"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Thriller & mais uma sessão fúnebre do Senado


Um homem septuagenário, com aparência de beduíno vai à tribuna para discursar, longa e prolixamente sobre a cloaca em que está transformado o Senado. Gesticula, desenterra o finado Ulisses, o velho Tancredo e até mesmo o legendário Getúlio. Exibe manchetes contra o Presidente da casa e pede solenemente sua renúncia. Os sete ou oito gatos malhados que ocupam a platéia se agitam e pedem apartes. O homem que preside a mesa tem um nome bizarro e cita gratuitamente a Rui Barbosa, a Voltaire e até a Clemenceau. O apartante discorda do beduíno. Forçar a renúncia é golpe! – diz em pompas. Outro pede a palavra. O beduíno está cada vez mais seguro de si. Rodeios lingüísticos para defender o indefensável. As palavras e as frases vão e vêm como meretrizes na boca daqueles homens que custam, cada um, uns cem mil dólares por mês ao populacho. O quê estamos fazendo aqui? Se pergunta o orador principal. Porrrrrra nenhuma! Respondem telepaticamente os velhinhos aposentados que estão atentos em suas mansardas. Pequenas irritações, mini surtos sob controle, apologias repulsivas. O microfone falha. Os chefes do botim assistem tudo de casa pela TV bebendo champagne e fumando charutos. Vossa Excelência pra cá e Vossa Excelência pra lá. Outro personagem toma a palavra com sinais visíveis de senilidade. Dá voltas pelo universo da prolixidade. Pede desculpas, apóia o beduíno. Teatro e espetáculo. Um marqueteiro e um suplente falam ao mesmo tempo, o primeiro volta a glamourizar a casa. Todos falam em democracia e até mesmo em inveja cristã. Ao mesmo tempo em que pedem para Sarney afastar-se sacralizam seu passado e seu presente. Um careca aparece para ler meia página enviada por um neto do chefão do Senado. No texto a informação sutil de que o próprio foi aluno na Sorbone e em Harvard. Suspiros na platéia e nos lares! A plebe e os novos ricos adoram mistificações. O bate boca prossegue pela tarde, apesar da grande maioria ter ficado em casa vendo futebol. Gooollll! Gollll! O clima é de um grêmio estudantil. Todos têm opiniões diferentes, mas concordam em tudo. Chamam a isso de democracia, ética, liberdade de expressão. Cem mil dólares mensais a cada um! Unuhunnunn!... E a ralé engordando sob as pontes ou em suas gaiolas com as migalhas da cesta básica. Os nobres senadores não sabem ainda que lá em Los Angeles o bailarino pedófilo bateu as botas, se soubessem seriam capazes até de deixar cair algumas lágrimas, daquelas frias e fúteis que na antiguidade deveriam deslizar até pelos focinhos das hienas.

Ezio Flavio Bazzo

terça-feira, 23 de junho de 2009

O zôo, essa penitenciária animal como centro terapêutico


Aqueles que estão cada dia se sentindo mais e mais deprimidos, angustiados, decepcionados e encolerizados com a bandidagem social e com as obrigações idiotas do cotidiano ou mesmo com o [sem sentido] da existência bem que poderiam ir sistematicamente ao zoológico. Meia hora diante do fosso das panteras pode mudar a vida de qualquer um para sempre. Àqueles para quem o prozac já não funciona, vinte minutos em silêncio num zôo encostados à gaiola do Pionus Menstruus poderia ser de uma importância inestimável. Àqueles que tentaram a Gestalt e a identificaram com as práticas presbíteras sentir-se-iam gratificados estando alguns minutos diante da gaiola dos Papagaios de Garbes. Aqueles que identificam na psicanálise uma réplica do Talmude conseguiriam compreender melhor sua estrutura mental narcisista com uma única sessão de minutos aqui diante do poleiro do Pavo Cristatus ou do Pavão Azul. Quem nunca compreendeu muito bem como funciona o tal do behaviorismo, ali diante dos ex-mamutes de circo não teriam mais dúvidas. Quem não encontrou consolo lá no confinamento do Budismo Zen pode surpreender-se (favoravelmente) estando uns instantes ali junto ao pátio dos jabutis. O canto estridente da Araponga (como se fosse uma marreta caindo sobre a bigorna) pode tornar os cânones lacanianos sobre a histeria bem mais palatáveis. Os Socós nos fazem compreender melhor e irremediavelmente os malefícios estéticos de nossa passividade e os macacos - sempre os macacos - podem ampliar descarada e exageradamente nossa tendência ao exibicionismo e à futilidade. Mas, apesar de todas essas terapêuticas [alternativas] é lá no fosso das ariranhas e nos compartimentos espelhados do serpentário onde o sujeito, sufocado pela urbe e por si mesmo, poderá ter o grande insight, tomar verdadeiramente consciência de tudo, principalmente, de seu próprio caráter.

