"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 28 de abril de 2007

Dias de Ocio em Budapeste


Troglodita assumido, borduna em punho, e com as mais genuínas e insanas artimanhas da modernidade, cumpro minha obsessão literata, enquanto esta centopéia coletiva vai se arrastando cidade-a-dentro, cidade-a-fora, por cima, por baixo, por dentro e ao redor da terra e de monumentos levantados a Béla Bartok ou a Joséf Atilla, margeando antigas paredes, desviando edifícios que parecem abrigos de guerra e levitando de um lado a outro do Danúbio...

Partindo da consciência de que quem escreve blefa, gosto de perguntar-me: Se nossos escritos só pudessem ser publicados postumamente, será que alguém de nós ainda continuaria escrevendo? Duvido! Mas prometi para mim mesmo não entrar em elucubrações filosóficas!

O que importa, neste momento, é que me sinto um monstro errante!

Congelo literalmente meus pensamentos!

Assumo a postura clássica da múmia, enquanto o pequeno trolebus desliza quase vazio, rabiscado pelos punks e enferrujado pelo tempo.

Um bêbado na poltrona da frente, dois ciganos no meio do corredor e uma velha gorda e moribunda prestes a sentar-se no colo do motorista. Marseille? Puebla? Barcelona? Buenos Aires? Não, não. Um letreiro imenso que parece estar atrelado aos cabos de aço, divulga um produto húngaro...

Quando se atravessa a Ponte da Liberdade o ar fresco que sobe do rio invade o vagão e provoca arrepios. Lá fora, a cidade inteira mostra sua ancianidade e parece exibir nos olhos, tanto o horror do passado como o descrédito pelo futuro, dando a entender que até os sonhos são provisórios, que a própria liberdade tem o seu climatério, e que os seres ocultam prazerosamente no cerne de seus DNAS uma espécie de paixão pelo desastre.

Um guindaste imenso que emerge do nada resgata, por um lado, o fascínio que os homens têm pela modernidade e demonstra, por outro, o quanto a vida está transformada em superficialidade e em espetáculo. Os húngaros, que ontem cuspiram sobre os signos do comunismo, hoje se colocam de joelhos diante dos slogans cretinos, traiçoeiros e patéticos do consumismo. Isto, evidentemente, porque, como se sabe, parte das ideologias, apesar de todo o folclore nunca foi mais do que conflitos pessoais transformados em conflitos sociais...

Alguma divergência teórica professores?

Política e fé! A arte de mentir em nome do povo, da sociologia e de São Lázaro.

A Praça Vorosmarty resplandece, enquanto permaneço colado à poltrona, ébrio de ausência e hipnotizado pelas sombras que me seguem. Uma livraria, dois homens grisalhos e de bigodes retorcidos saem dela com uma pilha de livros sob os braços. Cultura ou decoração? Victor Hugo gostava de denunciar aqueles sujeitos que se relacionam com suas bibliotecas como um eunuco se relaciona com seu harém.

Um dos ciganos boceja, seu hálito seco me queima as narinas, enquanto diviso, no fundo de sua boca, sete dentes de ouro. Ah, mas sete é um número cabalístico! Deve ser um homem rico... Azar dele! Violarão sua tumba e sua boca. O ouro, como a linguagem, também é uma puta que se molda segundo as ofertas!

Atravesso avenidas, parques, bares, casas de exposições, tabacarias, lojas de cristais, a Igreja Mathias, ruelas de pequenos restaurantes lotados. Budapeste! Que nome sugestivo! No outro lado do passeio La plus fameuse pâtisserie d'Europe Centrale. Um telhado turco, um tocador de flauta, um sapateiro, um pão vendido no ventre do metrô, uma casa de bonecas... O culto às bonecas seria verdadeiramente um sinal de simpatia pelos filhotes, ou apenas um antídoto para o filicídio? Uma nostalgia amorosa ou um truque habilidoso para amenizar a culpa abortígena? Não sei.

Não sei absolutamente nada. Sou apenas e essencialmente um tolo que pergunta, que passou a vida inteira perguntando o que nenhum absolutamente nenhum trapaceiro se atreve a responder. E depois, como diz soberbamente o Talmude:

"Não são respostas que me interessam, eu as conheço todas. O que desejo saber é a qual pergunta corresponde tal resposta".

Enquanto isto, o trator da existência vai metendo suas esteiras por sobre os ossos das tropas desiludidas e febris, domando as vaidades, domesticando os instintos canis dos homens...

Curar-se, curar-se, todas as idéias estão voltadas para a utopia da cura. Insisto: curar-se de que? E como? Existirá prova mais contundente de nosso mau-caratismo do que essa busca frenética de vigor, de sapiência e de longevidade?

Salto na última parada e invado na ponta dos pés o Kerepesi Temeto Térképe, para tomar os mortos de surpresa. [vedere Budapeste e poi morire].

Ninguém mais ignora minha curiosidade pelos cemitérios. Ninguém mais desconhece que, por estar incrustada em tudo, a morte governa e anima desde os palitos de fósforos perdidos no bolso de um pseudo-embaixador até o travesseiro branco de nuvens que os tufões da primavera desmancham...

Ah e tudo está silencioso por aqui!

