"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A cortesã que idealizava a transparência da pós-modernidade


A pequena valise encostada às pernas era um truque para, se fosse o caso, poder cochilar sem ser roubada. O último ônibus não tardaria. Afastou-se um pouco para que me sentasse a seu lado e, na primeira oportunidade, desatou a falar. Já morei aqui. Desapareci durante cinco anos. Vim no velório de meu pai. O velho foi enterrado hoje e já estou caindo fora. Tenho uma incompatibilidade biológica com essa gente que fala cochichando, que quer saber demais, que passa a vida espiando por detrás das persianas e que acredita realmente ter alguma coisa a ver com o suposto assassinato de Cristo.

Tomei a decisão de zarpar daqui, no dia em que ouvi dois velhos fazendeiros conversando num ônibus que ia de Barbacena para Tiradentes. Um ensinava o outro como envenenar os cachorros de um vizinho. Esse mesmo sujeito referiu-se a uma vaca que não queria amamentar fazendo uma analogia com sua própria esposa. Achei demais. Arrumei a mala e saí daqui para sempre. Essa gente vive só esperando que as piores desgraças do mundo despenquem sobre suas cabeças. Hoje odeio ouvir falar em cidade antiga, barroca ou colonial. Esse palavreado me remete imediatamente à penumbra, à umidade, ao cheiro de excrementos, a um ardor no nariz e à deslealdade. O azul e o branco, o rococó das beiradas, os pregos enferrujados. Por todos os lados de minha infância havia fumaça de incenso litúrgico. Rezas, a espera da morte. Os mesmos telhados, as mulheres frígidas com aqueles mesmos e odiosos corpos de antas. Aquele passo de morte subindo as ladeiras e as escadarias, junto às paredes. A benevolência cristã e espírita. Pela tarde, quando começava a escurecer, todos os sinos badalavam ao mesmo tempo, era como se batessem literalmente dentro de meu cérebro. Aquilo sim que era solidão. A pior solidão é aquela que se experimenta no barulho. As persianas semi-abertas. Os trincos dos janelões com seus ruídos sempre iguais. Meu pavor durante a noite era de ser picada por um daqueles besouros que transmitem a doença de chagas. Diziam que o veneno ou sei lá o que ia diretamente para o coração. Minha casa, de tantos mortos nas mesas e nas paredes parecia um verdadeiro mausoléu. Todas aquelas caras e aqueles olhares macabros me vigiando. Sempre voltados para meus passos, meus sonhos e meus desejos. Aquelas malditas lâmpadas de 40 wats! Fracas, cor sépia, deprimentes. E as pedras. Só os interiores das igrejas me eram mais odiosos que as pedras. A infelicidade humana está diretamente ligada às pedras, as pedras e ao ferro. As dobradiças imensas das portas rangiam. Não havia óleo que resolvesse. O pai bêbado chegando depois da meia noite e aquele ruído macabro. E todo mundo tirando o chapéu, riscando uma cruz no peito e beijando os dedos diante das igrejas, da cruz e do calvário. Quando a noite já havia chegado, todos tinham que fechar as portas, as janelas, as cortinas. Ninguém sabe realmente por que, mas era uma espécie de código desta gente e desta cidade. O pretexto eram os mosquitos. Realmente parece que o cheiro colonial atrai esse minúsculo animal. O cheiro do torresmo e da banha de porco talvez atraiam essa praga para o interior das casas seculares, com seus barrotes e suas vigas infestadas de cupins. Não há fé que de jeito nos cupins. Mas a fé é tudo para esse povo. Dizer colonial e barroco é como dizer fé, submissão, calos nos joelhos, velas. É como revigorar a certeza de ter cravado pelo menos um daqueles pregos que dilaceraram os pés do nazareno. O inferno, a dor, o estigma da maldade, o apocalipse levado às últimas conseqüências no imaginário infantil, principalmente das meninas. O câncer que virá de uma maneira ou de outra, minha filha, - ouvia minha mãe dizendo – é melhor que já nos encontre nos braços da Imaculada Conceição. Demorei a dessacralizar a imagem que tinha de minha mãe, essa pobre mulher que perdeu a vida nesse inferno e que agora, como viúva, terá sua existência piorada: as tetas amarradas, a xota cabeluda e o rabo como se estivesse anestesiado. Já lhe disse que vim ao enterro de meu pai. Quando o vi morto, não senti nada. Absolutamente nada. Da infância lembro apenas suas sobrancelhas enormes e brancas e aquele seu olhar libertino e incestuoso, mas ao mesmo tempo de cão repressor da Opus Dei. Tenho também uma leve lembrança de seu catarro. Escarrava de madrugada numa baixela de estanho. Tinha amigos odiosos. Daqueles que ficavam em pé nos botecos idolatrando uma garrafa de pinga ou de cerveja, ou então de cócoras num posto de gasolina, em silêncio olhando para o nada, como se também vivessem embriagados pela solidão. Odiava com todo meu ser às mulheres que passavam o dia inteiro lavando as calçadas e as paredes, os lençóis e as toalhas. O cheiro de detergente associado à urina dos cães me dá náuseas até hoje. Às nove horas da noite, como já disse, todas as casas estavam religiosamente trancadas. Uma exceção aqui e outra ali, onde se podia ver a claridade de uma maldita lâmpada de 40 wats. Diz-se wats ou volts? Muitas, muitíssimas vezes, acordava lá pelas quatro da manhã com o canto curto e seco de um galo que não havia sido vendido na feira e que enfiava o pescoço pelas grades e fazia sua Ode à melancolia. Passava o resto da noite comovida, numa espécie de cumplicidade com aquela pobre ave tentando compreender a quem dirigia seu derradeiro lamento. Mas hoje não tenho mais nada a ver com isto. Sou cortesã – nome pomposo para dizer puta – longe daqui. Amo a modernidade, a pós-modernidade, o porvir que, tenho certeza, dinamitará todo esse entulho do passado. Amo os prédios e as casas de vidro, transparentes, cheios de luz e de lealdade.

