"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Viver faz mal para a saúde


Não é novidade para ninguém que uma das obsessões de nosso tempo é a longevidade. Mesmo aqueles que não sabem o que fazer num simples sábado à tarde e que são o tédio ambulante, mesmo eles lutam com todas as forças para durar. Mas são muitos os obstáculos e as conspirações em contrário. A última notícia que recebi foi me prevenindo de que o bacon e o presunto podem provocar leucemia. Ontem me mandaram uma nota demonstrando que o leite provoca câncer na próstata, e na semana passada uma tese que demonstrava ser a garrafa plástica da água mineral um veneno mortífero. Já me alertaram de que o uso dos adoçantes artificiais está relacionado às demências, o café aos distúrbios do sono e o vinho à pressão alta e às tremedeiras do Parkinson. O chá verde dispara o coração de qualquer um, o cigarro apodrece o pulmão, a cachaça destrói o sistema nervoso central, os tomates são autênticas cápsulas de inseticidas, a pasta de dentes é pura química, o chocolate é basicamente manteiga e tem uma fórmula monstruosa, sem falar da cadaverina presente em todas as carnes e que leva os carnívoros à idiotia. Consumir açúcar, sal, refrigerantes, ovos, gorduras, farinhas etc. é obesidade, diabete e impotência certa. E o pior é que eu, do alto de meus 59 anos, acredito em tudo isso. E não só acredito como tenho certeza que quase tudo o que ingerimos no nosso dia-a-dia é impróprio, maléfico, quase putrefato e mais, que até mesmo viver faz mal para a saúde. Talvez só o jejum absoluto nos poupasse temporariamente da ruína e da devassidão física e mental. Esse tema: trágico e cômico - lembra a observação de Cioran, para quem os transtornos da velhice são uma espécie de autocrítica da natureza.

Ezio Flavio Bazzo

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Em defesa dos filhos de Caim


Nas últimas semanas, aproveitando o chamuscamento dos azulejos do Athos Bulcão nas paredes da igrejinha da 307/308 a cidade tem expressado abertamente seu nojo e sua cólera contra os mendigos. Algumas beatas chegaram mesmo a lembrar o assassinato cruel do índio Galdino, outros mencionaram as “limpezas” históricas que já foram realizadas no Rio, em SP etc., e os mais eruditos rememoraram a Paris do séc. XVII quando eles eram considerados filhos de Caim e mantidos fora dos muros da cidade. Apesar de todos os argumentos higienistas, há uma injustiça e uma arrogância desmedida nesse nosso descaso e nessa nossa indiferença. Humilhados nas escadarias dos mercados, nos fundos dos restaurantes, nos semáforos, nos terrenos baldios onde acampam e apodrecendo literalmente diante de nossas casas, só lhes faltava mesmo a proibição de freqüentar os pátios das igrejas onde costumam implorar migalhas e centavos para comprar um osso ou mesmo um copo de cachaça. Vagabundos? Preguiçosos? Cachaceiros? Irresponsáveis? Aqueles que pensam assim, que desçam de suas coberturas fiquem um dia sem comer, sem escovar os dentes e saiam em busca de um emprego para ver o que acontece. Além disso, existe um argumento muito mais terrível para calar os queixosos: eles são hoje o que nós fomos ontem. Muitos de nós também chegamos aqui nesta cidade sem uma pedra onde repousar a cabeça. Enfim, como dizem os esotéricos e os próprios cristãos: se você não abrir seu coração hoje, amanhã algum cardiologista terá que fazê-lo.

Ezio Flavio Bazzo

Religion is das Opium des Volke


"Se 50 bilhões de pessoas acreditam em uma coisa estúpida,
essa coisa continua sendo uma coisa estúpida."
Anatole France


Nas últimas décadas - por sorte - o mundo não viu apenas o crescimento vertiginoso de religiões, de sectarismos, de seitas, desvarios místicos e de fundamentalismos associados à submissão, ao terror e à fé. Vem testemunhando também a contra investida de livres pensadores, de líderes laicos, filósofos e intelectuais ateus de todos os matizes que, cientes de que as religiões podem ser extremamente nefastas e maléficas acreditam que é possível ser honesto, ético, verdadeiro, menos salafrário, criativo, competente e até mesmo espiritualista sem Deus. No meio de uma bovinização sobrenatural e mística de causar espanto, esses estudiosos vêm produzindo importantes trabalhos - sobre a religião, a fé e a crença num suposto Deus que, do anonimato, gerenciaria o mundo - fazendo-nos tomar consciência de que por debaixo da aparente democracia do velho axioma "religião e política não se discutem" havia - e há - um sutil artifício de censura e de interdição do esclarecimento pessoal que pode muito bem ter sido responsável pelo estado de alienação e de atraso em que os países latinos em geral - e o Brasil em particular – se encontram atualmente, tanto no universo da política como no da religiosidade. A crença num ou noutro Deus ou em nenhum, a filiação a esta ou àquela religião ou a nenhuma, tem sido o motivo principal daquelas tão bem conhecidas discórdias e mixórdias que vieram pelos séculos a fora regando a terra de imposturas e de sangue.

