império e o sustentado por tanto tempo. Madona!!! E o mais curioso é que até isto aqui já foi comandado por eles. É, sob a espada de Julio Cesare, (o Berlusconi ainda não existia) no ano 55 antes da lenda de cristo. Visitando a praça onde viveu Bernard Shaw, Virginia Wolf e companhia, ouvi um guía de identidade desconhecida dando uma verdadeira aula de história para seus seguidores do Leste europeu: Londres Romana – dizia -, Londres Medieval, Londres Elisabetana, Londres Georgiana, Londres Vitoriana etc. No porão de uma taberna que existe aqui por perto, Thomas Dylan e Georges Orwel apareciam sistematicamente para tomar uns tragos. Orwel, todo mundo sabe, foi aquele que escreveu, entre outras coisas, Na penúria em Paris e Londres. E por falar em penúria, voltei ao Harrod’s para comprar um presentinho para meu cachorro e todo mundo ainda estava lá se acotovelando. Passa-se um mês por aqui e normalmente não se faz contato com nenhum nativo, isto é, com nenhum inglês puro sangue. O pessoal de um restaurante é árabe, do outro são indianos, o mais sofisticado um pouco é de franceses, a pizzaria é napolitana, o Chinatown nem precisa falar. O taxista veio da bulgária, os motoristas dos ônibus são negros, a mulher da lavanderia é alemã, a camareira é de Budapeste, o cara da joalheria é judeu, os leões-de-chácara dos nightclubs são 100% negros, os irmãos da Lan House da esquina são do Marrocos, a senhora mendiga que fica em Marble Arch é cigana da romênia, os funcionários do metrô são africanos, albaneses etc.; a mulher a quem pago o albergue é de Portugal; o sorveteiro lá de Oxford Circus é brasileiro, as caixas dos mercados são da india, Ásia em geral ou do Oriente Médio; as moças da profissão milenar ou do lupanar de Babel estão mais globalizadas do que nunca; as loiras lá das boutiques de Piccadilly são russas, as massagistas são tailandezas, os funcionários da rede Pret a manger são da Itália, da Espanha, da República Tcheca, a dançarina de foxtrote no Café Paris é argentina, o barbeiro é grego, dos travestis lá do Soho muitos são brasileiros; os garis são latino americanos, etc, etc, etc, e até a Madame Tussaud (aquela velha do museu de cêra) era francesa. Onde estão afinal os puro sangue? Sair daqui dizendo que os ingleses são isto ou são aquilo é de uma ingenuidade sem precedentes!!! O mundo não acabou no dia 21 como diziam uns idiotas pelo planeta a fora, mas o vulcão começou a vomitar novamente e isto pode, quem sabe, atrapalhar minha volta...

De longe o grito parecia mencionar Chirac! Porra, mas o Chirac já morreu há tanto tempo!!! Pensava. Mais uns cinquenta metros e me vi, em plena terça-feira, no meio de uma manifestação fervorosa. O grito de guerra não era Chirac, evidentemente, mas Jihad. Os malucos e as malucas do Islã estavam ali, em plena Whitehall, frente ao monumento aos homens da II Guerra Mundial, cercados por policiais de todos os naipes gritando contra o Obama e afirmando, entre outras coisas, que o Islamismo dominará o mundo. Enquanto ia fazendo as fotos (abaixo) resmungava, mas só para mim mesmo: sorte que quando isto acontecer eu já estarei pra lá, mas bem pra lá de Marrakech...









domingo, 22 de maio de 2011

Notícias de Lilipute 11

Ao entardecer de sábado, a linha do metrô Piccadilly Circus fica parecida às do metrô da cidade do México no dia dos mortos. Como é que se chegou a essa inflação de gente no mundo? Parece que os anticoncepcionais e a pederastia quase generalizada não estão servindo para nada. O motivo de tanta gente neste dia e horário – me dizem -  é que esta linha passa pela Estação Knightsbridge onde fica o conhecido e adorado prédio do Harrods. Ahhh, bom!

