"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Viva o Kaos grego!


Aqueles que achavam que não tinham mais nada que aprender com os gregos terão que rever suas teses. Que abismo entre a passividade de nossa juventude tupiniquim e os jovens incendiários de Atenas! Lá, um único adolescente assassinado e o Kaos. Aqui, nem a monstruosidade dos quinhentos e trinta homicídios, só no DF e nos primeiros meses do ano, foi suficiente para arrancar alguém da monotonia. Nenhum pio, nenhuma manifestação, nada, apenas o peso de um silêncio ignóbil entremeado pela verborréia das autoridades e pelas justificativas dos vigaristas de turno. Enquanto a juventude grega se incendeia e se revigora, a nossa envelhece em seu cotidiano noir perdida em ilusões pueris, em filas para concursos, berrando fanática e bestamente nos botecos, nos estádios ou nas igrejas, exatamente como seus neuróticos e melancólicos avós.

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 7 de dezembro de 2008

O sexo e a farsa de cada um


Muito ilustrativo o artigo da jornalista Conceição Tavares (CB deste domingo) sobre a psico sexualidade humana. Apesar do folclore genital de cada uma daquelas categorias, o que fica reafirmado, no final das contas é a velha realidade de que cada sujeito é um poço de segredos exóticos e de ficções miseráveis. Por outro lado, se filosoficamente a sexualidade pode até ser transitória e nômade - como querem alguns professores -, psicologicamente é o transtorno que se diversifica e que empurra o sujeito de um sintoma a outro. De minha parte, em defesa de minha própria orientação psicogenital, gostaria de protestar pelo silêncio e pela omissão que a matéria faz sobre o bestialismo ou, para ser mais cult, à zoofilia.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Santa Catarina & Sisifo


As enchentes, os desmoronamentos, os naufrágios, as doenças endêmicas, os acidentes de trabalho em nosso país têm tido sempre o mesmo enredo e a mesma manha. Todo mundo fica repentinamente surpreso. O pranto das vítimas é estampado perversamente na mídia. Poupa-se a corja negligente. Acendem-se velas. Recolhem-se toneladas de alimentos e milhares de cobertores. Os políticos vão à tribuna e abusam das interjeições, liberam verbas, vão fazer discursos ao lado dos caixões, criam leis complementares e tudo fica como está. Sem abusar dos gregos e nem da Odisséia, esta nação se parece cada vez mais ao Tártaro e nós, ao desgraçado Sísifo, condenados inútil e eternamente a empurrar nossa pedra ladeira acima. E tem mais: agora que descobriram que as nuvens e as chuvas que despencam em fúria sobre nossas cidades se formam lá na selva amazônica, serão capazes de usar as inundações e os sinistros como argumento para todo tipo de rapinagem e de destruição da floresta.

Ezio Flavio Bazzo

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

As cortesãs e os barões do latifúndio


As legiões de ingênuos e de bonachões que acreditavam que o governo iria socorrer apenas os banqueiros e as montadoras de automóveis começam a ficar encolerizadas ao verem que os barões do agro negócio e dos latifúndios também serão beneficiados. Como não temos culhões (entenda-se consciência crítica) suficientes e nem capazes de abortar esses tipos de paternalismos monárquicos, que pelo menos se exija desses gigolôs da terra que controlem a quantidade dos agrotóxicos e dos adubos que há décadas vêm envenenando os alimentos que comemos. E que ninguém estranhe se amanhã, sob o pretexto da hipertensão e da honradez espiritual seja a vez de "injetar" alguns bilhões na indústria de medicamentos e nas irmandades religiosas. Oxalá essa benevolência chegue um dia também às cortesãs, a essas patrióticas senhoras que, como os outros agraciados " segundo Balzac " são essencialmente monarquistas.

Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Uma tola pátria refém de um fetiche tolo


Quem achava que a subserviência do governo era apenas aos banqueiros está surpreso ao ver que é também aos fabricantes de automóveis. O valor de recursos colocados à disposição da indústria automobilística privada só não é mais escandaloso que os 25 milhões previstos para a reforma da Catedral de Brasília. É quase inacreditável que um país que ainda não dispoe sequer de saneamento básico; que não tem transporte coletivo; onde quase todos seus produtos agrícolas são envenenados por agrotóxicos e que vê sua população despencando vertiginosamente na indigência social e mental dê tanta importância a essas latarias velhas que infestam nossas cidades. São essas medidas arbitrárias que fazem qualquer um compreender que o Estado não é apenas aquele monstro descrito por Hobbes, mas também a encarnação da estupidez mais abjeta.


Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

"O porvir de uma ilusão"


Independentemente das mudanças que venham efetivamente acontecer naquele país e no seu entorno, a vitória do Barach Obama, como era de se esperar, vem funcionando sobre o velho espírito messiânico das massas como um potente lenitivo.


- Haverá de chegar alguém, um dia, para anunciar a Boa Nova! Um Novo Tempo e uma Nova Era! (Seja um torneiro mecânico, um judeu, um muçulmano, um home-less, um negro etc.).

O tempo e a história ainda não foram capazes de ofuscar nos seres esse arcaico maniqueísmo e nem essa mística esperança de renovação. Dentro de cada patriota estrebucham ainda o bode expiatório e o bode emissário. Os últimos séculos foram regidos por essa mesma distorcida e desesperada visão da condição humana, e por essa necessidade neurótica de transitar, a qualquer preço, da esperança ao niilismo e da idealização à decepção.

Ezio Flavio Bazzo

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Agora sim seremos verdadeiramente felizes!


Agora sim seremos verdadeiramente felizes! Com a fusão de nossos dois maiores bancos só os insensatos não sentiram seu entusiasmo e sua esperança redobrarem.

A felicidade tão esperada foi anunciada e a bem-aventurança está prestes a bater à porta de milhões e milhões de clientes. E são ingratos aqueles que, com sarcasmo, equiparam essa patriótica fusão àquela da Camorra com a Cosa Nostra ou a da turma da igreja do Reino de Deus com a troupe da Carismática. São niilistas sem fé e maus cidadãos aqueles que não acreditam nos desígnios das finanças e nem nos propagandistas da redenção. Foram esses desertores sociais que contaminaram o mundo com a idéia de que viver é prostituir-se e de que a vida mancha. Oremos aos banqueiros!

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A cortesã que idealizava a transparência da pós-modernidade


A pequena valise encostada às pernas era um truque para, se fosse o caso, poder cochilar sem ser roubada. O último ônibus não tardaria. Afastou-se um pouco para que me sentasse a seu lado e, na primeira oportunidade, desatou a falar. Já morei aqui. Desapareci durante cinco anos. Vim no velório de meu pai. O velho foi enterrado hoje e já estou caindo fora. Tenho uma incompatibilidade biológica com essa gente que fala cochichando, que quer saber demais, que passa a vida espiando por detrás das persianas e que acredita realmente ter alguma coisa a ver com o suposto assassinato de Cristo.

Tomei a decisão de zarpar daqui, no dia em que ouvi dois velhos fazendeiros conversando num ônibus que ia de Barbacena para Tiradentes. Um ensinava o outro como envenenar os cachorros de um vizinho. Esse mesmo sujeito referiu-se a uma vaca que não queria amamentar fazendo uma analogia com sua própria esposa. Achei demais. Arrumei a mala e saí daqui para sempre. Essa gente vive só esperando que as piores desgraças do mundo despenquem sobre suas cabeças. Hoje odeio ouvir falar em cidade antiga, barroca ou colonial. Esse palavreado me remete imediatamente à penumbra, à umidade, ao cheiro de excrementos, a um ardor no nariz e à deslealdade. O azul e o branco, o rococó das beiradas, os pregos enferrujados. Por todos os lados de minha infância havia fumaça de incenso litúrgico. Rezas, a espera da morte. Os mesmos telhados, as mulheres frígidas com aqueles mesmos e odiosos corpos de antas. Aquele passo de morte subindo as ladeiras e as escadarias, junto às paredes. A benevolência cristã e espírita. Pela tarde, quando começava a escurecer, todos os sinos badalavam ao mesmo tempo, era como se batessem literalmente dentro de meu cérebro. Aquilo sim que era solidão. A pior solidão é aquela que se experimenta no barulho. As persianas semi-abertas. Os trincos dos janelões com seus ruídos sempre iguais. Meu pavor durante a noite era de ser picada por um daqueles besouros que transmitem a doença de chagas. Diziam que o veneno ou sei lá o que ia diretamente para o coração. Minha casa, de tantos mortos nas mesas e nas paredes parecia um verdadeiro mausoléu. Todas aquelas caras e aqueles olhares macabros me vigiando. Sempre voltados para meus passos, meus sonhos e meus desejos. Aquelas malditas lâmpadas de 40 wats! Fracas, cor sépia, deprimentes. E as pedras. Só os interiores das igrejas me eram mais odiosos que as pedras. A infelicidade humana está diretamente ligada às pedras, as pedras e ao ferro. As dobradiças imensas das portas rangiam. Não havia óleo que resolvesse. O pai bêbado chegando depois da meia noite e aquele ruído macabro. E todo mundo tirando o chapéu, riscando uma cruz no peito e beijando os dedos diante das igrejas, da cruz e do calvário. Quando a noite já havia chegado, todos tinham que fechar as portas, as janelas, as cortinas. Ninguém sabe realmente por que, mas era uma espécie de código desta gente e desta cidade. O pretexto eram os mosquitos. Realmente parece que o cheiro colonial atrai esse minúsculo animal. O cheiro do torresmo e da banha de porco talvez atraiam essa praga para o interior das casas seculares, com seus barrotes e suas vigas infestadas de cupins. Não há fé que de jeito nos cupins. Mas a fé é tudo para esse povo. Dizer colonial e barroco é como dizer fé, submissão, calos nos joelhos, velas. É como revigorar a certeza de ter cravado pelo menos um daqueles pregos que dilaceraram os pés do nazareno. O inferno, a dor, o estigma da maldade, o apocalipse levado às últimas conseqüências no imaginário infantil, principalmente das meninas. O câncer que virá de uma maneira ou de outra, minha filha, - ouvia minha mãe dizendo – é melhor que já nos encontre nos braços da Imaculada Conceição. Demorei a dessacralizar a imagem que tinha de minha mãe, essa pobre mulher que perdeu a vida nesse inferno e que agora, como viúva, terá sua existência piorada: as tetas amarradas, a xota cabeluda e o rabo como se estivesse anestesiado. Já lhe disse que vim ao enterro de meu pai. Quando o vi morto, não senti nada. Absolutamente nada. Da infância lembro apenas suas sobrancelhas enormes e brancas e aquele seu olhar libertino e incestuoso, mas ao mesmo tempo de cão repressor da Opus Dei. Tenho também uma leve lembrança de seu catarro. Escarrava de madrugada numa baixela de estanho. Tinha amigos odiosos. Daqueles que ficavam em pé nos botecos idolatrando uma garrafa de pinga ou de cerveja, ou então de cócoras num posto de gasolina, em silêncio olhando para o nada, como se também vivessem embriagados pela solidão. Odiava com todo meu ser às mulheres que passavam o dia inteiro lavando as calçadas e as paredes, os lençóis e as toalhas. O cheiro de detergente associado à urina dos cães me dá náuseas até hoje. Às nove horas da noite, como já disse, todas as casas estavam religiosamente trancadas. Uma exceção aqui e outra ali, onde se podia ver a claridade de uma maldita lâmpada de 40 wats. Diz-se wats ou volts? Muitas, muitíssimas vezes, acordava lá pelas quatro da manhã com o canto curto e seco de um galo que não havia sido vendido na feira e que enfiava o pescoço pelas grades e fazia sua Ode à melancolia. Passava o resto da noite comovida, numa espécie de cumplicidade com aquela pobre ave tentando compreender a quem dirigia seu derradeiro lamento. Mas hoje não tenho mais nada a ver com isto. Sou cortesã – nome pomposo para dizer puta – longe daqui. Amo a modernidade, a pós-modernidade, o porvir que, tenho certeza, dinamitará todo esse entulho do passado. Amo os prédios e as casas de vidro, transparentes, cheios de luz e de lealdade.

