"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

São Paulo: de desvairada a inundada II

Voltando da Zé Paulino, o sujeito cairá irremediavelmente na Estação da Luz, legado do império arquitetonicamente estupendo. Tem até um piano disponível no hall. Projeto de um artista britânico. Quem quizer senta-se nele e toca o que bem entender. Milagrosamente, a plebe, acostumada só a proselitismos aviltantes e a trapaças, se revesava nele. Vi um mendigo executando Love Story. As lágrimas, que não eram escassas, lhe desciam pela gola imunda. A Estação, que poderia ser uma das mais preciosas obras da cidade, caiu na mediocridade. Não tem um café, nem poltronas e muito menos toalete. Quem precisar de uma, deve descer aos túneis do metrô ou ir até o parque que fica atrás da Pinacoteca (uma espécie de Boi de Boulogne) onde rola em plena luz do dia uma prostituição geriátrica. Vi um senhor com uns oitenta anos, numa cadeira de rodas, negociando alguma coisa mais do que íntima com uma profissional de quarenta. Um homem barbudo usando chapéu marrom beijava as costas nuas de uma velha cor de ébano, e um outro, de bengala, ia e vinha deslumbrado por entre as árvores como se fosse um discípulo de Omar Khayyam. São Paulo é assim. Melífluo. Centenas de pequenas aldeias que constituem uma metrópole. Na semana passada um maluco desceu o cacete num intelectual em plena Livraria Cultura. Antes de ontem um ajudante de padeiro meteu a peixeira num empresário e hoje, a polícia encontrou mais de uma K 47 num onibus que vinha de Tatu a pé. Talvez tenha chegado o tempo de, como dizia Nietzsche, construir nossas cidades nas vertentes do Vesúvio.


Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

São Paulo: de desvairada a inundada I

São Paulo. De desvairada a inundada. Depois de passar pela taberna do Transyvoulos Petrakis e devorar um moussaká, qualquer um pode ir caminhando para a famosa rua José Paulino só para assistir o frenesi das mulheres sobre aqueles montes de trapos. São centenas as lojas nos quinhentos metros dessa rua. Há cinquenta anos atrás, meu pai já vinha comprar porcarias para revendê-las lá no meio do mato. Fricott; Kes; Adela; Chocris; Passion; Dolce Vita; Butiran; Chaville; Ekolos; Merona; Ranarum etc. Aqui as industrias desovam suas merdas para o consumo do populacho. Olhando a alienação desse bando dá para compreender porque a luta feminista ainda nem sequer começou. Acotovelam-se nas calçadas e diante das portas. Ajoelham-se quase em alucinação diante das pilhas de retalhos, das sobras de tecidos, das montanhas de fiapos. Se roçam as nádegas, tropeçam em si mesmas, falam sozinhas. Sem nenhuma ironia, lembram os pátios dos antigos hospicios. Os poucos homens que as acompanham ficam estacionados no umbral das lojas, engolindo veneno e aproveitando para correr os olhos para aquele mar de tetas distraidas. Os pacotes vão crescendo nos braços. Parecem felizes. São extremamente tolerantes umas com as outras. Se fossem assim no dia a dia em suas casas, a vida seria uma maravilha. Se me perguntassem porque insisto em passar algumas horas neste inferno, responderia que é apenas para fortalecer meu veredicto sobre a espécie.

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 20 de dezembro de 2009

Gorjetas, bacalhoadas, azeites e pugilatos homéricos entre os envolvidos.

Semana natalina. Há filas por todos os lados. A pilha de bacalhau embalsamado nos mercados lembra as pirâmides do Cairo com suas múmias. Que destino miserável o desses peixes! Dos mares do norte para o estômago desses mentecaptos! Um casal briga na fila. A madame quer bacalhau Imperial do Porto. Ele, com uma camisa do Flamengo prefere outro tipo, um subproduto que é vendido em lascas fedorentas e coberto de sal. A briga segue mercado a fora com o bacalhau em baixo do braço. Olhares terríveis. Eufemismos pra cá e eufemismos prá lá. Palavras envenenadas e promessas de uma semana recheada de insultos e de panelaços. A "ceia de natal" e o tiroteio do primeiro dia do ano serão apenas cenários novos para incrementar o desenrolar da guerra. É evidente que a invenção mais absurda do processo civilizatório foi o casal. Esses dois pobres coitados que se uniram por uma fatalidade e que se maltratam sistematicamente até a morte.

