"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quarta-feira, 30 de junho de 2010

C´est que vous ne connaissez pás les inconvénients de la santé et les avantages de la maladie...

No momento em que traduzia esta frase de Cioran (C´est que vous ne connaissez pás les inconvénients de la santé et les avantages de la maladie) recebi um e-mail sugerindo que os textos de meu blog fossem mais suaves, pois os problemas já são tantos e a vida já é tão pesada etc. etc. Para ser simpático com o autor da referida sugestão, aí vão uns quatro minutos de deleite:

http://www.youtube.com/watch?v=ILhsTqNJrMI&feature=related

terça-feira, 29 de junho de 2010

Lolita, luz de mi vida, fuego de mis entrañas...

Esta semana não foi lá grande coisa nem por aqui e nem pelo mundo a fora. Os holofotes transitaram praticamente apenas dos campos de futebol africanos para os vilarejos nordestinos devastados pelas chuvaradas. Há mais de duzentos anos que os barões prometem arrancar os milhões e milhões de cativos fodidos que ainda agonizam na Idade Média, mas nada. Desviam para si e para outras sete ou oito famílias de ratos até o dinheiro destinado às calamidades. Quando vêem que se arma uma tempestade lá por sobre o mar ou lá por sobre a terra petrificada, ficam excitados em suas Casas Grandes e vão logo se preparando para decretar “estado de calamidade pública”. E apesar dos otimistas, dos vaselinas e dos cínicos não há solução nem a curto e nem a longo prazo. Se um dia chegarmos a avançar, a dar mais meio passo no “processo civilizatório” será compulsoriamente, empurrados por oceanos de desgraças, de desatinos e de sofrimentos. Aqui no DF enjaularam o travesti que atacou com dentes e seringa as enfermeiras do SUS. Nove horas numa fila é mais do que suficiente para despertar a hiena que cada um leva hibernando dentro de si. Os trabalhadores da saúde mobilizaram-se imediatamente pedindo mais “segurança”, mas nenhuma “alma” deu um pio sequer a respeito das ignominiosas nove horas de espera... Pelo jeito as filas continuarão aqui e lá em todos os ambulatórios do inferno... Há décadas não se altera uma vírgula (para melhor) no universo da atenção aos doentes. E os índios continuam acampados diante do Congresso Nacional. Ouvi os motivos da boca de uma senhora cacique. Todos absolutamente irrefutáveis. E os partidos lançaram seus “homens” para as próximas eleições. A “ficha limpa” virou esperança e álibi. O populacho ingênuo não sabe que só os bobalhões e os principiantes deixam rastros, que só as moscas débeis é que ficam entaladas nas teias de aranha. Sinceramente, não há mais o que dizer sobre o assunto. Antes de fechar a janela releio em voz alta a frase máxima de Nabokov: [ Lolita, luz de mi vida, fuego de mis entrañas...]

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O VUVUZELA E SEU SIGNIFICADO ERÓTICO...

Até ontem parecia incompreensível a paixão súbita que a vuvuzela despertou no planeta inteiro e o sucesso que teve praticamente entre todos os gêneros e classes. Agora, associando a foto (ao lado) que decodifica suas origens com a linguagem do vídeo lusitano (abaixo) tudo parece ficar muito bem esclarecido.

http://www.youtube.com/watch?v=8Nolq0u_XAI

terça-feira, 22 de junho de 2010

NOSSA SOLIDARIEDADE PARA COM TODOS OS TIPOS DE MACACOS, PRINCIPALMENTE OS HOMELESS...

Acusaram unilateralmente o Dunga de ser um primata. Uma ofensa gratuíta ao mundo dos símios. Convenhamos, em se tratando dessa histeria e dessa mesmice desportiva parece que todos os segmentos envolvidos (técnicos, jogadores, jornalistas e torcedores) fazem mais do que jus a uma acusação semelhante... 

sábado, 19 de junho de 2010

Boa viagem camarada Saramago...