Por ingenuidade eu lhes havia dito que aqui em Londres o melhor que existia era o Museu de História Natural. Bobagem intelectualóide. O que há de mais grandioso e de inigualável aqui, qualquer criança sabe, é o HARROD’S. Charles Darwin ao lado de Henri Charles Harrod’s e de seus sucessores não passa de um camponês pretensioso... Quem já foi à Meca, ao Vaticano ou a Pona (quando o Rajnesh ainda estava vivo) sabe que é incomparável o entusiasmo, a paixão e a loucura dos fiéis de lá com os daqui. Se lá o ópio espiritual bate de cheio na alma fragmentada dos fanáticos, aqui o luxo sólido e o bom gosto concreto  impacta diretamente sobre o sistema nervoso central e os ossos dos fiéis. Enfim, esse prédio vitoriano de departamentos que ocupa uma quadra inteira a uns 200 metros da  Estação Knightsbridge está lotado o dia inteiro de discípulos fervorosos. Ninguém sabe exatamente como foi que o velho proprietário, um simplório vendedor de verduras e outras quinquilharias como tantos que começaram com uma bodeguinha aqui no Brompson, conseguiu essa façanha. Uma revista superficial na entrada, mas sem paranóia. Depois que o IRA colocou uma bomba ali na calçada sempre é bom previnir... No Departamento de Comidas, que foi o primeiro que entrei, os romãs, os blackberries e as nectarinas parecem pinturas e os vendedores com seus chapéus e sua presteza parecem realmente de outro mundo. Nem sei como a história de Alice não transcorreu aqui dentro... As coleções e as latarias dos biscuits da Casa além de derreterem ao primeiro contato com a saliva também parecem estar ali mais para decorar de que para outra coisa. Cafés e restaurantes para impressionar. Na rotisserie, ao lado de obras de arte, tem até dois porcos pendurados, as carnes brancas e impecáveis. Impecáveis? Será que essa palavra quer dizer sem pecado? Que seja. Nesse mesmo setor uma caixa exótica com ovos, um de pato, dois de galinhas, dois de faisão e três de codornas. Que maravilha! Quem é que já havia pensado em fazer uma combinação dessas ou algo assim no mundo. Fico imaginando Marx e Engels (que aliás não moravam longe daqui) caminhando no meio de todo esse exagero estético e de toda essa deslavada plusvalia meio boquiabertos e tendo que rever suas teses sobre  as artimanhas e as sacações do capitalismo. Se ao invés de um mundo comandado pelo proletariado tivessem pensado em aperfeiçoar as debilidades burguesas, talvez as coisas tivessem dado mais certo. Aliás, o que acreditamos ser luxo e capitalismo aí no Brasil e na América Latina inteira, ainda é apenas um arremedo promovido por meia dúzia de grupos de ladrões e de vivaldinos, algo primitivo e descabido, uma imitação bufa, sem conteúdo e sem história. Foie Gras em vidros de 400 gramas 158,95 libras. Mas existe um outro tipo em latinhas côr-de-rosa com 305 gramas que custa 105 libras. O setor de chás é a nona ou a décima maravilha do mundo, pena que a cafeína costuma colocar meu coração à beira de um infarto. A Opulence Collection com seus devidos acessórios e que leva o nome do malandrão Harrod’s é de tirar o chapéu. Chá em pacotinhos, chá em latas de cinco quilos, chá na quantidade e no aroma que o cliente desejar... Chaleiras parte medievais e parte futuristas, xícaras quase transparentes, mil instrumentozinhos para os obsessivos, os epicuristas e para os hedonistas seguirem se iludindo de que realmente o paraíso pode ser aqui mesmo. E tudo, repito, misturado a detalhes em mármore, estátuas egipcias no alto das prateleiras, luzes, o uniforme dos vendedores e, claro, a turba. Foi toda essa opulência e todo esse bom gosto de seu proprietário que fez até a defunta Diana abrir-lhe timida, mas graciosamente, as pernas... Aliás, desde a morte deles está montado uma espécie de altar ou de “santuário” ali na Arcade Egipcian, com fotos dos dois, signos íntimos, velas queimando etc., mais uma caracteristica de templo ou de catacumba deste monstruoso monumento, idéia astuta da ditadura dos mercados e dos bancos... E a multidão se acotovelando de um lado para o outro, cada um, de seu jeito, tomando consciência de sua pobreza e de sua indigência... Fazem fotos aqui e fotos ali. É preciso provar lá na tribo que se esteve na Harrods. Na frente a esposa, a mãe, a filha, a cunhada e às vezes até a babá, que vão como antas devorando e comprando tudo e atrás ele, meio barrigudinho, do gênero simpaticão, com quatro cartões de crédito já a mão, beliscando um caviar aqui e uma azeitona acolá. Normalmente é Chefe de gabinete, DAS6, governador, deputado, juiz, ou presidente de alguma Ong em algum país subdesenvolvido desse miserável planeta. Para a plebe e para os simplórios que vivem se perguntando: com tanto dinheiro já acumulado, por que é que os políticos e os empresários continuam roubando, roubando e roubando? O que querem fazer, afinal, com tanto dinheiro?, eu lhes respondo: vir ao  Harrolds. O luxo é um vício parecido ao da heroína, ele dá não só a sensação, mas também a certeza de estar acima do bem e do mal ao viciado... A moda é, entre todas as religiões, a mais bem sucedida da terra. Um crucifixo, o Corão ou o Talmud perto de um vestido ou de um perfume das grandes marcas não significa absolutamente nada. Caminha-se, caminha-se e passa-se daí para outro Departamento, o de bolsas, denominado – vejam a malandragem dos negociantes - Room of  Luxury. Aí sim é que se ouve em coro os murmúrios e a excitação das mulheres. Só que aqui, devo lembrar, o murmurio é bem diferente do murmúrio que se ouve lá naquela outra loja que lhes falei anteriormente onde se vendem quase só trapos. Aqui há evidências reais de sensualidade, porque, qualquer um lembra, dinheiro e sexo sempre estiveram vinculados pelos séculos a fora. E depois, quem é que não sabe o significado freudiano de uma bolsa? De uma bolseta?  Apesar de fazer de tudo para reprimir um antigo impulso de meu caráter, de vez em quando, no meio de todo esse frenessi, me surpreendo olhando para uma ou outra das mais provocantes e exóticas clientes e me perguntando mentalmente: Quanto esta estará cobrando???


Mais estátuas decorando esse pedaço de parnaso. Sereias, pavões, aves do paraíso, rococós do Oriente Médio, cada sala com um perfume característico e tudo turbinado por uma música de Vivaldi vinda por detrás das imensas colunas. Dizem que Freud e Oscar Wilde passavam por aqui sempre que lhes sobravam algumas libras para torrar.. Departamentos de cristais, as vacas sagradas da moda, e das jóias, e das canetas, e dos perfumes.  Até leões, cobras e barras de ouro dizem que se pode comprar aqui. Tudo, absolutamento tudo. A idéia do fundador era exatamente esta, ter a disposição dos clientes desde agulhas e de botões até elefantes e latifundios na Amazônia (o cinismo é meu). Depois de horas de inebriamento, quem quiser pode descer ou subir para uma das tantas toaletes. Desci para uma que fica praticamente dentro de um setor de perfumaria. Outro show de civilização e de harmônia entre côres, cheiros, formas e luzes. Nenhum vestígio e nenhum estímulo sensorial  escatológico. Talvez aqueles mais pudorosos nem se atrevam a urinar e muito menos a defecar sobre aquelas louças, pois sabemos que nada fragmenta mais o ego do burgues do que ter que cagar no meio de tanta beleza e de tanto luxo!!! Enquanto mijava ia lembrando de um discurso de Lênin a seus seguidores onde ele prometia que se a revolução desse certo,  um dia o proletariado teria até pênicos de ouro... O designer das torneiras, só havia parecido (segundo os jornais da época), na antiga Casa da Dinda. Todos os detalhes pensados. Não há nada que você diga: Ah, se fosse assim ou se fosse um pouco mais para cima ou para baixo, nada. Tudo na medida certa, no tempo certo, na graduação certa. E, para concluir, quando você está saindo, achando que já desfrutou de tudo naquele lugar de tantas e miseráveis intimidades, eis que sobre uma bancada de mármore, rapinado possivelmente das arábias, e sobre uma peça de linho branco te espera um vidro verde de loção Giordio Perla. Quer mais? Em cada uma das quatro saídas (uma cada lado do quarteirão) fica um policial bonachão vestido de verde oliva, com boné e sobretudo da mesma cor que, apesar de lhe dar um aspecto idêntico ao daqueles terríveis generais da Gestapo pronuncia gentilmente em sua direção um soberbo Thank you very much, mesmo que você não tenha gastado nem meia libra lá dentro. Que fazer, velhos e acabados camaradas? A história foi assim e estas são apenas algumas das malditas sutilezas e das malditas seduções do heróico e vitorioso capitalismo...