Entre os livros recentes, traduzidos para o português, podemos mencionar Deus, um delírio, do biólogo norte americano Richard Dawkins, Carta a uma nação cristã, do filósofo de Stanford, Sam Harris, e o Espírito do ateísmo, do pensador francês André Conte-Sponville. Três ensaios mais do que oportunos que, sem nenhuma sisudez e sem nenhuma fobia conectam-se entre si principalmente pela consciência de que o ateísmo não é o fim do mundo e que o fanatismo e o irracionalismo religioso são igualmente insalubres tanto para a civilização como para as sociedades. Além dos esclarecimentos concernentes à crença no suposto Design Inteligente, o que é precioso nesses livros é tanto a sinceridade como a objetividade com que os autores tratam os absurdos, os erros, as ficções, as irracionalidades e as neuroses inerentes às crenças no sobrenatural que, mesmo estando presentes em todo o planeta, inclusive em países influentes como os Estados Unidos, causam muito mais estragos naqueles atascados na pobreza e no subdesenvolvimento. Para Harris, o fato de quase a metade da população norte americana ainda acreditar na vinda do Messias, na idéia de que o mundo está prestes a acabar – e mais – que o fim será glorioso deve ser considerada uma emergência moral e intelectual.

Além do resgate das idéias anticlericais e ateístas clássicas, esta tríade de pensadores contemporâneos chama atenção para o fato de que tanto a pregação da intolerância religiosa contra os "infiéis" e contra os "ateus", como a interpretação ao pé da letra dos ditos livros sagrados, além de desrespeitar a liberdade individual e de interditar os avanços das Ciências podem colocar em risco até mesmo a sobrevivência da humanidade. Neste particular, - sem falar do dogmatismo religioso a respeito de questões como o aborto, a transfusão de sangue, o uso de preservativos, as células tronco etc. -, é importante lembrar que em muitas daquelas escolas primárias dos EEUU onde a Bíblia é usada como livro didático, continua sendo proibido mencionar o nome de Darwin assim como fazer menção às suas teorias evolucionistas. Daí o espirituoso alerta de Harris: "Os que têm o poder de eleger presidentes, deputados e senadores – e muitos dos que são eleitos – acreditam que os dinossauros sobreviveram aos pares na arca de Noé, que a luz de galáxias distantes foi criada a caminho da Terra e que os primeiros membros da nossa espécie foram modelados a partir do barro e do hálito divino, em um jardim com uma cobra falante e pela mão de um Deus invisível." E o mais bizarro de tudo isso, é que esse Deus absconditus tem sido o motivo principal de muitas chacinas, de muitas imposturas e de incontáveis sofrimentos. Se pelo menos aparecesse, desse uma pista aos homens de pouca fé. Mas não, prefere o anonimato e a clandestinidade. Insiste em habitar no invisível, fato que para o filósofo Sponville, é simplesmente espantoso. Um Deus que se esconde com tanta obstinação! "Seria mais simples e mais eficaz – diz – Deus consentir em se mostrar, pois se quisesse que eu acreditasse nele resolveria num instantinho esse assunto. (...) Um Deus oculto! "Os humanos só se escondem quando têm medo ou vergonha. Mas Deus?" Para Dawkins, um dos efeitos verdadeiramente negativos da religião é que ela nos ensina que é uma virtude satisfazer-se com o não-entendimento. Sim, a religião permite – segundo também Harris – que as pessoas imaginem que suas preocupações são morais quando não são – isto é, quando elas não têm nada a ver com o sofrimento ou com o alívio do sofrimento. A religião permite que as pessoas imaginem que suas preocupações são morais, quando na verdade são altamente imorais – isto é, quando insistir nessas preocupações inflige um sofrimento atroz e desnecessário em seres humanos inocentes.

