"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 23 de dezembro de 2007

Amicabilis concordia


Que no próximo ano, o dia 25 de dezembro não conste mais no calendário. Que não haja mais essa agitação infame nos açougues, nas farmácias, nos cabeleireiros e nos bric-a-braques de nenhuma cidade. Que pelo menos a metade dessa turba, com seus estômagos repletos de frangos e de porcos seja extinta nos próximos 365 dias.


Que os perus, as vacas e as ovelhas sacrificadas atormentem a todos em pesadelos. Chega da calhordice do "amigo oculto". Chega da idiotice do dim dim dom, chega de botoc, chega dos caixotes envoltos em papel brilhante. Chega de vinhos e de champanhes vagabundos, de bijuterias feitas com latões de querosene. Chega de todo esse lixo confeitado. Não mais essa compulsão descarada, não mais esses jumentos de presépio, os telefonemas melosos pra cá e pra lá e esse mau caratismo travestido de humanismo.

Chega de ceias, de foguetórios, de alegrias simuladas. Chega de bolos, de tortas, de suflês, de salaminhos, de amêndoas chilenas, de tâmaras marroquinas e de banha de porco escorrendo pelos beiços, pois tudo isso só faz a humanidade peidar ainda mais. Chega de rabanadas, esse horror sempre presente em todos os festins de dezembro. Chega dessa odiosa listinha voluntária para porteiros, de esmolas para cegos, de trouxas de roupas velhas para andarilhos e de leite em pó para seus respectivos rebentos. Chega de sinos, de novenas, de compaixão por si mesmo. Chega enfim, de toda essa babaquice, de toda essa culpabilidade, desse nivelamento por baixo, dessas filas de bundões na direção do aeroporto ou congestionando as estradas. Chega dessa apologia inconseqüente tanto do sobrenatural como da mediocridade.

Ezio Flavio Bazzo

A Honrosa Trajetoria de um Homem


Não é apenas um prazer imenso e uma espécie de gozo libertário o que me leva a re-editar e a fazer circular este texto de R. G. Ingersoll sobre as idiotices, as irracionalidades e as safadezas religiosas praticadas pelo mundo afora. É também uma obrigação ética. Um compromisso natural com a espécie, o cumprimento de um pacto que fiz comigo mesmo de, custe o que custar, silenciar o mínimo possível diante das imbecilidades do mundo.

Escrito e publicado nos EEUU em 1896, portanto há mais de cem anos, este ensaio continua mais do que pertinente e mais do que oportuno tendo em vista que o desvario religioso tem se agravado não apenas em nosso país, mas em todo o planeta, principalmente nos países pobres, miseráveis, subdesenvolvidos, desesperançados, explorados por multinacionais da mídia, da telefonia, dos automóveis, dos medicamentos, dos alimentos, das cruzes, dos patuás, dos amuletos, das velas etc. e arruinados por políticos autóctones, gananciosos, crápulas e mentirosos.

E não adianta virem com o papo de que na democracia o sujeito pratica a religião que quiser, que o direito de culto é soberano, que o sujeito opta por acreditar naquilo que ele bem entender, que a fé é algo pessoal etc, pois o que está se tratando aqui é a manipulação dos crápulas contra os ingênuos, a propaganda enganosa, a mentira histórica, a exploração econômica e emocional das massas analfabetas ou semi-alfabetizadas, o encobrimento de transtornos graves de personalidade, a exploração dos medos e das fobias relacionadas à morte e ao além e por fim a construção sutil e persistente de diversas doenças mentais no sujeito alienado e em sua família.

Aqueles que ainda não estão convencidos dos abusos, da irracionalidade e do acosso moral que vêm sendo praticados nesse sentido, por charlatães de todos os calibres e contra todo tipo de gente, que assistam os programas de TV, em todos os canais, das quatro às oito da manhã. São inacreditáveis. Tão inacreditáveis como nosso silêncio, como nossa complacência, como nossa passividade, nosso descaso, nossa irresponsabilidade e por fim, como nossa cumplicidade com esses estelionatários do além. Parafraseando a Cioran, é importante lembrar que patíbulos, presídios e masmorras prosperaram sempre à sombra de uma fé, dessa necessidade cretina de acreditar em algo que infestou o espírito para sempre.

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 9 de dezembro de 2007

A sobrinha de Madre Tereza de Calcutá


Quem é que não ficou boquiaberto e impressionado com a notícia da Irmã Mandala, aquela rechonchuda vidente de Belo Horizonte que se diz sobrinha de Madre Tereza de Calcutá e que para ministrar sua ajuda espiritual aos pobres clientes cobra pequenas fortunas? A policia, a mídia e a sociedade padrão gostam de tripudiar e de sapatear sobre personagens desse tipo, mas é pura descriminação e pura ideologia tendenciosa, uma vez que existem por aí centenas de outros estelionatários da fé, tão ou mais cínicos do que ela, e que não espantam mais a ninguém. Vender vinte missas ou uma novena com a promessa de que elas garantirão o sossego da alma de algum morto – por exemplo - existirá maior estelionato do que este? Vender uma macumba com a garantia de que ela aumentará a libido ou melhorará a performance amorosa do cliente – outro exemplo. Exigir mensalmente dez por cento do salário dos beatos sob o argumento de que o dízimo é um passaporte para o céu – mais um exemplo. Enfim, estamos cercados por videntes e por indigentes espirituais por todos os lados, uns, mais antigos e mais sofisticados do que os outros, é verdade, mas todos da mesma laia e todos regidos pelos mesmos cânones: o da impostura e o do dinheiro. Com relação à Irmã Mandala, depois de submetê-la a um longo regime, eu a contrataria, sem sombra de dúvidas, para Ministra da economia ou, pelo menos, para administrar minha caótica contabilidade.