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Notícias de Lilipute 10


Saí com a mais absoluta intenção de ir ao 23 de Tedworth Square, onde morou o escritor gringo Mark Twain, mas acabei, sem querer, chegando ao Templo tibetano de meditação Kagyu Samye Dzong num “bairro” que é uma pequena África. Os negros daqui falam alto e dão gargalhadas homéricas como se tivessem 51% das ações do Reino. E para qualquer lado que você olhe todo mundo está brincando com seu celular. Houve e ainda está havendo uma infestação planetária desses aparelhos e de outros semelhantes que tornou bem mais difícil saber quem está em surto maníaco ou tendo alucinações. No passado, quando alguém estava falando sózinho num parque, na privada, no restaurante ou num onibus já se sabia o que estava acontecendo, agora não. Qualquer idiota se dá o luxo e o direito de ficar gritando e tagarelando ao nosso lado e em qualquer lugar sem o mínimo constrangimento, haja ou não interlocutor do outro lado da “linha”. Já vi, inclusive, vários mendigos aqui se comunicando com essas geringonças, sei lá com quem. Um deles, este devia estar me gozando, falava em seu sapato, a parte do salto ficava na boca e a ponta na orelha. É, as multinacionais pagaram profissionais para definir côres, tamanhos, formatos, etc, para melhor iludir a turba, principalmente a turba infanto juvenil e a turba de todas as idades do “Terceiro Mundo”. A alienação está num nível tão grande e os tipos de aparelhos são tão variados que você pode ficar uma hora encostado num poste falando numa tampinha de garrafa ou na cabeça de um prego que ninguém colocará em dúvida sua saúde mental.
Repercutiu também aqui em Londres o milagre financeiro do ex ministro que agora é ministro novamente. Alguns brasileiros deserdados acreditam que a guilhotina faria bem, muito bem ao país. Para mim, a corrupção, que se assemelha a um mal congênito, é um mal menor. O que me impacta mesmo e realmente, é saber que existe um mercado imobiliário que tem o descaro de cobrar quase 7 milhões por uma moradia, num país em que 70% da população vive em barracos e é indigente, financeira ou mentalmente. Ora, só podem estar roubando o Ministro, esse nobre médico e revolucionário confesso. Mas relaxem que o mal poderia ter sido bem pior...  Já pensaram se com esse dinheiro todo ele tivesse resolvido  montar um hospital, uma clínica ou coisa parecida??? E ele e seus lacáios estão certos quando, para justificar o injustificável, afirmam que um ex-ministro tem um valor alto no mercado. É verdade. O mesmo acontece no mundo da prostituição quando uma ex “Madame” resolve, da noite para o dia, ingressar nas fileiras das antigas e manjadas vagabundas.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Notícias de Lilipute 9

Além de um corvo que pousou na janela de meu quarto para roubar-me o único pedaço de queijo da semana, até agora não avistei nenhum mosquito, nenhuma barata, nenhuma mosca, nenhuma borboleta, nenhum morcego, nenhuma pulga, nenhuma formiga, nenhum percevejo, nenhum rato, nada. A Peste Negra de 1348 que reduziu a população pela metade parece ter-lhes dado uma boa lição nesse particular mas, por outro lado, todo mundo correndo desvairadamente. Money, money, money! Os americanos herdaram daqui a idéia obsessiva, demente e suicida de “fazer dinheiro!”. É até dificil andar calmamente e em pleno vagabundeio sem ser atropelado. Sorry... sorry.... sorry... Sorry um caralho! No minimo acham que você está com algum problema de coluna, com uma hérnia exposta ou com o nervo ciático à flor da pele. Tive uma vizinha que dizia nervo asiático. Será que já era um preconceito inconsciente? Entram correndo nos onibus, nos taxis e nos trens e saem igualmente correndo. Pressa, muita pressa, todo mundo olhando afobado para os relógios das torres, falando ao celular, lambendo alguma coisa, rindo sozinhos com seus fones de ouvido e se debatendo com a multidão igualmente acelerada... A inglesa que está sentada à minha frente no trem entrou com duas bolsas e fones de ouvido. Abriu imediatamente uma apostila, leu dez linhas e puxou um celular branco do bolso direito. Quando interrompeu a ligação passou a procurar alguma coisa numa das bolsas. Voltou a falar agora através de um celular preto. Desligou e voltou à apostila, olhou no relógio várias vezes. De repente descobre que nem sabe em que estação estamos. Arruma o cabelo, parece que vai descer na próxima mas não desce etc, etc... Ansiedad!!! Quando é que vão tomar consciência de que todos os cofres estão vazios??? Às vezes chego até a olhar pelos lados para saber se tem algum aviso de tsunami, se os irlandeses ou os discípulos do Bin Laden colocaram uma bomba por aí, se está despencando um prédio, se as águas do Tâmisa estão invadindo as cavernas do metrô, se outro incêndio igual ao de 1666 está se espalhando pela urbe ou coisa parecida... Mas, curiosamente, está tudo na mais santa e monárquica ordem. Devagar mesmo só uma velhinha que leva todo seu acervo de porcarias e todo seu patrimônio num carrinho de mercado, os barbudos homeless e alguns imigrantes que estão com a sorte definitivamente lançada, isto é, atravessada por uma lança. Por falar em homeless, depois daquele de Tenerife que na semana passada decapitou uma senhora e saiu correndo do mercado com sua cabeça na mão eu mesmo fiquei mais ligado nos daqui. Descobri casualmente (pelo cheiro) que alguns dormem durante o dia atrás dos bancos de uma igreja que fica ao lado da National Gallery e também lá na Saint James church. Mas voltando a correria cotidiana, se é verdade o que dizem os especialistas, que a obsessão de Don Juan em suas conquistas não era para “pegar mais uma”, mas para, finalmente, “pegar a última”, talvez se possa dizer o mesmo desses apressados. Será que querem chegar mesmo a algum lugar específico, como parece,  ou, sim (bolicamente) essa disparada toda é apenas para escapar de si mesmos e portanto um signo de quanto estão querendo é chegar de uma vez por todas “ao fim?”. Como diria João do Rio – o mais genial escritor brasileiro - : “ disparam na mesma ânsia de fechar o mundo, de não perder o tempo, de ganhar, lucrar... (...) os nervos a latejar, as temporas a bater na ânsia inconsciente de acabar...”


