"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 28 de agosto de 2007

As razões dos incendiários


Se desde Dionísio e de Sócrates já se desconfiava que os gregos não eram lá muito normais, agora, com a onda de piromaníacos querendo incendiar a Grécia inteira, ninguém tem mais dúvidas. Um milhão de Euros para quem caçar um piromaníaco e sua caixa de fósforos. Não será fácil. E os motivos que movem esses incendiários são sempre os mais diversos.

Os advogados e as polícias têm hipóteses semelhantes; os psicanalistas continuam insistindo que é a libido bloqueada provocando faíscas; os psiquiatras juram que umas gotas de rivotril teriam prevenido o desastre; os cínicos afirmam que é Prometeu devolvendo o fogo aos deuses; os crentes lembram Nero e Roma e dizem que são as profecias saídas da caverna de Patmos e o prólogo do fim dos tempos; os sociólogos repetem a lengalenga da alienação, das lutas de classes e do Reichstag na Alemanha; os ecologistas associam o gesto dos piromaníacos às suas teorias catastrofistas; os ricos dizem que é pura obra da marginalia, enquanto a marginalia acusa os ricos de estarem usando o fogo para tentar livrar-se da plebe suburbana etc.

Sim, há hipóteses e crendices para tudo neste mundo. Existem até aqueles que decepcionados com o andar da carruagem afirmam descaradamente que se o planeta inteiro pegasse fogo, salvariam imediatamente o fogo.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Fé, obesidade e misoginia


Sem estar de maneira nenhuma querendo fazer apologia daquelas mulheres esqueléticas e anoréxicas que a mídia tanto gosta de exibir, a verdade é que a quantidade de obesas que tenho visto mesmo aqui no sertão tem me causado certo broxeamento mental. Das vinte e tantas que fazem parte de uma excursão e que estão hospedadas no mesmo hotel que eu, - por exemplo - apenas duas ou três não estão além dos noventa quilos.


As beatas que freqüentam diariamente as missas e mesmo as mendigas da Igreja Nossa Senhora das Dores, vejam como é grave, estão mais ou menos na mesma média. Na fila do mercado, hoje à tarde, prestei bem atenção, a grande maioria tinha um traseiro, umas coxas e umas tetas de causar espanto, sem falar dos conhecidos e famosos pneus tanto no abdômen como nas costas.

O que estaria acontecendo com esse gênero? O que estaria por detrás dessa compulsão por comida? A resposta, seja ela qual for, parece não ter eco. O problema é que ficar muito tempo exposto a um cenário destes é dar chances para que comecem aparecer em nós os primeiros rugidos da decepção e até da misoginia.

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 19 de agosto de 2007

Da carne e do espírito


Na periferia das cidades e na beirada das estradas que cruzam e se entrecruzam pelos vales e pelas chapadas do Araripe chama atenção de qualquer um a presença constante e insistente tanto de motéis como de churrascarias. Apesar da bravura e dos esforços do Padre Cícero ao longo de séculos e por menos que se queira admitir, é visível e inquestionável por aqui a supremacia da carne sobre o espírito, o predominio do coxão mole e da picanha sobre as bem-aventuranças da alma.


Ezio Flavio Bazzo