"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Do Self Service ao carnaval de bactérias


Para nós a quem a simples obrigação de ingerir outros seres ou coisas sempre nos pareceu um defeito grave e injustificável da natureza, a necessidade de comer três ou mais vezes numa única jornada sempre foi vista como uma verdadeira desgraça para a humanidade, um ritual compulsório e fútil que com a propagação dos tais self service e suas devidas bactérias tem transformado a sobrevivência quase num milagre.


Idealizado pelos comerciantes e pelo capitalismo para dispensar funcionários e para incrementar os lucros, o self service se foi um avanço em se tratando de postos de gasolina, de agências bancárias, de banheiros públicos, estações ferroviárias etc., foi um desastre para a saúde pública. Quem é que por mais suíno que seja já não sentiu nojo diante daquelas comidas expostas, daquelas panelas respingadas, remexidas e coaguladas onde se misturam cabelos, salivas e salmonelas das mais variadas origens? Como as pias e os banheiros estão quase sempre situados nos fundos dos restaurantes, os clientes chegam vorazes e famintos da rua, do trabalho, do motel, da privada e vão logo avançando sobre aquelas carnes já em putrefação, aqueles brotos, aquelas folhas, aquelas raízes, molhos, caldas, sementes, farinhas, ostras, pescados, rabos de porco e laranjas descascadas. O Cury causa expiro em uns. Outros riem enquanto se servem, outros se coçam, as mulheres jogam a cabeleira para as costas. Outros aproximam o nariz das baixelas, enfiam o dedo no purê, deixam as banhas da barriga lambuzar-se no vatapá. Não é possível que todo esse ritual diário de horror não tenha mais repercussão alguma no amor próprio dessa espécie...


Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O exotismo delirante do mundo


O mundo está realmente cada vez mais exótico, fascinante, estressante, delirante, com o pulso cada vez mais acelerado e idêntico aos tenebrosos nosocômios do passado. A ruína do sistema financeiro internacional – por exemplo - que sempre foi um sonho de todos os libertários dos anos setenta acaba de acontecer. O Senador Jarbas Vasconcelos acaba de descobrir, estupefato, que seu partido é um ninho de víboras interesseiras e de corruptos. O primeiro ministro das finanças do Japão apareceu cheio de tragos para a reunião do G7. Uma brasileira em Zurich se tatuou o corpo com um estilete e tentou culpabilizar os carecas Nazis, trazendo à tona as discussões seculares sobre os rituais e os mistérios da histeria tão exaustivamente descritos pelo velho Charchot e pelo Monsieur Freud. Um professor é despedido na periferia de Brasília porque deixou seus alunos ouvirem uma música que insinuava o lesbianismo da cantora. Um apartamento de bosta custa trezentos mil euros no DF. O veterinário da esquina quer fazer um exame de sangue em meu cachorro antes de prescrever-lhe um carrapaticida. Os funcionários públicos continuam digladiando-se por uma mesa e por duas folhas de papel; alguns corvos derrubaram um avião nos EEUU; O Sr. Chaves poderá manter-se no poder até a eternidade... Os três mil prefeitos que estiveram fazendo demagogia na cidade, na semana passada, inflacionaram não apenas o mercado de táxis, mas também o da prostituição. Vargas Vila estava correto. Viver é prostituir-se! A vida mancha!


Ezio Flavio Bazzo

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Maestros, obras primas & loucura


“O efeito, mais embaraçoso do que desagradável, é algo como presenciar a revelação acidental da nudez de um homem idoso. Você não quer olhar novamente, mas sabe que não conseguirá se esquecer. Este disco é uma mancha indelével que irá pairar para sempre sobre a voz do século.”

É com esta referência a Pavaroti, que Norman Lebrecht conclui a parte de seu recente livro dedicada às 20 gravações que nunca deveriam ter sido feitas.