Ezio Flavio Bazzo

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Biografia


Vim ao mundo em 08-12-49 numa região montanhosa e repleta de pinheirais no interior de Santa Catarina, lugarejo que nem constava no mapa e onde o idioma falado, tanto em casa como nas ruas era o de Paganini. Meu bisavô Matteo havia abandonado a cidade de Fonzaso, quase na fronteira com a Alemanha e famosa pela produção de graspa, atravessado os mares e lançado âncoras no RS de onde seus descendentes foram migrando para SC e, mais tarde para o PR. Essa vila onde nasci e deve até ter desaparecido, era constituída por umas vinte ou trinta casas de madeira, com varandas e venezianas, exatamente como as de Veneza e pintadas sempre com cores exóticas. As imagens mais importantes que consigo resgatar, daqueles anos, são imagens do inverno. A geada nas vidraças. As chaminés fumegantes, o cheiro do pinhão e os gatos, soberbos, transitando por sobre as cercas em busca de um pedaço de sol. Uns quatro anos depois os caminhões e os gipes em caravana escalando as montanhas rumo ao Paraná... A selva ainda intacta, as perobas, as onças rondando os galinheiros, as espingardas sempre carregadas, um tio tocando violino, os festins a cada matança de porcos, as tripas transformadas em salames, o cheiro da xota de uma priminha, os colchões mijados expostos nos telhados e as peças íntimas das irmãs secando nos varais... Depois a escola, os sapatos, o rádio, o incenso das missas, a melancolia dos sinos, todo dia na hora da tal Ave Maria. A adolescência, as punhetas intermináveis, as brigas de rua, a culpa, os embates familiares, as crismas, os casamentos, os revólveres, os tiroteios nos finais de semana, as terras griladas, o Governo Lupião e as escrituras falsas, a desmistificação dos adultos, dos mandamentos, da moral vigente. Da Bíblia para a Enciclopédia, da punheta para os braços e para as coxas das pequenas camareiras. O ginásio, a marcha de Sete de Setembro. A colheita do café. A banda semimarcial. Mussolini. Hitler, as Valsas Vienenses. A dificuldade para falar português. O "rr" enterrado e tatuado na língua. Ser padre ou médico? E a Itália sendo soterrada e negada. Ser gringo era quase um crime. A marcha das mulheres indo à igreja com seus véus e seus intestinos presos. Num inesquecível entardecer a mala aos pés. Adio! Arivederci! Curitiba. Colégio Estadual. Colégio Iguaçu. Universidade de Lisboa. Brasil. Londrina. Universidade de La Plata. Londrina. Brasília. Universidade do México. Brasília. Universidade do México, Universidade de Barcelona, Brasília, Universidade de Paris, Brasília. A universidade como um pretexto, porque o saber estava sempre à margem ou ao lado. A rua. O caos. A contramão. As entrelinhas. O inferno desconstruído. A Índia, o Nepal, a China. A grande marcha de cada um. Pukhet um pouco antes da tsunami. A solidão dos aeroportos e das espeluncas. O texto. O caderno de notificações. O asco pela mesmice. O horror ao trabalho. À alienação. À mentira convencionada. À polícia estatal, à igreja, o superego intransigente e lá no meio das coxas das mulheres, sempre o mesmo cheiro alucinante de outrora. A palavra em movimento. Um mosteiro interior, uma cidade estupenda construída somente de pesadelos. As ruas de Praga... A boca tenebrosa do metrô. Um morto boiando no Volga. A morte. Os cemitérios de Paris, de Istambul, da Bolívia. Cada lápide como um espelho. Devagar por entre os monumentos vendo as botas espelhadas aqui e acolá. Um corvo. Apenas um corvo numa manhã de neve nos arredores de Tel-aviv. Uma rajada de metralhadora e o silêncio. Trinta e cinco, quarenta, cinqüenta e oito anos. O rio São Francisco, o Ganges, o Mississipi. Os cabelos grisalhos, um naufrágio nas costas de Petrolina. O sol, o carcará, as moscas lambendo meus dedos... O texto, o caderno de notificações. Vargas Vila revisitado. A máquina fotográfica. Um violino como o Guarnierus do Paganini ou como o do meu tio. Meus dedos loucos e esqueléticos atrás das notas para executar precariamente a doçura de summertime. A famiglia desfeita entre os mares. A psique. Dos gatos soberbos transitando sobre as cercas em busca de um pedaço de sol à psicanálise. Milhares de horas de escuta. Para quê? As dores do mundo escutadas e condensadas no dia-a-dia, ano-a-ano, década-a-década. Curar-se. Curar-se de quê fratelo mio? Eu, como muitos outros, talvez nem tenha verdadeiramente uma biografia - como dizia um antropólogo - poderia se falar, mais bem, numa longa e maldita ficha policial.