Enquanto o motorista checava sua passagem arrastou-me para um lado e preveniu-me: não creia demasiadamente em minhas palavras. Lembre-se daquilo que a psiquiatra Nise da Silveira dizia: "O homem é mau, mas a mulher é perversa. Mulher sabe ser ruim como o demônio. Uma mulher engana o diabo. Duas enganam o inferno inteiro". E partiu.

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 19 de outubro de 2008

Trem de Doido


Visitar o Hospital Colônia de Barbacena é um projeto antigo, anterior ao dia em que Basaglia o considerou uma instituição de horror, uma Salpetrière tupiniquim ou uma paródia de Auschuwitz. Praticamente durante cem anos, sob o pretexto da saúde ou da doença mental serviu como calabouço. Bêbados, infiéis, marginais, bandidos, epilépticos, indesejáveis e até loucos etc eram enviados para cá, onde permaneciam até a morte. O famoso "Trem dos doidos" tinha um vagão especial para eles e os recolhia nas estações de todo o Estado. Chegando aqui, numa parada construída estrategicamente bem em frente ao hospício, subiam o barranco que os conduzia ao confinamento, amarrados uns aos outros, sob o olhar maligno de pena e de curiosidade da população local. Instalada no alto da Serra da Mantiqueira, conhecida como a "cidade dos loucos", com um clima agradável e puro, silêncio e neblina, Barbacena nos dá a ilusão momentânea de ser uma espécie de Shangri-lá. Ou isto já seriam os primeiros sintomas?

O que veio a ser conhecido por Hospital Colônia de Barbacena havia sido até antes de 1900 uma sofisticada casa de repouso e de veraneio comparada às de Campos de Jordão e às de Petrópolis aonde a elite e os barões da época iam em busca de saúde, lazer e de ócio. Dizem que até Floriano Peixoto, então Presidente da República esteve por aqui se recuperando de um "colapso nervoso". Com o crash da bolsa de valores da época, foi à falência, e em seu lugar surgiu o mal versado hospício que, curiosamente, estava em terras do senhor Joaquim Silvério dos Reis (o delator) e localizado numa região conhecida por Morro da Forca. Esse hospital que, como vemos, tinha tudo para dar errado e que muitos vieram a considerá-lo um inferno terrestre, chegou a ter mais de quatro mil internos que dormiam no chão, em montes de palhas como suínos. Muitos dos que morriam (em média dois por dia) tinham seus corpos fervidos em tambores de gasolina para limpeza dos ossos e em seguida os esqueletos vendidos por cinqüenta cruzeiros/cada às faculdades de medicina da região. Detalhe: esse ritual macabro era executado diante dos outros internos. (Barbacena, XX-X-2008)

Depois que o Projeto de Lei 3.657 de 1989, propôs o fechamento gradual dos manicômios no país, o Hospital Colônia de Barbacena foi passando por algumas reformas, digamos, humanizantes. Melhoraram as condições internas e foram criadas as Residências Terapêuticas, cada uma com oito ou dez pacientes. Dizem que há umas vinte e tantas delas espalhadas pelas colinas da cidade, onde os ex internos vivem medicados, com uma pequena mesada e alguem que os monitora. Os duzentos e tantos que, depois de décadas de internamento, perceberam que a loucura aqui fora é pior ou igual que a lá de dentro, não deram conta de gerenciar suas próprias vidas e voltaram. Permanecem confinados num cotidiano de cão só esperando a morte chegar. Na unidade do Bairro Floresta foi montado recentemente, meio hipócrita e meio demagogicamente o Museu da Loucura, com fotos, documentos, algemas, grades, seringas, roupas, instrumentos de eletro choques e outras provas da barbárie clinica que caracterizou seu século de existência. Olhando enojado para tudo isso, fico tentando lembrar quem foi o cínico e o crápula que disse, não faz muito, que o que o Brasil tem de melhor é seu povo.

Barbacena marcou realmente lugar na história do país, e não foi apenas por ter sido rotulada como a Cidade dos Loucos. Ter dado sumiço à nação dos índios Puris e acolhido à imigração italiana – por exemplo – foi o que possibilitou que hoje possamos devorar um delicioso nhoque no Gino's Candelabro. Além disso, cinco do bando dos Inconfidentes eram daqui e uma centena de soldados barbacenenses foi morrer como bode expiatório na guerra do Paraguai. Santos Dumont, aquele que tornou realidade o sonho de Ícaro e que se suicidou com uma gravata num hotel de Santos nasceu logo ali na Fazenda de Cabangu. O traidor Silvério dos Reis era dono de praticamente todas estas terras; Um dia após o esquartejamento de Tiradentes, Barbacena amanheceu com um braço daquele dentista prático dependurado num poste. A caça aos comunistas, nos anos setenta, teve o apoio irrestrito das autoridades daqui; O francês George Bernanos viveu e morreu nas redondezas. O chato Guimarães Rosa dedicou umas linhas ao Trem de doidos e o Santo Machado de Assis fixou residência ao seu Quincas Borba nesta urbe. Aliás, quando retorno para o hotel, à noite, sob a chuva e a neblina, com minha sombra se esgueirando pelas paredes das casas e me deparo casualmente com algum cão lambendo um osso faço questão de indagá-lo: e aí? Como vai Quincas Borba. Às vezes tenho a nítida sensação de ouvi-lo ironizando-me com a velha e reacionária frase: ao vencedor as batatas!

O que realmente uma cidade tem de melhor são sempre seus subterrâneos, seus olvidos e as coisas que apodrecem lentamente no fundo de uma amnésia ou mesmo de uma recusa generalizada. Pouca gente sabe, por exemplo, que o padre Justiniano da Cunha Pereira publicou em 1838, aqui em Barbacena, uma comédia intitulada Clube dos Anarquistas. Tampouco é de conhecimento da grande maioria que, no cemitério que fica nos fundos da Igreja Nossa Senhora da Boa Morte " igreja pintada pelo alemão Moritz Rugendas" além das ossadas da Baronesa do Carandahy e as do Comendador Urbano Augusto trabalha um singelo jardineiro que diz ser pianista. Com mais de sessenta e quatro anos, aquele senhor que deambula todas as manhãs por entre os mausoléus com sua vassoura e seu rastelo jurou-me que é músico, e dos melhores da cidade. Com medo que eu desconfiasse de sua sanidade mental, ou de passar por mais um delirante deu-me detalhes de seu piano e relacionou as quarenta e tantas partituras que executa. Além disso, queria a todo custo levar-me até sua residência para demonstrar-me o que dizia com uma sonata de Chopin. Sugeri-lhe que deixasse a vassoura e a enxada de lado e instalasse seu piano aqui no meio das tumbas. Qual defunto não gostaria de ouvir uma Polonaise lá pelas cinco horas da tarde?

Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O dinheiro é o único Deus e os banqueiros seus profetas!


Nestas três ou quatro semanas de supostas bancarrotas, de encenações e de mise-en-scène melancólica ao redor da economia e das moedas, a cumplicidade velada entre as nações, o humor maníaco-depressivo dos investidores e a ansiedade simplória das massas nos têm esclarecido duas questões transcendentais. Uma de natureza sociológica e outra de ordem metafísica. Descobrimos quem é que manda verdadeiramente no mundo e quem é a divindade preferida dos rebanhos. A partir de agora será mais difícil aos politiqueiros de turno seguir fazendo o teatro hipócrita e benevolente das "igualdades sociais", dos "ideais socialistas" e das "balelas democráticas" da mesma maneira que será quase impossível aos padres e aos pastores seguirem enganando os beatos em nome de um Deus abstrato e fantasioso. Devemos aos larápios e às rameiras internacionais a descoberta de que o grande e único Deus é o dinheiro e de que os senhores banqueiros são seus profetas.


Ezio Flavio Bazzo

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Bestiário


Nem o escarcéu da prostituição infantil nas barbas do Ministério da Justiça, nem os tiroteios de grosso calibre nas entre-quadras e nem mesmo a derrocada do mercado financeiro internacional têm afetado a alta rotatividade dominical no zôo da cidade. Os pipoqueiros estão em transe. O milho transgênico salta em desespero nas panelas. As filas de automóveis são indescritíveis e os celulares não param de tocar lá sobre os cobertores, os lençóis e as colchas onde o pic-nic se instala. Que pensarão de nós as onças e os outros animais? Crianças e hipopótamos, donzelas e girafas, senhores e chimpanzés dividindo as pipocas e se observando mutuamente. O bestiário inteiro abanando as orelhas e chicoteando com o rabo a aluvião das moscas e o ziguezague das plumas dos flamingos. Claro que cada uma dessas grades, jaulas e cercas é um signo cruel de nossa desonestidade e de nossa tirania para com as outras espécies. Já que se tem falado tanto em “ética” e muito mais ainda em “bioética”, por que não se pensa num sursis ou pelo menos num hábeas corpus para essa fauna? Por que a Câmara – com seus duvidosos poderes – ainda não previu a clausura definitiva desta lúgubre penitenciária?