Nas ruas e nos balcões todo mundo pedindo gorjetas.

- “Pode colaborar com a caixinha doutor?”
- Doutor um caralho! Se fosse com o caixão...

A palavra “gorjeta” parece ter vindo do francês, “gorge” = garganta. Tratava-se de uns trocados para o escravo “molhar a garganta”. O maior mérito tanto da antiga China como da antiga Cuba (comunistas) foi terem proibido a gorjeta. Costume perverso e pervertedor, engendrado pelo mundo capitalista – recitavam em coro o velho Mao e velho Fidel! Tinham razão. É essa complacência com a gorjeta e com a “caixinha” que vai descambar nos propinodutos e nas Caixas de Pandora.

Ezio Flavio Bazzo

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A criação foi um engano e quem quer que tenha dito [Haja luz], um bufão.

Nesta semana o mundo foi pródigo em desvarios e em obscuridades exasperantes. São Paulo viu uma esportista estúpida ter um bebê sem saber que estava grávida. No interior da Bahia, três pobres miseráveis introduziram dezenas de agulhas no corpo de uma criança. Copenhague hospedou milhares de politiqueiros hipócritas com o pretexto farsesco de salvar o planeta. Um romano indignado acertou uma réplica da catedral de Milão no nariz de Berlusconi. A Câmara Legislativa do DF, atolada num lamaçal fedorento, declarou-se em recesso para dar tempo aos colegas gatunos escaparem. A OAB e a CNBB manifestaram-se indignadas com o andamento da carruagem corruptiva, o que parece uma evidente contradição, uma vez que os advogados jamais se negam a “defender” corruptos confessos e os padres, além de fazerem cumplicidade com os larápios no confessionário ainda aceitam prazerosamente seus dízimos. Há uma paralisia geral no planeta. Para cada cinco ou seis sujeitos que pensam, produzem, movem a roda da existência, há milhões e milhões na inércia e na inutilidade, preocupados apenas com suas tripas e fazendo unicamente o papel de trituradores. É alarmante e inacreditável, por um lado, que os alagados da periferia de São Paulo não marchem sobre a Av. Paulista com machados e dinamites e por outro, que em Copenhague nenhum daqueles farsantes engravatados tenha dado um pio a respeito da urgência do controle da natalidade.

Nos Evangelhos Gnósticos existe uma frase que cada dia passa a ser mais verdadeira: “a criação foi um engano e quem quer que tenha dito [Haja luz], um bufão”.

Ezio Flavio Bazzo

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Arbeit macht frei!

Entre as tantas frases que intoxicaram minha vida, duas foram extremamente insuportáveis. A primeira, que ainda deve estar escrita lá na entrada de um Campo de Concentração nazi dizia: Arbeit macht frei! (A liberdade está no trabalho!). A segunda, que vi ontem à tarde, por acaso, na parede de uma repartição pública, sentenciava: “A aposentadoria não é um fim, é um novo começo!” Quase tive uma síncope. Observem como o sadismo e o horror são exatamente os mesmos. Fazer os pobres velhos acreditarem nessas patriotadas e em outras idiotices até piores (a terceira idade é a melhor idade etc) é, no mínimo uma manifestação de vingânça.

Sinceramente, apesar de meu anticlericalismo, prefiro o aforismo do bispo episcopal de Chicago, Gerald Burrill que escreveu: [A diferença entre a trilha rotineira e a sepultura é apenas a profundidade]. Ou então, o conceito de Ambrose Bierce, para quem, [o patriotismo é o primeiro refúgio do canalha.]