Publicado na Inglaterra em 2007 e lançado no Brasil recentemente, Maestros, obras primas e loucuras é um livro que, apesar de em alguns aspectos parecer-se a um prontuário é uma preciosidade, não apenas para os iniciados, os veteranos ou os profissionais da música, mas para qualquer um, amador ou leigo que queira inteirar-se ou tomar conhecimento dos conflitos, das disputas, vaidades e das guerras interpessoais que ilustraram o universo musical clássico, principalmente, nas primeiras décadas do período revolucionário que representou o surgimento da indústria fonográfica no ocidente.

Dividido em três partes: I. Maestros; II. 100 obras primas da gravação e III. 20 gravações que nunca deveriam ter sido feitas, numa linguagem simpática e atraente o autor nos proporciona além de detalhes da trajetória do mundo profissional e íntimo dos grandes músicos a história do início, do auge e da decadência da indústria fonográfica da música clássica. A ópera, o concerto, a sinfonia que até então só podiam ser apreciadas ao vivo e em ambientes quase sacros, agora, através de uma pequena engenhoca podiam ser congeladas numa fita magnética, reproduzidas profanamente aos milhares e serem vendidas como outra mercadoria qualquer, não apenas nos guetos cultos e refinados da época, mas em qualquer feira popular do planeta e em qualquer confraria underground.

Alguns anos antes da invenção do gravador era quase impossível imaginar que tanto a sofisticação da música clássica como o rigor germânico do velho Karajan – por exemplo - chegassem a extrapolar as abobadas granfinas e luxuosas das óperas para ganharem as ruas e povoarem o mundo da plebe. Ver Beethoven, Bach e Schubert serem negociados e ouvidos nos mercados, nas salas dos dentistas, nos carros, nos elevadores, nas ferroviárias, nos saguões dos aeroportos e até mesmo nos radiozinhos dos mendigos parecia a maior de todas as profanações.

Foi em 1877 que aconteceu a primeira gravação de sons. O próprio Thomas A. Edison inaugurou o instrumento inventado por ele cantarolando Mary had a little lamb e claro, com o grande Caruso berrando suas Árias. Porém, só lá por 1920 – como lembra o autor – é que “nasceu a gravação como ato musical separado e distinto da execução ao vivo”.

Se para alguns a novidade era o máximo, uma via através da qual a precisão e a velocidade poderiam transcender a inspiração como objeto da execução, para outros, mais cautelosos, “o ato de gravar ia contra a própria natureza da execução musical”. Mas tudo foi superado e atropelado pela voracidade da indústria e do progresso. A perda do espetáculo único e ao vivo de uma audição foi compensada pela possibilidade de eternizar um concerto, de aperfeiçoar uma execução, regravar, comparar e de fazer durar aquele momento para sempre. Sem falar, evidentemente, dos lucrativos negócios que a inovação representava.

Autor de uma dezena de livros sobre música, entre eles O mito do maestro, Norman vai tecendo ao longo do livro, com rigor, mas também com certa ironia a rede de negócios, intrigas, disputas, neuroses, decepções, falências, invejas, fortunas e colapsos que marcaram as primeiras décadas pós-gravador. O livro permite que o leitor tenha uma visão pouco conhecida de como funcionou a indústria e o comércio fonográfico naquele momento histórico, com seus exageros, “golpes baixos” e manipulações, tanto dos músicos e compositores como do próprio público consumidor.

Aqueles que se interessam pelo nexo e pela relação que sempre houve e que sempre haverá entre o Ser, a arte e a loucura, entre a máscara usada para fascinar o público e a máscara usada na intimidade, entre aquilo que ocorre secretamente nos bastidores da vida de cada um e o show que se encena para a platéia gostarão imensamente desta leitura. Mesmo com uma leitura apressada das mais de trezentas páginas desse livro, impossível não dar uma atenção especial às notícias e às histórias sinistras ocorridas nos camarins e nos bastidores da existência desses gênios da música clássica. Histórias e tragédias que além de nos colocarem novamente frente à dolorosa condição humana, nos fazem refletir e até ressignificar conceitos, idealizações e mal-entendidos que, normalmente conservamos a respeito dos músicos e dos artistas, bem como do mundo erudito e mítico da musicalidade e de seus atores. Vamos aos fatos:

− Enrico Caruso morreu aos 48 anos de pleurisia, enquanto estudava o papel de Eleazar na ópera La juífe, de Halevy;
− Toscanini teve um lapso de memória em 1954, enquanto regia a abertura da Tannhauser, de Wagner. Abandonou a batuta e morreu três anos depois;
− David Munrow - fagotista do Teatro Real Shakespeare - suicidou-se em maio de 1976, aos 33 anos, no meio de uma atormentada vida amorosa.
− Klaus Tennstedt, após o sucesso de sua apresentação da Oitava Sinfonia de Bruckner, “desajeitado, vacilante e inclinado ao consolo etílico desfez-se em lágrimas durante um ensaio e teve um colapso nervoso pouco tempo depois”;
− Karajan, que apesar de sua genialidade não era muito bem visto no meio, por seus antecedentes próximos ao nazismo, ao saber que Emil Jucker tivera um acidente vascular cerebral durante uma de suas apresentações, comentou: “as pessoas que se colocam contra mim sempre se dão mal”;
− Mais tarde, Herbert Von Karajan enquanto dirigia o segundo ato de uma récita de Don Giovanni sofreu um infarto e saiu carregado em uma maca. Dois anos depois de sua morte, Ohga outro chefão do mundo das gravadoras foi submetido a uma cirurgia cardíaca;
− Edward Lewis, um dos poderosos da gravadora Decca, quando viu sua empresa despedaçar-se, morreu de leucemia. “como se fosse incapaz de continuar acompanhando a liquidação pedaço a pedaço de sua querida empresa”;
− O húngaro Bartók também sofria de leucemia;
− A Tosca foi o último papel que a grega Callas cantou no palco, antes de se aposentar, em 1965, ferida no orgulho e no coração, quando o armador grego Onassis a deixou para casar-se com Jacqueline Kennedy;
− Kleiber, magoado e deprimido depois que intrigas vienenses o colocaram no rol de solistas de qualidade inferior, abandonou a regência e foi encontrado morto na banheira de um hotel na Suíça;
− Solomon Cutner, com 51 anos, sofreu uma hemorragia cerebral após uma gravação e nunca mais voltou ao piano;
As crises de depressão de Rachmaninov, assim como a esquizofrenia e os colapsos nervosos de Horowitz eram conhecidas por todos;
− O pianista romeno Dinu Lipatti morreu aos 33 anos de idade, vítima de leucemia;
− Gustav Mahler morreu atormentado e na miséria em Londres. Sua famosa Canção da Terra foi um trabalho motivado pela morte de uma filha ainda bebê e pela perda de seu posto em Viena.
− Jussi Bjorling, conhecido como o “Caruso sueco”, sofreu um ataque cardíaco no palco do Covent Garden.
− Fritz Wunderlich, um dos solistas da Canção da Terra, dois meses após a gravação teve um acidente doméstico fatal com uma arma de fogo;
− David Munrow, especialista em música de Florença e pesquisador de música medieval, suicidou-se em 1976, com apenas 33 anos;
− Charles-Valentin Morhange, conhecido como Alkan, depois de confinar-se em seu apartamento em Paris por vinte anos foi encontrado morto sob uma estante de livros. Dizem que o acidente ocorreu quando tentava retirar o Talmude da prateleira;
− Alban Berg morreu de infecção generalizada em dezembro de 1935, aos 50 anos, deixando sua segunda ópera inacabada;
− Hensler teve um infarto e aposentou-se prematuramente;
− Morita sofreu uma hemorragia cerebral;
− Sinopoli, diretor musical da Ópera Alemã de Berlin caiu morto no meio de uma encenação da Aída, aos 54 anos de idade;
− O maestro Abrado teve um câncer no estômago;
− Nobuyuki Idei, chefe da produção da Sony, teve um colapso nervoso e assistiu à apresentação deitado numa cama de hospital;
− Glenn Gould, ao completar 50 anos teve um acidente vascular cerebral fatal e o piano perdeu uma de suas maiores lendas;
− Enquanto as drogas iam para o Rock a garrafa tornou-se a companheira dos clássicos. Vários executivos foram enviados para centros de recuperação. Um produtor da DG suicidou-se numa clínica da floresta negra;
− O maestro Klaus Tennstedt, após uma explosiva estréia em Boston – interpretando Mahler, respondeu com um colapso nervoso. O câncer na garganta e a insegurança levaram sua arte a um final balbuciante e trágico;
− O regente Georg Tintner, jogou-se de uma sacada aos 82 anos;
− Em 13 de 11 de 1993, no intervalo de um recital público dos Prelúdios e Fugas em São Francisco, Nikolayeva teve um colapso no camarim e morreu. Etecetera.