Mas ser ateu não é necessariamente uma opção glamurosa e nem tão fácil como se pode pensar. Pesquisas tanto lá nos Estados Unidos como aqui no Brasil e em outros países já demonstraram que a população que votaria num candidato ateu à Presidência da República – por exemplo - é mínima e que os eleitores elegeriam com muito mais tranqüilidade (apesar do racismo e da homofobia vigente) um candidato que fosse bandido, negro ou homossexual. "Se você tem razão ao acreditar que a fé religiosa oferece a única base real para a moralidade – escreve Harris -, então os ateus deveriam ser menos morais do que as pessoas de fé. Na verdade, os ateus deveriam ser totalmente imorais. Será que são mesmo? Será que os membros das organizações de ateus nos Estados Unidos cometem crimes violentos em proporção maior que a média? Será que os membros da Academia Nacional de Ciências, dos quais 93% não aceitam a idéia de Deus, mentem, enganam e roubam deslavadamente? Podemos estar razoavelmente seguros de que esses grupos se comportam pelo menos tão bem quanto à população em geral." Não tenho uma idéia muito elevada da humanidade em geral e de mim mesmo em particular para imaginar que um Deus esteja na origem desta espécie e deste indivíduo, - declara Sponville para explicar seu ateísmo. E é esse mesmo filósofo materialista e racionalista que acredita que prescindir de religião não o obriga a prescindir de espiritualidade e que ser ateu não significa abandonar seu espírito aos padres, aos mulás ou aos espiritualistas. Intervenções como a de Harris e a de Sponville bem que poderiam induzir o universo religioso a ser mais tolerante para com os céticos e com os ateus, pois está provado, por um lado, que o ateísmo é compatível com as aspirações básicas de qualquer sociedade civil, e por outro, que a crença generalizada em Deus não é garantia para a saúde física e nem para a saúde mental de ninguém, pelo contrário. Entre seus correspondentes Harris lembra que os mais mentalmente perturbados sempre citam capítulos e versículos bíblicos. Em Carta a uma nação cristã, o filósofo norte americano lembra ainda que embora se acredite que acabar com a religião é um objetivo impossível, é importante perceber que ele já foi alcançado por boa parte do mundo desenvolvido. Noruega, Islândia, Austrália, Canadá, Suécia, Suíça, Bélgica, Japão, Holanda, Dinamarca e o Reino Unido estão entre as sociedades menos religiosas da terra. De acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (2005), essas sociedades também são as mais saudáveis, segundo os indicadores de expectativa e vida, alfabetização, renda per capita, nível educacional, igualdade entre os sexos, taxa de homicídios e mortalidade infantil. Inversamente, os cinqüenta países que ocupam os lugares mais baixos, segundo o índice de desenvolvimento humano das Nações Unidas, são inabalavelmente religiosos.

Enfim, as leituras aqui mencionadas são obrigatórias a qualquer um, - ateu ou crente - que queira estar à altura de sua época, pois o dogmatismo e o obscurantismo são temas aos quais ninguém em sã consciência pode ficar indiferente. É chegado o momento do sujeito tomar as rédeas de sua vida nas próprias mãos e daqueles que quiserem compreender as sutilezas e os truques do processo de fanatização e de massificação que tanto tem empobrecido a existência, lembrarem que quando se leva as vítimas (principalmente crianças, miopes e ignorantes) por um caminho já conhecido elas não percebem que as estamos levando para uma armadilha. "Seria um erro abandonar o terreno para eles" diz o filósofo francês, sem saber que nosso Congresso Nacional, nosso Supremo, nossa Imprensa, e nossas TVs já estão completamente tomadas. "A luta pelas Luzes continua, raramente foi tão urgente, e é uma luta pela liberdade."

Para aqueles que não vivem sem álibis e que estão acostumados a fazer jogo duplo com tudo, inclusive com as coisas da eternidade, Dawkins lembra que quando perguntaram a Bertrand Russel o que ele diria se morresse e se visse confrontado por Deus, exigindo saber por que Russel nunca acreditou nele, este teria respondido: "Não havia provas suficientes".

Ezio Flavio Bazzo

A tentação de ressignificar o mundo


Tanto em versos como em prosa, os textos de Plínio de Aguiar produzem sentimentos contraditórios: uma espécie de arrebatamento estético por um lado e um desconforto existencial por outro, como se, através de seu engenho poético estivesse instigando seus leitores a exigirem da vida, e do mundo, nada menos do que o impossível.


A impaciência e a aflição que se adivinham escondidas em cada verso nos remetem àquele velho literato argentino para quem o estado perfeito do homem “es um estado de ansiedad, de anhelación y de tristeza infinita...”. Cito Borges, porque é conhecida e indiscutível a minha preferência pela prosa.

Assim, ao invés de mencionar apenas poemas de Plínio, contidos em Lira rústica, permito-me tornar públicos alguns fragmentos impressionantes que o poeta baiano registrou em suas cartas recentes:

“...andava à noite pela orla, vendo o mar negro como um imenso caranguejo que no futuro breve devorará as praias, as cidades vizinhas, que virarão esqueletos de concreto...”

“Daqui a uns 4,5 milhões de anos o sol apagará. Talvez fique só a beleza do ato, no fundo de tudo só fica alguma beleza, efêmera também. Talvez a concepção platônica de idéia de beleza igual à de verdade seja uma boa. O belo é verdadeiro, o verdadeiro é belo. O espetáculo das torres é de uma beleza sem fim, apesar de dantesco e cruelmente verdadeiro. Além de tudo isso, não me levo muito a sério, aliás deixei de levar-me há muito tempo, o que contribuiu para meu autoconhecimento...”