Ezio Flavio Bazzo

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Seja sincero: você não gostaria de também estar indo para Copenhague comer Smorrebrod?

Nesta semana Brasília ficará bem mais limpa e tranqüila. Muitos políticos, de todos os partidos e naipes, estarão perfumadinhos e felizes nos aeroportos voando para Copenhague. Fazer o quê? Comer Smorrebrod com pasta de fígado. Outros preferirão as almôndegas de carne de porco com repolho vermelho enquanto suas “esposas” - também perfumadinhas e mais felizes ainda – experimentam o Risengrod, aquele arroz com açúcar, canela e manteiga que sempre foi o prato preferido do gorducho Papai-Noel. Não podemos esquecer que existe também um ecossistema estomacal e intestinal, tão importante como as geleiras do Himalaia e como a nossa estratosfera. Ser político! Não há profissão melhor neste mundo. Exige apenas um caráter de puta. Mas isto, quem não tem? Todos somos testemunhas de que nossa formação começa já lá no primeiro grau. Fazemos reciclagem no segundo e concluímos nossa a formação automaticamente na universidade. Depois que se entra no parnaso das Câmaras (municipais, estaduais ou federais) lugares onde chove dinheiro, oportunidades e poder por todos os lados, só se sai de lá demente ou morto. O que se exige de um político? Simplesmente que compareça na sua alcova. Que fale. Que suba à tribuna de vez em quando. Que se manifeste ora a favor dos tubarões, ora em defesa dos lambaris. Comprará a cumplicidade de três ou quatro capangas, iniciará seus filhos, irmãos e netos no mesmo métier e se reelegerá até a morte. Para dar coerência à mamata que o sujeito teve em vida, inclusive seu funeral será por conta do Estado. Pois é, aquele corpo inútil, malandro e desprezível que custou milhões e milhões aos cofres públicos, por ironia, ainda será velado num salão nobre, quase como um Papa ou como um Rei...

Mas voltando a Copenhague. Todos nossos “porta-vozes” vão para lá com duas ou três páginas “ecológicas” no bolso do paletó escritas e revisadas por um tradutor juramentado. Uns com idéias mais transcendentes e revolucionárias que os outros a respeito do “clima”, da “preservação do planeta” etc, como se não tivessem nada a ver com os caixões de lixo hospitalar que encontramos diariamente por todos os lados, com a infestação criminosa de automóveis nas ruas, com a fumaceira dos escapamentos dos ônibus, com a falta de higiene elementar nos restaurantes, com a insalubridade nos ambientes de trabalho e com a ausência de esgotos na América Latina inteira, com o sufocamento bestial dos rios, com a ausência absoluta de atendimento à saúde mental no país e com a construção obsessiva de prédios em áreas verdes. Aqui em Brasília – por exemplo – os tratores já iniciaram a derrubada de mais uma área imensa de cerrado, a uns mil metros do Palácio do Buriti, para a construção de um condomínio grãnfino. Sim, os corretores estão até falando que será um modelo de moradia ecológica, e isto, com a conivência de todo mundo: civis, militares, políticos, ecologistas, padres, velhos, adolescentes, putas e freiras, ricos e fodidos, empresários, mendigos, bandidos e santos. Não tenho dúvidas que há na essência dessa passividade e desse desinteresse uma tendência imensa ao suicídio. E não foi por acaso que Leclerc, ao traçar o perfil psicológico do brasileiro escreveu: “toda a nossa sabedoria política se resume na resignação diante do fato consumado”. Que tragédia e que bosta!


Ezio Flavio Bazzo

sábado, 12 de dezembro de 2009

Lênin prometeu penicos de ouro aos soviéticos, Lula diz que quer tirar os pobres da merda...