Enquanto o motorista checava sua passagem arrastou-me para um lado e preveniu-me: não creia demasiadamente em minhas palavras. Lembre-se daquilo que a psiquiatra Nise da Silveira dizia: "O homem é mau, mas a mulher é perversa. Mulher sabe ser ruim como o demônio. Uma mulher engana o diabo. Duas enganam o inferno inteiro". E partiu.

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 19 de outubro de 2008

Trem de Doido


Visitar o Hospital Colônia de Barbacena é um projeto antigo, anterior ao dia em que Basaglia o considerou uma instituição de horror, uma Salpetrière tupiniquim ou uma paródia de Auschuwitz. Praticamente durante cem anos, sob o pretexto da saúde ou da doença mental serviu como calabouço. Bêbados, infiéis, marginais, bandidos, epilépticos, indesejáveis e até loucos etc eram enviados para cá, onde permaneciam até a morte. O famoso "Trem dos doidos" tinha um vagão especial para eles e os recolhia nas estações de todo o Estado. Chegando aqui, numa parada construída estrategicamente bem em frente ao hospício, subiam o barranco que os conduzia ao confinamento, amarrados uns aos outros, sob o olhar maligno de pena e de curiosidade da população local. Instalada no alto da Serra da Mantiqueira, conhecida como a "cidade dos loucos", com um clima agradável e puro, silêncio e neblina, Barbacena nos dá a ilusão momentânea de ser uma espécie de Shangri-lá. Ou isto já seriam os primeiros sintomas?

O que veio a ser conhecido por Hospital Colônia de Barbacena havia sido até antes de 1900 uma sofisticada casa de repouso e de veraneio comparada às de Campos de Jordão e às de Petrópolis aonde a elite e os barões da época iam em busca de saúde, lazer e de ócio. Dizem que até Floriano Peixoto, então Presidente da República esteve por aqui se recuperando de um "colapso nervoso". Com o crash da bolsa de valores da época, foi à falência, e em seu lugar surgiu o mal versado hospício que, curiosamente, estava em terras do senhor Joaquim Silvério dos Reis (o delator) e localizado numa região conhecida por Morro da Forca. Esse hospital que, como vemos, tinha tudo para dar errado e que muitos vieram a considerá-lo um inferno terrestre, chegou a ter mais de quatro mil internos que dormiam no chão, em montes de palhas como suínos. Muitos dos que morriam (em média dois por dia) tinham seus corpos fervidos em tambores de gasolina para limpeza dos ossos e em seguida os esqueletos vendidos por cinqüenta cruzeiros/cada às faculdades de medicina da região. Detalhe: esse ritual macabro era executado diante dos outros internos. (Barbacena, XX-X-2008)

Depois que o Projeto de Lei 3.657 de 1989, propôs o fechamento gradual dos manicômios no país, o Hospital Colônia de Barbacena foi passando por algumas reformas, digamos, humanizantes. Melhoraram as condições internas e foram criadas as Residências Terapêuticas, cada uma com oito ou dez pacientes. Dizem que há umas vinte e tantas delas espalhadas pelas colinas da cidade, onde os ex internos vivem medicados, com uma pequena mesada e alguem que os monitora. Os duzentos e tantos que, depois de décadas de internamento, perceberam que a loucura aqui fora é pior ou igual que a lá de dentro, não deram conta de gerenciar suas próprias vidas e voltaram. Permanecem confinados num cotidiano de cão só esperando a morte chegar. Na unidade do Bairro Floresta foi montado recentemente, meio hipócrita e meio demagogicamente o Museu da Loucura, com fotos, documentos, algemas, grades, seringas, roupas, instrumentos de eletro choques e outras provas da barbárie clinica que caracterizou seu século de existência. Olhando enojado para tudo isso, fico tentando lembrar quem foi o cínico e o crápula que disse, não faz muito, que o que o Brasil tem de melhor é seu povo.