Nem preciso lembrar que o Museu de História Natural é o que existe de mais interessante na cidade. Só a imagem do velho Darwin nas escadarias  recepcionando a turba – inclusive os creacionistas que, aliás, são a maioria - já é o máximo, um flash na formação intelectual ateísta dos alunos que lotam as galerias. Sugeri várias vezes aos doutores-professores que conheço para que substituam as velhas monografias e as inúteis teses de conclusão de curso pela obrigatoriedade do formando dar a volta ao mundo antes de receber o título. Que nada! Quem pagaria? Perguntam fingindo-se de bestas. Ora, quem??? As mesmas instituições que atualmente  apoiam apenas os compadres ou apenas os mesmos e picaretas narcisistas de sempre... Mas voltando ao Museu, dediquei este dia apenas à parte dos minerais, isto é, às pedras. Quem é que não se lembra do livro: A vida secreta das pedras, que os esotéricos (mais materialistas) dos anos 80 tinhan sempre na mochila? Fotografei as mais luminosas e fui anotando alguns dos nomes que me pareciam mais sugestivos, os geólogos devem saber a que tipo de material eles remetem: Chalibyte; Dolomite; Parkinsonite; Gagarinite;  Goethite; Hematite; Sussexite; Papagoite; Miserite; Varulite; Gypsum; Brazilianite; Zapatalite; Apatite; Genthite; Pennine; Saponite; Spinel; Halite; Nagyagite etc. No andar de baixo, no setor dos pássaros, estamos (patrioticamente falando) representados pelo pica-pau, pelo beija-flor e pelo tucano... (por coincidência, três bichos com características particulares relacionadas ao bico). Quando avisaram que o museu iria fechar as portas, saí cheio de contentamento para a grande avenida que fica ao norte e segui a pé, meio sem rumo, ora guiado pela intuição, ora pela lua ainda anêmica, na verdade, apenas uma promessa de lua, que fez-me resmungar novamente um fragmento de João do Rio: “e só, no céu calmo, como uma hóstia de tristeza, a velha lua esticava a triste foice do seu crescente...”

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Notícias de Lilipute 8

Um espetáculo interessante e gratuíto está garantido para todas as tardes de domingo ao Hyde Park, próximo a estação Marble Arc, onde fica o pessoal do Speaker corner discutindo até a exaustão sobre assuntos “transcendentes”. Com algumas exceções os papos e as discussões mais acaloradas são só sobre Deus, Jesus, Jeová, Maomé, Buda, etc, etc. Os árabes – que são a maioria – tendem a misturar politica e negócios com islamismo, mas no geral cada um (judeus, católicos, muçulmanos, budistas, milenaristas, o diabo-a-quatro) está com seu “livro sagrado” aberto, confrontando trechos “sagrados” com os dos outros, interpretando virgulas, inventando bobagens históricas, mostrando contradições, ridicularizando o “adversário”, garantindo que só ele tem a chave do Reino dos céus etc. O que é mais impressionante nessa turma é a capacidade de suportar a critica. Em alguns momentos tem-se a impressão que irão partir irremediavelmente para pauladas ou facadas, que acontecerá irremediavelmente um crime religioso naquele final de dia, mas logo tudo se esvazia e voltam ao início da discussão dando um show de tolerância e de dialética, mas só até que outro tome a palavra e tudo recomece. Se colocam mutuamente o dedo na cara, fazem bocas, abrem os braços em desespero e em deboche, exibem um trecho sublinhado do Talmud, do Corão ou de outros livretos que nem identifico  e todos se amontoam imediatamente para lê-lo. Silêncio por um segundo, logo dez falam ao mesmo tempo. Quem está sobre a escada, sobre um poste ou sobre um caixote ouve atentamente e depois fulmina uma por uma as contestações dos adversários...  Quem está a favor do palestrante num momento, alguns minutos depois, por uma palavra a mais ou a menos, já não está mais. Pronunciam My GOD com uma certeza e com uma prepotência invejavel. Cada elemento de nossa espécie desenvolve em si, como desenvolve um braço, um pulmão etc, um “caráter”, uma “personalidade”, um “carma”, um “ego” ao redor do qual passará moendo e remoendo a vida inteira, tentando justificar-se, defender-se, provar-se, convencer-se de que seu mal tem algum sentido e alguma razão. Observem a expressão de um morto (antes das maquiagens funerárias), o rosto é como se fosso o hard disc onde estão contidas todas suas frustradas batalhas. Algumas discussões descambam para o idioma árabe, outras para um inglês africano, outras nem sei para qual dialeto. Mas isto não atrapalha em nada, não é necessário entender o que dizem, só a coreografia e a mise-en-scene dos personagens já é uma prova de que alguma coisa não deu certo nesta espécie. A multidão se aglutina ora ao redor de um, depois passa para o outro, participa aqui, participa acolá, sempre com argumentos e com expressões corporais veementes. Curiosamente, não vi nenhum nativo (inglês)  branco e luterano metido nessas intermináveis exegeses. Os próprios policiais, mesmo quando os gritos aumentam e as discussões descambam para o caso da Libia, da Siria etc., ficam só olhando de longe, cheios de tecnologias repressivas e com aquele jeitão de patetas, como se soubessem que todo aquele blábláblá acabará em dois beijinhos nas faces, e que Deus, o Deus de todos os oradores está mesmo é lá nas caixas fortes do Thomas Cok...  E depois, - agora me vem esse insigth - pode até ser que toda essa “liberdade” de expressão seja um truque monárquico para dar chances a essa turma de apátridas fazer semanalmente sua santa catarse. Ou não? Quando dá 18:00 horas em ponto os muçulmanos se jogam no chão para a tradicional oração, ficam ali uns segundos, logo se limpam os joelhos e voltam para a defesa do Corão e de Maomé. E lá estão os judeus prontos para contestá-los, os católicos para defender a santificação do prepúcio, uma velhinha demente distribuindo folhetos da virgem, os hare krishnas com seus sininhos infantis, os milenaristas jurando que o mundo irá acabar mesmo, agora dia 21 de maio, um vietnamita que não teve público, e uma senhora elegante e defensora dos animais ela, pelo menos, ao invés de GOD fala soberbamente em DOG. Vejam que descoberta, as letras são as mesmas!!!  Um negro com um chifre no alto da cabeça, um velho anarquista, um grupo de misóginos, um representante dos homeless, dois padres com longos crucifixos sobre a barriga e outros loucos de Deus. Se aqui em Londres é assim hoje, na Era do Macintosh, imaginem como deve ter sido essa discussão lá na época que compilaram o Velho e o Novo Testamento onde reinava a mais absoluta ignorância! Imaginem como deve ter sido lá na época em que Noé enfiou um elefante e um búfalo numa gôndola, na época em que inventaram a balela do Messias, na época que Buda, com aquela barriga, foi abortado das entranhas de um lótus, na época em que Caim (o primeiro macho da humanidade) eliminou um quinto da população com uma única bordoada e na época em que Satã saiu abrindo zonas e sex shops pelo mundo a fora...