Ezio Flavio Bazzo

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Por que essa obsessão pela República?


A recente atuação do STF com relação ao julgamento dos quarenta vivaldinos do mensalão e mais a cassação do Presidente do Senado que deverá ocorrer na semana que vem – a contragosto de muitos daquela casa - dará mais um fôlego e mais uma ilusão à ingênua população brasileira que, de tantos sapos, frustrações e vexames que vem engolindo pelos anos afora, contenta-se agora com uma demagogia aqui, com uma performance estatal populista acolá, com frases de efeito e com promessas vãs, sem conseguir enxergar que o regime republicano, com seus falsos poderes, suas eleições, nomeações, com seu fisco, com sua burocracia etc é um equívoco que se instalou misteriosamente em todo o planeta mantendo um

Poder desmedido nas mãos de corjas e de gangues ao mesmo tempo em que conserva a possibilidade de soberania humana algemada. Ao invés dos milhares de Comissões espalhadas pelos ministérios e pelos Estados para especular infinitamente sobre o óbvio e sobre idiotices, bem que poderia existir uma, pelo menos uma com a função de inventar às pressas outra maneira de se administrar a vida pública para, com isso, podermos finalmente sair desse clima de cloaca e jogar nossa atual e caquética herança platônica no lixo.

Ezio Flavio Bazzo

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Juazeiro do Norte, 23 de agosto de 2007


Sem estar de maneira nenhuma querendo fazer apologia daquelas mulheres esqueléticas e anoréxicas que a mídia tanto gosta de exibir, a verdade é que a quantidade de obesas que tenho visto mesmo aqui no sertão tem me causado certo broxeamento mental. Das vinte e tantas que fazem parte de uma excursão e que estão hospedadas no mesmo hotel que eu, - por exemplo - apenas duas ou três não estão além dos noventa quilos. As beatas que freqüentam diariamente as missas e mesmo as mendigas da Igreja Nossa Senhora das Dores, vejam como é grave, estão mais ou menos na mesma média.

Na fila do mercado, hoje à tarde, prestei bem atenção, a grande maioria tinha um traseiro, umas coxas e umas tetas de causar espanto, sem falar dos conhecidos e famosos pneus tanto no abdômen como nas costas. O que estaria acontecendo com esse gênero? O que estaria por detrás dessa compulsão por comida? A resposta, seja ela qual for, parece não ter eco. O problema é que ficar muito tempo exposto a um cenário destes é dar chances para que comecem aparecer em nós os primeiros rugidos da decepção e até da misoginia.

Ezio Flavio Bazzo

terça-feira, 28 de agosto de 2007

As razões dos incendiários


Se desde Dionísio e de Sócrates já se desconfiava que os gregos não eram lá muito normais, agora, com a onda de piromaníacos querendo incendiar a Grécia inteira, ninguém tem mais dúvidas. Um milhão de Euros para quem caçar um piromaníaco e sua caixa de fósforos. Não será fácil. E os motivos que movem esses incendiários são sempre os mais diversos.

Os advogados e as polícias têm hipóteses semelhantes; os psicanalistas continuam insistindo que é a libido bloqueada provocando faíscas; os psiquiatras juram que umas gotas de rivotril teriam prevenido o desastre; os cínicos afirmam que é Prometeu devolvendo o fogo aos deuses; os crentes lembram Nero e Roma e dizem que são as profecias saídas da caverna de Patmos e o prólogo do fim dos tempos; os sociólogos repetem a lengalenga da alienação, das lutas de classes e do Reichstag na Alemanha; os ecologistas associam o gesto dos piromaníacos às suas teorias catastrofistas; os ricos dizem que é pura obra da marginalia, enquanto a marginalia acusa os ricos de estarem usando o fogo para tentar livrar-se da plebe suburbana etc.

Sim, há hipóteses e crendices para tudo neste mundo. Existem até aqueles que decepcionados com o andar da carruagem afirmam descaradamente que se o planeta inteiro pegasse fogo, salvariam imediatamente o fogo.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Fé, obesidade e misoginia


Sem estar de maneira nenhuma querendo fazer apologia daquelas mulheres esqueléticas e anoréxicas que a mídia tanto gosta de exibir, a verdade é que a quantidade de obesas que tenho visto mesmo aqui no sertão tem me causado certo broxeamento mental. Das vinte e tantas que fazem parte de uma excursão e que estão hospedadas no mesmo hotel que eu, - por exemplo - apenas duas ou três não estão além dos noventa quilos.


As beatas que freqüentam diariamente as missas e mesmo as mendigas da Igreja Nossa Senhora das Dores, vejam como é grave, estão mais ou menos na mesma média. Na fila do mercado, hoje à tarde, prestei bem atenção, a grande maioria tinha um traseiro, umas coxas e umas tetas de causar espanto, sem falar dos conhecidos e famosos pneus tanto no abdômen como nas costas.