Gostei da frase que o Lula soltou lá no Maranhão sobre sua luta incessante para tirar o povo da merda. Guardando as devidas proporções, lembra a frase de Lênin prometendo ao povo soviético que após a revolução todos teriam seus penicos de ouro. Na verdade, todos os políticos fazem propostas como esta, com outro palavreado, mas fazem. Na prática parece acontecer exatamente o contrário. Trafegue pelo universo suburbano, principalmente depois das chuvas, para ver o que acontece com tuas botas. Claro que o Ilmo.sr. Presidente falava metaforicamente da merda sócio-econômica em que milhões e milhões de sujeitos estão imersos, o que não quer dizer que ele não tenha consciência de que grave mesmo é aquestão da merda mental. A merda sócio-econômica e a merda cultural podem ser amenizadas em uma ou duas décadas até através de medidas provisórias. Já, a merda mental, para ser extinta, ah, esta exige um planejamento secular. Os adversários do Presidente dizem que ele pronunciou esta frase bufa num momento de euforia, depois de receber a notícia dos elogios que o Primeiro Ministro Espanhol lhe dedicara no jornal El País. “O homem que assombrou o mundo” – é o título do artigo. E mais: chamam atenção para o duplo sentido que a palavra “assombrou” pode ter: amedrontar, apavorar, espavorir, terrificar etc. Mas isso é bobagem da oposição. O que importa mesmo, é saber que o Primeiro Ministro Espanhol pode até sentir mesmo por nosso Presidente o que manifesta, mas pela relação dos espanhóis com nossa América, ao longo dos séculos, é bem provável que os elogios desmedidos estejam relacionados muito mais com negócios. Sabe-se que hoje a Espanha tem mais de 50 bilhões investidos no Brasil, e que, não satisfeita, está de olho na maioria dos grandes projetos do PAC. Projetos ferroviários, portos, editoras, rede de livrarias, energia e estradas estão nas mãos de empresários da antiga Castilla. Em se tratando de investimentos no Brasil, só perdem para os gringos. Na área de turismo e de redes de hotéis de luxo - por exemplo - o litoral nordestino – parece uma província espanhola, isto, sem falar do universo idiota da telefonia. De um extremo a outro do país, todos os papos furados que são travados compulsivamente por nossas domésticas, engraxates, madames e executivos através de celulares vão engordar subitamente o capital espanhol. E não é de se estranhar, inclusive, se propagandas nessa área venham fomentar cada vez mais nossa verborréia e nossa prolixidade com fins mercantilistas.

Enfim, apesar do frenesi do consumo e da “disponibilidade atual de bens inúteis” nossa relação com os estrangeiros continua a mesma de 1500 ou de 1700: deslumbrados e de joelhos. E a imersão fecal mencionada pelo Presidente, parece ser, para milhões, ainda um destino atávico.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Um mundo apaixonante de cavalos, éguas, asnos e jumentos...

Como o General Figueiredo, o governador Arruda parece um apaixonado por cavalos. Dois dias após o descobrimento de seu luxuoso haras nos arredores desta cidade de madraços, mandou a cavalaria da polícia Militar pisotear a população que fazia uma manifestação em frente ao Palácio do Buriti. E aqueles não eram cavalos alados. Em nada parecidos aos seus minúsculos antecessores (os Eohippus), se aquela cavalaria furiosa, com dentes perfeitos e membros esguios lembrava, por um lado, o cavalo de Guérnica, politicamente simbolizava o Cavalo de Tróia. E qualquer um se impressionaria com os olhos, os beiços, as mandíbulas e as patas daqueles animais! Não foi por simples covardia – como se costuma acusar - que os maias e os astecas caíram de joelhos diante da quadrilha espanhola de Cortez, quando a viram saindo dos navios cavalgando animais tão apocalípticos. Ainda é um mistério o fato de, principalmente, os políticos, os novos ricos e as mulheres devotarem um afeto e uma reverência tão especial aos eqüinos. A prova desta devoção está na maioria das praças das grandes cidades onde sempre há uma escultura imensa em bronze, de alguém montado num Puro Sangue Inglês (PSI). Segundo Vargas Vila, a homenagem nunca é ao cavaleiro, sempre ao cavalo. Melhor. Y asi se van los dias!

Ezio Flavio Bazzo

Marrocos, Cenografia em Desordem





ELEGIA AOS ANIMAIS...