Ezio Flavio Bazzo

sábado, 27 de setembro de 2008

Recordando o masculinismo de Giovani Papini


"Nós os masculinistas, não somos contrários aos contínuos e progressivos triunfos do feminismo. O masculinismo não surge para opor-se ao feminismo, muito pelo contrário!, seu objetivo declarado e lógico, é o de tomar nota das conquistas do feminismo e, mais ainda, de ampliá-las, estendê-las, fazê-las universais". "Escutai-me, senhores, acompanhai meu pensamento atentamente. Em sua ingenuidade caseira e provinciana as mulheres imaginavam que o privilégio de governar ao povo, coisa que até meio século atrás era reservada aos homens, era uma honra, uma alegria, uma satisfação. Nossas rivais se enganavam por completo. A política é uma arte grosseira e falaciosa, está fundamentada em compromissos, enganos, na hipocrisia e na sem-vergonhice. A política é incomoda, suja e perigosa. Por isto, os masculinistas propõe a entrega total dos poderes às mulheres, já que por sua própria natureza são mais astutas, mais mentirosas e mais acomodadas. Que não exista apenas algumas deputadas ou algumas ministras, mas que todos os parlamentos e todos os governos sejam formados unicamente por mulheres! "Elas têm a língua mais solta que nós, possuem um maior sentido prático e menos repugnância para as coisas sujas. A política foi feita para elas e somente para elas. E, frente ao espetáculo que está sucedendo hoje no mundo não se deve achar que a coisa pública possa funcionar pior do que está, pois isto é claramente impossível. Na pior das hipóteses, os povos seriam levados à miséria e à morte, mas isto já está acontecendo, de forma que nada mudará. Em lugar disto, mudará para melhor a sorte dos homens, quem finalmente estarão em liberdade para dedicar-se às atividades mais nobres. "Escutai-me, cidadões homens; o Masculinismo prepara vossa libertação dos trabalhos e das missões mais duras e ingratas. As mulheres já ingressaram no ensino, mas ainda são minoria. O ofício de ensinar crianças e jovens, é " digamos a verdade de urna vez por todas ", muito cansativo e chato, por todos os lados o programa dos escolares é estudar pouco e enganar aos professores. Os únicos alunos que conseguem aprender verdadeiramente, são aqueles que estudam por conta, por paixão natural. Então, por que não entregar nas mãos das mulheres e somente a elas o ensino primário, médio e superior? Elas têm mais paciência e astúcia e um poder de atração muito superior. Pode-se assegurar desde já que os discípulos aproveitarão muito mais que com professores homens, quem, por sua vez, livres do odioso tédio da escola, finalmente poderão estudar seriamente por sua conta. " E diga-se o mesmo do trabalho em todas as formas. Segundo as escrituras, o trabalho foi imposto ao homem como castigo, mas, uma vez que, segundo as próprias escrituras, a primeira e verdadeira culpada foi a mulher na pessoa de Eva, é justo que a pena seja suportada por ela, e somente por ela." Me perguntais, estimados amigos ouvintes, que farão os homens se as sagradas e legítimas reivindicações do Masculinismo se realizarem plenamente. Não é difícil responder: liberados do trabalho e do asco que implicam o governo e outras funções, finalmente poderemos gozar em paz da maravilhosa beleza do mundo. Da labuta sempre penosa e perigosa, ascenderemos todos à felicidade da contemplação. As mais elevadas atividades do espírito, que hoje são patrimônio de poucos, (porque a grande maioria deve ocupar-se com as funções baixas da vida), poderão ser exercitadas por todos os varões. A poesia, a pintura, a escultura, a pesquisa científica e a especulação metafísica, estas serão nossas únicas ocupações diárias. A humanidade se dividirá em duas grandes castas diferenciadas pelo sexo: uma se dedicará à política, ao comércio, a produção material, às escolas e à burocracia e a outra, a nossa, dos varões, poderá consagrar-se com plácida tranquilidade às artes, ao pensamento, ao descobrimento do belo e do verdadeiro, em uma palavra: a tudo aquilo que faz suportável e desejável a existência. "E não sentiremos nenhum remordimento, pois precisamente as mulheres foram as primeiras em pretender, com todas suas forças, fazer o que apenas o homem vinha fazendo com sacrifícios e resignação. (...) O masculinismo não é uma contestação ao feminismo, mas sim sua realização universal em nome de nossa felicidade e da verdadeira justiça".

Ezio Flavio Bazzo

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O crash e os cacarás


É natural que aqueles que venderam suas vacas e suas cabras para investirem na BOVESPA estejam desolados com o fantasma do crash. Mas agora é a vez de levantar a cabeça e vender os filhos e as córneas para investir no dólar e no ouro. Quando estes também ruírem, paciência, pois a Bolsa já deverá estar novamente atraente. Nada de desespero. "Nossos bancos estão sólidos" , jurou o ministro. E depois, aqui entre nós, se a crise fizer diminuir o número de carros e de celulares nas ruas e o número das garrafas de vinho ordinário nas prateleiras dos supermercados, a redenção já estará feita. Sempre que me falam em economia (essa espécie de astrologia mafiosa) penso naquele sujeito que, por acreditar que os cachorros nos vêem como superiores e os gatos como inferiores preferia os porcos que nos tratam como iguais.


Ezio Flavio Bazzo

sábado, 6 de setembro de 2008

O velho complexo de vira-latas


Os desdobramentos a respeito do "affair grampos" têm agravado ainda mais a credibilidade e o conceito geral sobre os homens públicos. Depois do bafafá, todos declararam, curiosamente, ter feito uma "varredura" em seus aposentos e em seus gabinetes, passado a falar em "códigos" etc., e não se ouviu de nenhum deles o elementar, a frase óbvia que o populacho tanto esperava: a mim podem grampear o quanto quiserem, pois não tenho nada a esconder, sou um homem público.

A propósito, esses homens que tanto falam em transparência, o que camuflam, e de quem? Quê segredos um funcionário público - seja do escalão que for - tem a ocultar e a dissimular? Quê assunto e quê idéias precisam ser mantidos em sigilo? Por mais tapado que alguém possa ser tem a resposta na ponta da língua. Mas isto também passará. É apenas mais uma bobagem efêmera que tem servido, entre outra coisas, para lembrar-nos de duas características pouco conscientes de nossa personalidade: somos muito mais paranóides do que pensamos e temos -como insistia Nelson Rodrigues - um complexo de vira-latas.

Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Da surdez para a mudez


Num país onde tradicionalmente ninguém escuta ninguém e onde há uma surdez generalizada de séculos é compreensível que um caso de ESCUTA cause tanta apreensão e tanto mal estar. Se for a ABIN, algum técnico do exército, a polícia federal, um expert da polícia civil, a milícia do Senado, algum vigia do Congresso Nacional, a dupla Cosme e Damião ou mesmo um capanga dos próprios senadores o autor dos "grampos", isto não tem a mínima importância diante da pergunta: qual é, afinal, o sentido de tanta polícia e de tantos agentes de repressão? Além disso, é esperteza e romantismo malicioso querer dar ao caso uma conotação político-ideológica, uma vez que a esquerda e a direita se escafederam há muito por aqui e que uma vez no poder todo mundo vira ambidestro. Até as crianças sabem que o que determina a lateralidade de nosso homem público " e, evidentemente, o interesse dos tais arapongas " é apenas as porcentagens relacionadas aos grandes contratos e as propinas milionárias surrupiadas das mega transações econômicas. Por fim, se a nação for dar ouvidos ao conselho do chefe da ABIN - de calar a boca - estará sendo promovida de surda, para surda-muda. Situação ideal para qualquer gerente de tirania.

Ezio Flavio Bazzo

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

A rameira número quatro do Cazaquistão


As recentes declarações do escritor Paulo Coelho afirmando solenemente que ele é o intelectual mais importante do país deixou muita gente encolerizada. Os professores-doutores que ao longo de suas carreiras não conseguiram vender mais de uma centena de suas obras; os poetas que penhoraram suas casas para editar suas inapreciáveis obras; os eruditos que década após década vieram dormindo sobre pergaminhos e enciclopédias assim como centenas de outros presunçosos estão em pavorosa. Como é possível tanta impudência e tanto descaramento! Perguntam-se entre eles. Houve até quem declarasse recentemente que ser o intelectual mais importante deste país é mais ou menos como ser a rameira número quatro do Cazaquistão. Tudo bem! Mas como esquecer os cem milhões de livros vendidos? Como ignorar os palacetes? As grifes? As condecorações? As ruas, os coctéis e os templos que levam o seu nome? E o pior: os trezentos milhões de dólares em dinheiro vivo em sua conta bancária? Digam o que quiserem os ressentidos e os invejosos, mas para mim, o Paulo Coelho fez para a filosofia e para a sociologia o que nem um outro intelectual foi capaz: demonstrou com sua obra, sem grande esforço (e na prática) que a espécie, a humanidade, as pessoas em geral são alienadas, torpes, fúteis, repugnantes e que só adoram e consomem aquilo que se lhes assemelha.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Veneza e a Grande Marcha

“Nós afirmamos que a magnificiência do mundo
foi enriquecida por duas novas belezas: a dos grandes vôos e a da velocidade.
Marinetti

Só quem chega a Veneza pelo mar é que pode dizer que tem uma visão real e verdadeira desta cidade. Os cinqüenta minutos em que o navio grego vai vagarosamente se introduzindo pelo Canal de la Giudecca e que esta cidade sobre troncos vai se desvendando diante de nossas câmeras são suficientes para fazer-nos um pouco menos misantropos. Como foi possível transformar aquele medievo aglomerado de pescadores vivendo sobre palafitas nesta obra genial, placentária e indescritível! O mar não apenas lambendo as muralhas e as paredes, mas embalando aqueles blocos imensos de concreto, com seus telhados oblíquos e suas janelas minúsculas e simétricas. Os canais como artérias entre uma parede e outra, as sombras cortando ao meio tanto os jardins como os varais e os gerânios multicores despencando sobre as estreitas vias que lembram as medinas mouras e que insinuam a urbe perfeita. A primeira pergunta que tive que responder a mim mesmo, ainda aqui no convés foi de ordem antropológica: quê tipo de demência deve ter feito meu bisavô desertar daqui para embrenhar-se definitivamente na selva brasileira? Os vaporetos, as gôndolas, as lanchas, os barcos aparecem e desaparecem num piscar de olhos por debaixo das pontes, dos edifícios, dos palácios, dos porões, dos esgotos... Do telhado de um velho albergo um gato sonolento parece acompanhar as manobras do navio e o frenesi de seus passageiros diante de todo aquele deslumbramento... Soube mais tarde que são animais de olhos verdes provenientes do Egito e da Síria. Dizem que, há centenas de anos, Veneza além do paraíso dos mercadores foi também o paraíso dos ratos, dos mesmos roedores que a Inquisição chegou a considerar créatures de Satan.

Para proteger arquivos, documentos, livros, queijos, salames, mercadorias etc., os astutos comerciantes venezianos não encontraram uma alternativa mais ecológica do que a de importar das arábias esses simpáticos e sóbrios felinos... Com seus quase trezentos mil habitantes e suas mais de cem pequenas ilhas, Veneza é o lugar que qualquer um gostaria de passar uns dois anos sem fazer nada, apenas zanzando de um lado a outro, olhando abobalhado para aquelas construções seculares, para aqueles detalhes gótico-bizantinos, aqueles labirintos que invariavelmente conduzem o caminhante para uma surpresa mais fascinante que a outra. Enquanto o navio vai fazendo as últimas manobras qualquer um se surpreende tentando adivinhar como devem ter sido exóticos e libidinosos os dias em que Marco Pólo ancorava aqui suas frotas repletas de novidades e a Piazza San Marco fervilhava de negociantes, de madonas e de curiosos. Sacos de pimenta, rolos de seda, pedras preciosas, drogas, mármore, chás, ébano, canela, lendas, animais e outras preciosidades trazidas da Índia, da China e das Arábias. Os motores silenciam, os portões são abertos, os passageiros descem ansiosos e sorridentes. Na parede da alfândega, como insinuando uma recepção singular foi rabiscada – por um marinheiro ou por um mendigo? - uma citação do filósofo Leopardi: Nesse mundo, vive-se apenas de prepotência. Se não quiseres ou não a souberes aplicar, os outros hão de aplicá-la sobre ti. Mesmo sem ser supersticioso, como não ficar com a pulga atrás da orelha depois de um alerta tão explícito destes? 