Ezio Flavio Bazzo

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Anna Mahler e Karl Marx no Cemitério High Gate


Sabendo de meu interesse pela arte funerária alguém me enviou duas relíquias fotográficas do Cemitério High Gate de Londres: a tumba de Anna Mahler e esta de Karl Marx. Enquanto as examinava com uma lente de aumento ia arrancando de minha memória algumas frases quase religiosas dos movimentos anarco-revolucionários europeus dos anos setenta:

“(1). A sociedade não será livre enquanto o último capitalista não tenha sido enforcado com as tripas do último burocrata(. 2). Quanto mais faço amor, mais revolucionário me torno; quanto mais revolucionário me torno mais faço amor(. 3). Estamos inventando um mundo novo e original. A imaginação é um poder que captura.”

É curioso que se naquele tempo a juventude, os hippies, os políticos e os professores tinham a ilusão até mesmo de desmontarem o universo, hoje, toda essa canalha institucionalizada não sabe o que fazer para livrar-nos a todos, sequer, da máfia dos flanelinhas.

Ezio Flavio Bazzo

O afiador de facas e de tesouras que ouvia Charles Aznavour


Todos os sábados, religiosamente, o senhor que aparece na foto (ao lado) passa por debaixo de minha janela empurrando seu carrinho repleto de panelas, facas, frigideiras, espumadeiras, canecos de alumínio e mil e uma outras geringonças, quase sempre ouvindo uma cantiga milenarista evangélica. No último sábado, não foi diferente, apenas a música não era a mesma. Sob o sol das 14h00min horas, depois de afiar duas tesouras a uma mulher extremamente magra e com uma coreografia nada serena, caminhava sem pressa e pensativo junto ao meio fio balançando suas tralhas e ouvindo uma música de Charles Aznavour. Charles Aznavour? Retirei uma de minhas espadas tailandesas da parede e desci correndo pela escada até alcançá-lo já lá na saída da quadra. Enquanto ele passava sua pedra esmeril naqueles noventa centímetros de aço puro e pontiagudo, comprado numa feira ao lado da Estação ferroviária Hualampong, em Bangkok, do meio daquelas chaleiras, espatulas, bules e açucareiros restaurados emergia um fundo musical de profunda melancolia. O ritual de afiação não deve ter demorado mais de sete ou oito minutos, mas aquela música me fez ter a sensação de que havia se passado pelo menos quatro décadas. (quem quiser pode ver o vídeo no endereço abaixo)


http://www.youtube.com/watch?v=x0Y1NUishlY&feature=related


Ezio Flavio Bazzo

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Em Goiás Velho: Os narcisistas, a indústria cinematográfica e a estética de uma ilusão