E não me esqueço que é a ele que devo, além do privilégio da amizade, o interesse e o fascínio por dois dos mais importantes autores “marginais” de nosso tempo: Jean Genêt e Yokio Mishima. O primeiro, um poeta da transgressão erótica, defensor dos Panteras e autor de Diário de um ladrão. O segundo, autor de Sol e aço, traduzido por Paulo Leminski, era cultor das artes marciais, e um homem que não vacilou nem mesmo na hora H, quando, num ritual de protesto, praticou o seppukku, abdicando da vida. Curiosamente, só agora, quando trago à tona estas lembranças, dou-me conta de que nos textos de Plínio, até mesmo num bilhete improvisado, existe uma insistente fusão entre erotismo e arte marcial. Por exemplo, nos seguintes fragmentos de dois poemas:


“Olhar, construir o modo de morrer/
narrar como se fosse importante/
o homem que come dorme trepa...//”
(Ferrovila)

“Há de odiar o teu sono, que resvalou/
escorpião de entre os pelos tímidos/
do precipício de tuas nádegas/
ao sinal discreto da nuca,/ alva.//”
(Sono em close)

Professor, filósofo, faixa-preta de karatê. Perfil mais do que suficiente para construir um texto que não apenas impacta, mas que — como escreveu Freud a respeito dos poetas — nos suborna com o prazer que a exposição de suas fantasias nos proporciona. Mas, é bom saber que o autor de Lira rústica não é apenas isto, é também um tipo novo de místico... sim, de místico, que inclusive acaba de asilar-se no sertão:

“Do quarto de onde escrevo sigo olhando para o jardim da casa, vejo rosas brancas, amarelas, rosas rosas, o sol ensaiando seu quotidiano implacável na caatinga, silêncio, ar puro, estou no sertão...” (Fragmento de carta).

Ezio Flavio Bazzo

De Agulhas e de Palavras


"Quanto mais o opressor é vil mais o escravo é infame".

Chateaubriand

Viver não é simplesmente uma queda horizontal como apregoava frivolamente Cocteau durante uma de suas últimas crises e purgações opiáceas, mas uma queda em rodopio e em parafuso. Por mais nauseabunda e incômoda que seja essa caída, pelo menos -e isto temos que admitir - é ela que nos garante o estado de atordoamento e de embriaguez necessário para suportar as asneiras da existência.


Os olhos negros e fixos da dentista a um palmo de minha boca parcialmente destroçada! O sugador e os tufos de algodão não dão conta de absorver o sangue e a saliva que brotam de todos os lados de minhas mandíbulas como um pântano no período das chuvas... Apesar dos anestésicos que fizeram parte de meu nariz e do meu maxilar superior «desaparecerem», sinto os alfinetes de aço rosqueados que ela introduz delicadamente até o fundo do canal... Canal do Panamá... Canal de Corinto... Canal Vaginal… Canal da Mancha... Ainda não se estudou exaustivamente os sedativos, nem os anestésicos e tanto os derivados da cocaína peruana como os da papoula birmanesa continuam imersos numa espessa neblina de ignorância. Um tombo aos oito anos... um murro aos 19... um acidente de moto aos 22... uma cotovelada acidental aos 40... Traumatismos ósseos! Fraturas precoces! Depois, quarenta ou cinqüenta anos depois, as engrenagens sistêmicas regidas pela sede de entropia ou pelo instinto de morte, se encarregam de absorver a raiz e de engendrar o exército de banguelas que todo mundo conhece... E só quem já perdeu um canino ou um molar é que sabe o quão profundamente suas raízes estão encravadas na auto-estima, no amor-próprio e no narcisismo do sujeito. Sartre e Reich -segundo suas detratoras mulheres - caiam em depressão sempre que tinham que arrancar algumas de suas presas apodrecidas... E é conhecido o questionamento de Colete depois de uma destas sessões de horror:

- "Por quê não se pode simplesmente arrancar todos os dentes e substituí-los por jade verde?"

Teria sido ela a precursora dos implantes dentários? Você não lembra de Colete? Foi uma das escritoras francesas mais audaciosas. Apesar de lésbica, com quase 50 anos transou com seu enteado adolescente. Deformada pela artrite, era vidrada em gatos e gostava de provocar as feministas acusando-as de só merecerem duas coisas: o harém e o chicote. Apesar de um de seus maridos ter sido judeu, não deixou de incluir textos anti-semitas em seu romance Julie de Carneilhan. (White, E. 2001, pp 34 a 43.) Apesar do incômodo desta posição semi-horizontal, sinto que além das agulhas, há algo nesta dentista (um gesto, uma palavra, um olhar, uma ausência) que me tranqüiliza. Enquanto ela trabalha entre meus caninos pontiagudos, espio por entres seus dedos o fundo de seus olhos, os buracos de seu nariz, o movimento sutil de sua respiração sob a máscara impecavelmente branca... Quando faz um determinado movimento para apanhar o sugador uma de suas tetas roça saborosamente a parte posterior de minha cabeça. Regrido! Não porque tenha sido um filhinho-da-mamãe ou um merda mimado, mas porque uma teta é sempre uma teta e porque qualquer tipo de intervenção cirúrgica empurra o sujeito para a regressão! Alguns cirurgiões sabem disso. Existe no «ser» uma carência natural da qual ninguém se cura... Hibernar dois ou três dias... voltar a mamar... Talvez a dentista devesse ser sempre uma babá... uma amante... uma meretriz que em troca de um preço tabelado faz também um delicioso cafuné no cliente... cobre-o de afagos, de elogios, mentiras e promessas... Os minutos de boca escancarada parecem séculos! No consultório ao lado alguém ligou a tv para acompanhar a fúria dos argentinos nas ruas.