A CHEGADA

A chegada em outro país é sempre um momento especial. Quê idioma falar? Que moeda usar? Tomar táxi ou metrô? Um hotel ou um albergue? Particularmente em Veneza, nenhuma imprudência é maior do que a de chegar sem uma reserva de hotel. Apesar dos arredores da estação de trem e da Piazzale di Roma estarem repletos de hotéis antigos e simpáticos, de uma, duas, três ou cinco estrelas, estão sempre lotados e são caros. A sóbria atendente de um dos quiosques da Associazione Veneziana Albergatori depois de lembrar que Veneza está lotada, fará mais duas ou três ligações e acabará por arranjar uma “única” vaga por trezentos euros. Trezentos Euros? É o único que temos – responderá ela, para em seguida justificar que “é final de semana”, “que é primeiro de maio”, “aniversário do bispo”, “semana das regatas no Grande Canal”, “dia do gondoleiro”, “festa della Sensa” etc. Momento em que nos lembramos do alerta de Regis Debray de que a cidade dos teatros, das óperas e dos bailes ela mesma é um teatro. A praça fervilha de gente de todos os cantos do planeta. Vinte milhões de turistas circulam por aqui todos os anos cada um com seus sonhos e com suas câmeras amarradas ao pescoço. Quem tem suas reservas feitas entra tranqüilo uma daquelas ruelas estreitas, compra logo os bilhetes para ir dar uma olhada na Igreja gótica da Madonna Dell’Orto onde estão algumas das mais badaladas pinturas do Tintoretto e onde ele próprio está enterrado. Depois dobra à direita, toma um transporte aquático e desaparece. Os que não foram tão precavidos ficam por ali arrastando as malas ou as mochilas sem saber o que fazer. Mas não terão nem tempo para desanimar. Alguém logo lhes lembrará que existem as cidades vizinhas onde sempre há vagas nos hotéis e os preços são razoáveis. Na cidade industrial de Mestre – por exemplo – a vinte minutos de Veneza, no outro lado da Ponte della Liberta, um bom quarto com um banheiro monárquico e impecavelmente limpo custa 50 Euros para o casal. Além disso, tem a vantagem de, na esquina, ter uma padaria onde se pode montar um estupendo sandwich de mortadela ou de salame por 4 Euros e no outro lado da rua um café chinês onde dois cornettos e um capuchino custam quatro Euros. Que as chaminés desta cidade estejam permanentemente fumegando, isto é o de menos. 

A GRANDE MARCHA

Com um tênis confortável, um sandwich e uma garrafa de água na mochila é a hora de rumar para antiga lagoa. Aqui tudo começa na Piazzala di Roma. Aqui iniciam os mil e um caminhos que levam à Praça San Marcos ou a lugar nenhum. Aqui começa o trottoir de quase todo mundo que vem para cá e ziguezaguear durante horas e sem destino por entre o gótico e o bizantino desta antiga república aristocrática pode ser a experiência mais fascinante da vida do sujeito. Lembrar que foi fundada no ano 400 é um poderoso vitalizante. Duas, três, quatro horas por estas ruelas medievais. Em ziguezague pela esquerda, depois pela direita, depois uma reta claustrofóbica. Opa! Um beco sem saída. Iniciar a volta pela beira do canal até uma ponte. De vez em quando – ninguém vai negar – sobe um cheiro de esgotos dos canais. Sobre nossas cabeças sempre os janelões floridos.
Lá está a flecha vermelha indicando Rialto. Rialto, todos sabem, é uma das três pontes mais famosas da cidade. O rico judeu Shilock, do Mercador de Veneza (Shakespeare) tinha negócios ali. Hoje mudaram os gêneros dos produtos que se vendem lá, as negociatas continuam as mesmas. Existe também a ponte Dell’Accademia, Degli Scalzi e a Del Sospiri. Cada uma com uma história mais melodramática do que a outra. Segue-se no ziguezague. Muitos bares e lojas de chineses. Estariam querendo resgatar os antigos furtos perpetrados por Marco Pólo? De repente um movimento em circulo pela direita e eis que se dá de cara com o paredão de uma igreja. Nada mais nada amenos que a famosa Santa Maria dei Frari. São tantas que, parafraseando a Vargas Vila permanecer ateu por aqui é a prova total de ateísmo. Butiques, pizzarias, casas especializadas em macarroni, um luthier, um pintor de rua, os varais repletos e velhos venezianos nas janelas. Os moradores daqui têm um sentimento ambíguo pelos turistas. Ruim com eles pior sem eles! Eis aí a dialética miserável e triste da condição humana! Ainda é possível encontrar venezianos que não abrem mão das origens venetas e de sua história de mil anos a.C. Consideram-se tão italianos como os bascos e os Catalães se consideram espanhóis.
Ricos, milionários, remediados e pobretões se cruzam pelos becos, pelos canais, pelas pontes, pelas gôndolas, mas sem que ninguém torça o nariz para ninguém. Veneza aparentemente democratiza! Socializa! Alguém pergunta onde fica o antigo gueto judeu. Outro quer saber onde vivia o Dodge e onde o Casanova ficou preso. Um casal em lua-de-mel quer saber como contratar uma serenata de gondoleiros. É verdade que algumas cidades infantilizam bem mais do que outras. As flechas vermelhas continuam indicando Rialto e Piazza de San Marco. Já as verdes indicam as toaletes que são sempre longínquas, muito caras e onde sempre há filas. O problema do WC é tão sério aqui, que até está incluído na Venice Card Blue que se compra por 40 ou 60E e que dá direito de usá-las à vontade assim como aos ônibus e aos vaporetos pelas águas do canal. As pernas e os músculos pedem uma trattoria ou pelo menos um pedaço de pizza. Os pés querem apenas um Band-Aid. Lá vão os gondoleiros conduzindo uma família de indianos. 70E por meia hora. Com seus uniformes parecidos aos de presidiários um vai cantando e remando enquanto o outro distrai os passageiros com seu acordeão. Tutto Belo! Tutto Perfecto! Venezia é um paradiso! Não se ouve mais como em outros tempos a conhecida O sole mio. que era uma música de Nápoles e que os napolitanos a interditaram. Cada vez mais o mundo vai se tornando um mundo de Direitos Autorais. Paciência. É a Commedia dell’Arte! Vedere Venezia e dopo morire!

PRAÇA DE SAN MARCOS

Quando o trânsito nas ruelas começa a ficar mais congestionado é porque se está chegando à Praça de San Marco, considerada o umbigo de Veneza assim como Veneza já foi considerado o umbigo do mundo. Foi aqui que em 1989 Pink Floyd deu um de seus melhores shows e que nos períodos de Acqua alta tudo fica inundado. Lá está a Torre do Relógio, peça do séc. XV. O Campanário e o Palácio que foi residência dos duques e também prisão. A multidão se acotovela e os pombos fazem festa. Dizem que há mais de 50 mil desses bichos voando por aí e emporcalhando as belas e sacras estátuas. Aqueles que não estiverem num dia de sorte podem sair daqui com um carimbo fecal no colarinho. Garçons, fotógrafos, guias, uma família de zingari, filas nas escadarias do Palácio dos Doges e gaiteiros. O famoso café Florian. Violinistas, perfumes caros, encontros, suspiros, noivados e casamentos. Muitos casais vêm casar-se em Veneza e ficam desfilando abobalhados por aí fazendo fotos românticas com beijo na boca e tudo, jogando punhados de arroz sobre a grinalda da moça e sobre o paletó Armani do noivo. Tudo bem em frente ao portal principal da Basílica de San Marcos com seus espetaculares mosaicos barrocos. Para não incentivar e engordar os pombos uma lei da prefeitura tenta impedir esse ritual do arroz nos casamentos, mas... E as mulheres que quiserem entrar na Basílica devem estar com os seios bem acomodados e com as pernas bem cobertas se não quiserem ser barradas por uma beata ou por um coroinha. Vivaldi, o autor das Quatro Estações, filho de um barbeiro violinista nasceu aqui e tocava na Orquestra da Capela de San Marcos. Outro músico importante que escreveu o Canticum Sacrum especialmente para esta Basílica foi o russo Stravinsky que, aliás, está enterrado no Cemitério veneziano.
Mas a Praça de San Marcos é apenas uma referência, pois a grande marcha continua ao léu pelos arredores. Não é verdade que Veneza “é uma droga que só é doce na primeira “viagem”“. Pode até ser uma cidade-escargot, como queria Debray, mas não perde em encantamentos e em mistérios para nenhuma outra. Só o fato de não existirem automóveis pelas ruas já a assemelha a um shangrilá. Ziguezagueando se chegará também ao Museu Accademia, à Fundação Guggenheim e a famoso Museo do Settecento. Mas os museus e as catedrais são só uns pretextos. Mesmo que exista ainda muita gente que queira ver a todo custo a Maria Madalena de Bellini, o que interessa mesmo são os trajetos, o vai-e-vem, o sobe-e-desce espremidos entre as paredes, os motores dos barcos, o movimento das gôndolas e a agitação popular com seus compromissos naturalmente inadiáveis. O prazer maior da viagem - principalmente aqui em Veneza – está nas horas em que se hiberna ao sol dos cafés, das tratorias ou das osterias, lendo um fragmento do séc. IX, vendo o mundo passar ou enquadrando no visor a mulher despenteada e semi-nua que abre o janelão do quarto andar para regar amorosamente seus gerânios.

O LEÃO: EMBLEMA DE SAN MARCOS

Alguns visitantes ficam bem mais entusiasmados com o Leão de San Marco que é também o emblema de Veneza e que está por todos os lados do que com os já mil vezes visitados nus femininos de Tiziano. Pode-se ver esse leão numa das duas colunas da Piazzetta, num dos lados da Torre do Relógio e também no Campanário. Já esteve em quase todos os navios venezianos e nas moedas antigas do Império. Observa a turba lá do alto, imponente, com suas asas abertas e exibindo um livro com uma frase ilegível. Dizem que se tornou o símbolo da cidade lá pelo ano 828 com a chegada das relíquias do evangelista trazidas da Alexandria por dois comerciantes de obras de arte. Apesar de poucos visitantes saberem, também estiveram espalhadas por Veneza (em épocas de chumbo e de execuções) umas caixas de ferro em forma de boca de leão que serviam para recolher denuncias anônimas. Instaladas pela inquisição uma em cada bairro e uma em frente ao Palácio do Doge, essas “bocas de leão” facilitavam a vida dos delatores e complicavam a vida dos hereges.


E A GRANDE MARCHA CONTINUA...

Da Praça de San Marco o fluxo descamba naturalmente para a beira mar, pela Riva degli schiavoni passando pelo Museu Naval Histórico até o Parco delle rimembranze. É nesse parque que o visitante mais atento descobrirá escondida no meio da vegetação uma estátua representando a Inveja que é de arrepiar. Ao longo desse trajeto o desfile da turba é mais visível e o trânsito de barcos, navios, vaporetos, lanchas etc. nas águas do Adriático é quase como o de nossas ruas ao meio dia. Os calcanhares pedem mais um esparadrapo. O sol é quase tropical, a beleza e a harmonia da arquitetura e principalmente das janelas deixam os visitantes hipomaníacos. Fotos, compras, sorvetes, cafés, reproduções de Tintoretto, de Tiziano e de Veronese. Gôndolas, muitas gôndolas. Idas rápidas a Murano ver as fábricas de vidro e a Butano ver as rendeiras, ou então até o Lido ver o antigo cemitério judeu e apostar uns Euros no Cassino Municipal. É neste calçadão que uma legião de negros simpáticos e astutos vindos do Senegal tenta vender objetos de couro e outras mercadorias aos turistas e são sistematicamente reprimidos pelos carabineiros. Sorte desses africanos que não existe mais os Conselhos e os inquisidores do século XV. Eram eles que controlavam e nobreza e os Doges. E o faziam com tanto rigor que pelo menos oito Dodges foram sentenciados à morte. E por falar em morte, todo mundo – ou pelo menos os levemente necrófilos - quer tomar um vaporeto e ir até a ilha de San Michele transformada no cemitério dos venezianos. É lá que estão os restos mortais do Stravinsky e também os do poeta Ezra Pound. Um funeral aqui é quase indescritível e só é menos exótico que os de Bénares, na Índia. O morto num vaporeto funerário, a família de preto em pé no convés, as rezas, o mar, as gaivotas, o vento e por fim o silêncio tumular de uma ilha.