Como não pude ir à Goiás Velho nesta semana do Décimo Primeiro Festival de Cinema Ambiental fui gratificado com um sonho que durou praticamente toda a madrugada. Neste sonho, o cinema aparecia como uma fraude, uma bobagem infanto juvenil, um entretenimento para solitários meio retardados. Eu próprio aparecia no sonho dialogando com os irmãos Lumière e dizendo-lhes com certa agressividade: o cinema só teve futuro pela deficiência cerebral humana. Um cérebro mais refinado não se deixaria iludir pelo truque dos 24 fotogramas por segundo, desmascararia a fraude e se entediaria com aquele punhado de imagens isoladas e estáticas. Eles riam de minha cara dentro de suas roupas de 1895 e com aquele riso clássico de ilusionistas. Também aparecia no sonho alguém caminhando pelas ruas de Goiás Velho, bem em frente ao Hotel da Ponte gritando em tom de troça: É isto a Sétima Arte? É isto a Sétima Arte? Filas imensas de cineastas e cinematógrafos atravessavam a ponte sobre o Rio Vermelho, um mais vaidoso e mais delirante que o outro, lembrando o primeiro filme da história (A saída dos operários da fábrica Lumière). Marchavam como pavões em direção à Catedral que havia se transformado magicamente em um monumento de Hollywood. Um cálice sem hóstia era dado por Cora Coralina a cada um daqueles narcisistas, como se fosse um Oscar. Voltei a dialogar com os irmãos Lumière e quando me perguntaram o que achava do texto e do som agregados às imagens lhes respondi prontamente e com a mesma agressividade: serviu para temperar e para incrementar a farsa. Riram novamente de minha cara, apoiados pela multidão, a população inteira da cidade puerilmente apaixonada por aquela bobagem. Alguém em tom professoral e falando uma língua jamais ouvida lembrava: A Sétima Arte pode ser ficcional ou documental. Sim, ficcional ou documental! Ficcional ou documental! É no cinema, e só através do cinema que podemos garantir nossa imortalidade. Houve um silêncio que pareceu durar séculos, até que a voz rouca de um bêbado encostado pateticamente ao umbral da igreja proferiu: só os que não crêem em sua imortalidade fazem justiça a si mesmos.


Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Ele voltou... O Demiurgo voltou novamente...


E dirigindo-se especificamente a mim, o Demiurgo, encolerizado, proferiu esta dura maldição: E tu, que descendes de um povo que construiu, entre outras maravilhas, uma cidade sobre o mar terás que viver numa nação e numa cidade cuja população não consegue construir sequer um galinheiro. Uma nação e uma cidade onde praticamente tudo é física e mentalmente falsificado. A desordem mental e a desinformação geral será tanta nesse lugar que a Torre de Babel te parecerá uma lenda de puerilidades. Passarás teu tempo em tertúlias esquizóides, viverás cercado por mitômanos, ouvindo megalomanias de todas as ordens, fuxicos, mentiras, idiotices e covardias. Verás a ascensão brusca de lixeiros a "doutores" e a guinada vertiginosa de doutores a "lixeiros". Assistirás a metamorfose de bandidos em delegados e de delegados em bandidos; de larápios em deputados e de deputados em larápios e assim por diante. Sim, te mandarei para um lugar onde não se tem notícias nem da auto estima e nem do amor próprio e onde tudo o que a turba pretenda engendrar tem uma única e inconsciente função: torturar-se, humilhar-se, prejudicar-se, punir-se e, por fim, aniquilar-se.

Vejam no vídeo abaixo a recomendação de umas das maiores sumidades em educação no país:



Perus votando por uma antecipação do Natal?

Ontem, exatamente no momento em que o Sarney subia à tribuna do Senado eu sublinhava na página 14 do livro COMO A PICARETAGEM CONQUISTOU O MUNDO (do escritor inglês Francis Wheen) a seguinte frase: “No registro histórico, é a primeira vez que se tem noticia de perus votando por uma antecipação do Natal.”