sábado, 14 de maio de 2011

Notícias de Lilipute 7


O mundo misterioso, veloz e subterrâneo do metrô parece uma toca de cupins. Junção de labirintos que se sobrepõem e que se entrecruzam numa loucura para claustrofóbico nenhum se queixar.  Somando minhas idas e vindas nos trens da linha amarela, azul, verde, vermelha etc., devo ter dado a volta ao planeta umas quatro vezes nestes dias que estou por aqui. Não necessariamente por que as estações sejam distantes umas das outras, mas por meus vacilos, minhas distrações e por minha preguiça de ficar babacamente decifrando os velhos mapas. As vezes saio da Estação de Belgravia – por exemplo -  para ir a Holborn, inicio a leitura de um parágrafo das Viagens de Gulliver e quando me dou conta já estou em Barnsbury. Caralho! Outras vezes quero apenas ir até ali no Hyde Park Corner, tomo o trem aqui em Paddington, vejo duas ou três páginas de um jornal e quando caio na real cheguei em Barbican. E para voltar? Não é simplesmente saltar de um, passar para o outro lado da linha e tomar outro. Não, a coisa não é bem assim, tem mil escadas, várias plataformas e mil complicações no meio do caminho, isto, sem falar dos milhares e milhares de sujeitos que correm de um lado para outro como ratos e daqueles que, como você, está indo e vindo desamparado com um mapa incompreensível entre os dedos... Às vezes ao tentar voltar para Hyde Park Corner que era o destino inicial, posso, por distração, como já aconteceu, acabar em Highgate. Highgate? Casualmente lembro que é no cemitério dali que Karl Marx está enterrado e então fico por ali mesmo, fotografo a tumba, descubro um café, observo uma velhinha regando uma magnólia, entro numa livraria, compro um livro de John Casey intitulado: After lives: a guide to heaven, hell, & purgatory.  Dou um tempo numa loja de violinos onde compro uma partitura por 4 libras e fico na área até o anoitecer... Nossas avós não diziam que há males que vêm para bem? Mas voltando à Torre de Babel que é o metrô londrino, outro complicador aparece quando você vai pedir uma informação aos funcionários que, apesar de sempre gentis monarquistas, falam Plataform como se estivessem chupando uma pica. Por mais que tenha me esforçado só consigo escutar plafon. Plafon 2, plafon 6. Plafon 4. Plafon um caralho! É plataform!!! Algumas estações são tão profundas que se pifar as usinas geradoras de energia ou se a rainha, pela razão que for, mandar desligar aquela merda toda, demoraríamos anos para escalar novamente aqueles abismos... Em algumas delas desce-se vertiginosamente por um elevador, numa gigantesca caixa de aço com duas portas potentes que se abrem e fecham quando bem entendem. Claro que é preciso ter fé para não sucumbir a alguma fobia e para não desesperar-se. Não fé num deus fictício, evidentemente, mas fé no homem, na máquina, no cérebro de um proletário weberiano que ganha umas duas mil libras por mês... As vezes, quando não tenho nada específico para fazer ou já enchi o saco de tanta cultura, entro na primeira estação que avisto e no primeiro trem que aparece. Se é da North Line, da Metropolitan, direção Victoria, Piccadilly etc, não faz a mínima diferença. Fecho os olhos e até durmo com o balanço e com o barulho das rodas sobre os trilhos. Às vezes, é verdade, me irrita a gravação chata que informa: next station Fulana de tal. Next station Cicrana de tal... Os ingleses e os europeus em geral (com exceção dos italianos) viajam em silêncio, mas os negros, os árabes, os indianos e etc vão batendo papos intermináveis e num tom bem acima de 70 decibéis. As vezes, no meio de um cochilo quando ouço por acaso a gravação falar em mudança de trem, salto como todo mundo e saio do underground para a superfície. Seja a estação que for, que beleza! O sol meio caribenho deste mês de maio e ao mesmo tempo uma brisa fria que nos espera em cada uma das sombras dos edifícios ou dos monumentos... Dezenas de ruas para percorrer a pé, devagar, pronto para fotografar uma cena que jamais se repetirá e alheio a todos os protocolos do mundo. Numa dessas saídas ao acaso, saí em Camden Town e seus mercados. Que maravilha! Tudo o que os jovens hippies dos anos 60 sonharam parece estar montado ali numa espécie de medina monárquica e hipercapitalista. Só não senti mesmo foi o cheiro forte da cannabis daqueles tempos... As ruas cheias como se fosse sempre domingo ou feriado. Para o Primeiro Mundo será que não é? Bem que os políticos latino americanos poderiam incluir em suas campanhas demagógicas uma nova frase mais ou menos assim: Prometo lutar para transformar a América Latina inteira, do Brasil ao Panamá, numa imensa Inglaterra!!! Não seria o anarquismo idealizado de Proudhon, mas já seria o máximo... E por falar em Proudhon não podemos esquecer que, curiosamente, esta monarquia deu abrigo a todo tipo de revolucionário, pseudo-revolucionário e refugiados de guerra do mundo inteiro. Até o Gil e o Caetano ficaram exilados aqui. Fico tentando imaginar, com aqueles músculos e com aquelas idéias, em que é que essa dupla poderia ameaçar os milicos da ditadura... London, London!!!
 Meninas, mulheres e senhoras de todas as cores desfilam perfumadas olhando de soslaio para todos os lados, as mais jovens sempre com aquelas meias pretas enfiadas propositadamente na xota e uma sainha minúscula fingindo cair por sobre tudo...Sempre que ouvires alguém dizer que os ingleses estão em crise econômica e que estão psicologicamente mal, saiba que é blefe. Estão bem, muito bem, saudáveis e sorridentes, não se estressam por nada, só não digo “felizes” para não ser reacionário e nem ridículo.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Notícias de Lilipute 6