Do dia 08 de dezembro para cá já sou um homem de sessenta anos. Se nenhum raio acertar-me por aí, tenho ainda uns três mil e seiscentos dias para vagar pelo planeta. O que, convenhamos, não é pouco! Parafraseando a Freud, saber que lá por 2020 estarei livre de toda essa baboseira terráquea, me dá um alívio imenso. A única novidade que tenho sentido neste patamar de minha existência, foi o aumento vertiginoso de minha simpatia, de meu respeito e de meu afeto pelos animais, algo diametralmente oposto ao que acontece para com os de minha espécie. Será isto um mal? Não, respondeu-me o senhor que lia Coetzee em baixo de uma árvore com um cachorro branco postado a seus pés. Afirmou-me categoricamente que quando está passeando com seu cachorro vai olhando para as pessoas com quem cruza (mulheres, crianças, jovens, velhos, casais etc) e pensando: não trocaria meu cão por nenhum deles! E tem mais – agregou -, quando vejo um idiota derrubando uma árvore, tenho a nítida consciência de que se precisasse optar pela árvore ou por ele, optaria imediatamente pela árvore. Respirei aliviado.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

CREIO, EXATAMENTE PORQUE É ABSURDO...

Meus correspondentes em Londres me informam que na semana passada um ateu foi preso na periferia de Madri e condenado a um ano e dez meses de prisão. Motivo: interrompeu um batizado coletivo de crianças e (exatamente na hora em que os beatos declaravam ao padre que ACREDITAVAM em algo, por mais absurdo que fosse) começou a gritar: NÃO CREIO! NÃO CREIO! As testemunhas, a polícia e o próprio servo de Deus disseram que, além dessa blasfêmia, o ateu Raul C.P. chamou o batizador de “homo afetivo” e o mandou se foder.

Só quem já viveu na Espanha pode imaginar a repercussão que esse fato deve ter tido na comunidade em geral, mas principalmente nos porões da Opus Dei. A Espanha, Portugal e Itália são os países europeus mais infectados por religiosidades. Apesar da beleza, da história, dos vinhos e da modernidade aparente, a vida privada e íntima naqueles países guarda muito do catastrofismo medievo e das choradeiras das catacumbas. É curioso que proíbem em coro o consumo de álcool, de crack, de cocaína, de maconha, o roubo, a infidelidade, a corrupção, o estelionato, o “caixa-dois” o canibalismo, a eutanásia, que proíbem dirigir bêbados, jogar lixo nas ruas etc, mas deixam qualquer demente inventar solenemente uma religião, abrir um templo e dopar ao bel prazer a seu rebanho. Sim, é curioso que o tabu da “liberdade de crença” ainda não tenha sido visto como um dos maiores absurdos civilizatórios, ele que dá legitimidade a todo tipo de crapulices e que coloca em risco, descaradamente, a integridade mental de nossas crianças.

Ezio Flavio Bazzo

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Poeira de cocaína, pedregulhos de crack e raízes de arruda IV

Sinceramente, a marcha dos trinta ou quarenta advogados em direção à Câmara Legislativa para protocolar mais um pedido de impeachment contra o governador e seu vice, causou-me muito mais espanto e indignação do que ver aquela série de vídeos onde os pés de chinelo barrigudinhos e esperançosos exibiam bravatas e os larápios embolsavam pacotes de dinheiro. Se não estivessem engravatados e se a marcha deles não fosse tão artificialmente marcial, talvez não tivesse me impactado tanto. Que motivos e quê segredos os impediram de fazer o mesmo no mensalão anterior lá na outra Câmara? Ora, dizer que a faixa nos olhos da estátua de justiça é o símbolo da imparcialidade é um blefe. É bem provável que seus olhos tenham sido interditados para que ela não veja tantas bobagens e tantas imposturas travestidas de lei. E depois, neste país bacharelesco, desde o primeiro dia da República até ontem foram eles que engendraram praticamente todos os imbróglios das leis, todas as veredas obscuras dos códigos, as artimanhas e os truques dos processos para culpabilizarem os inimigos e beneficiarem os cupinchas e a si próprios. Saber – por exemplo - que posso assassinar estúpida e covardemente a uma criança ou a um velho ali na esquina e que, prontamente, qualquer um dos advogados da cidade estará disponível para defender-me, para mentir em meu nome, para justificar meu crime e até para colocar a culpa no defunto, isto é o fim da picada e a essência da desgraça de um povo.

