"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Bestiário


Nem o escarcéu da prostituição infantil nas barbas do Ministério da Justiça, nem os tiroteios de grosso calibre nas entre-quadras e nem mesmo a derrocada do mercado financeiro internacional têm afetado a alta rotatividade dominical no zôo da cidade. Os pipoqueiros estão em transe. O milho transgênico salta em desespero nas panelas. As filas de automóveis são indescritíveis e os celulares não param de tocar lá sobre os cobertores, os lençóis e as colchas onde o pic-nic se instala. Que pensarão de nós as onças e os outros animais? Crianças e hipopótamos, donzelas e girafas, senhores e chimpanzés dividindo as pipocas e se observando mutuamente. O bestiário inteiro abanando as orelhas e chicoteando com o rabo a aluvião das moscas e o ziguezague das plumas dos flamingos. Claro que cada uma dessas grades, jaulas e cercas é um signo cruel de nossa desonestidade e de nossa tirania para com as outras espécies. Já que se tem falado tanto em “ética” e muito mais ainda em “bioética”, por que não se pensa num sursis ou pelo menos num hábeas corpus para essa fauna? Por que a Câmara – com seus duvidosos poderes – ainda não previu a clausura definitiva desta lúgubre penitenciária?

Ezio Flavio Bazzo

sábado, 27 de setembro de 2008

Recordando o masculinismo de Giovani Papini


"Nós os masculinistas, não somos contrários aos contínuos e progressivos triunfos do feminismo. O masculinismo não surge para opor-se ao feminismo, muito pelo contrário!, seu objetivo declarado e lógico, é o de tomar nota das conquistas do feminismo e, mais ainda, de ampliá-las, estendê-las, fazê-las universais". "Escutai-me, senhores, acompanhai meu pensamento atentamente. Em sua ingenuidade caseira e provinciana as mulheres imaginavam que o privilégio de governar ao povo, coisa que até meio século atrás era reservada aos homens, era uma honra, uma alegria, uma satisfação. Nossas rivais se enganavam por completo. A política é uma arte grosseira e falaciosa, está fundamentada em compromissos, enganos, na hipocrisia e na sem-vergonhice. A política é incomoda, suja e perigosa. Por isto, os masculinistas propõe a entrega total dos poderes às mulheres, já que por sua própria natureza são mais astutas, mais mentirosas e mais acomodadas. Que não exista apenas algumas deputadas ou algumas ministras, mas que todos os parlamentos e todos os governos sejam formados unicamente por mulheres! "Elas têm a língua mais solta que nós, possuem um maior sentido prático e menos repugnância para as coisas sujas. A política foi feita para elas e somente para elas. E, frente ao espetáculo que está sucedendo hoje no mundo não se deve achar que a coisa pública possa funcionar pior do que está, pois isto é claramente impossível. Na pior das hipóteses, os povos seriam levados à miséria e à morte, mas isto já está acontecendo, de forma que nada mudará. Em lugar disto, mudará para melhor a sorte dos homens, quem finalmente estarão em liberdade para dedicar-se às atividades mais nobres. "Escutai-me, cidadões homens; o Masculinismo prepara vossa libertação dos trabalhos e das missões mais duras e ingratas. As mulheres já ingressaram no ensino, mas ainda são minoria. O ofício de ensinar crianças e jovens, é " digamos a verdade de urna vez por todas ", muito cansativo e chato, por todos os lados o programa dos escolares é estudar pouco e enganar aos professores. Os únicos alunos que conseguem aprender verdadeiramente, são aqueles que estudam por conta, por paixão natural. Então, por que não entregar nas mãos das mulheres e somente a elas o ensino primário, médio e superior? Elas têm mais paciência e astúcia e um poder de atração muito superior. Pode-se assegurar desde já que os discípulos aproveitarão muito mais que com professores homens, quem, por sua vez, livres do odioso tédio da escola, finalmente poderão estudar seriamente por sua conta. " E diga-se o mesmo do trabalho em todas as formas. Segundo as escrituras, o trabalho foi imposto ao homem como castigo, mas, uma vez que, segundo as próprias escrituras, a primeira e verdadeira culpada foi a mulher na pessoa de Eva, é justo que a pena seja suportada por ela, e somente por ela." Me perguntais, estimados amigos ouvintes, que farão os homens se as sagradas e legítimas reivindicações do Masculinismo se realizarem plenamente. Não é difícil responder: liberados do trabalho e do asco que implicam o governo e outras funções, finalmente poderemos gozar em paz da maravilhosa beleza do mundo. Da labuta sempre penosa e perigosa, ascenderemos todos à felicidade da contemplação. As mais elevadas atividades do espírito, que hoje são patrimônio de poucos, (porque a grande maioria deve ocupar-se com as funções baixas da vida), poderão ser exercitadas por todos os varões. A poesia, a pintura, a escultura, a pesquisa científica e a especulação metafísica, estas serão nossas únicas ocupações diárias. A humanidade se dividirá em duas grandes castas diferenciadas pelo sexo: uma se dedicará à política, ao comércio, a produção material, às escolas e à burocracia e a outra, a nossa, dos varões, poderá consagrar-se com plácida tranquilidade às artes, ao pensamento, ao descobrimento do belo e do verdadeiro, em uma palavra: a tudo aquilo que faz suportável e desejável a existência. "E não sentiremos nenhum remordimento, pois precisamente as mulheres foram as primeiras em pretender, com todas suas forças, fazer o que apenas o homem vinha fazendo com sacrifícios e resignação. (...) O masculinismo não é uma contestação ao feminismo, mas sim sua realização universal em nome de nossa felicidade e da verdadeira justiça".