Apesar de o autor parecer sarcástico em alguns momentos no detalhamento de todo esse rosário de desgraças e de convulsões que marcaram a existência desses homens, a obra é um relato fundamental tanto para o mundo da música como para o universo da psicopatologia. Um daqueles textos cada vez mais raros que nos proporcionam saber e prazer ao mesmo tempo.

Ezio Flavio Bazzo

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O corregedor e os irmãos Grimm


O caso do deputado e corregedor que construiu um castelo nas montanhas temperadas de Minas, as movimentações teatrais e corporativas, a mídia e o clima geral ao redor desse assunto têm turbinado o humor e a euforia de muita gente neste final de semana. Pelo exagero do escândalo dá até a impressão de se tratar realmente de uma perseguição contra o nobre político, uma vez que, por um lado, existem dezenas de mansões na cidade que valem bem mais que um simples castelo, e por outro, que muitos de seus colegas de Congresso são donos de Estados, de Bancos, de latifúndios imensos e sem grandes problemas... Mas voltando à euforia, o auge do gozo popular aconteceu quando aquele homem simplório, com a estatura de Toulouse-Lautrec perguntou indignado aos seus detratores: “Eu estou sendo julgado por qual tribunal?” Pelo tribunal da impotência – muitos gostariam de ter respondido. Independente dos vinte e cinco milhões, o que mais importa nessa história é a hipótese de que a literatura infantil pode estar fazendo muito mal ao imaginário de nossa gente e que as marcas dos irmãos Grimm tendem a ficar bem mais profundas na personalidade de nossas crianças de que as de Kant e as de Marx – por exemplo. Além disso, é bom lembrar que o nobre corregedor não é o único brasileiro que ao sobrar alguns centavos corre construir ou comprar um castelo. Até o intelectual e escritor "mais importante" do país tem o seu lá no interior da França. Enfim, nós que tememos o tédio como os religiosos temem o demônio devemos admitir - como diria Diderot – que esse eterno espetáculo do ataque polido e da graciosa repulsa é um dos mais divertidos da terra.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Quando andar de ônibus é uma espécie de eutanasia


São inumeráveis os intelectuais, os estudiosos e os especialistas no processo civilizatório que afirmam sem pestanejar que um país e um povo se conhecem basicamente por suas bibliotecas, por seus rios e por seu judiciário. Eu agregaria mais um elemento: por seus ônibus. Quem viu ontem aquela carcaça velha tombada, enferrujada, ensanguentada e aos pedaços nas proximidades do aeroporto sabe de que estou falando. De rodas para o ar, corroído pela ferrugem, fora do prumo, com as rodas empenadas, os pneus carecas, o motor vazando, o escapamento furado etc., o esqueleto daquele ônibus parecia um imenso espelho refletindo nossa nefasta negligência e nossa confusa personalidade. Ao invés de querer fazer do motorista um bode expiatório, o Ministério Público deveria exigir tanto da empresa como do Estado uma indenização milionária a favor daquele homem que, por razões conhecidas por todos, era obrigado a circular todos os dias, durante décadas e de maneira suicida no interior daquele traste e daquela lataria velha. Com os olhos fixos no gotejar do combustível daquela carroça desfigurada lembrei-me da frase que Crates disse a seu filho quando o levou pela primeira vez a um bordel: foi assim, filho, que se pai se casou.


Ezio Flavio Bazzo