O que estaria acontecendo com esse gênero? O que estaria por detrás dessa compulsão por comida? A resposta, seja ela qual for, parece não ter eco. O problema é que ficar muito tempo exposto a um cenário destes é dar chances para que comecem aparecer em nós os primeiros rugidos da decepção e até da misoginia.

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 19 de agosto de 2007

Da carne e do espírito


Na periferia das cidades e na beirada das estradas que cruzam e se entrecruzam pelos vales e pelas chapadas do Araripe chama atenção de qualquer um a presença constante e insistente tanto de motéis como de churrascarias. Apesar da bravura e dos esforços do Padre Cícero ao longo de séculos e por menos que se queira admitir, é visível e inquestionável por aqui a supremacia da carne sobre o espírito, o predominio do coxão mole e da picanha sobre as bem-aventuranças da alma.


Ezio Flavio Bazzo

sábado, 28 de abril de 2007

Dias de Ocio em Budapeste


Troglodita assumido, borduna em punho, e com as mais genuínas e insanas artimanhas da modernidade, cumpro minha obsessão literata, enquanto esta centopéia coletiva vai se arrastando cidade-a-dentro, cidade-a-fora, por cima, por baixo, por dentro e ao redor da terra e de monumentos levantados a Béla Bartok ou a Joséf Atilla, margeando antigas paredes, desviando edifícios que parecem abrigos de guerra e levitando de um lado a outro do Danúbio...

Partindo da consciência de que quem escreve blefa, gosto de perguntar-me: Se nossos escritos só pudessem ser publicados postumamente, será que alguém de nós ainda continuaria escrevendo? Duvido! Mas prometi para mim mesmo não entrar em elucubrações filosóficas!

O que importa, neste momento, é que me sinto um monstro errante!

Congelo literalmente meus pensamentos!

Assumo a postura clássica da múmia, enquanto o pequeno trolebus desliza quase vazio, rabiscado pelos punks e enferrujado pelo tempo.

Um bêbado na poltrona da frente, dois ciganos no meio do corredor e uma velha gorda e moribunda prestes a sentar-se no colo do motorista. Marseille? Puebla? Barcelona? Buenos Aires? Não, não. Um letreiro imenso que parece estar atrelado aos cabos de aço, divulga um produto húngaro...

Quando se atravessa a Ponte da Liberdade o ar fresco que sobe do rio invade o vagão e provoca arrepios. Lá fora, a cidade inteira mostra sua ancianidade e parece exibir nos olhos, tanto o horror do passado como o descrédito pelo futuro, dando a entender que até os sonhos são provisórios, que a própria liberdade tem o seu climatério, e que os seres ocultam prazerosamente no cerne de seus DNAS uma espécie de paixão pelo desastre.

Um guindaste imenso que emerge do nada resgata, por um lado, o fascínio que os homens têm pela modernidade e demonstra, por outro, o quanto a vida está transformada em superficialidade e em espetáculo. Os húngaros, que ontem cuspiram sobre os signos do comunismo, hoje se colocam de joelhos diante dos slogans cretinos, traiçoeiros e patéticos do consumismo. Isto, evidentemente, porque, como se sabe, parte das ideologias, apesar de todo o folclore nunca foi mais do que conflitos pessoais transformados em conflitos sociais...

Alguma divergência teórica professores?

Política e fé! A arte de mentir em nome do povo, da sociologia e de São Lázaro.

A Praça Vorosmarty resplandece, enquanto permaneço colado à poltrona, ébrio de ausência e hipnotizado pelas sombras que me seguem. Uma livraria, dois homens grisalhos e de bigodes retorcidos saem dela com uma pilha de livros sob os braços. Cultura ou decoração? Victor Hugo gostava de denunciar aqueles sujeitos que se relacionam com suas bibliotecas como um eunuco se relaciona com seu harém.

Um dos ciganos boceja, seu hálito seco me queima as narinas, enquanto diviso, no fundo de sua boca, sete dentes de ouro. Ah, mas sete é um número cabalístico! Deve ser um homem rico... Azar dele! Violarão sua tumba e sua boca. O ouro, como a linguagem, também é uma puta que se molda segundo as ofertas!

Atravesso avenidas, parques, bares, casas de exposições, tabacarias, lojas de cristais, a Igreja Mathias, ruelas de pequenos restaurantes lotados. Budapeste! Que nome sugestivo! No outro lado do passeio La plus fameuse pâtisserie d'Europe Centrale. Um telhado turco, um tocador de flauta, um sapateiro, um pão vendido no ventre do metrô, uma casa de bonecas... O culto às bonecas seria verdadeiramente um sinal de simpatia pelos filhotes, ou apenas um antídoto para o filicídio? Uma nostalgia amorosa ou um truque habilidoso para amenizar a culpa abortígena? Não sei.