INTELECTUAIS, APOSENTADOS E VIVALDINOS

Muita gente que se aposenta pelo planeta a fora planeja vir para Veneza passar uns tempos no Hotel Cipriani, fazer um ensaio fotográfico, freqüentar o cassino, escrever um livro, resgatar uma relação amorosa, montar um albergo, uma galeria de arte ou coisa parecida. Isto, quando não vem especialmente para escrever a história das cinzas do Teatro Fenice ou até mesmo para mendigar. O preço de um ponto de mendicância aqui na esquina da Praça de San Marco – segundo fontes clandestinas - pode valer muito mais do que se pensa.

Sabe-se de vários personagens nesta situação por aqui. Oferecem singelamente aos turistas não apenas tours literários, mas de todos os gêneros. Uns para conhecer ateliês, outros para visitar os bares onde este ou aquele escritor famoso freqüentou e até uns que conduzem os curiosos aos endereços e aos locais descritos em obras de ficção. Em que parte de Veneza Thomas Mann situou seu livro Morte em Veneza ou Shakespeare seu Otelo, por exemplo.

Outros vieram para cá porque não querem perder nenhum carnaval, nenhum Festival de Cinema e nenhuma das Biennale de Arte di Veneza que acontecem por aqui desde 1895. Alguns desses exóticos guias gostam de levar os turistas à Igreja Santa Maria da Saúde enquanto vão relatando detalhes da peste que tanto em 1576 como em 1631 causou estragos por aqui. Enfim, Veneza, que já no século XVII tinha mais de vinte teatros, que foi praticamente o primeiro centro de impressão de textos musicais da Europa, que lá por 1230 teve o primeiro colégio de médicos cirurgiões do mundo, que nos últimos cem anos já cedeu 25 cm é também um show de pirados, maníacos e desvairados de todas as ordens que de quando em quando aparecem por aí sobre uma gôndola recitando desde Leopardi até poemas do século XII, de autoria do veneziano Bartolomè Zorzi. E são incontáveis os escritores que escreveram suas obras aqui ou que tiveram Veneza como cenário. Henry James, Ezra Pound, Lord Byron (que escreveu Um libertino em Veneza), Sartre, Vargas Vila, Jan Morris, Carlo Goldoni, Hemingway, Paul Morand, Gabrielle Wittkopp, Proust, Hugo Pratt (que escreveu Veneza Secreta), Phillip Sollers etc., sem esquecer o filósofo e falastrão Giacomo Casanova que foi o terror das donzelas venezianas e que inspirou uma legião de autênticos picaretas pelo mundo a fora.

O sétimo dia é dia de arrumar as malas. Veneza amanheceu com uns chuviscos como se quisesse presentear aos forasteiros com mais um de seus espetáculos: o dos guarda-chuvas multicores dos venezianos deslizando em câmera lenta pela corcunda das pontes lembrando uma das monstruosas centopéias que Marco Pólo jurava ter avistado ao redor do mundo.

Ezio Flavio Bazzo

sábado, 23 de agosto de 2008

Eis aí a legião dos indiferentes


Brasília parece respirar serena e aliviada depois de assistir o cerco policial à farmácia da Ceilândia e à eliminação do adolescente seqüestrador com um tiro devastador na cabeça. Ninguém está interessado em fazer uma retrospectiva da existência miserável daquele garoto, pois essa empreitada obrigaria todos a fazer um enfrentamento doloroso com o espelho. É provável que o próprio policial encapuzado, antes de apertar o gatilho tenha tido a certeza desesperadora de que estava eliminando uma parte de si mesmo naquele pobre assaltante. E o mais assustador disso tudo é que essa legião de indiferentes segue insistindo que é cristã, evangélica, budista, humanista, maçom e até socialista. Além disso, eu mesmo, nas poucas vezes em que entro numa farmácia e vejo os preços superfaturados daquelas porcarias inúteis, tenho um desejo intenso de mandar todo mundo jogar-se no chão e gritar-lhes: isto é um assalto!


Ezio Flavio Bazzo

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Faltou vara em Beijing


Nós que consideramos a profissionalização dos esportes algo análogo à profissionalização dos exércitos - uma usina de mercenários - podemos ver e analisar os fiascos e as derrotas do Brasil nas Olimpíadas com outros olhos. Todos aqueles vacilos, todas aquelas exclamações domésticas diante das câmeras, todos aqueles prantos, beijos afetações e declarações de amor a Deus, aos pais e às famílias, as birras e as zangas diante das frustrações, as rodas de orações antes, nos intervalos e no final das competições etc., tudo isso, além de suburbano tem muito mais a ver com o caráter e com a personalidade de que com o talento e com a técnica. Seria muito mais saudável e soberano para a população em geral e repercutiria, evidentemente, no mundo esportivo se já lá no primeiro grau nossas crianças ouvissem bem menos a Chico Xavier e bem mais a Descartes.


Ezio Flavio Bazzo

sábado, 16 de agosto de 2008

Algemas ou esposas


"O uso das tais algemas - que, em castelhano, são, curiosamente, conhecidas por esposas - vêm tomando uma importância descabida no blablablá do cenário nacional, como se fossem o signo maior da desonra e da humilhação. Não são. Podem até ser no universo dos novos ricos, dos gatunos dissimulados e da pretensa aristocracia, mas não têm essa importância lá entre os historicamente deserdados. Lançar os holofotes neste momento e pelo motivo que todos sabemos, sobre 'quem', 'quando' e 'como' fazer uso das algemas é estar cinicamente empurrando o interesse maior para as sombras. É estar querendo dar atenção exagerada às moscas para não ter que identificar a carniça, querendo fazer um melodrama sobre uma praxe menor, que se pode mudar com um simples memorando, para poder seguir ocultando uma Justiça ainda monárquica comprometida da cabeça aos pés com os vivaldinos endinheirados. Enfim, é necessário ser muito tolo e muito singelo para acreditar que a regulamentação do uso das algemas (a Lei Dantas?) venha, daqui para diante, benificiar algum pé rapado. E acreditar que essa demagogia signifique algum avanço civilizatório entre nós é não compreender que, neste país das gentilezas - invertendo a lógica do pensamento de Câmara Cascudo -, é comum fazer um escândalo com a enchente do rio Potegy para não encarar a idéia e a necessidade de um dilúvio."


Ezio Flavio Bazzo

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

A democracia dos babacas


Curiosa e maligna a insistência da mídia a respeito das "estrições democráticas" e das "censuras" vigentes no Estado chinês. E não faço esta observação movido por algum tipo de nostalgia ou de romantismo maoísta, mas por compreender que essas opiniões e essas críticas, mais libertinas que liberais, a respeito daquele país, estão fundamentadas num mal entendido. Baseadas numa crença equivocada e pueril de que nossa democracia sim é que é plena e verdadeiramente transparente e, que, portanto, pode servir de modelo para alguém. Ora, que demonstração de ignorância! Os arroubos de autopromoção a respeito da nossa suposta liberdade, os panegíricos em torno da pretensa visibilidade social, da presunção de que nossas políticas são plenamente republicanas etc., são bobagens e miopias que não convencem praticamente a ninguém, uma vez que vivemos em plena guerra fratricida e em descarada liberdade condicional. Uma vez que a tal transparência acaba no guichê do primeiro órgão público, na mesa de qualquer gerentezinho de banco ou no balcão de qualquer delegacia de polícia. E depois, todos somos testemunhas de que as últimas décadas foram pródigas em obscurantismos e em transações veladas neste país, e que o Estado, com seus respectivos poderes, tem sido mais um esconderijo, uma caixa preta e um bunker de segredos ideológicos e mercantis do que outra coisa.

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 27 de julho de 2008

Dialética da natureza


No princípio, sempre que passeava com meu cachorro pelas entre quadras ficava um pouco intimidado ao ver os donos de outros animais levando luvas e um saco plástico com os quais recolhiam obsessivamente seus excrementos. Aquilo sim era um exemplo de cidadania - murmurava sempre o porteiro do prédio vizinho e quando eu lhe dava ouvidos mais do que devia, descambava a falar que na Alemanha a multa para quem deixasse uma cagada na grama era de duzentos euros. Só comecei a ficar mais relaxado e ter uma visão mais autêntica sobre minha pseudo-negligência quando percebi que atrás de meu cachorro se formava diariamente uma fila imensa de pássaros: bentevis, rolinhas, joão-de-barro, pardais, sabiás e até mesmo um pica-pau daqueles de peito amarelo e que todos se digladiavam vorazes para banquetear aqueles biscoitos fumegantes que meu lhasa ia soltando pelo caminho. Ora! A partir daí foi fácil para atingir o insight que me faltava. Eu e meu cão é que éramos os verdadeiros cidadãos! A dupla politicamente correta! Nós é que estávamos sendo úteis, não apenas para com o IBAMA, mas principalmente para com o ecossistema. Pensar com a própria cabeça é dar-se a chance de descobrir que, às vezes, os remédios importunam mais do que a própria doença.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 17 de julho de 2008

A ideologia do corpo


Aqueles que sempre tiveram dificuldades para entender por que o pensamento conservador e a prática reacionária vieram se eternizando pelos séculos afora ao chegarem à casa dos sessenta talvez comecem a desvendar esse mistério: É que o corpo é reacionário! A pressão alta, a taquicardia, a depressão, o diabetes, a cegueira, a surdez, a impotência e as tonturas são manifestações essencialmente antirevolucionárias e podem nocautear até o sujeito mais hedonista e o mais tagarela. O velho que se atrever a fazer um discurso libertário por exemplo - verá sua pressão, ainda ali diante da platéia ir lá para as nuvens; aquele outro que perder uma noite de sono não precisará esperar muito para ter que haver-se com sua disritmia; um charuto fumado apenas pela metade e eis a impressão de que os pulmões se desintegraram; um escorregão no boteco e eis que se despedaçou uma tíbia; um baseado e pronto, a nítida sensação de ter mergulhado no Alzheimer; uma refeição inadequada e eis o desmaio hipoglicêmico; meio copo de vodka e a impressão fulminante de estar com Parkinson; uma semente de cereja na gelatina e eis que se fratura um maxilar; um encontro fortuito com a antiga amante e eis que as armas já não se colocam mais à altura... Os vis patrulhamentos sociais que infestaram o planeta nos últimos tempos (antitabaco, antiálcool, antisexo, antidepressivos, antiterrorismo, antiautomóveis, antipornografia, antifeijoadas, antisol, etc.) e que sempre pareceram moralistas, policialescos e ideológicos eram, na verdade, - para nosso desalento - recomendações estritamente geriátricas.


Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 10 de julho de 2008

O veneno público e a eutanasia


Finalmente o Tribunal de Milão colocou fim à grotesca situação da mulher que vinha sendo mantida em estado vegetativo há 16 anos. É curioso que o Vaticano continue insistindo em seus argumentos teocráticos e que a eutanásia ainda seja um tabu, logo na Itália, onde sabemos, já no ano 200 o romano Claudius Aelianus mencionava o veneno público que era distribuído pelo senado de Marseille àqueles que, por uma razão convincente, desejassem morrer e o solicitassem. Por outro lado a Cúria Papal tem obrigação de conhecer a tese de Lucaine, segundo a qual, para tornar os homens presos à vida, os deuses lhes ocultam o prazer e as delicias da morte.


Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Os filhos de Caim


De inicio achamos que o gozo e a satisfação que sentiamos com a prisão dos chefões do mercado financeiro eram provenientes de nossa honradez, de nosso sentimento ético, de nossa equidade moral, de nossa cidadania e mesmo dos resquícios de nossa cristandade. Logo depois chegamos a desconfiar que pudesse estar havendo em nosso íntimo algo nefasto e vil derivado da cobiça (quero ter o que eles têm!). Porém quando fomos vendo as cifras inatingíveis, a beleza daquelas mansões, o brilho daquelas Mercedes e a elegância daqueles ternos - conhecendo a lógica dos juízes e sabendo que ninguém ficará preso coisa nenhuma - não tivemos mais dúvidas de que nosso gozo e de que nosso aprazimento eram de pura inveja (não quero que eles tenham!). Isto prova que uma determinada doença no âmbito do social e do público pode muito bem detonar inesperadamente uma doença igual ou de outra natureza na esfera do privado. Parafraseando a Diderot: está vendo este ovo? É com ele que se derrubam todas as instituições financeiras e todos os covis da terra.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 3 de julho de 2008

A selva é claustrofóbica


A única coisa que sei sobre Ingrid Bittencourt é que ela é autora da frase: A selva é claustrofóbica. Como se seu destino fosse o seqüestro, experimentou-o primeiro por parte dos fora-da-lei e agora pelos gerenciadores da lei. A estandardização de entusiasmo e de pensamento popular, a mesmice das manchetes, a similaridade entre as exclamações das elites e a dos pés-de-chinelo a respeito de seu resgate, antes de um sinal de humanismo é mais um signo da doença e da bovinização globalizada. Um coro evangelizado que é uma autentica advertência da incapacidade social e individual de raciocinar com os próprios miolos e de ver com os próprios olhos, uma subserviência doentia à propaganda e ao discurso dominante. Aquilo que deveria proporcionar uma discussão interdisciplinar e além do bem e do mal (sobre o Estado, as Leis e a megalomania no mundo) se esgota num monólogo tedioso e reacionário de esmoler. Nós que trabalhamos com a doença mental precisamos nos convencer dia após dia de que - como dizia Georges Canguilhem - aprender a curar é conhecer a contradição entre a esperança de um dia e o fracasso do fim, sem perder a esperança.


Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Cruz das Almas!!!


Aqueles que há dois meses atrás ficaram indignados com as conclusões de um pesquisador brasileiro sobre a inteligência dos baianos, sobre a teoria de que tinham um Q.I baixo, que preferiam tocar berimbau porque esse instrumento só tem uma corda etc., ficaram confusos hoje vendo as imagens e as notícias da Guerra das Espadas no município baiano de Cruz das Almas. Aliás, o que se poderia esperar de um vilarejo com um nome desses? Que a imbecilidade esteja presente num ou noutro indivíduo sempre é previsível e até normal em qualquer lugar do mundo, mas que uma vila inteira seja tomada por um surto de burrice auto-destrutiva daqueles é realmente algo fora do comum. São momentos insólitos como esses, com a turba se agredindo no meio das faíscas e da polvorada que nos fazem lembrar daquele pensador para quem um estúpido é sempre um estúpido, vinte estúpidos são sempre vinte estúpidos e cem mil estúpidos o material indispensável para um partido, uma seita ou uma outra das tantas forças históricas.

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 22 de junho de 2008

O que nos intreressa é a lista dos "LIMPOS"


Enquanto o STE não decide se divulgará a lista dos candidatáveis "sujos", nós que duvidamos que haja uma lista de candidatáveis "limpos" voltamos a ler o velho e lúcido Marcuse: a tolerância com a imbecilização sistemática de crianças e de adultos pela publicidade e pela propaganda, a libertação do espírito destrutivo ao volante dos automóveis, o recrutamento e treinamento de forças militares e para militares por todos os lados, a importante e benevolente tolerância com a fraude declarada no comércio, a política que como um imã atrai praticamente só canalhas, o desperdício e a obsolescência planejada não são apenas distorções e aberrações, constituem a própria essência de um sistema que fomenta a tolerância como meio de perpetuar a luta pela vida e de suprimir as alternativas. As autoridades em educação frequentemente se escandalizam e vociferam contra a delinqüência infantil, porém se escandalizam e vociferam bem menos contra a irresponsabilidade de velhos mentirosos, corruptos e gananciosos de toda uma sociedade.


Ezio Flavio Bazzo

sexta-feira, 20 de junho de 2008

O dharma do pequeno Akihito


A vinda do príncipe japonês ao Brasil serviu para que nos lembremos ( e digo "nos" por pura amabilidade) do verdadeiro papel da máquina diplomática no mundo: NENHUM. Toda aquela baboseira de não olhar para os olhos, de não tocar e de não dirigir a palavra ao visitante foi por água a baixo. O pequeno Akihito, ele próprio, sem preocupar-se com a Shanga brasiliense, mandou às favas não apenas a frescura dos protocolos, mas inclusive o principal dos preceitos budistas: o de não matar, e de zelar por qualquer forma de vida. Diante do festim herético que lhe foi oferecido, com vacas, cabras e outros animais sacrificados, entre uma deglutição e outra, apesar do visível deleite, é bem provável que esse Príncipe dos céus, - ao lado do Príncipe de Garanhuns, ambos sem curso superior -, estivesse sendo devidamente atormentado por seu Dharma.


Ezio Flavio Bazzo

sábado, 17 de maio de 2008

A sociologia pré-moderna


Foram-se os tempos em que a sociologia, com seu papel de compreender e explicar a sociedade precisava fazer o maior esforço e às vezes até recorrer à filosofia, à antropologia e até mesmo à psicanálise para dar conta de sua tarefa. Mesmo as teorias sofisticadas dos apóstolos Weber e Durkheim deixavam vácuos e lacunas, tão complexa parecia a compreensão da constituição social, os caminhos da transmissão dos significados, a construção das idéias, das atitudes etc.


Agora, quase meio século depois, descobrimos que nós é que complicávamos tudo. Ansiosos por dar à vida e à existência uma profundidade e uma complexidade maior do que elas tinham, divagávamos e mistificávamos o óbvio. Hoje tudo está bem mais claro. Não há cientista social que não veja e que não saiba que quem determina a personalidade, o caráter e até mesmo o desejo das massas são as empresas de telefonia(veja-se a idiotice e a alienação relacionada aos telefones celulares); as indústrias de medicamentos (veja-se os milhões e milhões de drágeas inúteis e caras que são receitadas e ingeridas diariamente); as fabricas de motos (veja-se a quantidade de motoqueiros se despedaçando nas estradas); a indústria de automóveis (veja-se a humilhação para comprar essa lataria ambulante, os congestionamentos e o extresse relacionados aos automóveis); a Microsoft (veja-se a quantidade de computadores e de outros aparelhozinhos inúteis, o confinamento e a distorção de comportamento que eles promovem no populacho); o MEC com seus livros didáticos (veja-se o lixo que se tem disponibilizado aos alunos nas últimas décadas); e as TVs, claro, com o Faustão, o Silvio Santos, os pastores, os clubes de futebol e a Xuxa. O resto é pura demagogia.

Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 23 de abril de 2008

A elegância é frígida


I – A globalização da blenorragia - As aeromoças abrem bruscamente as cortinas deixando entrar a luz e os reflexos da aurora que despenca sobre uma Roma ainda sonolenta e ladra. Dez horas amarrados como bacalhau, mas sem nenhum grande solavanco e sem nenhuma perceptível evidência de hecatombe. Muitos italianos bronzeados e felizes voltando do Brasil. Mesmo que tenham que passar os próximos seis meses tratando da clássica gonorréia, nada diminuirá neles a ilusão Casanovesca experimentada lá junto às nossas astutas e singelas adolescentes praianas. O Corriere de la Serra de bordo, fundado em 1876, coincidentemente noticia o estupro de uma americana em Roma e o de uma artista italiana na Turquia. Todas variantes de um mesmo fajuto e interditado amore. Depois de tantas idiotices travestidas de afeto, como não ir tomando consciência de que realmente "si sono pio lacrime in una cipolla che in cento storie d'amore?" (Aeroporto de Roma)


II - Por incrível que pareça, o que existe de melhor e de mais fascinante aqui em Atenas é uma pequena livraria francesa. Esses amontoados de pedras, essa poeira levitante e esses escombros pré-socráticos que no passado chegaram até a fascinar-me, agora me causam uma espécie rara de impaciência, de desprezo e de horror.

Foi nessa livraria onde comprei uma pequena relíquia que menciona o filósofo Peisithanatos (aquele que convence a morrer). Nessa obra pessimista que chegou até ser proibida pelo rei Ptolomeu no século IV a.C. o autor incentivava os leitores nada mais nada menos que a se matarem. Assunto que veio a ser retomado mais tarde por outro grego ilustre, o senhor Platão, em seu Phédon, cuja leitura também levou muitos jovens ao suicídio. Além dessa pseudo novidade, o que mais se vê nesta insólita Atenas são os rebanhos de turistas indo daqui para lá, saltando de uma pedra a outra como cabras e disparando seus flashes em todas as direções.

Quando o sol se põe, descem exaustos do Acrópolis para os restaurantes e empanturram-se com azeites, vinhos e com as conhecidas carnes de porco que dançam nos espetos verticais. Tudo ao som das gaitas dos ciganos que, de mesa em mesa, com seus dentes de ouro e com suas nostálgicas melodias estão sempre e inutilmente tentando convencer-nos de que a vida não é apenas uma decepção e um inferno. (Atenas, 22 de abril de 2008)

III – A vaca Parsifae - Aqueles que ainda se dão o trabalho de ficar mistificando mulheres como Simone de Beauvoir, Frida Kaho, Lou A. Salomé, George Sand e outras demi-frigidas da modernidade, bem que poderiam recordar-se de vez em quando também de figuras como Parcifae, a mulher do rei Minos, aquela que para transar com um touro, não teve pudor nem vergonha de travestir-se de vaca. Aqui, em Creta, sua memória está sutilmente insinuada por todos os lados. Mesmo que ninguém se atreva a sair aí pelos labirintos do Palácio de Knossos papagueando esse assunto é como se todos, inclusive a turistada alienada, desfrutassem de um certo prazer ao saberem que essa mulher mitológica não desacralizou apenas a balela da fidelidade (dando para um touro) mas também a da maternidade (gerando um minotauro).

IV - Instinct infâme de la rétribution. Se lá no Brasil já existem supletivos que garantem aos pilantras o primeiro e o segundo graus completos em seis meses, aqui na Grécia, pelo contrário, até os analfabetos falam grego... Em Atenas todos os caminhos e todas as veredas conduzem ao Acrópole. A essa antiga fortaleza que em determinado momento foi consagrada à deusa Athena e que mais tarde passou para as mãos dos latifundiários, os tais aristos, que queria dizer simplesmente os melhores. Estava semeada a futura aristocracia. Sentado à sombra de uma destas imensas colunas, ouço um guia matracando ao bando: Acrópole foi destruída por primeira vez pelos persas. Depois, com a invasão de Atenas pelos romanos, algumas de suas peças foram pirateadas. Mais tarde, lá por 1456, houve a invasão dos turcos que a transformaram num forte e instalaram aqui uma mesquita. Para desalojá-los, um demente general veneziano mandou bombardeá-la, fazendo o Parthenon saltar pelos ares... Mais tarde um embaixador inglês, como era de se esperar, também rapinou a sua parte. Ainda hoje, quem visitar o British Museum encontrará lá várias obras que já estiveram aqui... blábláblá...