Aqueles que gostam de conhecer as cidades a pé, sair de casa pela manhã e só voltar a noite, é bom já nos primeiros dias ir mapeando as toaletes disponíveis nos trajetos de vagabundagem e de errância. Apesar de Londres ser muito bem servida de mijatórios, dependendo de onde você está, da temperatura (e da idade que você tem) o risco de mijar nas calças sempre existe. A toalete da Art Galery, por estar por Piccadilly etc, é uma das minhas preferidas e das de mais fácil acesso por aqui. Entra-se no salão principal, dobra-se à direita em direção ao café, desce-se por uma escada preta de granito, dobra-se agora à esquerda, desce-se uns degraus e pronto. Ufa! Nada melhor que uma boa mijada! Muito boa também é a do British Library, ali onde o velho Marx escreveu praticamente toda sua obra. Algumas estações de metrô têm as suas, o Museu Sherlock Holmes também, modesta mas util. As do Strabuch café têm me quebrado o galho várias vezes. A do Mac Donald de Paddington foi de máxima importância depois de ter ingerido um café americano que aqui é mais ou menos um litro. Quem já viveu em outras grandes cidades percebe logo que os ingleses deram uma atenção especial a essa necessidade ignóbil e sucateada do ser humano. Fico sempre tentando entender como a humanidade adaptou-se tão fácilmente a esse papel e a esse destino de subdesenvolvimento de alambique... Frequentemente há indicações nas ruas tipo: toaletes a 100 metros. Toalete no Hyde Park, no andar de cima etc. A de um restaurante asiático perto do cemitério Thompson só se pode usar se se for também comer ou beber alguma coisa. Beber? Ora minha senhora? Estou a fim de fazer exatamente o contrário!!! A do Restaurante Mr. WU no Chinatown, que fica no andar de cima é bom usá-la antes de sair, mas sempre depois de já ter comido. No Covent Garden, há várias. Em frente a The Royal Courts of Justice existem duas subterrâneas, uma para ladies e outra para gentlemen. A única até agora que tive que pagar (50 pounds) vejam que descaramento, foi a que fica na Catedral Saint Paul, onde uma placa indica que ela e outros locais sagrados dali são administrados por uma tal de Paternoster Lodge. Ora, Pater nostre! E no rabo, não vai nada???

terça-feira, 10 de maio de 2011

Notícias de Lilipute 5


Existe uma loja que vende roupas e bugingangas baratas aqui no principio da Oxford Street que ocupa quase um quarteirão inteiro (uma espécie de anti Harrod’s) que é um laboratório perfeito para quem quiser tentar entender o cérebro feminino e sua relação com a roupa. Se você está querendo se transformar num  expert  no gênero, antes mesmo de passar lá na livraria Silver Moon (especializada em mulheres e em escritoras feministas) deve passar por aqui. Lotada desde que abre até a hora que fecha é um espetáculo por um lado lamentável e por outro antropologicamente fascinante. Milhares de mulheres de todas as nacionalidades, tipos, classes e pedrigrees, de todos os pesos, personalidades, cores, cheiros, tamanhos, linguas, religiões e culturas se esfregando no meio de cabides, de pilhas de calças, blusas, meias, anaguas, etc, etc, etc, numa agonia e numa pressa como se a terra fosse acabar. Umas levam amontoados de peças nos ombros, outras experimentam ali mesmo a que lhe parece a única do reino unido. Outras enchem e esvaziam os sacos que a loja oferece. Passam horas escolhendo e depois mudam de idéia, trocam tudo, ligam para alguém para saber se o número é X ou Y. Sentam no chão em duas ou três para mostrar, umas  as outras as maravilhas compradas. Se atropelam, é verdade, mas sem estresse, se entendem, se toleram como se soubessem que estão numa histeria coletiva. Umas delicadas, outras brutas, esquecem até que são mulheres e ficam em posições estranhas nunca antes permitidas. Um traseiro imenso de uma mulher árabe a disposição, mas sem o minimo de malícia posta no caminho contrastando com a bunda esquelética de uma irlandesa. As tetas felinianas de uma portuguesa e as sutis de uma sem nacionalidade no meio das mesmas pencas de retalhos e de bermudões coloridos na maior ingenuidade. Umas visivelmente desvairadas, outras sob controle, outras com um prognóstico nada bom... Experimentam óculos, chapéus e peças íntimas ao mesmo tempo. Resmungam alto, (principalmente no balcão de troca) falam sózinhas, riem enquanto apalpam os tecidos, cada uma expressa alguma coisa em seu idioma, os olhinhos perdidos num fascínio incompreensível e inacreditável. Olho para a escada rolante e lá vem mais um batalhão de recém chegadas, novatas, ansiosas, o bolsão da loja ainda vazio. Mas minha senhora – tenho vontade de intervir – isso custa apenas 4 libras, a fábrica faz dois ou três milhões delas por dia, na mesma cor, nos mesmos tamanhos e – segundo eles - de puro cotton! A senhora pode ir com calma ou até voltar amanhã, que a pilha estará ainda maior e a senhora poderá comprar cinco peças para cada mulher da família... E depois,  se não vai mudar nada, absolutamente nada na sua vida, se não vai fazê-la mais feliz comprando ou não, por que é que a senhora está tão ansiosa e tão alucinada??? Acredito que num passado remoto, mas muito remoto mesmo, as vestimentas livraram as mulheres de problemas e de incomodos tão abrumadores (relacionados à carne evidentemente) que até hoje elas continuam tomadas por essa espécie de enlouquecimento e de possessão... Não há outra explicação plausível. À velha indagação de  Freud e de seus seguidores: o que quer uma mulher?, eu respondo: roupas...