- Estado de Sítio un carajo!

Ouço uma mulher gritando cinco ou seis das mentiras sociológicas clássicas. Paralelepípedos nas portas de blindex dos bancos. Garrafas com pavio e gasolina na entrada do Ministério da Economia... A Casa Rosada está cercada... Demolir! Demolir todo! Tudo bem, mas é importante lembrar que não teremos tudo demolido se não demolirmos até as ruínas. A mesma polícia de sempre lá, em fila, com seus fuzis, defendendo os pilantras de turno... Um tiro... um corpo ensangüentado. O discurso de um deputado lambuzado de escárnio repete o mesmo bê-á-bá de séculos. Os eufemismos dialéticos não foram e não são privilégios apenas dos esquerdistas. Hijo-de-puta! Seu tipo é grotesco e seu discurso parece querer extorquir a verdade. Algo dentro de mim conspira a favor do caos! As mães da Plaza de Mayo aparecem com seus lenços encardidos e seu lero-lero pacifista... É evidente que passaram a vida toda tentando subornar a própria consciência, pois ninguém consegue ser pacifista depois de ter um filho assassinado e esquartejado! Por que perderam o fascínio pela vingança? Pobres mulheres que tiveram suas crias degoladas pelo Estado e os pedaços jogados ao mar. Os assassinos institucionais, como todo mundo sabe, não estão longe... Mas cada dia vai se concluindo que não há o que fazer com eles. Assassino? O que é um assassino? O resultado de uma história e de uma cultura falaciosa. Se a «verdade» é um cão que deve ser relegado ao canil -como dizia um debilóide Shakesperiano, em O rei Lear - a «mentira» -por sua vez- se parece cada vez mais a uma famigerada, sedutora e lúgubre puta que rodopia no centro do mundo...

Ainda com a boca anestesiada e cuspindo sangue, desço pelo elevador mastigando sentimentos e palavras. Atravesso a rua em zigue-zague, meio tonto, roçando involuntariamente os joelhos nos pára-choques dos automóveis. Alguém num carro oficial, com uma cara de mujique aperta a buzina e ameaça atropelar-me. Fico paralisado por um momento, depois caminho furioso em sua direção. Aproximo-me pelo lado oposto e fazendo um esforço imenso para movimentar a língua e os maxilares, cuspo um pote de saliva sanguinolenta em seu pára-brisa. Vejo o horror, o nojo e o estresse nascer dentro de seus olhos. Tem um impulso imediato e homicida em minha direção, simula saltar do carro para agredir-me com uma barra de metal inoxidável, mas só até o momento em que lhe encosto uma arma de grosso calibre nos miolos. Se mija todo e implora para que eu lhe permita seguir vivendo sua vida de merda… O trânsito está congestionado, os motoristas se encolhem e levantam os vidros dos carros. Retiro o dedo do gatilho e prossigo minha marcha, convicto de que esse mundo é uma legião de monstros, de bufões e de babacas... Em cada volante a caricatura de um verme... de um assalariado... de um poupador... de uma dessas ratazanas inventoras da fé.

Na calçada um sujeito me reconhece. Ouço que fala em voz alta para a mulher que o acompanha:

- Aquele cara ali é aquele que escreveu o livro sobre bestialismo…

Envaideço-me facilmente quando falam de meus escritos. A rua fica momentaneamente vazia depois é tomada por dois carros da polícia militar: um pequeno com a sirene ligada, o outro, um camburão com um homem com a cara colada às grades como se, antes de ir para a jaula quisesse olhar mais uma vez para o mundo, para as promoções que o CONIC oferece e para as meninas que à tardinha se enfileiram na penumbra dos viadutos... "O Direito Penal não para de remeter gente para as prisões enquanto a prisão não para de reproduzir a delinqüência" escreveu em algum lugar o careca Foucault...

