"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 28 de abril de 2006

Uma Ode aos Gatos do Cemiterio de Roma


No quinto dia de visitas ao principal cemitério de Roma, quando já havia feito umas duzentas ou trezentas fotos dos gatos que vivem clandestinamente por lá, no meio das tumbas e imersos naquela solidão mortuária, deparei-me com uma andarilha vestida de preto, ao lado de uma bengala e sentada junto a um monumento que, do nada, passou a falar-me:


-Qual madame dessa sociedade hedionda já acompanhou o primeiro cio de uma gata? Qual o homem que já teve a paciência de ignorar a máquina infernal da sociedade por uns momentos e acompanhar os estremecimentos e a tortura que o cio provoca? Observando aquela pequena pantera doméstica que não encontrava sossego em nenhuma posição e que era obrigada e subjugada pela biologia e pelo instinto a buscar um macho e a reproduzir sua espécie, ficava meditando entre as esquinas de minha miséria, sobre a maldade da vida, sobre o destino cruel das carnes, sobre a objetização de todos os seres por uma força invisível e cruel que, da clandestinidade dos genes dita ordens irrefutáveis...

Entre meus devaneios -prosseguia aquela mulher - parecia mais do que óbvia: quão cruel e violenta deve ter sido a luta da civilização para sufocar o cio humano! Como as fêmeas primitivas que hoje são mendigas como eu, mães, putas, filhas, avós etc., devem ter sido sufocadas, amaldiçoadas e destruídas para poderem conquistar o silêncio onde estão confinadas. Nenhum miado, nenhum escândalo, nenhum desassossego... Apenas uma cólica mensal, um hálito um pouco mais forte, um chá de losna...

Quantos milhões de anos não foram necessários para reduzir na mulher esse cio, para colocá-lo sob controle, para proibir esse choro noturno inconsolável... Quantas ameaças e quanto espanto deve ter assaltado a sexualidade feminina para que a mulher pudesse chegar a esse oceano sem tormentas e nele ancorar para sempre...

Quatro, cinco, seis horas da madrugada. A gata choraminga por entre os bagulhos de meu casebre, rola pelo chão ensebado, inventa mil posições, cria o seu Kama Sutra, lambe-se em alucino, vai ao casebre vizinho e chama, clama por qualquer coisa que possa vir a ser o objeto de seu cio... Mas a noite é escura. Roma inteira dorme sob a proteção pederastica da imprensa e dos Papas, sob a mentirada vil da publicidade associada à crueldade vil do capitalismo mafioso. A noite é surda e escura para aquela pobre gata assim como o é para as mulheres e para os mendigos... Às vezes ouvia-se os resmungos de uma vizinha e companheira de infortúnio que se sentia incomodada pelo escândalo supremo do sexo. A gata, além de não deixa-la dormir, devia, com seus miados, rememorar o trauma de suas origens remotas e mutiladas...

O dia quase amanhecia e a paixão ainda a atormentava enquanto tentava construir, à sombra das paredes, das bengalas e de latas velhas o seu Deus e até mesmo o seu Everest. Não conseguiu.

Perco finalmente a paciência. Ergo esta voz de mulher acostumada a pedir restos por misericórdia. Chuto-lhe o traseiro, exatamente como fizeram comigo e com todas as fêmeas durante séculos. Só então ela silencia. Sufoca seu miado. Encolhe-se por debaixo de um cobertor sujo, deixando ver apenas o resplendor de seus olhos. Pelo menos por uns instantes tenho a ilusão de que minha violência vence a violência dos genes...

Fez um longo silêncio enquanto caminhava pelo meio daquelas lápides luxuosas para em seguida concluir:

Talvez o que hoje é esnobemente chamado desejo pelos homens de ciência, pelos psicanalistas e por outros tolos da modernidade, não seja mais do que a última migalha dessa fúria que, pela ação do chicote, deslocou-se de entre as pernas para a memória...

Ezio Flavio Bazzo

sexta-feira, 7 de abril de 2006

Entre os gritos do Carcará e a Desfaçatez da Raça Humana


Neste instigante livro, Ezio Flávio Bazzo realiza um vôo espetacular sobre o fato de estar vivo, aqui, agora, em qualquer lugar, há qualquer hora, tendo como pano de fundo o sertão Sanfranciscano, num Brasil perdido de sua própria história. Através de uma narrativa que mescla pleno domínio das usuais formas acadêmicas de expressão com o conhecimento empírico da vida, usa palavras elaboradas e palavras "chulas" como se quisesse nos dizer que viver é essencialmente, transitar por entre as grandes e contraditórias dimensões da realidade, e apenas isto. Salpicando o texto de erótica sensualidade, Bazzo transita facilmente e com aparente despretenção pela cultura cristalizada destes rincões perdidos, atravessando sorrateiramente as questões ambientais, político-socias, éticas, morais e históricas deste pedaço de Brasil entregue à própria sorte. Trabalhando apenas com a realidade nua, desprovida de sentimentos, emoções e ideais, vai recheando a narrativa com estilhaços que doem e vai linkando às suas impressões descritas, teses que empalidecem rostos complacentes,esbofeteiam sorrisos, desnudam a credulidade cega e sobretudo, incendeiam qualquer resto de esperança.

Seu livro é essencialmente, um grande e articulado GRITO!!!

Maria Helena Sleutjes