segunda-feira, 15 de junho de 2009

A mistificação da leitura e a biblioteca de Adolf Hitler


Cada dia vai ficando mais ridícula a idéia de que uma nação se faz com homens e livros, de que a leitura é tudo, de que os livros são nossos melhores amigos, de que com os intelectuais o mundo poderia ficar despreocupado, de que o prazer das crianças pela leitura salvaria a humanidade etc, etc e outras balelas do gênero. Por todos os lados há evidências de que isto não é verdade e de que os babacas, os analfabetos, os cretinos, os iletrados, os incultos e mesmo os que têm fobia por livros tendem a dar-se “social e economicamente melhor” nesse imenso bordel em que vivemos. Além do que, há um outro e sério agravante – mencionado inclusive pelo próprio Baudelaire: quanto mais o sujeito lê menos trepa. E por falar nisso, descobriram recentemente parte do acervo livresco de Adolf Hitler jogada nos porões da Biblioteca do Congresso em Washington. Dizem que o Fuhrer, apesar de sua cara de mocorongo, mantinha uma biblioteca particular de quase vinte mil exemplares dividida em cada uma de suas três casas: Berlim, Munique e Obersalzberg, sem falar dos milhares de títulos que ficavam no “Arquivo do Fuhrer” no subsolo da Sede do Partido Nazista. Segundo historiadores, o velho nazi - como seus principais generais - era obsessivo por leitura, lia um livro por noite e suas preferências iam da genética à fotografia, de Goethe a Robinson Crusoe, de Dom Quixote às Sagradas Escrituras. Se as teorias dos mistificadores da leitura estivessem corretas, - considerando a hecatombe social provocada por ele em sua época - imaginem o que esse sujeito poderia ter feito com a espécie e com o planeta se fosse apenas um analfabeto.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 11 de junho de 2009

E na outra semana o Demiurgo teria voltado a dizer:


E te obrigarei a viver sob um regime e sob uma forma de governo que te pisoteará, que te humilhará, que te estrangulará ou que te aleijará para sempre. Passarás séculos rodopiando em seu interior e ao seu redor acreditando e jurando ser a forma mais justa e adequada de administrar o mundo, sempre mentindo, roubando, discursando, desviando fundos por debaixo dos panos, prevaricando, fazendo campanha, comprando ou vendendo votos entre a ralé, idolatrando bandeiras, selos, ícones, cidades, hinos, autoridades, leis etc. E te cumpliciarás com as seitas, com os exércitos, com todos os tipos de larápios e até mesmo com os professores, mas especialmente com uma categoria: a dos advogados. O terno e a gravata serão as senhas de teu bando, a marca patética e cômica de tua canalhice.

Ezio Flavio Bazzo

E o Demiurgo teria dito: implantarei uma língua em tua boca e esta não te dará sossego


Tagarelar. Observem como não se faz outra coisa nesta vida. Os botecos, as igrejas, o Congresso, os mercados, as barbearias, as universidades, os restaurantes, os tribunais, as cadeias, as portarias dos prédios etc., são territórios dominados pela logorréia e pela tagarelice. Um inferno de monólogos e de bate-bocas que não servem para nada e que não levam seus atores a lugar nenhum. Apesar de a língua ter sido implantada por detrás de uma muralha de marfim, - trinta e tantos dentes pontiagudos cravados sobre maxilares e músculos potentes – é mais ativa que qualquer outro órgão do corpo, está sempre matracando e causando estragos irremediáveis. E esse assunto (ou essa perversão) foi sempre tão observado na história bizarra dessa pobre espécie que até o velho Plutarco lhe dedicou um ensaio. “Parece – dizia ele – que a audição nessa gente não está canalizada para a alma, mas para a língua, e é por isso que as palavras que se conservam nos outros escapam dos tagarelas (...) Nas outras doenças da alma, como a atração do lucro, o desejo de gloria e a lascívia, pode-se perfeitamente descobrir a que se aspira, mas é com os tagarelas que acontece o mais deplorável: procurando ouvintes, eles não encontram nenhum, porque todo mundo foge em debandada: estejam sentados no anfiteatro ou indo e vindo na galeria, quando vêem chegar um, as pessoas logo dão sinal para levantar acampamento. (...) Dizem que o esperma daqueles que tendem muito à união carnal é estéril; do mesmo modo que a palavra dos tagarelas é sem efeito e sem fruto”.

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 7 de junho de 2009

As orgias do signore Berlusconi e os velhos imperadores de sempre


Berlusconi virou notícia novamente depois que um jornal publicou fotos da orgia que ele e sua trupe promoviam numa mansão da arquicatólica Ilha da Sardenha. Puro sensacionalismo.