Não escondo minha curiosidade e nem meu asco pelos assuntos policiais. Como é possível que nas mãos do Estado a força se chame Direito, enquanto que nas mãos do indivíduo se chame Crime? O preso me lança um olhar de fúria irremediável... o policial também. Paradoxalmente os presos e os policiais são provenientes sempre do mesmo meio, da mesma classe social, dos mesmos engendros, da mesma família e da mesma cultura esquizóide. Um vai ser policial... o outro vai transgredir a vida... Um vai proteger o sono e o capital dos ricos o outro vai estar permanentemente colocando-os em risco... E são esses «irmãos» que vão travar as intermináveis batalhas cotidianas, os tiroteios aqui e acolá, que vão alimentar as chamadas «páginas policiais» e finalmente dar credibilidade à frase do velho Chateaubriand: "quanto mais o opressor é vil mais o escravo é infame". Sinto que a anestesia está passando. Cuspo um coágulo de sangue na calçada. O preso esboça um tímido sorriso, como se estivesse se identificando com meu gesto ignóbil e deplorável. É possível que nem imagine o inferno que o espera. Ou seria um preso habitual, um facilitador de morticínios? "Os tímidos -escrevia Norman Mailer, falando das penitenciárias- se tornam mesquinhos e desleais; os corajosos cruéis. Porque quando bravos e fracos são obrigados a conviver, a coragem vira brutalidade, e a timidez, vileza. O casamento de um homem corajoso e de uma mulher medrosa só perde em infelicidade para a união de uma mulher valente e um homem medroso. O sistema penitenciário perpetua tais relações..."

O semáforo abre e os dois carros arrancam ao mesmo tempo. Atravesso o fétido estacionamento em frente ao Conjunto Nacional respirando o mínimo possível e me perguntando: que porra de civilização é essa que ainda precisa conservar milhões de seus integrantes atrás das grades? Uma voz grave que brota do fundo de meus arquivos literários sussurra-me duas linhas de V. Hugo: Durante seis mil anos, a guerra/ adoram-na os povos belicosos/ e o demiurgo perde o seu tempo fazendo as estrelas e as flores.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Encontro de dois poetas no limbo