Ezio Flavio Bazzo

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O crash e os cacarás


É natural que aqueles que venderam suas vacas e suas cabras para investirem na BOVESPA estejam desolados com o fantasma do crash. Mas agora é a vez de levantar a cabeça e vender os filhos e as córneas para investir no dólar e no ouro. Quando estes também ruírem, paciência, pois a Bolsa já deverá estar novamente atraente. Nada de desespero. "Nossos bancos estão sólidos" , jurou o ministro. E depois, aqui entre nós, se a crise fizer diminuir o número de carros e de celulares nas ruas e o número das garrafas de vinho ordinário nas prateleiras dos supermercados, a redenção já estará feita. Sempre que me falam em economia (essa espécie de astrologia mafiosa) penso naquele sujeito que, por acreditar que os cachorros nos vêem como superiores e os gatos como inferiores preferia os porcos que nos tratam como iguais.


Ezio Flavio Bazzo

sábado, 6 de setembro de 2008

O velho complexo de vira-latas


Os desdobramentos a respeito do "affair grampos" têm agravado ainda mais a credibilidade e o conceito geral sobre os homens públicos. Depois do bafafá, todos declararam, curiosamente, ter feito uma "varredura" em seus aposentos e em seus gabinetes, passado a falar em "códigos" etc., e não se ouviu de nenhum deles o elementar, a frase óbvia que o populacho tanto esperava: a mim podem grampear o quanto quiserem, pois não tenho nada a esconder, sou um homem público.

A propósito, esses homens que tanto falam em transparência, o que camuflam, e de quem? Quê segredos um funcionário público - seja do escalão que for - tem a ocultar e a dissimular? Quê assunto e quê idéias precisam ser mantidos em sigilo? Por mais tapado que alguém possa ser tem a resposta na ponta da língua. Mas isto também passará. É apenas mais uma bobagem efêmera que tem servido, entre outra coisas, para lembrar-nos de duas características pouco conscientes de nossa personalidade: somos muito mais paranóides do que pensamos e temos -como insistia Nelson Rodrigues - um complexo de vira-latas.

Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Da surdez para a mudez


Num país onde tradicionalmente ninguém escuta ninguém e onde há uma surdez generalizada de séculos é compreensível que um caso de ESCUTA cause tanta apreensão e tanto mal estar. Se for a ABIN, algum técnico do exército, a polícia federal, um expert da polícia civil, a milícia do Senado, algum vigia do Congresso Nacional, a dupla Cosme e Damião ou mesmo um capanga dos próprios senadores o autor dos "grampos", isto não tem a mínima importância diante da pergunta: qual é, afinal, o sentido de tanta polícia e de tantos agentes de repressão? Além disso, é esperteza e romantismo malicioso querer dar ao caso uma conotação político-ideológica, uma vez que a esquerda e a direita se escafederam há muito por aqui e que uma vez no poder todo mundo vira ambidestro. Até as crianças sabem que o que determina a lateralidade de nosso homem público " e, evidentemente, o interesse dos tais arapongas " é apenas as porcentagens relacionadas aos grandes contratos e as propinas milionárias surrupiadas das mega transações econômicas. Por fim, se a nação for dar ouvidos ao conselho do chefe da ABIN - de calar a boca - estará sendo promovida de surda, para surda-muda. Situação ideal para qualquer gerente de tirania.

Ezio Flavio Bazzo