Sabemos que hoje, qualquer idiota endinheirado (inclusive esses jogadores de futebol semi-analfabetos que faturam milhões de dólares com o apoio da plebe indigente) pode promover bacanais iguais ou até mais sofisticados. E depois, pelo que me consta - apesar das teorias em contrário - nunca houve e não há outra razão para a sede de poder e de dinheiro a não ser a ORGIA, o que esclarece o fato de quase todo rico ser um perverso polimorfo. No caso do Berlusconi, desse velhaco da política e da mídia existe um precedente histórico ainda mais grave e que não pode ser ignorado: a putaria dos Césares.

Julio César - por exemplo - foi quem consagrou a frase: "quisera ser o marido de todas as mulheres e a mulher de todos os maridos".

Augusto costumava promover o famoso Festim dos Doze, onde seis homens e seis mulheres, normalmente as mais "depravadas" de Roma, vestiam-se de deuses e de deusas e se entregavam a todas as fantasias eróticas possíveis.

Tibério foi o idealizador de uma imensa sala usada exclusivamente para sacanagens onde Heitor organizava reuniões de moças e rapazes escolhidos a dedo e os assistia em êxtase.

De Calígula, quase nem é necessário falar. Lembro apenas que esse Signore romano, depois de assistir a execução de seus prisioneiros vestia uma túnica comprida, colocava uma peruca e ia passar a noite em lugares de perversão. Foi ele o tal Imperador que passou o ferro em todas suas irmãs.

Cláudio, outro prostituto de marca maior. Foi o ilustre esposo de Mesalina, sinônimo de cortesã-histérica. Segundo Petrônio, em seu Satiricon , os monges da Idade Média, numa tentativa de proteger a igreja destruíram a maior parte da história dos escândalos de Nero, filho de Agripina e tão ou mais promíscuo que todos os seus antecessores.

"Quando anoitecia, cobria-se com o gorro dos libertinos e recorria às tabernas e as casas de prostituição; vagabundeava pelas ruas insultando as mulheres, injuriando os homens e dando bordoada em quem reclamasse; mantinha relações com as meretrizes mais imundas e com as alcagüetes mais indignas; freqüentemente as agredia e às vezes gostava de ser agredido. Isto, dizia ele, era uma maneira hábil de estudar o povo, de conhecer a vida dos cidadãos comuns".

Galba, um Imperador raquítico, era chegado à "verga" dos soldados e até mesmo à dos velhos. Vitelio fazia suas amantes cuspirem em sua boca e, no momento de engolir a saliva, tinha verdadeiros orgasmos.

Tito foi tão perverso como os outros, mas, por ter dado um basta às perseguições contra os cristãos, ficou conhecido na história como sendo um virtuoso. Moral da história: A igreja sempre foi e nunca deixou de ser uma autêntica rameira!

Domiciano teve relaçõe sexuais com Dona Julia, sua mãe.

Trajano era tão adultero, que quando morreu, avisaram imediatamente a Júpiter que vigiasse a Ganímedes.

Adriano apaixonou-se loucamente por Antonio, um moço de Bitinia.

Cómmodo, filho de Marco Aurélio, transformou o palácio em um bordel, convocando as mulheres mais bonitas e mais putas para partilharem com ele de todos os caprichos. Gostava de ir aos lupanares romanos e, disfarçado de eunuco, levar água para os clientes se lavarem e inclusive os ajudava em tal tarefa. Quando se sentia excitado, saltava sobre a mulher como um leão e a enrabava loucamente. E isso que ainda não haviam inventado o Viagra!

Heliogabalo, hermafrodita e infame como todos os outros. Sua mãe era tão puta que seu sobrenome era Varius (vários), e ele mesmo orgulhava-se de ter uma mãe tão "popular".

Portanto, nós que temos aqui em nosso país tantos novos ricos explorando crianças, violando meninos, estuprando meninas pobres, assediando funcionárias, empregadas domésticas, pacientes, mulheres desempregadas etc., etc, temos obrigação de ser tolerantes e até mesmo condescendentes para com apenas um rico berlusco.

Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Pirenópolis: a descida do Espírito Santo sobre o Rio das Almas


Muitos casais de forasteiros que no passado vinham montar suas barracas nas encostas do Rio das Almas e que passavam a semana inteira trepando (ela com uma flor de Pequi no meio das tranças e ele com um baseado pela metade entre os dedos), agora vêm timidamente apenas pedir alguma graça na Festa do Divino. Dois ou três empadões goianos, duas horas de joelhos no interior da Matriz (já refeita do incêndio), muita nostalgia e nada mais. Pirenópolis já foi um vilarejo perdido no sertão goiano, uma antiga mina de ouro onde, durante décadas, se pisotearam e se locupletaram bandeirantes, jesuítas e portugueses gananciosos, negros escravos e índios deslumbrados. Foi a construção de Brasília que deu novamente vitalidade a esse vilarejo. Os hippies povoaram singelamente suas montanhas, a Serra dos Pireneus repletas de quartzito, bem como suas cachoeiras cristalinas nos anos 80 e hoje, um pernoite numa pousada aqui custa mais que em uma pousada de luxo em Praga, e em plena primavera. Mas é um dos poucos lugares do mundo onde ainda se pode ouvir os galos cantando lá pelas cinco horas da madrugada, onde ainda há lagartixas nas paredes e a madeira dos móveis tem o cheiro do cerrado. Desde 1819 se realiza esta festa por aqui. Uma tentativa inconsciente de manter vivos os preconceitos religiosos e os abusos sociais da velha e retrógrada monarquia lusitana. Nesta data chegam até a eleger um imperador. O que foi eleito hoje é o de número 192. A ida do Imperador de sua casa até a igreja é feita numa procissão, nos moldes da que se fazia em Lisboa e com uma troupe de virgens à frente, todas de branco e com no máximo dez anos. Pelo jeito não era apenas Salomão que gostava de ver-se cercado por elas. A cidade está agitada. O programa é intenso. A grande maioria que ir ver as cavalhadas, uma representação quase infantil da briga entre Carlos Magno e os mouros (Cristo e Maomé) que haviam dominado a chamada Península Ibérica. Mas o mais fascinante e transcendente desses dias são os mascarados, esses anônimos que em seus cavalos andam bebuns e anárquicos em disparadas pelas ladeiras. Cabeças de tigre, de macacos, de cavalos, defuntos, demônios, caveiras etc., desde seus disfarces parecem tomados por uma agitação e uma ansiedade incurável. Só param de vez em quando para arrumar uma ferradura ou então nas portas dos botecos para implorar um trago ou uma moeda. Com suas feições zoomórficas assustam as madames mais distraídas, espiam o interior das casas pelas janelas, interrompem o trânsito, vão ao rio dar de beber a seus sedentos e exaustos cavalos e, de tão bêbados, muitos acabam o dia como pêndulos sobre eles. É quase impossível definir o efeito das máscaras ( principalmente das demoníacas) sobre nossas emoções e sobre nossos sentimentos. Mesmo sabendo o pedigree de quem está por debaixo delas, impossível relacionar-se com “esse olhar que não olha” – como dizia Octavio Paz - sem ficarmos meio hipnotizados e meio abobalhados. Do lado do mascarado, é como se viesse esse murmúrio: “Ah, se eu pudesse ser outro! Mas não há esperanças! Sou o que sou; como poderia libertar-me de mim mesmo?”

Ezio Flavio Bazzo

terça-feira, 2 de junho de 2009

Pasmosos viajeros! Y qué nobles historias leo en vuestra mirada, profunda como el mar! (C.B)


As turbinas continuam rugindo com a mesma fúria e po­tên­cia. Agora já posso ver Dakar constando no mapa e também Abidjan, com seu Centro hospitalar de Fann. Um pouco mais em cima estão Casablanca, as costas marí­timas inteiras do Marrocos, Funchal, as Ilhas Espanholas e Santiago de Compostela... Na direção do Oriente Médio, a Síria, com seus bîmâristâns locais não apenas de loucura, mas também de sabedoria. As viagens va­lem por estes mo­mentos em que se está levitando e transitando entre um mundo e outro.