Cassiano Nunes morreu quatro anos, cinco meses e dois dias após a morte de Oswaldino Marques. Duas figuras respeitáveis da literatura e da poesia brasiliense. Apesar de em vida nunca terem se relacionado lá muito amistosamente os acontecimentos da existência de um e de outro guardam semelhanças, nexos e diferenças curiosas. Por exemplo: ambos morreram com 86 anos e de câncer. Oswaldino morreu no meio da tarde de um dia 13, uma terça feira e foi cremado num dia 15. Cassiano morreu no meio da tarde de uma terça-feira, também de um dia 15. Ambos eram professores aposentados de literatura na Unb. Os dois nasceram em cidades portuárias. Oswaldino em São Luis (MA) e Cassiano em Santos (SP). Ambos foram trazidos para a Universidade de Brasília na década de sessenta e por dois outros escritores. Oswaldino foi trazido por Ciro dos Anjos e Cassiano por Drumont de Andrade. Oswaldino demitiu-se para não fazer o jogo da ditadura militar, Cassiano aceitou o cargo para que a universidade não fechasse. Oswaldino deu aulas de literatura na Madson Wisconsin (USA) e Cassiano na New York University. Cassiano gostava de traduzir àqueles que considerava grandes, Oswaldino verteu para o português nada mais nada menos que W. Blake e que T.S. Eliot. Se Oswaldino tinha quase uma obsessão pela obra de Cecília Meireles, Cassiano não a tinha menos pela obra de Monteiro Lobato. Ambos viviam em casas repletas de livros e quase transformadas em bibliotecas. Oswaldino foi marxista e ateu radical até a morte. Cassiano foi liberal e idealista até o último momento. Oswaldino optou por um funeral discreto e laico, foi cremado com a presença apenas da família. Cassiano. Sem familiar algum por perto, não dispensou o ritual tradicional da capela e da lápide. Como dizem que os poetas quando morrem vão para o limbo, foi lá que esses dois homens de letras se encontraram na última semana. Quando Cassiano surgiu do meio das nuvens para a entrada do limbo, deu de cara com Oswaldino que, enquanto ouvia Lamentatione, de Haydn rabiscava uma ou outra página de seu conhecido livro Acoplagem no espaço. Olharam-se desconfiados e foi o Oswaldino quem quebrou o gelo de tantos anos.
Osw. – Seja bem vindo camarada Cassiano!
Cas. – Olá Oswaldino. Que grata surpresa! Continuo chegando sempre depois de voce...
Osw. – A ordem dos fatores não altera o produto. Retrucou Oswaldino, para em seguida perguntar: qual foi a causa mortis? Cas. – A mesma que te trouxe para cá. Câncer.
Osw. – Então a medicina continua a mesma baboseira inútil? Cas. - Tudo igual. Quimioterapia aqui, cobalto ali, exames acolá. Acho até que isso já faz parte de uma espécie de extrema-unção laica.
Osw. – Curiosamente acabamos sempre junto com nossas poupanças e economias... E as multinacionais dos medicamentos estão sempre lá, de plantão na sala dos oncologistas.
Cas. – Pois é. E o pior, é o desgaste que se é obrigado a ter a vida inteira na busca ilusória de um bom médico, ou – como dizia Câmara Cascudo – na tentativa de escolha entre os gatunos inteligentes e os jumentos honestos.
Osw. – Alguma novidade nesses quatro anos? Algum novo poeta?
Cas. - Tudo igual. O tédio tomando conta até das pedras. O mesmo lirismo e o mesmo cinismo da literatura e da poesia. De vez em quando um chato publicando um poeminha aqui, um cineasta fazendo um filminho ali, os jornais fazendo uma resenhazinha acolá ou reeditando os antigos cadernos literários. Mas nada transcendente. Ah, sim, o governo da Venezuela está mandando livros "revolucionários" para as escolas do GDF e concluíram, finalmente, o Complexo Cultural da República. Está lá, como uma imensa e albina tartaruga imobilizada pela burocracia e pela inércia nacional. Como demorou 45 anos para sair do papel é de se esperar que demore outros 45 anos para ter algum sentido. E por falar em burocracia, o governador atual baniu por decreto o gerundismo. Mas veja que tragédia, quando a noticia se espalhou, 99% da população descobriu que nem sabia de que se tratava. Novidade mesmo é que abriram um novo Beirute, lá na 107 Norte, bem em frente a uma igreja...
Osw. – Deus e o Diabo na Asa Norte! Num lado a cachaça e no outro o ópio...
Cas. - Pois é, agora vamos ver quem é que catequiza quem. Olhando para os lados Cassiano perguntou: que tal este lugar? O Papa não havia excluído o limbo?
Osw. – Excluiu, mas só no papel. Com todas minhas ressalvas com relação aos papas e ao Vaticano, penso que isto aqui deve ser extinto mesmo, pois é mais tedioso que Brasília. Você que gostava de ir a Pirinópolis só para ler Proust, aqui vai poder ler até mais de uma vez a obra inteira desse chato. Logo que cheguei aqui procurei, sabe por quem? Por Samuel Rawet. Sabe onde ele está? No inferno. Drumond, Vinicios e outros vaselinas estão hibernando no paraíso, mas Rawet, como era de se esperar, foi lançado nos quintos dos infernos... Cassiano, ao ouvir esta palavra pela segunda vez, moveu-se involuntariamente na cadeira de nuvens onde estava sentado e Oswaldino, perspicazmente, aproveitou para perguntar-lhe: sobre a experiência de seu funeral?
Cas. – Me acovardei. Não quis ser cremado como você. Cheguei até a pensar nessa hipótese, ela me parece chique, mas o forno e o fogo me deram mais medo que o caixão e que a tumba. As três ou quatro horas que fiquei exposto naquela capela foi uma experiência importante. As pessoas iam entrando, algumas sérias, outras transtornadas e visivelmente angustiadas pelo contato sempre inoportuno com a morte. Vinham até meu cadáver, rezavam alguma oração e se iam. Um impulso sádico dentro de mim ia fazendo-me pensar: a esse arrumei um bom emprego; esse aí "papei" várias vezes; a esse aí dei um empurrão para que sua tese de mestrado fosse aceita; esse também já "papei"; a esse emprestei uns trocados, esse me roubou uma câmera fotográfica, esse quis transformar-me num pai substituto; esse me afanou três livros etc. Por falar em livros, qual foi o destino de tua biblioteca, Oswaldino?
Osw. – Continua intacta, como uma relíquia, no mesmo lugar. Tentei várias vezes fazer uma doação, mas as universidades não manifestaram o mais mínimo interesse. Hoje tenho consciência que querer fazer com que os outros leiam ou que "amem" os livros é não apenas uma idiotice, mas também uma forma sutil de impostura. E a tua?
Cas. – Também está lá no mesmo lugar. Os jornais estão fazendo o maior alarde a respeito de seu destino, mas tudo conspira para que acabe dentro de caixotes no porão de alguma universidade ou nos banheiros de alguma Secretaria. Estão até falando em trinta mil exemplares, quando na verdade não chegam a vinte. Matérias repetitivas dizem que fui o maior poeta da cidade, que vou fazer a maior falta, que era, além de simplório a erudição ambulante etc, etc.
Osw. – Ah, disseram as mesmas bobagens sobre mim. Só sabem dizer isso dos poetas e mesmo assim, só depois que os enxergam mortos. Uma espécie de prestação de contas e de exorcismo da culpabilidade cristã. Um ou dois meses depois e tudo cai no esquecimento. Mesmo daqui do limbo é frustrante ver que ninguém se atreve a fazer verdadeiramente uma crítica e um estudo profundo de nossa obra. Não compreendem que, apesar de mortos, essa puxação de saco e essa ladainha de misericórdias não nos interessam mais para nada.