domingo, 8 de maio de 2011

Notícias de Lilipute 4


Pode-se adjetivar este povo de quase tudo, menos de ingratidão para com seus aliados. Edificaram em bronze até um monumento (Animals in war) aqui numa avenida paralela ao Hyde Park em homenagem aos animais que os auxiliaram nas guerras mundo a fora. Uma mula, um burro, um cavalo e um cachorro,  representam também os ausentes. Que outro povo teve um gesto assim, digamos, de tanta delicadeza?
Apesar dos guías e das expectativas, o famoso Market de Portobelo parece nossa Feira do Guará aí na periferia de Brasília, com as mesmas bobagens e as mesmas porcarias globalizadas. Enquanto rabisco estas linhas alguém solta uma exclamação pueril diante de uma camiseta com a inscrição: Humain being. Outra mais infantil ainda:  I love Notting Hill!!! Prestem atenção, senhores pedagogos, como a infantilização do mundo segue sua marcha a todo vapor. Mesmo assim, está todo mundo aí se acotovelando como se acreditassem encontrar a Pedra Filosofal. Só os HOMENS DE ESTADO e os COMERCIANTES são maduros, pragmáticos, calculistas (a polícia, os fiscais do metrô, os cobradores de impostos, os leões de chácara das boates, os donos dos trustes...
Se por alguma razão não necessitassemos mais comer, o mundo – paradoxalmente – entraria em colapso. Tudo gira ao redor da comida, principalmente o turismo e as noitadas. As festas de sábado a noite no perímetro do Covent Garden, Picaddilly, Soho, Chinatown etc., são realmente inigualáveis. Alguns acreditam que existe uma ala do inferno exatamente assim, de pura luxuria, a qual o diabo garante que liberará para seus camaradas. Claro que nos vozerões dos bebedores e nos gritinhos das moças e dos delicados se pode adivinhar uma certa e exagerada ingenuidade, aquela ingenuidade única de quem sabe que amanhecerá o dia sem que tenha havido meia dúzia de baleados ou uma chacina...
Quando não se fala o idioma do país que se visita, é necessário seguir rigorosamente uma regra básica: ao interagir verbalmente com algúm nativo, registre apenas a primeira, a do meio e a última palavra das frases. O resto é lixo. Com essas 3 palavras você terá a compreensão que realmente lhe interessa. Lembre-se que o mundo está cada vez mais tagarela, todo mundo falando ao mesmo tempo como se tivesse esquecido das duas velhas e não tão limpas orelhas. E, depois, prestem atenção como os diálogos realmente verdadeiros e interativos são praticamente só aqueles em que os interlocutores estão brigando ou se amaldiçoando mutuamente...
Acho que ninguém fez ainda um trabalho acadêmico sobre os bolsos, esses buracos nas vestes e nas roupas onde as pessoas enfiam coisas de todos os tipos. Observem como é algo insólito uma pessoa se apalpando em busca de algo, de um pen drive, de uma moeda, um documento, um mapa, a carteira ou qualquer coisa parecida. O senhor que sai da Estação de Oxford Street – por exemplo -  mete as mãos nos bolsos das calças, depois a direita no bolso do casaco, a esquerda procura o da camisa que está por debaixo de uma blusa. Não encontrando o que busca recorre com os dedos aos pequenos que ficam sobre os grandes e quase sob o cinto. Nada. Mas não desiste porque tem outros na manga da camisa, os detrás das calças, um na cúpula do chapeu, um interno onde leva o dinheiro escondido, outro nas cuecas, outro só para o passaporte etc, etc, etc,  Que porra é essa camarada???
Dos sete cemitérios de Londres visitei três. Abaixo uma série de fotos do  de Brompton, com seus corvos. Você que gosta de cinema (e de quase tudo o que os outros fazem) deve saber que foi nele que rodaram um dos filmes de Sherlock Holmes.













sexta-feira, 6 de maio de 2011

Notícias de Lilipute 3...