Ezio Flavio Bazzo

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O futebol e a reunião de Copenhague

Bandeiraços, tiros, gritos, trombetas, hinos e buzinas. Sujeitos extremamente jovens e sujeitos extremamente velhos, sujeitos esclarecidos e sujeitos analfabetos igualmente alucinados nas esquinas sacudindo o esqueleto, a camisa de seu time ou a foto de seu herói. A demência foi geral. Aliás, a demência é geral. O que deve acontecer verdadeiramente no cérebro dessa gente? Quem realmente compreender um desses fanáticos fará mais pela psicopatologia do que Kraepelin. Da varanda, meu cachorro assistia apavorado àquela gritaria e aquele tiroteio descabido. Sentei-me a seu lado e cochiche-lhe no ouvido a frase dos velhos moralistas roubada - como todo mundo sabe - dos textos orientais pelo cristianismo: “esses coitados não sabem o que fazem!”

Seria oportuno que a reunião de Copenhague não ficasse apenas nos banquetes e no blábláblá das emissões de carbono, dos peidos das vacas do Mato Grosso, das motos-serra do Amazonas, das chaminés das fábricas, dos agrotóxicos, do lixo hospitalar, da poluição dos carros etc., mas que incluísse o futebol entre os venenos que acabarão imbecilizando ainda mais e degradando gravemente o planeta e a espécie.

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 6 de dezembro de 2009

ALFONSINA Y EL MAR...

Ontem foi a terceira vez que ouvi o carteiro de minha quadra passar assoviando a música de Ariel Ramirez e Félix Luna: Alfonsina y el mar. Vinha por debaixo dos blocos com um pacote de cartas nas mãos, uma bolsa imensa a tiracolo e ar melancólico. Parecia mais do que distante. Quis perguntar-lhe alguma coisa sobre a música, mas ele dobrou bruscamente para a esquerda e sumiu. Quase todos os poetas e literatos da cidade conhecem a história de Alfonsina Storni, a poetisa argentina que se suicidou no Mar Del Plata em 1938. A música que o carteiro assoviava foi uma homenagem a ela. No endereço abaixo, uma das inúmeras e melhores versões.

http://www.youtube.com/watch?v=M_3Xcym37fE&feature=fvw


Ezio Flavio Bazzo

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Poeira de cocaína, pedregulhos de crack e sementes de arruda III

Brasília não é e nunca será uma cidade como as outras. Extremamente jovem, completando cinqüenta anos em abril, tem origem e história bizarras. Imagine, qual poderá ser o porvir de uma cidade com apenas cinqüenta anos e já com trezentos e tantos pastores! O escândalo que está em curso é apenas uma das patas da aranha caranguejeira que é. Aqui, mais do que em qualquer outro lugar, como diria Freud, se lida com as questões de dinheiro, sexo e excrementos com a mesma hipocrisia. As religiões que infestam as esquinas e os cérebros são apenas o lero-lero hipnótico para todo tipo de licenciosidades. E depois, é mais do que sabido que freudianamente falando o dinheiro está intimamente ligado e relacionado aos nossos dejetos, ao penico e às misérias secretas de cada um. Todo mundo sabe que dinheiro e fezes estão inseridos no universo da pulsão erótica anal. Em outras palavras: simbolicamente o dinheiro é, por um lado, como merda e por outro equivalente fálico. Por aí a fora e pelos labirintos da neurose, talvez, se possa até chegar a ver o corrupto com outros olhos e a corrupção como um simples sintoma de uma desgraça ainda muito mais profunda. A grande frustração do corrupto é ele não poder enfiar o dinheiro goela abaixo, ele não poder enfiar-se o dinheiro pelo cu. Tem que enterrá-lo em casa, nas paredes de fundo falso, ou então nos porões dos bancos suíços e caribenhos. Vive simultaneamente eufórico e angustiado pela possibilidade de morrer ou ficar demente e seu dinheiro apodrecer lá, como sua merda e manchado por sua miséria.