Ezio Flavio Bazzo

Dialética da natureza


No princípio, sempre que passeava com meu cachorro pelas entre quadras ficava um pouco intimidado ao ver os donos de outros animais levando luvas e um saco plástico com os quais recolhiam obsessivamente seus excrementos. Aquilo sim era um exemplo de cidadania – murmurava sempre o porteiro do prédio vizinho e quando eu lhe dava ouvidos mais do que devia, descambava a falar que na Alemanha a multa para quem deixasse uma cagada na grama era de duzentos euros. Só comecei a ficar mais relaxado e ter uma visão mais autêntica sobre minha pseudo-negligência quando percebi que atrás de meu cachorro se formava diariamente uma fila imensa de pássaros: bentevis, rolinhas, joão-de-barro, pardais, sabiás e até mesmo um pica-pau daqueles de peito amarelo e que todos se digladiavam vorazes para banquetear aqueles biscoitos fumegantes que meu lhasa ia soltando pelo caminho. Ora! A partir daí foi fácil para atingir o insight que me faltava. Eu e meu cão é que éramos os verdadeiros cidadãos! A dupla politicamente correta! Nós é que estávamos sendo úteis, não apenas para com o IBAMA, mas principalmente para com o ecossistema. Pensar com a própria cabeça é dar-se a chance de descobrir que, às vezes, os remédios importunam mais do que a própria doença.


Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Será possível seguir fazendo poesia depois de Gaza?


O massacre consentido que Israel vem promovendo na Faixa de Gaza nesses últimos vinte dias, têm servido para reafirmar, além do espírito vil da espécie, duas questões importantes: uma, que os grandes carrascos geralmente são sobreviventes de uma chacina e outra, que o caráter que rege os organismos reguladores internacionais é o mesmo caráter frouxo e embusteiro das cortesãs. Verborréia para cá e verborragia para lá, a verdade é que todo mundo se caga de medo de criticar Israel e de ser considerado antissemita. É curioso que o silêncio a embromação e a demora de intervenção das nações diante dessa carnificina miserável em Gaza foram exatamente os mesmos durante o período em que os soldados do III Reich humilhavam, matavam e queimavam judeus e ciganos em seus fornos. Lá todo mundo se cagava de medo de Hitler e postergaram a intervenção até que as estatísticas registrassem seis milhões de cadáveres, aqui, o pacto diplomático é que chegue pelo menos a mil e quinhentos. A indiferença é generalizada. Os professores seguem dando suas aulinhas, os gestores rebolando e gastando seus vinte mil nos shoppings, os padres fazendo suas "prédicas" caducas e os poetinhas indo perfumados e onanisticamente as soirées. A propósito, foi Adorno que, em sua época lançou a pergunta: será possível fazer poesia depois de Auchuwitz? Será que no meio dessa alienação decadente e dessa submissão ignóbil alguém se perguntará se será possível fazer poesia depois de Gaza?

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 11 de janeiro de 2009

Somos todos ciganos do Alentejo


Não apenas as Ciências Humanas, mas os astrólogos e até os curandeiros de araque têm insinuado que por debaixo da maior parte de nossos transtornos está a falta, a ausência e a carência de identidade. Começo a admitir essa idéia. Nos anos fascinantes de 68 – por exemplo - uma frase nos muros de Paris alertava: “somos todos judeus alemães”. Na cidade de Taxco - lá pela década de 70 - um ourives jurava que “éramos todos descendentes de vietnamitas”. Em Budapeste ouvi um russo afirmando aos gritos que “todos tínhamos os genes do Cáucaso”. Já, segundo as recentes Teorias da Evolução “somos todos africanos” e agora, com os israelenses imitando os nazis recebo dezenas de e-mails dizendo que “somos todos palestinos”. De minha parte, quando de manhã levo meu cão para mijar sobre a terra e vou observando os trejeitos e os contorcionismos da turba seria capaz de apostar com serenidade que “somos todos ciganos do Alentejo”.

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 4 de janeiro de 2009

Prazeres e gozos secretos da guerra


Quando nasci o Estado de Israel já tinha um ano e sete meses. De lá para cá o noticiário sobre aquela região foi sempre o mesmo e sempre sonorizado pelo pipocar das metralhadoras. Pedradas, tiros, mísseis, foguetes, tanques, bombas, esfaqueamentos, cercas, muros, acordos, desacordos, túneis, dinamite, fanatismo, Maomé de um lado e Jeová de outro. Caim e Abel entre as tumbas e as covas enxarcadas de lágrimas, sangue, pólvora, maldições e lamentos. Foram intermináveis as "reuniões de emergência" pelo mundo a fora e as assinaturas de contratos em castelos, em mansões, em sinagogas e em mesquitas. Houve até mesmo um Prêmio Nobel compartido entre as partes em conflito. Tudo inútil. A terra, o ouro, o deserto e a água, que não pertencem verdadeiramente a ninguém seguem servindo como pretextos para as mais desprezíveis matanças. A guerra continua vigorosa e a paz parece não ser a panacéia que tanto se promove e se divulga ao redor do planeta. Talvez haja na guerra e no extermínio mútuo, - além do interesse das hienas fabricantes de armas e dos coveiros - um prazer e um gozo secretos que ainda nem suspeitamos e que, por razões idealistas e românticas jamais se venha a encarar.

Ezio Flavio Bazzo