Já me surpreendi desejando que a viagem fosse um fim em si mesmo. Que o avião apenas desse razantes sobre o mundo e voltasse para o meio das nuvens, para o meio da noite, da solidão este­lar, para que assim não ti­vesse que in­ter­romper meus devaneios nem minha vagabundagem ir­remediá­vel. "O louco não é aquele que perdeu a razão - escrevia Chesterton - mas, pelo contrário, é aquele que perdeu tudo, menos a razão". As ci­dades, as vilas, os reinos, os estados, os mares tenebrosos, as gelei­ras glaciais, as nuvens carregadas de raios vistas aqui de cima, se revelam de uma conotação e de um sentido que lá em baixo não se en­contra. Aqui de cima posso dar-me ao luxo de olhar para a Iuguslávia em guerra, para os mísseis que caem sobre a tabacaria da família Miselovich; para os ju­deus e os pa­lestinos tomados pela desconfiança mútua, e ser ora esoté­rico, ora cartesiano, ora metafísico, ora pragmático e até mesmo um filósofo de araque, sem ter que prestar contas de meus devaneios ecléticos a nenhum espia e a nenhum guardião, seja do judaísmo, do islamismo, do cristia­nismo ou do paganismo. Ah, desde este lugar aqui entre as nu­vens é que se pode experi­mentar verdadeiramente o prazer da invencionice, da irreve­rência e, principalmente, da liberdade de não pertencer a nenhuma confraria de pés sujos. “O homem da modernidade é efetivamente um homem frágil, desarmado e isolado. É o homem da tecnologia fria e dos afetos fragmentados. É o homem do exílio interior. Esquizóide fora dos muros do hospital psiquiátrico; esquizofrênico no interior dos muros”. Basta um raio ou uma turbulência para despedaçá-lo.

Cheiro de café, as luzes se acendem, as aeromoças trocaram de roupa e parecem tão ansiosas quanto os passageiros. Uma fila quase interminável para a toalete e um odor desagradável no ar. Entramos em território francês. Lá está Marseille, mais acima a cidade de Chartres com sua catedral cigana e logo de­pois, Paris. Se lá por cima das nuvens o dia já havia amanhe­cido e um sol vermelho e manhoso esculpia desenhos dalinianos no meio do aparentemente infinito, aqui no Charles de Gaule, chuvisca e faz 12 graus. Sinto que voltar a Paris é sempre um desas­sossego. Essa aparên­cia de imutabili­dade impressa em tudo coloca ainda mais em evi­dência a nossa triste efeme­ridade. A primeira vez que desem­bar­quei aqui, tinha vinte e um anos, cinco dólares no bolso e, na ca­beça, todas as ficções que um homem da­quela idade podia ter: es­tradas, tocas, música, pequenos trabalhos, albergues, ilhas, Wilhelm Reich, heroísmos, mar­quises, estações, amores fugidios, espeluncas, jejuns, Herman Hesse, as praças, Sartre, Marcuse, a liturgia dos intelectuais da Escola de Francfurt, o sol, o arroz integral, George Oshawa, na­vios e até uns tragos de Lacrima Christi, o melhor vinho da re­gião do Vesúvio.

Pouco depois, enquanto ia caminhando em dire­ção ao me­trô tomava consciência de que o mundo e as coisas daquela época ainda permaneciam integralmente gravados e ar­quivados na biblioteca ar­queoló­gica de meus sonhos... Apesar do deleite pelos himalaias-do-prazer, a consciência da inevitável transitoriedade de tudo me obrigava a fechar as asas e descer o mais rápido possível para o território pobre e inóspito da realidade, onde as palavras - por sorte - não conseguiam ser mais sedutoras, nem mais misteriosas e nem mais terríveis que os fatos.

(fragmento do livro: Dymphne, a santa protetora dos loucos)

Ezio Flavio Bazzo