Os grandes, os nanicos e os médios jornais costumam estar com matérias praticamente prontas sobre homens eminentes que já estão com um pé na cova, sejam eles do mundo da política, dos negócios das letras ou até mesmo do mundo do crime. Vem a notícia da morte e pronto: aparecem oportuna e rapidamente três ou quatro páginas elogiosas em cada periódico ilustrando a intimidade, a grandeza, os vícios e os méritos do defunto. As editoras trabalham até de madrugada para reimprimir seus textos e os livreiros amontoam rapidamente suas obras nas vitrines chegando até ao cinismo de dar-lhes um ar de mausoléu. Os parlamentares, principalmente os senadores, sobem à tribuna para fazer menção a esta ou àquela novela, a este ou aquele ensaio. Os amigos, os intelectuais, os críticos de plantão, a canalha esclarecida e mesmo aqueles que nunca leram mais do que uma ou duas páginas de seus livros aparecem nas janelas para resmungar que “foi uma grande perda!”, que “a língua portuguesa ficou órfã!”, que “a literatura perde um homem de coragem!”, etc. Ontem foi a vez do português José de Sousa, conhecido por Saramago, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Nem o mais otimista dos apostadores poderia imaginar que aquele homem que havia escrito os romances Manual de pintura e caligrafia e A segunda vida de Francisco de Assis pudesse algum dia vir a receber a bolada do Nobel. Mas recebeu. Passou a ser conhecido como escritor só depois de 1969, quando ingressou no Partido Comunista Português, e neste particular lembra a Jorge Amado que se não fosse o Partido, como escritor teria morrido no anonimato. Homem sortudo, Saramago que já era propagandeado pelos militantes do partido, passou a sê-lo também pelos da colérica igreja católica portuguesa com a edição de seu O evangelho segundo Jesus Cristo, que, apesar de parecer uma crítica feroz é mais uma reafirmação do mito cristão etc., etc., etc. Enfim, morreu ontem numa belíssima ilha das Canárias com 87 anos e ao lado de sua companheira uns trinta anos mais jovem. O que mais pode querer um pobre terráqueo? Que os aduladores façam os elogios que quiserem, que exagerem a vontade, mas Saramago, que a essas horas deve estar quase passando pelo crematório não era lá essas coisas. Não tinha a grandeza e nem a profundidade de um Borges, não chegava nem perto de Vargas Vila, nem parecia conterrâneo de Eça de Queiroz e não chegou sequer a igualar-se a Fernando Pessoa, como dizem alguns bobocas. Sempre que lia suas obras, ouvia ou o via falando tinha o sentimento legítimo e até respeitoso de estar diante de um cardeal laico. Curiosamente, apareceu no cenário desvairado, fraudulento e narcísico da literatura mais ou menos na mesma época que Paulo Coelho.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

J'étais Prophète quand Adam était encore entre l'eau et l'argile (Mohammed)

Diante das novas prisões de “concurseiros” é quase cômico ouvir os especialistas afirmando, e com voz grave, que a putaria é apenas pontual e que “o concurso público é um instrumento republicano inquestionável”. Será? Como o vestibular, não seria apenas a liturgia para a legalização de uma cadeia de negócios monarquistas e de perversidades? 

Diante dos acontecimentos dos últimos quatrocentos anos, da maneira como estão estruturados nossos serviços públicos e daquilo que realmente se exigirá do “felizardo” no exercício de sua função, não temos dúvidas de que seria muito mais ético, muito mais honroso e barato promover a seleção através da Loteria Federal.

domingo, 13 de junho de 2010

LAVABO INTER INOCENTES MANUS MEAS...

Brasília não é tão frívola e nem tão cabotina como se pensa. Neste final de semana – por exemplo – quem não quis ficar com os olhos voltados apenas para os acontecimentos lá do Fucker City ou na banca da esquina garimpando figurinhas para o Álbum da Copa (até um Ministro costuma freqüentar aquele hobby de possessos) teve a chance de ir ver a excelente exposição fotográfica da rumena Irina Ionesco.

Na política, além dos malditos dossiês, nenhuma novidade. O que esses voyeristas e espias desprezíveis esperam descobrir uns dos outros além daquilo que cento e noventa milhões de panacas já sabem? Como se esperava, os chacais voltaram. Estão todos de volta. Uns mais vorazes, outros com o pêlo mais esbranquiçado, outros com as unhas mais ameaçadoras. E aparecem na TV cada um com um discurso mais revolucionário e mais falacioso que o outro. Para que tenham uma idéia da inutilidade de suas palavras, há pelo menos uns quarenta anos que prometem construir banheiros públicos na cidade e até agora o populacho continua tendo que mijar nas árvores, nas paredes ou nas calças. Não lhes parece impressionante que apesar de termos tantos homens “sóbrios”, “cristãos”, “modestos”, “dedicados às causas sociais” e “honestos” continuemos numa pindaíba dessas e neste atraso cultural quase doentio? E por falar em toaletes, presenciei neste domingo a dois cozinheiros saindo da privada com suas máscaras e seus aventais brancos e indo diretamente para a cozinha e para as panelas sem se lavarem as mãos. E não pensem que era um restaurantezinho de beira de estrada. Não. Muitos empresários, madames com colares de mil Euros e chefetes de todas as laias se lambuzavam de picanhas entre aquele burburinho e aquele ranger de mandíbulas. Mesmo sendo incontáveis os que aqui na Capital da Republica têm a Pilatos como alter ego, em termos de higiene parece que ninguém gosta de lavar-se as mãos. Ou os infectologistas mentem e exageram a respeito dos vírus e das bactérias ou nós que comemos diariamente fora de casa estamos vivos por milagre.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