O sol quase derrete as pedras. O bando olha ao redor, ajusta o boné sobre os olhos, se acotovela, sorri agradecido e instala nas faces aquele velho e conhecido instinct infâme de la rétribution.

V – Veneza e as créatures de Satan - Só quem chega a Veneza pelo mar é que pode dizer que tem uma visão real desta cidade. Os cinqüenta minutos em que o navio grego vai vagarosamente se introduzindo pelo canal e esta cidade flutuante vai se desvendando diante de nossas câmeras são suficientes para fazer-nos um pouco menos misantropos. Uma obra genial e indescritível! O mar não apenas lambendo as muralhas e as paredes, mas embalando aqueles blocos imensos de concreto, com seus telhados oblíquos e suas janelas minúsculas e simétricas. Os canais como artérias entre uma parede e outra, as sombras cortando ao meio tanto os jardins como os varais e os gerânios multicores despencando sobre as estreitas vias que lembram as medinas mouras. A primeira pergunta que tive que responder a mim mesmo, ainda ali no convés foi: quê tipo de demência deve ter feito meu bisavô desertar daqui para embrenhar-se na selva brasileira? Os vaporetos, as gôndolas, as lanchas, os barcos aparecem e desaparecem num piscar de olhos por debaixo das pontes, dos edifícios, dos porões, dos esgotos... Do telhado de um velho albergo um gato sonolento acompanha as manobras do navio e o frenesi de seus passageiros diante de todo aquele deslumbramento... Soube mais tarde que são gatos de olhos verdes e provenientes do Egito e da Syria. Dizem que há centenas de anos Veneza foi também o paraíso dos ratos, dos mesmos roedores que a Inquisição chegou a considerar [créatures de Satan]. Para proteger arquivos, documentos, livros, mercadorias etc, os astutos mercadores venezianos não tiveram outra saída a não ser importar esses simpáticos e sóbrios felinos... O navio se prepara para ancorar e aciona seu apito. Na parede da alfândega vejo rabiscada uma curiosa citação do filósofo Leopardi: Nesse mundo, vive-se apenas de prepotência. Se não quiseres ou não a souberes aplicar, os outros hão-de aplicá-la sobre ti. (Veneza, 01 de maio de 2008)

VI. A elegância é frígida - Quem me vê saltando do trem em Parma, com esse chapeuzinho de japonês e essa cara de forasteiro babaca deduzirá logo que vim para o Congresso de Gastronomia que está acontecendo na cidade ou então para experimentar os famosos presuntos que a região produz. Engano. Vim por um presunto sim, só que este está enterrado no Cemitério Dela Villette: me refiro ao grande e demoníaco Paganini. Como todo mundo sabe, Paganini revolucionou a música e mesmo o manejo com o violino. Diziam até que as cordas de seu instrumento haviam sido feitas com as tripas de sua mulher, que chegou a tocar com apenas a corda Sol etc., etc. Confesso que de seus 24 Capricci per violino, apenas uns três ou quatro me interessam. O que me entusiasma mesmo em sua existência é o fato de que, depois de morto, a igreja proibiu durante cinco anos que seu corpo fosse enterrado num cemitério. Por ter expulsado o padre que queria administrar-lhe a extrema-unção, seu cadáver ficou perambulando pelos porões dos hospitais daqueles anos de 1840, pelas garages dos palácios etc., até que seu filho conseguiu enterrá-lo aqui em La Villette, que, aliás, é um dos cemitérios mais luxuosos que conheço. Nesta cidadela – que tem um Auditorium e um Bar com o nome do violinista - tudo é luxuoso. As mulheres vão e vem por aí, em bicicletas, empetecadas de Armani por cima e por baixo, as pernas semi abertas, pedalando e esbanjando elegância. Sem deixar de desfrutar do espetáculo fico sempre relembrando a declaração daquele poeta japonês que prevenia: a elegância é frígida. (Parma, Itália, 05 de maio de 2008)

Ezio Flavio Bazzo

segunda-feira, 24 de março de 2008

Os mosquitos e o proletariado


Não é só a epidemia ou a precariedade dos hospitais no Rio de Janeiro que têm nos impressionado, ficamos boquiabertos também com a insistência e com apreferência dos mosquitos em atacar o proletariado e sua prole. Quais as razõesdesses insetos preferirem as águas estagnadas dos muquifos e a nojeira doscortiços ao invés dos jardins suspensos de Ipanema? Por que essa opção pelo lodo no interior dos pneus, dos urinóis e dos canecos abandonados nos aterrosnauseabundos ao invés da umidade perfumada sob as touceiras de Heliconias e da Cordiline Rosada nos fundos das mansões do Leblon? Por que esses ferozes mosquitos preferem desovar nos bairros miseráveis, apinhados e infectos, aoinvés de depositarem seus filhotes nas coberturas à sombra dos filodendros? Sinceramente, não dá para entender. E as massas miseráveis se colocam em fila na beirada dos hospitais com suas crianças mortas nos braços e já sem lágrimas. Seus tataravôs, bisavós e avós já passaram por algo semelhante com a varíola, com a lepra, com a febre amarela, com a sífilis... O horror não lhes é estranho. Por isso ficam ali o dia inteiro ao lado de seus parentes moribundos sem nenhum impulso incendiário e sem a mínima compreensão de como realmente funciona o desprezo, a negligência e a gatunagem social.

Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 19 de março de 2008

Vendaval de Sangue


Depois do vendaval de sangue em São Paulo, é verdadeiramente impressionante ouvir os discursos dos Secretários de Segurança, dos governadores, dos Ministros, dos assessores, dos delegados, dos gerentes de Ongs, dos pacifistas, dos bispos e de outros responsáveis pela Ordem nacional. É verdadeiramente inacreditável que esses senhores consigam fazer tantas reuniões e seguir dizendo as mesmas coisas durante tantas décadas sem, contudo, na prática, - apesar de todo o dinheiro que já foi destinado e gasto para esse fim - terem conseguido fazer o mínimo do mínimo daquilo que se esperava deles.

Agora, no embalo de toda essa falação surrealista, é importante considerar que: mesmo que o governo desfile seus tanques pelas ruas, mesmo que crie comissões pra cá e comissões pra lá, mesmo que cante de galo, que mistifique o judiciário, que indenize as vítimas, que volte a flertar com a pena de morte, que libere milhões e milhões pra todo lado, nada terá sentido algum se não se mudar, amanhã mesmo, o tratamento dado aos presos naqueles chiqueiros, naquelas pocilgas, naqueles matadouros, naqueles infernos e naquelas imundícies chamadas presídios, cadeias, febens etc. E mais: que dos homens e dos adolescentes enjaulados lá, naquelas condições, é prudente se esperar tudo, inclusive, que quando tiverem a mínima chance, queiram novamente ajustar contas, não apenas com cada um de nós, mas com todos os membros de nossa árvore genealógica.

Ezio Flavio Bazzo

sexta-feira, 14 de março de 2008

Ante Projeto de Lei


Nós, da Ateus Sociedade Anônima, por conhecermos as regras e as leis que regem o Estado, por não acreditarmos que o universo seja regido e controlado por algum tipo de divindade ou força sobrenatural e, principalmente, por sabermos o quanto as religiões, as seitas e confrarias do gênero são maléficas para a saúde mental das pessoas em geral, mas especialmente para a saúde mental das crianças, exigimos do governo que:


1.Providencie a retirada de qualquer símbolo religioso das repartições públicas. Seja ele o conhecido crucifixo, o pedestal da Bíblia, as estrelas de David, os Patuás, as velas acesas atrás das portas etc;

2.Proíba a doação de terrenos públicos para a construção de igrejas e de templos a qualquer tipo de religião ou confraria esotérica;

3.Inclua no currículo escolar do primeiro grau a matéria "folclore" através da qual se dará às crianças a oportunidade de conhecerem a história de todas as religiões que se têm notícias até agora. Que inclua também uma outra matéria através da qual se ensinará aos alunos os contextos históricos e os processos etno-mentais que deram origem a cada uma das religiões;

4.Impossibilite que pais, tutores, professores ou religiosos iniciem crianças com menos de quinze anos em qualquer tipo de religião. A mesma lei que regulamenta a pedofilia e a exploração sexual de crianças deve regulamentar a exploração de suas crenças e de sua fé.

5.Exclua a frase "COM A GRAÇA DE DEUS" ou "SOB A PROTEÇÃO DE DEUS" de todo e qualquer ritual jurídico, policial, parlamentar ou burocrático. Aquele que por demagogia ou acosso moral fizer uso desse instrumento, seja em política ou em instâncias judiciais, será considerado antiético e deverá ser afastado por charlatanismo.

6.Impossibilite que qualquer sujeito que se intitule pastor, padre ou coisa semelhante possa candidatar-se a cargo político e muito menos que receba concessão de rádios, de televisões etc, e que dirija instituições filantrópicas. As pregações religiosas que atualmente infestam as televisões do país devem ser consideradas propaganda enganosa tão ou mais perniciosas que a apologia da merla.

7.Interdite o direito de exercer a profissão a aquele professor, médico ou outro profissional de saúde que, valendo-se da assimetria a seu favor, assediar ou coagir alunos ou pacientes com doutrinamentos religiosos ou qualquer outro tipo de insinuações teístas ou de ordem sobrenatural.

Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 12 de março de 2008

Parlamento


Está equivocado o parlamento brasileiro se acredita que o maior motivo de indignação popular refere-se às férias de noventa dias e às convocações parlamentares extraordinárias remuneradas. Isto é quase nada diante de todo o surrealismo que ocorre nos bastidores desse paraíso de privilégios. O que está em xeque realmente é o político profissional, os critérios viciosos de sua escolha, o exagero de poderes que lhe é concedido e mesmo a própria república, esse presente de grego que há séculos não é resignificado. Querem promover mudanças? Então que conste no PDL: mandato de quatro anos sem possibilidade de reeleição; o salário do parlamentar deverá ser o mesmo que vinha recebendo na sua vida profissional; o parlamentar deve permanecer em sua cidade legislando via internet e ao invés de passaporte especial, passagens, imunidade etc, deve apresentar-se mensalmente à polícia e à receita federal. Caso contrário seguiremos repetindo até a náusea esse teatro reformista, fomentando a megalomania e os desmandos de alguns vivaldinos e eternizando democracias medíocres e semibárbaras.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 6 de março de 2008

Células-tronco ou sabonete?


A esperada decisão do STF a respeito da lengalenga das Células-tronco serviu para concluirmos definitivamente que o Estado e os poderes deste país não são laicos coisa nenhuma e pior, que estão dominados de uma ponta a outra por uma gerontocracia beata que confessa publicamente ter uma dívida impagável para com o clero. Mesmo muitos daquelas autoridades que ontem foram compulsoriamente à tribuna defender o “Progresso”, a “Liberdade científica” e, por conseguinte, o uso dos tais embriões, tiveram o cuidado de, nas entrelinhas, sem que os eleitores percebessem, pedir desculpas aos bispos e reafirmar ad infinitum a dívida e a culpa que têm para com aquela confraria. Agora, uma coisa deve ser mencionada. Independente da bobagem de que seria crime ou pecado usar Células-tronco de embriões para pesquisas etc, talvez os promotores, os juízes e os padres que obstruíram a votação tenham razão num ponto: uma comunidade “científica” que ainda não conseguiu administrar o básico do básico em seus hospitais, que ainda está às voltas para livrar-se do lixo e das bactérias hospitalares e que ainda não disponibiliza sequer de sabonetes para seus médicos, realmente não é confiável.

