"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Pirenópolis: a descida do Espírito Santo sobre o Rio das Almas


Muitos casais de forasteiros que no passado vinham montar suas barracas nas encostas do Rio das Almas e que passavam a semana inteira trepando (ela com uma flor de Pequi no meio das tranças e ele com um baseado pela metade entre os dedos), agora vêm timidamente apenas pedir alguma graça na Festa do Divino. Dois ou três empadões goianos, duas horas de joelhos no interior da Matriz (já refeita do incêndio), muita nostalgia e nada mais. Pirenópolis já foi um vilarejo perdido no sertão goiano, uma antiga mina de ouro onde, durante décadas, se pisotearam e se locupletaram bandeirantes, jesuítas e portugueses gananciosos, negros escravos e índios deslumbrados. Foi a construção de Brasília que deu novamente vitalidade a esse vilarejo. Os hippies povoaram singelamente suas montanhas, a Serra dos Pireneus repletas de quartzito, bem como suas cachoeiras cristalinas nos anos 80 e hoje, um pernoite numa pousada aqui custa mais que em uma pousada de luxo em Praga, e em plena primavera. Mas é um dos poucos lugares do mundo onde ainda se pode ouvir os galos cantando lá pelas cinco horas da madrugada, onde ainda há lagartixas nas paredes e a madeira dos móveis tem o cheiro do cerrado. Desde 1819 se realiza esta festa por aqui. Uma tentativa inconsciente de manter vivos os preconceitos religiosos e os abusos sociais da velha e retrógrada monarquia lusitana. Nesta data chegam até a eleger um imperador. O que foi eleito hoje é o de número 192. A ida do Imperador de sua casa até a igreja é feita numa procissão, nos moldes da que se fazia em Lisboa e com uma troupe de virgens à frente, todas de branco e com no máximo dez anos. Pelo jeito não era apenas Salomão que gostava de ver-se cercado por elas. A cidade está agitada. O programa é intenso. A grande maioria que ir ver as cavalhadas, uma representação quase infantil da briga entre Carlos Magno e os mouros (Cristo e Maomé) que haviam dominado a chamada Península Ibérica. Mas o mais fascinante e transcendente desses dias são os mascarados, esses anônimos que em seus cavalos andam bebuns e anárquicos em disparadas pelas ladeiras. Cabeças de tigre, de macacos, de cavalos, defuntos, demônios, caveiras etc., desde seus disfarces parecem tomados por uma agitação e uma ansiedade incurável. Só param de vez em quando para arrumar uma ferradura ou então nas portas dos botecos para implorar um trago ou uma moeda. Com suas feições zoomórficas assustam as madames mais distraídas, espiam o interior das casas pelas janelas, interrompem o trânsito, vão ao rio dar de beber a seus sedentos e exaustos cavalos e, de tão bêbados, muitos acabam o dia como pêndulos sobre eles. É quase impossível definir o efeito das máscaras ( principalmente das demoníacas) sobre nossas emoções e sobre nossos sentimentos. Mesmo sabendo o pedigree de quem está por debaixo delas, impossível relacionar-se com “esse olhar que não olha” – como dizia Octavio Paz - sem ficarmos meio hipnotizados e meio abobalhados. Do lado do mascarado, é como se viesse esse murmúrio: “Ah, se eu pudesse ser outro! Mas não há esperanças! Sou o que sou; como poderia libertar-me de mim mesmo?”

Ezio Flavio Bazzo

Um comentário:

  1. não há situação mais desprezível do que o respeito por tudo aquilo que nada sacode, arrebata ou arranca de onde se está. assim desprezo a cultura popular que não pretende ir adiante. nenhum anseio ou custo. nem mesmo uma perigosa curiosidade. mísera centelha inexistente que inflamaria um sentidozinho. tudo o que se pode amar é a 'casinha'? a 'terrinha'? a 'historiazinha'? perpétua relação de reciprocidade entre enganados, enganadores e dever do engano. bem lembrado, ezio. ontem hippies, hoje aristocracia. ontem retrógrada monarquia lusitana, hoje república brasileira com saudades do império. ontem cavalhadas, hoje bombas teleguiadas ao iraque e ao afeganistão. assim o baile de máscaras segue. nenhum problema com elas, pois nada há além das máscaras. o desprezível é que estejam aos serviços da terrível deusa social asfixiante e opressiva, miséria.

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