Ah! Há muita gente no mundo! Há muita gente nesta cidade! Os shoppings e as ruas estão entulhados. Muitas mães, com caras de retardadas, querendo a todo custo levar seus filhinhos e filhinhas para sentarem ingenuamente no “colo” do Papai Noel. Hooooohoooooohooooooooo!!!!! Hoooo! HOOOOooohooooo!

Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A poeira da cocaína, o pedregulho do crack e as sementes de arruda II

A cidade está inflamada e excitada. Sempre que eclode uma nova denúncia de corrupção a população entra em transe. Os pacotes de dinheiro, as câmeras escondidas, a miséria humana exposta até o âmago, causam na comunidade um sentimento que ainda não foi muito bem descrito. A imagem dos três larápios “orando” depois de dividirem a grana deixou os evangélicos atordoados.

-Senhor! Senhor! Obrigado por fazer-nos corruptos! Por fazer-nos entender que só o dinheiro salva! Oh, Como és poderoso! Depois de ti só os pacotes de dinheiro! Tu que tens todo o poder do mundo, Oh, Senhor Amado, Aleluia, poupa-nos da polícia federal! Tu, em tua Onipotência, OH, Senhor, Aleluia! Aleluia! Sabes que roubamos para o bem das cidades satélites, para a salvação dos milhares e milhares de dejetos humanos que vivem na Extrutural, nos becos infectos, das castas subhumanas que lambem as nossas botas todas as manhãs quando chegamos aos nossos gabinetes. Senhor! Oh Senhor. Sabes que por nós o mundo seria diferente. Tu Senhor Todo Poderoso, Oh Senhor, que conheces nossa desgraça interior, defendei-nos dos invejosos e daqueles que querem o nosso mal. Amém. Aleluia!

Corruptos, corruptores, indignados e ingênuos vão às ruas. A idéia de um bode expiatório continua sendo uma grande panacéia. Apedrejar o corrupto fora-de-nós dá a ilusão de inocentar o corrupto dentro-de-nós. É por isso que os amigos e os outros partidos logo se afastam daquele que caiu em desgraça e pedem desesperadamente o seu aniquilamento. Quanto mais rápido for eliminado, melhor. É evidente que há algo mais do que simples moralismo ou simples eticismo nessa ansiedade e nessas manifestações. A corrupção e o sexo, - assuntos tão antigos como a espécie - incomodam tanto aqueles que os praticam como aqueles que são abstêmios. Alguns dizem até que a abstinência – nos dois casos – é mais perversa e mais libidinosa de que a prática. Já encontrei pessoas que defendem a corrupção até como forma política, antiestatal e de distribuição de rendas. Prática anárquica de sabotar o gigantismo estatal e o monstro descrito por Hobbes – dizem, justificando suas fortunas surgidas do nada. Os padres - que os ouvem e que os perdoam nos confessionários - dizem que é o demônio atuando através dos homens. Os advogados culpam as brechas da lei (lei que eles próprios engendraram). Os antropólogos dizem que essa prática é ancestral e que está na origem do ser. Os sociólogos insistem na ganância e na desigualdade social. A polícia acha que todo mundo é bandido mesmo e que diante de uma oportunidade qualquer um se corrompe. Mas as esposas e os filhos dos corruptos pensam diferente, consideram seus maridos e pais quase como super-heróis. Adoram ver as maletas, primeiro no porta-malas, e mais tarde, abertas sobre o criado mudo repletas de notas verdes. Algumas senhoras, como gratidão e felicidade, fazem impulsivamente um felatio ao herói, ainda engravatado. A boca tensa, os olhos cravados nas notas.

Ezio Flavio Bazzo