Não sei absolutamente nada. Sou apenas e essencialmente um tolo que pergunta, que passou a vida inteira perguntando o que nenhum absolutamente nenhum trapaceiro se atreve a responder. E depois, como diz soberbamente o Talmude:

"Não são respostas que me interessam, eu as conheço todas. O que desejo saber é a qual pergunta corresponde tal resposta".

Enquanto isto, o trator da existência vai metendo suas esteiras por sobre os ossos das tropas desiludidas e febris, domando as vaidades, domesticando os instintos canis dos homens...

Curar-se, curar-se, todas as idéias estão voltadas para a utopia da cura. Insisto: curar-se de que? E como? Existirá prova mais contundente de nosso mau-caratismo do que essa busca frenética de vigor, de sapiência e de longevidade?

Salto na última parada e invado na ponta dos pés o Kerepesi Temeto Térképe, para tomar os mortos de surpresa. [vedere Budapeste e poi morire].

Ninguém mais ignora minha curiosidade pelos cemitérios. Ninguém mais desconhece que, por estar incrustada em tudo, a morte governa e anima desde os palitos de fósforos perdidos no bolso de um pseudo-embaixador até o travesseiro branco de nuvens que os tufões da primavera desmancham...

Ah e tudo está silencioso por aqui!

Os pingos mornos da chuva esquiam pelas lápides antes de serem lambidos pelo vento. Alguém recita trechos dos evangelhos, em húngaro, para os cadáveres.

Seria o Evangelho dos ratos, para os ratos ou segundo os ratos?

Tropeço acidentalmente numa enorme coroa de flores. Os vivos sentem paixão em trazer essas bugigangas para os defuntos: culpa? Vingança? Histerismo? Indiferente, continuo na ponta dos pés, pelas inúmeras veredas, zigue-zagueando entre as covas, entre as árvores, no meio dos monumentos. Uma mulher toda vestida de preto acende uma vela para seu morto, enquanto três lágrimas grossas e perversas atravessam-lhe o rosto. Ouço-a dirigir-se ao defunto com estas palavras:

-Meu bem, como é difícil a tua ausência! Sinto que depois de tua morte, por mais verdadeira que eu seja, todos me olham como se fosse uma usurpadora e uma criminosa... Ai, ai, por que todos estamos previamente condenados à morte?

Das profundezas da cova, ouvi perfeitamente bem, uma voz rouca e austera lhe respondendo:

-Relaxe meu amor! Nestes momentos é que devemos tomar consciência de que nos "habituamos a ver em quem nos diz a verdade um agressor, e em quem alimenta nossa mentira um amigo".

Ainda é silêncio. Os muros excluem radicalmente tanto a cidade como minhas fantasias. Sinto-me possuído por uma leveza rara. Corro os olhos ansiosos pelos arredores e constato que os mortos continuam mortos e que a luxúria é a antítese da morte... Dou mais de mil voltas por este imenso quarteirão e a mulher está ainda lá. Agora se recostou sobre a lápide e apóia as duas mãos sobre uma escultura branca. Seus lábios estão inchados de tanto chorar. Involuntariamente penso: assim como leva no meio das pernas uma mariposa doce e extasiante, também pode ocultar um morcego negro, responsável por grande parte das anemias do mundo...

O quarto tem uma única janela no telhado e a lâmpada não deve ter mais de 40 wats. Assim o mundo se encherá rapidamente de cegos, já que o tempo dos olhos é bem menor que o tempo dos ouvidos... O passo delicado de um corvo na ponta de uma chaminé desativada. Salame, melancia, um livro de 80 páginas escrito nessa língua luciferiana...

Quantas cordas têm afinal, o violino inconsciente desses ciganos?

Outro sapateiro, e mais outro. Quando voltar para Brasília, escreverei um livro sobre os de lá. Conheço uns cinco ou seis só do Centro Comercial, sem falar dos que se instalaram nas entre quadras, nas cidades periféricas, no setor de indústrias e no setor das oficinas. Existe algo de especial nesta postura, neste corpo solitário arcado sobre o sapato, sobre as sandálias, sobre as botas... Há algo de especial nesse olhar sempre fixo, ausente e para baixo. Nessa maneira cotidiana de trabalhar e de filosofar à custa de martelaços...

Uma adolescente acena melancólica para o vagão que parte. Seria uma descendente dos Kazares? "Quando acordares sem sentir nenhuma dor sabereis que não estais mais entre os vivos". Tento saber quem a deixa nesse estado quase catatônico, mas o vidro da janela só me permite ver as sombras furtivas dos passageiros. Partir! Partir ou parir? Estamos permanentemente partindo, sem, contudo, chegar a lugar algum! Viajar! Parece que só nas viagens encontramos a alucinação que precisamos, e que é só, perdidos nos labirintos do mundo que ressignificamos experiências capengas, que recuperamos o fôlego e que reinventamos a linguagem...

E foram as viagens que nos fizeram admirar cada vez mais a Lautréamont e a Rimbaud, que só escreveram um livro e saíram do ar. A admirar esses homens que não se propuseram a passar a vida inteira difundindo suas concepções íntimas e velhacas a uma multidão surda de bundões e de filisteus. De filisteus e de bundões entorpecidos por uma volúpia essencialmente dinheirista... Se for verdade que o dinheiro liberta o braço direito, também o é que ele atrofia o esquerdo, que engendra fuligem no meio dos neurônios e mais: que entope as artérias dos sentimentos...