Os pingos mornos da chuva esquiam pelas lápides antes de serem lambidos pelo vento. Alguém recita trechos dos evangelhos, em húngaro, para os cadáveres.

Seria o Evangelho dos ratos, para os ratos ou segundo os ratos?

Tropeço acidentalmente numa enorme coroa de flores. Os vivos sentem paixão em trazer essas bugigangas para os defuntos: culpa? Vingança? Histerismo? Indiferente, continuo na ponta dos pés, pelas inúmeras veredas, zigue-zagueando entre as covas, entre as árvores, no meio dos monumentos. Uma mulher toda vestida de preto acende uma vela para seu morto, enquanto três lágrimas grossas e perversas atravessam-lhe o rosto. Ouço-a dirigir-se ao defunto com estas palavras:

-Meu bem, como é difícil a tua ausência! Sinto que depois de tua morte, por mais verdadeira que eu seja, todos me olham como se fosse uma usurpadora e uma criminosa... Ai, ai, por que todos estamos previamente condenados à morte?

Das profundezas da cova, ouvi perfeitamente bem, uma voz rouca e austera lhe respondendo:

-Relaxe meu amor! Nestes momentos é que devemos tomar consciência de que nos "habituamos a ver em quem nos diz a verdade um agressor, e em quem alimenta nossa mentira um amigo".

Ainda é silêncio. Os muros excluem radicalmente tanto a cidade como minhas fantasias. Sinto-me possuído por uma leveza rara. Corro os olhos ansiosos pelos arredores e constato que os mortos continuam mortos e que a luxúria é a antítese da morte... Dou mais de mil voltas por este imenso quarteirão e a mulher está ainda lá. Agora se recostou sobre a lápide e apóia as duas mãos sobre uma escultura branca. Seus lábios estão inchados de tanto chorar. Involuntariamente penso: assim como leva no meio das pernas uma mariposa doce e extasiante, também pode ocultar um morcego negro, responsável por grande parte das anemias do mundo...

O quarto tem uma única janela no telhado e a lâmpada não deve ter mais de 40 wats. Assim o mundo se encherá rapidamente de cegos, já que o tempo dos olhos é bem menor que o tempo dos ouvidos... O passo delicado de um corvo na ponta de uma chaminé desativada. Salame, melancia, um livro de 80 páginas escrito nessa língua luciferiana...

Quantas cordas têm afinal, o violino inconsciente desses ciganos?

Outro sapateiro, e mais outro. Quando voltar para Brasília, escreverei um livro sobre os de lá. Conheço uns cinco ou seis só do Centro Comercial, sem falar dos que se instalaram nas entre quadras, nas cidades periféricas, no setor de indústrias e no setor das oficinas. Existe algo de especial nesta postura, neste corpo solitário arcado sobre o sapato, sobre as sandálias, sobre as botas... Há algo de especial nesse olhar sempre fixo, ausente e para baixo. Nessa maneira cotidiana de trabalhar e de filosofar à custa de martelaços...

Uma adolescente acena melancólica para o vagão que parte. Seria uma descendente dos Kazares? "Quando acordares sem sentir nenhuma dor sabereis que não estais mais entre os vivos". Tento saber quem a deixa nesse estado quase catatônico, mas o vidro da janela só me permite ver as sombras furtivas dos passageiros. Partir! Partir ou parir? Estamos permanentemente partindo, sem, contudo, chegar a lugar algum! Viajar! Parece que só nas viagens encontramos a alucinação que precisamos, e que é só, perdidos nos labirintos do mundo que ressignificamos experiências capengas, que recuperamos o fôlego e que reinventamos a linguagem...

E foram as viagens que nos fizeram admirar cada vez mais a Lautréamont e a Rimbaud, que só escreveram um livro e saíram do ar. A admirar esses homens que não se propuseram a passar a vida inteira difundindo suas concepções íntimas e velhacas a uma multidão surda de bundões e de filisteus. De filisteus e de bundões entorpecidos por uma volúpia essencialmente dinheirista... Se for verdade que o dinheiro liberta o braço direito, também o é que ele atrofia o esquerdo, que engendra fuligem no meio dos neurônios e mais: que entope as artérias dos sentimentos...

Ah! e é por isso que é importante saber a hora certa para retirar-se do meio da porcada e de dinamitar a pocilga....

Continuar assim, passivamente, em nossa [torre de marfim], apenas escrevendo/lendo/lendo/escrevendo, rezando, comprando livros/pagando impostos, lendo/escrevendo, consumindo, votando, colecionando extratos bancários, comprando livros/pagando, tomando laxativos, pagando condomínio, internet, luz, comida, impostos, lendo/escrevendo/lendo/escrevendo como possessos, é estar idiotizado, é seguir repetindo-se, repetindo-se, repetindo-se. Plagiando o óbvio, tornando-se pernóstico e jogando mais e mais equívocos no ventilador de nossas celas individuais. É seguir bebendo melancólica e descaradamente na obscuridade de um bar, sem ter a mínima afinidade com a cachaça e, ainda por cima, buscando cumplicidade com o espelho côncavo e ilusório oculto no fundilho da garrafa...

Ezio Flavio Bazzo
Krizsán Oswaldó, Bp.1201 Vorosmarty u.44
Budapest - Hungria