"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Napoleão e os mosquitos da febre amarela


É compreensível que os obsessivos freqüentadores da água Mineral de Brasília estejam desolados com o fechamento do parque, mas é necessário reconhecer que os mosquitos que decretaram seu fechamento não são mosquitinhos quaisquer, pelo contrário, são personagens com um currículo respeitável e insólito.

Entre os tantos e epopéicos surtos que capitanearam pelo planeta a fora está, principalmente, aquele que atropelou Cristóvão Colombo pelas Caraíbas. Foram eles também que, infectados pelo vírus amarílico obrigaram a mudança de rota dos navios europeus no século XIX. Ao invés de ancorar no Rio de Janeiro, que naquela época era uma cloaca amofinada por nuvens de aedes albopictus, os navios passaram a irem diretos para Buenos Aires.

Por incrível que pareça, foram esses deploráveis e insignificantes insetos que dificultaram a construção do Canal do Panamá, que dizimaram as tropas francesas na região de Santo Domingo e que destruíram até mesmo o sonho napoleônico de avançar na direção da América do Norte.

Segundo nossos quase nada confiáveis arquivos sanitários o primeiro mosquito infectado teria chegado ao Brasil lá por 1680, via Olinda, em Pernambuco. Daí para o cerrado goiano foi só uma questão de desleixo público e de incompetência generalizada.

Ezio Flavio Bazzo

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Impressões do Recife


Depois de cruzar a Ponte Princesa Isabel e dar uns vinte passos à esquerda pela Rua Aurora, o forasteiro se depara com a estatua franzina e quase feminina do poeta João Cabral de Melo Neto. Da posição em que se encontra, o ilustre poeta poderia ver o teatro Arraial, o prédio da polícia civil, o restaurante Sorbonne, a tapeçaria Mercúrio, uma outra ponte com as pilastras amarelas, o prédio do INSS à esquerda e mais ao fundo a cúpula de uma antiga prisão hoje convertida em Casa da Cultura. Deparar-me com sua estátua sentada ali,naquele sol infernal e à margem do rio Capibaribe ainda com os cheiros ruins que sobem de suas beiradas quando a maré baixa pareceu-me, se não uma vingança de seus conterrâneos, pelo menos um karma. Logo ele que tanto esperneou, denunciou e chamou a atenção dos recifenses sobre os miasmas que emanavam de suas águas, será que merecia este trágico destino?

Aqueles que se detiverem no Empório Bom Jesus para comer um pastel de nata podem comprar ali mesmo o ingresso para visitação da Primeira Sinagoga das Américas, que fica a uns vinte passos dali. Essa rua, nomeada ironicamente de Bom Jesus, que abrigava no século XVIII a comunidade judaica do Recife era conhecida – pela sociedade formal - como a rua da "perdição", e como a rua da "ganhação" –pelas mulheres que troteavam por ela durante a noite. A inquisição que se instalou em Portugal em 1536, chegou a Pernambuco em 1593 causando estragos não apenas entre os da comunidade semita. Mas isso tudo é passado. Os problemas desta "Veneza Pernambucana" agora, são fundamentalmente os cheiros, os ruídos e as bactérias hospitalares. Há pelo menos uns seis meses a bactéria interococos faz estragos nas UTIS daqui. E o mais patético é que – segundo os sanitaristas – se os médicos e os para médicos tivessem o hábito de lavarem-se as mãos de vez em quando, o problema já estaria resolvido.

Acusar o Rio Capibaribe de conduzir os esgotos para o mar seria uma leviandade. Aqui, tudo mundo vê e sabe, é o próprio mar, sedento de porcarias, que vem buscá-las sistematicamente com suas marés. Na alta, invade os canais, entra nas bocas de lobo, descola o lixo e os dejetos grudados às paredes e a maré baixa faz o resto. Arrasta tudo por debaixo da ponte giratória, lá para o meio das ondas, para o consumo e deleite dos mariscos e até mesmo de alguns banhistas. Não sei se a época de Manoel Bandeira já era assim. Teria sido esse o motivo dele idealizar os mares de Pasárgada, lá na antiga Pérsia? O certo é que sua estátua também está ali na Rua Aurora, sob o horror desses raios de sol. Nas mãos um exemplar do Jornal do Comércio e nos olhos uma chispa discreta de desolação.

O Trenzinho do Forró que ia a Caruaru, assim como a Rede Ferroviária do Nordeste viraram sucata. A Estação Central – que poderia ser ainda tão elegante como Port Royal virou escombros. Quem quiser ainda pode ver os restos das locomotivas alemãs, dos guindastes, dos troles e das carroças da antiga Great Western of Brazil Railway amontoados como sombras. Ponte Buarque de Macedo. Café do Poeta. Restaurante do Leite. Ponte Maurício de Nassau. Trinta e seis assassinatos numa única semana. Casa de Gilberto Freire. Sua devoção por Santo Antonio e seus sobrados transformados em aranhas-céu. Todo mundo atarefado com sua barriga e com sua fé. Uma estátua do dândi Joaquim Nabuco. Os fornos, o narcisismo e as ninfetas do Brennand. Os bancos fazendo o teatro do mecenato, a orla confundida com a horda. Apartamentos de 600 metros quadrados onde se oculta a descendência das sinhás e das sinhazinhas que no passado eram levadas por aí ou até o cais da Lingüeta no alto de suas cadeiras de arruar. A beleza morta do Recife antigo e seus cheiros que, durante a noite, nos fazem sonhar com as Latrinas do Colégio Marista, texto onde João Cabral escreve: lavar, na teologia marista, é coisa da alma, o corpo é do diabo; a castidade dispensa a higiene do corpo, e de onde ir defecá-lo.

Ezio Flavio Bazzo