ORDEM, PROGRESSO, SEXO & PHODER... II

Com a recente comemoração dos 50 anos de Brasília não foram poucos os confetes e as serpentinas lançados sobre a efígie de JK. Entre os mais acalorados e subservientes elogios estava sempre a anedota do “sedutor”, do “mulherengo”, “comedor” etc. Sabemos que quando esses adjetivos são atribuídos a um fodido qualquer, logo se lhe imputa também a pecha de tarado, perverso sexual, assediador barato e até mesmo de estuprador, mas, que quando se trata de uma autoridade, alguém que controla as chaves de algum cofre, todo mundo acha o “maior barato”, inclusive “as vítimas”. Mas isto não é novidade. Até lá na solidão das tribos foi sempre assim, ao “chefe” cabia o direito até de providenciar o defloramento das meninas e das noivas. Voltando a falar dos “estadistas”, Idi Amin Dada – por exemplo – não apenas “comia” a mulher de seu país que quisesse, mais inclusive devorava literalmente as mais apetitosas. Mobuto, o presidente do Zaire virou até folclore pelo significado de seu nome: Mobuto Sese Seko Kuku Ngbendu Waza Banda, que quer dizer: “O galo que vai de galinha em galinha sem cansar-se”. E até o Papa sabe que na época em que il Signore Berlusconi ainda nem havia perdido o cabaço, o ditador Mussolini (Il Duce) já “comia” uma mulher diferente por dia lá no Palazzo Venezia di Roma. Durante os 14 anos em que esteve no poder, o garanhão fascista teria enrabado umas cinco mil, mulheres que escolhia a dedo nas ruas enquanto passeava em seu Alfa Romeu vermelho. Era conhecido como “O falo em chefe”. John F. Kennedy, o presidente norte americano que quase foi canonizado nos quartéis e nos parlamentos desvairados da América latina, e que quando criança era masturbado por Marlene Dietrich e quando presidente papava secretamente a Marylin Monroe, também gostava de exibir-se como um papa-néctar, apesar da loira tê-lo acusado de ejacular precocemente. Depois de sua morte, sua mulher correu para os braços de outro poderoso, colecionador de amantes e dono de ilhas gregas etc, etc, etc. Y asi se van los dias en este mundo peniscêntrico, sem falar daquele infeliz presidente francês (Françoise Faire) que em 1899 morreu engatado a uma mulher de bordel. Dizem que foi necessária uma cirurgia para retirar o órgão petrificado do presidente preso no interior da xota contraída da mademoiselle.
Enfim, apesar de todas as opiniões em contrário, a vida masculina (da ralé à elite) se reduz ao seguinte: como fazer para melhor descarregar os sessenta e quatro litros de sêmen que produzirá durante sua vida. Curiosamente, a quantidade exata para encher o tanque de um Passat...


quarta-feira, 9 de junho de 2010

ORDEM, PROGRESSO, SEXO & PHODER...

Nós últimos dias a testosterona (ou o viagra) parece ter transbordado nas artérias nacionais. Primeiro, o Ministro da Saúde prescreveu sexo como truque preventivo na hipertensão. Depois, o treinador da Seleção liberou os jogadores para licenciosidades nos intervalos e no início da semana um deputado propôs no Congresso Nacional que se institua o Dia do Sexo. Só faltou algum padre no confessionário prescrever umas sessões de onanismo como penitencia. Isto, sem falar da Parada Gay do domingo que aglutinou alguns milhões nas ruas de SP (praticamente só homens) onde se fazia abertamente apologia dos mais variados tipos de “intercâmbios” libidinosos. Um forasteiro que por acaso assistisse a essa aparente liberação nacional talvez sentisse medo de ser estuprado ou, até mesmo de ser obrigado a estuprar alguem. Mas não é bem assim. Apesar do blábláblá e da verborragia dos garanhões, sabemos que a sexualidade e a obsessão por phoder, apesar de ainda continuar sendo um assunto exclusivamente masculino está na base de quase todos os conflitos e de quase todos os transtornos psicossomáticos, fazendo com que a grande maioria continue por aí transitando neuroticamente da negação à compulsão.
Além disso, uma curiosidade: mesmo o clitóris sendo o único órgão com função EXCLUSIVA de prazer, as mulheres continuam mudas e na sombra a respeito dessa temática. Tentem imaginar uma “ministra”, uma “técnica” ou uma “deputada” fazendo as proposições acima mencionadas, ou mesmo imaginem uma passeata com 3 milhões só de lésbicas. O moralismo e a angústia vigentes não dariam conta e o mundo viria literalmente abaixo.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Allegro ma non troppo ou o exército dos sessentões