Ezio Flavio Bazzo

segunda-feira, 3 de março de 2008

Abuso da fé Pulblica


Quero solidarizar-me com o italiano Luigi Cascioli que lá na cidade de Viterbo, está processando a igreja por crime de propaganda enganosa e obrigando-a, através da lei do Abuso da fé Pública a provar historicamente a existência de Jesus. Se nossas leis são extremamente severas e rigorosas com relação à falsificação de dinheiro, de remédios,de raízes, de alimentos etc, é mais do que evidente que ela deve sê-lo também com relação às falsificações relativas às crenças, ao charlatanismo místico generalizado e às manipulações espirituais de massa. Que a fé seja um assunto íntimo e pessoal de cada um, estamos todos de acordo, agora, a liberdade para engendrar a fraude quem bem se entender, para prometer milagres e recompensas celestes aos pobres beatos, institucionalizar o assédio religioso, o acosso moral, a chantagem emocional e a comercialização dessas ficções neuróticas, isto já é um problema que afeta, humilha, envergonha e adoece a toda a humanidade.

Ezio Flavio Bazzo

Façanhas do Principe Arre!


É quase inacreditável que numa época em que o mundo se organiza para usar células-tronco e reproduzir orelhas, braços, cérebros etc, ainda se assista o folclore de um príncipe ruivo que vai secretamente masculinizar-se e treinar tiro-ao-alvo num país bárbaro e longínquo. Pedagogia de uma monarquia aparentemente erigida nos moldes de Montesquieu ou de Benjamim Constant, mas que oculta no seu âmago além do delírio da hereditariedade e da vitaliciedade a excrescência das antigas chefaturas tribais instaladas às margens do Eufrates.

E o mais abominável desse conto de fadas contemporâneo é que os súditos melanizados de todo o planeta parecem ficar fascinados diante de qualquer fanfarrão albino que tenha dois metros de altura e ascendência monárquica, principalmente quando o vêem com um capacete enfiado na moleira e a culatra de um fuzil apoiada nos ombros. Sinceramente! E depois não querem que as poucas inteligências que ainda resistem descambem para a misantropia. Sempre que assisto algo dessa natureza convoco imediatamente o velho François de Chateaubriand que já em sua época alertava: quanto mais o opressor é vil mais o escravo é infame.

Ezio Flavio Bazzo

sábado, 1 de março de 2008

Nos subterrâneos da fé


"Se você topar com alguém que lhe diga "eu sei que Deus não existe", não é um ateu, é um imbecil. E, igualmente, se você encontrar alguém que lhe diga "eu sei que Deus existe". É um imbecil que confunde a sua fé com um saber."

A. Comte-Sponville

Nas últimas décadas – por sorte – o mundo não viu apenas o crescimento vertiginoso de religiões, de sectarismos, de seitas, desvarios místicos e de fundamentalismos associados ao terror e à fé. Vem testemunhando também a contra investida de livres pensadores, laicos, filósofos e intelectuais ateus de todos os matizes cientes, por um lado, de que as religiões podem ser extremamente maléficas, e por outro, que é possível ser honesto, ético, verdadeiro, menos salafrário, criativo e até mesmo espiritualista sem Deus. No meio de tanta massificação e de tantos olhos voltados para o além esses estudiosos vêm produzindo importantes trabalhos sobre o assunto, fazendo-nos compreender que por de baixo da aparente democracia do velho axioma "religião e política não se discutem" havia – e há – um sutil artifício de censura e de interdição de esclarecimento pessoal que pode muito bem ter sido responsável pelo estado de alienação e de atraso em que os países latinos em geral – e o Brasil em particular – se encontram atualmente, tanto no universo da política como no da religiosidade. A crença num ou noutro Deus ou em nenhum, a filiação a esta ou àquela religião ou a nenhuma, tem sido o motivo principal daquelas tão bem conhecidas discórdias e mixórdias que vieram pelos séculos a fora regando a terra de imposturas e de sangue.

Entre os livros recentes, traduzidos para o português, podemos mencionar Deus, um delírio, do biólogo norte americano Richard Dawkins, Carta a uma nação cristã, do filósofo de Stanford, Sam Harris, e o Espírito do ateísmo, do pensador francês André Comte-Sponville. Três ensaios mais do que oportunos que, sem nenhuma sisudez e sem nenhuma fobia conectam-se entre si principalmente pela consciência de que o ateísmo não é o fim do mundo e que o fanatismo e o irracionalismo religioso são igualmente insalubres tanto para a civilização como para as sociedades. Além dos esclarecimentos concernentes à crença no suposto Design Inteligente, o que é precioso nesses livros é tanto a sinceridade como a objetividade com que os autores tratam os absurdos, os erros, as ficções, as irracionalidades e as neuroses inerentes às crenças no sobrenatural que, mesmo estando presentes em todo o planeta, inclusive em países influentes como os EUA, causam muito mais estragos naqueles atascados na pobreza e no subdesenvolvimento. Para Harris, o fato de quase a metade da população norte americana ainda acreditar na vinda do Messias, na idéia de que o mundo está prestes a acabar – e mais – que o fim será glorioso deve ser considerada uma emergência moral e intelectual.

Além do resgate das idéias anticlericais e ateístas clássicas, esta tríade de pensadores contemporâneos chama atenção para o fato de que tanto a pregação da intolerância religiosa contra os "infiéis" e contra os "ateus", como a interpretação ao pé da letra dos ditos livros sagrados, além de desrespeitar a liberdade individual e de interditar os avanços das Ciências podem colocar em risco até mesmo a sobrevivência da humanidade. Neste particular, – sem falar do dogmatismo religioso a respeito de questões como o aborto, a transfusão de sangue, o uso de preservativos, as células tronco etc. –, é importante lembrar que em muitas daquelas escolas primárias dos EUA onde a Bíblia é usada como livro didático, continua sendo proibido mencionar o nome de Darwin assim como fazer menção às suas teorias evolucionistas. Daí o espirituoso alerta de Harris: "Os que têm o poder de eleger presidentes, deputados e senadores – e muitos dos que são eleitos – acreditam que os dinossauros sobreviveram aos pares na arca de Noé, que a luz de galáxias distantes foi criada a caminho da Terra e que os primeiros membros da nossa espécie foram modelados a partir do barro e do hálito divino, em um jardim com uma cobra falante e pela mão de um Deus invisível." E o mais bizarro de tudo isso, é que esse Deus absconditus tem sido o motivo principal de muitas chacinas, de muitas imposturas e de incontáveis sofrimentos. Se pelo menos aparecesse, desse uma pista aos homens de pouca fé. Mas não, prefere o anonimato e a clandestinidade. Insiste em habitar no invisível, fato que para o filósofo Sponville, é simplesmente espantoso. Um Deus que se esconde com tanta obstinação! "Seria mais simples e mais eficaz – diz – Deus consentir em se mostrar, pois se quisesse que eu acreditasse nele resolveria num instantinho esse assunto. (...) Um Deus oculto! "Os humanos só se escondem quando têm medo ou vergonha. Mas Deus?" Para Dawkins, um dos efeitos verdadeiramente negativos da religião é que ela nos ensina que é uma virtude satisfazer-se com o não-entendimento. Sim, a religião permite – segundo também Harris – que as pessoas imaginem que suas preocupações são morais quando não são – isto é, quando elas não têm nada a ver com o sofrimento ou com o alívio do sofrimento. A religião permite que as pessoas imaginem que suas preocupações são morais, quando na verdade são altamente imorais – isto é, quando insistir nessas preocupações inflige um sofrimento atroz e desnecessário em seres humanos inocentes.

Mas ser ateu não é necessariamente uma opção glamurosa e nem tão fácil como se pode pensar. Pesquisas tanto lá nos Estados Unidos como aqui no Brasil e em outros países já demonstraram que a população que votaria num candidato ateu à presidência da república é mínima e que os eleitores elegeriam com muito mais tranqüilidade (apesar do racismo e da homofobia latente) um candidato que fosse bandido, negro ou homossexual. "Se você tem razão ao acreditar que a fé religiosa oferece a única base real para a moralidade – escreve Harris –, então os ateus deveriam ser menos morais do que as pessoas de fé. Na verdade, os ateus deveriam ser totalmente imorais. Será que são mesmo? Será que os membros das organizações de ateus nos EUA cometem crimes violentos em proporção maior que a média? Será que os membros da Academia Nacional de Ciências, dos quais 93% não aceitam a idéia de Deus, mentem, enganam e roubam deslavadamente? Podemos estar razoavelmente seguros de que esses grupos se comportam pelo menos tão bem quanto à população em geral." "Não tenho uma idéia muito elevada da humanidade em geral e de mim mesmo em particular para imaginar que um Deus esteja na origem desta espécie e deste indivíduo", declara Sponville para explicar seu ateísmo. E é esse mesmo filósofo materialista e racionalista que acredita que prescindir de religião não o obriga a prescindir de espiritualidade e que ser ateu não significa abandonar seu espírito aos padres, aos mulás ou aos espiritualistas. Tanto a intervenção de Harris como a de Sponville bem que poderiam fazer o universo religioso mais tolerante para com os ateus, pois está provado, por um lado, que o ateísmo é compatível com as aspirações básicas de qualquer sociedade civil, e por outro, que a crença generalizada em Deus não é garantia para a saúde física e nem para a saúde mental de ninguém, pelo contrário. Entre seus correspondentes Harris lembra que os mais mentalmente perturbados sempre citam capítulos e versículos bíblicos. Em Carta a uma nação cristã, o filósofo norte americano lembra ainda que embora se acredite que acabar com a religião é um objetivo impossível, é importante perceber que ele já foi alcançado por boa parte do mundo desenvolvido. Noruega, Islândia, Austrália, Canadá, Suécia, Suíça, Bélgica, Japão, Holanda, Dinamarca e o Reino Unido estão entre as sociedades menos religiosas da terra. De acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (2005), essas sociedades também são as mais saudáveis, segundo os indicadores de expectativa e vida, alfabetização, renda per capita, nível educacional, igualdade entre os sexos, taxa de homicídios e mortalidade infantil. Inversamente, os cinqüenta países que ocupam os lugares mais baixos, segundo o índice de desenvolvimento humano das Nações Unidas, são inabalavelmente religiosos.

Enfim, as leituras aqui mencionadas são obrigatórias a qualquer um, – ateu ou crente – que queira estar à altura de sua época, pois o dogmatismo e o obscurantismo são temas aos quais ninguém pode ficar indiferente. As pessoas precisam tomar as rédeas de suas vidas nas próprias mãos e quem quiser compreender como acontece a fanatização e a massificação na fé, basta lembrar que se você levar a vítima (principalmente crianças e pessoas pouco esclarecidas) por um caminho conhecido ela não perceberá que você a está levando para uma armadilha. "Seria um erro – alerta Sponville – abandonar o terreno para eles. A luta pelas Luzes continua, raramente foi tão urgente, e é uma luta pela liberdade."

Para aqueles que não vivem sem seus álibis e que estão acostumados a fazer jogo duplo em tudo, inclusive em relação às coisas da eternidade, Dawkins nos lembra que quando perguntaram a Bertrand Russel o que ele diria se morresse e se visse confrontado por Deus, exigindo saber por que Russel nunca acreditou nele, este teria respondido: "Não havia provas suficientes".

Ezio Flavio Bazzo