Ah! e é por isso que é importante saber a hora certa para retirar-se do meio da porcada e de dinamitar a pocilga....

Continuar assim, passivamente, em nossa [torre de marfim], apenas escrevendo/lendo/lendo/escrevendo, rezando, comprando livros/pagando impostos, lendo/escrevendo, consumindo, votando, colecionando extratos bancários, comprando livros/pagando, tomando laxativos, pagando condomínio, internet, luz, comida, impostos, lendo/escrevendo/lendo/escrevendo como possessos, é estar idiotizado, é seguir repetindo-se, repetindo-se, repetindo-se. Plagiando o óbvio, tornando-se pernóstico e jogando mais e mais equívocos no ventilador de nossas celas individuais. É seguir bebendo melancólica e descaradamente na obscuridade de um bar, sem ter a mínima afinidade com a cachaça e, ainda por cima, buscando cumplicidade com o espelho côncavo e ilusório oculto no fundilho da garrafa...

Ezio Flavio Bazzo
Krizsán Oswaldó, Bp.1201 Vorosmarty u.44
Budapest - Hungria

domingo, 25 de março de 2007

Dymphne: A Santa Protetora dos Loucos


Este é um livro sobre insanidade, demência e piração. Uma viagem nas pegadas do frenesi e no encalço da loucura, com suas mais variadas descrições populares, clínicas, preconceituosas, negadoras, medievais e até modernas. E não é uma história «formal» que pretendo, pelo contrário, anseio mais bem por uma história vagabunda e doméstica, desde as estradas perigosas de minha memória até o «paraíso» belga de Geel, o velho e quase mitológico shangri-la dos «dementes». Talvez no imaginário de todas as raças, a loucura seja percebida apenas como um berço em chamas, como o passo de caranguejos no interior das artérias ou como a silhueta de uma mãe esplendorosa que se recusa, a silhueta de uma mãe com tetas imensas mas vazias. Talvez apenas como um canyon com bebês berrando, a placenta sendo lançada numa imensa gamela de imbúia, como se tudo estivesse acontecendo num açougue clandestino do Distrito Federal ou numa caverna piauiense iluminada apenas pelos pingentes de estalactites e pelo brilho inocente dos olhos dos morcegos. Loucos, dementes, alucinados, pirados, insensatos... mas e quem não é? Quem não é, quando nem o grande Verlaine conseguiu burlar as suspeitas dos doutores? Quando Nietzsche mofou no hospício de Jena; quando Artaud apodreceu na clínica de Rodez; Nélligan no hospital quebequence de Saint-Jean-de-Dieu; Rawet na solidão de Sobradinho, e quando o Bandido da Luz Vermelha, durante décadas, fez doutrina no interior dos nossos manicômios? Me digam: quem não é, com todas aquelas caravelas chegando? E depois desses 500 anos? Quanto mais pesquisamos e quanto mais abrimos os olhos, mais vamos reconhecendo que o homem, na fantasia de tornar-se «civilizado», acabou construindo tanto interna como externamente, essa disposição mentirosa e esquizóide que faz da vida uma maratona de horrores. E é importante lembrar, neste momento crucial de nossa existência, que as Naves dos Loucos não navegaram apenas pelos rios da Alemanha, da Bélgica e da França, como se pensa. Elas cruzaram também os mares, em todas as direções, com os porões e as suites repletas e inclusive, com muito mais frequência do que certos «especialistas» gostam de afirmar.

Manifesto aberto à estupidez humana


Manifesto aberto à estupidez humana é um livro extremado. Tem a radicalidade da lucidez e da loucura e a contundência das obras que desafiam a expectativa de quem lê com um discurso inesperado e um cenário desconcer-tante. O uso provocativo da segunda pessoa, no inventário de atos, sentimentos, posições exem-plarmente estúpidas, estabelece relação intensa e pessoal entre quem fala e quem lê.

Com grande poder persuasivo, o discurso pode levar o leitor da estupefação à adesão. Convém estar atento a isso. É uma das armadilhas do texto. Se, em suas linhas, você passar a identificar a estupidez de colegas, vizinhos, parentes, amantes, cuidado! Pois desse modo estará negando ao texto sua principal qualidade: o de ser uma superfície refletora. Quando a imagem de tantos conhe-cidos emergirem dessas páginas, não se iluda e não se prive de participar da aventura de Narciso às avessas que o texto propicia. Este livro fala também de você e da vida que está lhe escapando.

Outra cilada se arma, se tentar descobrir quem fala. Não se trata de um censor nem de um mestre moralista. O livro foi composto por um discurso que a cultura – a despeito das religiões organizadas e das famílias, dos saberes e das autoridades constituídas – não conseguiu sufocar.
Em plena época dos relativismos que tudo legitimam, Ezio Flavio Bazzo expõe um modo insolente e apaixonado de pensar, movido pelo questionamento dos valores.