A invenção do sabão e do saneamento básico, muito mais que a medicina e seus medicamentos, dobrou os dias de vida de nossa espécie. Sem perder tempo especulando se isso foi “bom” ou “ruim”, o trágico é que com essa longevidade, depois dos 60 todos vamos ficando cada vez mais idênticos, similares e parecidos como se uns fossemos meras cópias dos outros. A pele, os cabelos, os músculos, os dentes, a visão, a audição, a libido, os ossos, a marcha, os transtornos em geral e até mesmo as roupas, vão fazendo dos dessa idade um exército de velhotes estandardizados e melancólicos. E por mais que quiséssemos camuflar e negar esse horror, seria inútil já que as ruas e o cotidiano são como imensas vitrines repletas desses clones e desses espelhos aonde vamos nos enxergando e nos identificando por todos os lados. Um grisalho aqui, um barrigudinho ali, um maníaco acolá. Um com os cabelos avermelhados, outro careca, um míope, um trôpego, outro em cadeira de rodas, quase todos trêmulos, ranzinzas, impacientes, os bolsos cheios de bulas e, claro, com a carteirinha de aposentados. Quando algum não aparece logo pela manhã nas bancas de jornais, nas padarias ou nas tradicionais pistas de caminhadas, os outros já sabem que houve um derrame, um infarto, uma queda no banheiro, um óbito. Pelo que tenho observado, a juventude (por três motivos) não quer nem passar perto desses estranhos brigadistas. Motivo 1: ressentimento pela precariedade do mundo que esses velhotes lhes legaram. Motivo 2: a tirania e a crença dos velhos de que sabem mais e que devem dar a última palavra sobre tudo e motivo 3: no auge do tesão é natural que a juventude não queira tomar precocemente consciência daquilo que o porvir lhe reserva.

Sobre minha mesa de estudos três títulos inspiradores:
Et si je suis désespéré que voulez-vous que j'y fasse? (Gunter Anders)
Bref traité du désenchantement (Nicolas Grimaldi)
Allegro ma non troppo (Carlo M. Cipolla)

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O TABU DA MENSTRUAÇÃO OU A INDIAZINHA QUE FEZ A POLÍCIA E O JUDICIÁRIO RECUAREM...

Genial a última cartada dos índios para permanecerem acampados em frente ao Ministério da Justiça até que suas reivindicações sejam cumpridas pelo Estado. Uma menina de 12 anos teria menstruado pela primeira vez no acampamento e, segundo as tradições daquele grupo, esse momento da vida de uma menina, além de ser sagrado, (ou maldito?) a torna incomunicável e intocável por uma semana. Diante de uma centena de policiais que foram lá com ordem judicial para desalojá-los, os índios  revelaram o tabu e disseram não. Pegaram seus tacapes, acenderam seus cachimbos e começaram a mover-se de um lado para outro e a resmungar coisas “incompreensíveis”. Telefonemas daqui, telefonemas dali, advogado tal para juiz Y, delegado X para comandante de operações K. Cadê o Ministro da Justiça, porra? Cuidado com o pessoal dos Direitos Humanos. Será que esses selvagens não são antropófagos? E o que é menarca ou menstruação, afinal? Resmungou um soldado. E ele não era o único que não sabia. O universo masculino (não importa o grau de instrução) não tem a mínima idéia do que é uma menstruação. E vem a contra ordem: Operação suspensa. A menina (mulher de uma hora para outra)  enclausurada em sua maloca com seu filete de sangue escorrendo por entre as pernas havia vencido. Desde sempre a menstruação foi vista com "maus olhos" pelo mundo. Na Idade Média e talvez até hoje, dependendo da região, a igreja proibia mulheres menstruadas de receberam a hóstia. No período vitoriano a menstruação era catalogada como uma enfermidade. O olhar de uma mulher menstruada tornava os espelhos opacos e azedava o leite. Ter relação sexual com uma mulher menstruada era gerar um monstro na certa. Bobagens, nas quais a imensa maioria dos homens e até das próprias mulheres ainda acreditam.