E já que se fala tanto em “democracia” não existe melhor imagem para representá-la do que esta: uma mulher com burka e uma com as tetas brancas ao sol compartindo o mesmo narguilê na Kendal Street, quase na esquina onde fica o Islamic Bank of Britain. Londres é assim, uma São Paulo com dois mil anos e que deu certo. Ou melhor: São Paulo é assim, uma Londres que deu errado. O Tamisa navegável e o Tiete abarrotado de mierda... O Museum Britanicum nos coloca cara a cara com a insignificância e com a brevidade. Recém tomamos consciência de algumas bobagens e já nos vamos... Precisariamos uns duzentos anos para chegar a ter uma noção mínima das coisas... A casa de Freud na Maresfield Gardens 20, foi literalmente amarrada por fora com umas cordas de navio. Qual seria o significado? É algo que pretende nos remeter ao Real, ao Imaginário ou ao Simbólico??? Saem resmungando os pastores freudianos. Lá dentro uns personagens esquisitos, inclusive do Brézil, todos meio paranóides, todos analisados e todos analisadores... Hoje meu almoço foi mais sofisticado, disputei um banco na Praça Blomsbury. Uma comida leve (de duas libras) e ao ar livre é a melhor coisa antes de ingressar no mundo indiscritível da National Gallery. Um povo tem que ter bagos para montar uma galeria como esta. Enquanto as crianças daqui vêm receber aulas sentadas diante do Cardinal de Richelieu (pintado por Philippe de Champaigne) as nossas vão a escola quase só para comer e para fugir aos tiroteios domésticos. E olhem que os políticos daí (pelo menos as últimas dez gerações) conhecem muito bem tanto o que acontece aí como o que acontece aqui). Enquanto procurava Caim e Abel, fui passando por Michelangelo; Sebastiano del Pombo; Mirabello; Dosso Dossi; Lorenzo Costa com seu A concert; Damiano Mazza com sua Ganymede de nádegas apetitosas; Jan Steen e seu The effects of intemperance; Cornelis Van Haarllen e seu Two followers of Cadmus devoured by a dragon; Gerrit van Honthorst, com sua Rainha da Bohemia etc, etc. É gozado que muita gente pintou São Sebastião e cada um colocou as flechas onde bem quis. Chega por hoje. Na rua os tais PUBS estão fervilhando. A palavra derivaria de pubis? Esses lugares têm um não sei quê das velhas pulquerias mexicanas onde só entravam machos e onde passavam horas vendo quem bebia mais e quem era mais agil na pistola...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Notícias de Lilipute 2...


Excuse me!!! Prá lá;  Sorry!!! Prá cá. Thank you very much!!! para acolá.... Simplesmente uma compulsão cristã para não incomodar o Outro, ou todo mundo com medo de receber um cruzado no maxilar?

Quem quiser ter uma idéia do futuro próximo da espécie precisa entrar no Mac Donald’s aqui em Westminter, ironicamenter ao lado do Restaurante Zen, lá pelo meio dia. Terrível o festim de lambidas,  grunhidos e de banhas em efervescência. Ou será que estou exagerando? Será que minha misantropia está cada vez maior? Procuro uma palavra para descrever a cena ignóbil do bando, da turba, da multidão, da horda que se desloca de um ponto turístico para outro e todas me parecem insuficientes. Do lado de lá da ponte o Parlamento e a Abadia, do lado de cá o MacDonald’s, a Roda Gigante, o Carrossel, Salsichas, um carrinho de Super Soft Ice e souvenirs a gosto. A frase dominante: Cash or charge? É o circo mais do que convenientemente montado. Dar uma mordida num Candy Floss, consumir e beijar-se felizes em plena Queen’s Walk com os olhos cravados no Tamisa... Cash or charge? O que mais o populacho poderia desejar? Votar, rezar, comer, divertir-se e ir para o cemitério não é tudo nesta vida?  Cash or charge? É pequeno, muito pequeno o número dos donos do planeta, os Estados e as Corporações são seus esconderijos. O restante das massas são tratados com pão e circo, que hoje quer dizer: computadores, celulares, cartões de crédito, cosméticos, passeios, sex-shops e claro: COMIDA. E só um lembrete: O Brasil (e a América Latina inteira) precisarão, isto se acontecer um milagre, uns três mil anos para alcançar a organização e a lógica que há aqui.

E por falar em cemitério “almocei” hoje no Bunhill Fields, onde William Blake está enterrado em baixo de uma figueira. Muitos executivos, estudantes, madames e até homeless trazem suas comidas para devorá-las aqui nos bancos ao lado das tumbas. Não tem complicação: é só passar no Sainsbury’s que fica na frente (33, Holborn) comprar lá um sandwiche, um suco e uma sobremesa e vir para cá. Gastei 2 libras e almocei confortavelmente sentado no túmulo de Daniel Defou (1660-1731), o tal que escreveu Robinson Crusoé.

Enquanto devorava a sobremesa, uma das tipicas pacientes de Freud – que parecem dominar por aqui também -  ajoelhou-se diante da tumba de Blake, (1762-1831) resmungou alguma coisa por uns minutos e nem deu a mínima para Defoé. Parece que alguns ossos valem mais que outros ossos. E digo isso apenas por dizer, pois nem sei direito se existe realmente algum osso aí ou se é pura armação dos ingleses para incrementar os negócios. Cash ou charge???

terça-feira, 3 de maio de 2011

Notícias de Lilipute 1...


Cheguei aqui depois da princesa já ter sido oficialmente descabaçada. Além das manchetes, de uns babacas e de alguns estrangeiros que vieram especialmente para as bodas, não se fala mais sobre o assunto. Se não fossem rituais insolitos como esse, talvez o Reino Unido não tivesse se mantido na cuspide dos impérios até hoje. Claro que os mísseís e as toneladas de diamantes rapinados da Africa ajudam, e muito. Mas mesmo assim, é apenas Londres. Grandiosa, imponente, claro e mãe de todos os impérios. Os indianos e os argentinos que o digam. Paris, imbatível no campo das letras, dos livros, das teses e de outras masturbações intelectivas, se comparada à Londres, pareceria uma aldeia de poetas e de bebedores de absinto... Os indianos, os chineses, africanos negros, espanhóis, italianos e os povos do Magreb etc., marcam presença em tudo por aqui, claro que no mundo underground. Por incrivel que pareça, me dou bem com essa gente apátrida que não tem nem uma pedra onde descansar os miolos e nem papel para limpar-se. Para esquentar as canelas vim caminhando de Padingtton até aqui no Chinatown. Agora, um café em frente ao Apollo Theatre. De vez em quando uma sirene causando sobressalto a todos os bandidos das redondezas. Saber que há câmeras por todos os lados não deve ser muito agradável, nem mesmo para o mais servil e estúpido dos patriotas. Os taxis lembram os “diablos rojos” do Panamá. Quem trocar as batatas fritas por uma salada grega pode até comer de vez em quando nas biroscas Fish&chips sem ter um infarto e sem sair daqui pesando meia tonelada. A turistada passa clicando o celular e a galope. O que será que procuram realmente? Eu, na verdade, estou em busca apenas de uma toalete. Lá vem o bus 23. É nesse que vou sem ter a minima idéia para onde. As manchetes dos jornais são unânimes: meteram uma bala na cabeça do Bin Laden. Agora parece que todo mundo dormirá em paz por aqui... Parece.