Evocando fragmentos das obras de Nietzsche, Cioran, Tzara, Malatesta, Marinetti e, também, de Tolstoi, Ibsen, Dostoievski, Thoreau, Cocteau e Canetti, uma voz, com arrebatamento e firmeza, deboche e emoção, elegância e desleixo, raiva e ternura, faz uma advertência contra as falácias que perseguimos e a inten-sidade que não conseguimos viver.


Ligia Cademartori

Trailer do Livro:

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Caim, meu irmão e meu herói


"Se os olhares pudessem engravidar e matar as ruas estariam

cheias de mulheres grávidas e repletas de cadáveres".

Paul Valéry


Uma bobagem tem servido de álibi e transtornado a humanidade durante milênios: o crime de Caim, daquele que com uma única bordoada eliminou 1/5 da humanidade.

Entretanto, longe de ser aquilo que os pastores, os rabinos, os padres, os filósofos e outros reacionários e moralistas costumam apregoar, a inveja tem sido, e é, o nosso mais puro e mais autêntico instrumento de alerta para com as crapulices instituídas e para com as injustiças sociais. (Diga-me a quem invejas que saberei onde mora mais um impostor!). Daí o reconhecimento – mesmo tardio – de que Caim foi nosso primeiro herói, nosso justiceiro pré-histórico e o primeiro sujeito a dizer audazmente um NÃO, tanto a Deus como a toda imbecilidade e a toda neurose viciada e repetitiva que viria atormentar a família nuclear pelos séculos afora. A proposição socrática do "conhece-te a ti mesmo" não é nada diante da pergunta de Caim: "por que ele e não eu?".

Acusado secularmente de cometer o primeiro crime da espécie e de ser o patrono dos ressentidos e dos invejosos, Caim, no fundo, foi a primeira vítima tanto da soberba divina como da baixeza familiar, da ignorância dos pais e de um moralismo putrefato e esdrúxulo que, aliás, vem até hoje engendrando a matriz do "cidadão perdulário", do sujeito bonzinho e piedoso, do burocrata mascarado, do vivaldino político e enfim, do bundão vulgar e atual, conhecido e respeitado por quase todos.

Desculpem fazer alusão à anedota do Gênesis logo no terceiro parágrafo, mas é que ela está instalada como um cancro no inconsciente da ralé idólatra, de gerações e mais gerações de parasitas e mesmo da humanidade como um todo.

Apesar de Darwin e de suas teorias, dos seis bilhões de habitantes do planeta, não existe um único que não saiba que Caim teria sido o filho mais velho de Adão e Eva, personagens que, um pouco antes, haviam sido despejados do paraíso com um pontapé no traseiro. Esse primeiro filho de Adão e Eva era um jovem agricultor musculoso e sereno, que, segundo as poucas fontes existentes, mais ouvia do que falava. Um introspectivo, diriam os psicólogos. Era raizeiro e vegetariano, a ponto de não beber nem mesmo o leite das ovelhas. Caim sentia-se – com razão - descriminado e menos amado que seu irmão mais novo chamado Abel. Este, que, segundo seu pai, não gostava muito de trabalhar e muito menos de suar, era pastor de ovelhas, comia churrasco como os mais legítimos gaúchos, bebia leite como um bezerro e desfrutava, numa boa, da preferência dos pais. Eva, a senhora sua mãe, e – sabe-se lá por quê – expressava despudoradamente sua preferência por Abel. Certa vez, quando Caim matou um leão com seu cajado, – fato que naquele momento pré-histórico era uma façanha imensa – ao invés de reconhecer sua bravura, o fez ouvir que Abel, com sua funda, era tão ou mais hábil do que ele. Como se vê, a malignidade feminina e materna, bem como a familhitis, já estavam sendo semeadas no mundo.

Sempre que Abel, regressando do campo, aparecia lá no meio do rebanho, Eva corria em sua direção, abraçava e beijava-o com a maior alegria.

– Deus está contigo, costumava repetir.

Poderia tê-lo salvado da fúria de Caim se, ao menos, o tivesse aconselhado a levar ao pescoço ou no bolso uma daquelas pedras negras de turmalina que, segundo os astrólogos, é a mais poderosa contra todos os tipos de inveja. Mas era apenas uma pobre histérica e ignorante, engendrada um pouco antes com uma costela de seu marido.

Caim – como qualquer filho da atualidade – sofria profundamente com essa descarada preferência dos pais por seu irmão. Talvez – quem sabe – em suas angústias e reflexões, já lutasse – como nós – , para expurgar de seu dia a dia a idéia vã de um mundo libertário.

Como ainda não havia um psicanalista ou um skinnerista em cada esquina daquele mundo desolado, essa disputa pelo amor dos pais foi se agravando e se deslocando para uma disputa pelo amor de Deus. Sim, pelo amor do mesmo Deus que, anos antes, tomado por uma severidade doentia, havia enxotado seus pais do Éden, tanto por perceber que eles não o obedeciam como por tê-los surpreendido fornicando a sombra de uma macieira.