Barbacena marcou realmente lugar na história do país, e não foi apenas por ter sido rotulada como a Cidade dos Loucos. Ter dado sumiço à nação dos índios Puris e acolhido à imigração italiana – por exemplo – foi o que possibilitou que hoje possamos devorar um delicioso nhoque no Gino's Candelabro. Além disso, cinco do bando dos Inconfidentes eram daqui e uma centena de soldados barbacenenses foi morrer como bode expiatório na guerra do Paraguai. Santos Dumont, aquele que tornou realidade o sonho de Ícaro e que se suicidou com uma gravata num hotel de Santos nasceu logo ali na Fazenda de Cabangu. O traidor Silvério dos Reis era dono de praticamente todas estas terras; Um dia após o esquartejamento de Tiradentes, Barbacena amanheceu com um braço daquele dentista prático dependurado num poste. A caça aos comunistas, nos anos setenta, teve o apoio irrestrito das autoridades daqui; O francês George Bernanos viveu e morreu nas redondezas. O chato Guimarães Rosa dedicou umas linhas ao Trem de doidos e o Santo Machado de Assis fixou residência ao seu Quincas Borba nesta urbe. Aliás, quando retorno para o hotel, à noite, sob a chuva e a neblina, com minha sombra se esgueirando pelas paredes das casas e me deparo casualmente com algum cão lambendo um osso faço questão de indagá-lo: e aí? Como vai Quincas Borba. Às vezes tenho a nítida sensação de ouvi-lo ironizando-me com a velha e reacionária frase: ao vencedor as batatas!

O que realmente uma cidade tem de melhor são sempre seus subterrâneos, seus olvidos e as coisas que apodrecem lentamente no fundo de uma amnésia ou mesmo de uma recusa generalizada. Pouca gente sabe, por exemplo, que o padre Justiniano da Cunha Pereira publicou em 1838, aqui em Barbacena, uma comédia intitulada Clube dos Anarquistas. Tampouco é de conhecimento da grande maioria que, no cemitério que fica nos fundos da Igreja Nossa Senhora da Boa Morte " igreja pintada pelo alemão Moritz Rugendas" além das ossadas da Baronesa do Carandahy e as do Comendador Urbano Augusto trabalha um singelo jardineiro que diz ser pianista. Com mais de sessenta e quatro anos, aquele senhor que deambula todas as manhãs por entre os mausoléus com sua vassoura e seu rastelo jurou-me que é músico, e dos melhores da cidade. Com medo que eu desconfiasse de sua sanidade mental, ou de passar por mais um delirante deu-me detalhes de seu piano e relacionou as quarenta e tantas partituras que executa. Além disso, queria a todo custo levar-me até sua residência para demonstrar-me o que dizia com uma sonata de Chopin. Sugeri-lhe que deixasse a vassoura e a enxada de lado e instalasse seu piano aqui no meio das tumbas. Qual defunto não gostaria de ouvir uma Polonaise lá pelas cinco horas da tarde?

Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O dinheiro é o único Deus e os banqueiros seus profetas!


Nestas três ou quatro semanas de supostas bancarrotas, de encenações e de mise-en-scène melancólica ao redor da economia e das moedas, a cumplicidade velada entre as nações, o humor maníaco-depressivo dos investidores e a ansiedade simplória das massas nos têm esclarecido duas questões transcendentais. Uma de natureza sociológica e outra de ordem metafísica. Descobrimos quem é que manda verdadeiramente no mundo e quem é a divindade preferida dos rebanhos. A partir de agora será mais difícil aos politiqueiros de turno seguir fazendo o teatro hipócrita e benevolente das "igualdades sociais", dos "ideais socialistas" e das "balelas democráticas" da mesma maneira que será quase impossível aos padres e aos pastores seguirem enganando os beatos em nome de um Deus abstrato e fantasioso. Devemos aos larápios e às rameiras internacionais a descoberta de que o grande e único Deus é o dinheiro e de que os senhores banqueiros são seus profetas.


Ezio Flavio Bazzo