Teria sido Deus, pela primeira vez, a sentir as palpitações e a falta de fôlego que a inveja provoca? Teria invejado – como os pacientes/bebês de Melanie Klein[1] – o casal em plena performance da fornicação? Teria sido ele o autor da frase clássica dos invejosos: Por que eles e não eu?

A gota d'água ou o fim da paciência de Caim ocorreu no dia em que faziam oferendas. Abel, que queimava uma costela de ovelha ao Senhor via a fumaça subir verticalmente para o "céu", já Caim, que ofertava ervas e raízes assistia frustrado a fumaça de sua oferenda rastrear o solo e dispersar-se, até que o próprio fogo se apagava. Gabola e acossando moralmente a seu irmão, Abel disse-lhe:

– Fiz oferenda a Deus com a carne e a gordura de meu rebanho. Ele as aceitou, pois a fumaça subiu para o alto em forma de uma coluna reta. No entanto, o que aconteceu quando puseste ervas e raízes no altar? Bem o sabes: o fogo apagou-se. Bela oferenda, em verdade! Pareceu-me que não agrada a Deus o cheiro de tuas ervas queimadas.

Caim baixou o olhar como se ouvisse a voz neurótica da mãe repetindo:

– Deus está com Abel! Deus está com Abel!

Olhou para as montanhas e jurou para si mesmo que esmagaria os miolos daquele pequeno impostor. A partir daquele momento, Abel, seu irmão mais novo, o filhinho mimado da mamãe, estaria literalmente marcado para morrer.

Nos dias que se seguiram, ficou mais silencioso e deprimido do que normalmente já era. Caminhou pelas encostas vazias daquele mundo inimaginável, emagreceu, refletiu, teve insônia, filosofou (talvez tenha sido inclusive, o verdadeiro pai da filosofia) e concluiu que realmente seu irmão era um crápula, um mau caráter, um idólatra estúpido, um esotérico de merda e um grande filho-da-puta.[2]

Deus está com Abel! Mas por quê? Por quê não há de estar também comigo?

Esta pergunta continua a ecoar nas sacristias, nas alcovas e nos claustros da atualidade. Na primeira oportunidade, cumpriu o que havia prometido para si mesmo: esmagou o crânio de Abel com um porrete, mais ou menos como certos índios brasileiros faziam uns com os outros para aliviarem-se mutuamente do sofrimento que a febre da varíola lhes provocava.

– Caim, que fizeste? O sangue de teu irmão manchou a terra e clama por mim – sussurrou-lhe sádica e persecutoriamente o Senhor, o grande e enigmático Criador do universo.

– Caim amaldiçoado, fora daqui! – Gritou-lhe a mãe. Mais ou menos a mesma frase e no mesmo tom que ela própria e Adão haviam ouvido de Deus ao serem enxotados do paraíso.

Caim, compreendendo que vivia num mundo de bajulação, que tanto o amor divino como o amor materno eram balelas e que na vida nada é retificável, deu lhes as costas e partiu.

Foi alcançado por sua irmã menor que lhe disse:

– Vou contigo meu irmão. Deram-se amorosamente as mãos e caminharam juntos durante uma semana.[3]

Estando a uns cem quilômetros do lugar do assassinato, a irmã, exausta, pronunciou a palavra Node, que, no idioma deles queria dizer: basta! Chega! Vamos ficar por aqui mesmo! Ali Caim e sua irmã tiveram filhos e fundaram uma cidade que ficou conhecida pelo nome de Node. Claro que esta cidade não consta em nenhum guia turístico da modernidade, mas pelas coordenadas bíblicas, tanto a família Adão e Eva (que ainda não tinha sobrenome) como o vilarejo fundado por Caim e sua irmã, ficava lá pelos lados da Mesopotâmia, pelas barrancas dos rios Eufrates e Tigre. Mais ou menos por aquelas regiões malditas onde os iraquianos, os judeus, os palestinos, os iranianos, os sírios e etc, não com porretes, mas com mísseis, estão se massacrando mutuamente há décadas.

Mas leitor, não queira aprofundar-se nestas bobagens e não tenha a pretensão de ser um iluminista. São apenas lendas eternas que atormentam os seres entediados, "pecados capitais" que interessam principalmente aos abastados e às classes dominantes e que têm servido, cada vez mais, como instrumento estupidificante, através do qual os Cains disfarçados de Abéis e os Abéis disfarçados de Cains vão oprimindo, desqualificando e culpabilizando as multidões.

Contenta-te com tuas próprias interpretações das coisas e do mundo, porque cada exegeta e cada beato a quem indagares sobre Caim, sobre o ressentimento e sobre a inveja, inventará uma bobagem diferente para convencer-te. Esses apologistas de ficções lembram muito bem aquele velho ditado cigano que diz:

"Se você faz a mesma pergunta a vinte ciganos receberá vinte respostas diferentes[4]. Por outro lado, se você faz a um cigano a mesma pergunta vinte vezes, ainda conseguirá vinte respostas diferentes". E isto, porque, como lembrava o autor de Ecce homo, o cinismo é o que de mais alto se pode alcançar sobre a terra.

Ezio Flavio Bazzo