"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Errando pelas barrancas do São Francisco


"Para entender a falácia política atual é necessário lembrar que o Brasil sifilizou-se muito antes de civilizar-se"

O ziguezague do ônibus pelas estradas vai dando concretude à minha tardia Conquista do Oeste.
A poeira que cobre as cercas, as vacas, os casebres, os terrenos estéreis e as pilhas de lenha, vai aos poucos se acumulando também na lateral de meus olhos.

Latifúndios imensos, alambiques, tropeiros com suas latinhas de angu, antigos currais de gado que agora são também currais eleitorais, mocinhas desvirginadas e soltas na rota da prostituição infanto-juvenil ciscando no território dos cabras-de-aluguel que passam o dia inteiro encostados preguiçosamente nas porteiras das fazendas, iguais àqueles descritos na literatura, no teatro e no cinema… Olhares semi-áridos. Casebres, mansardas. Tudo convida a uma arqueologia do brejo. Você pensa que sabe, mas não sabe o que é um casebre. Dois metros quadrados por um e dez de altura, duas mulheres octogenárias mascando fumo e um show de escarros no meio daquela solidão! Apenas a porta de entrada, como uma caverna e como um túmulo. Fumaça, bicho-barbeiro, um cão enrolado ao lado do braseiro, uma criança catatônica. O morador é o tal eleitor e cidadão que os políticos de todas as idades e facções falam. O título eleitoral enrolado num plástico e colocado numa fenda na parede como um hábeas corpus e como uma procuração em branco para governos e políticos assassinos! Crápulas e profissionais da política, confinados longe daqui, em suas mansões blindadas com jagunços no portão. Criados para cá e para lá, pistoleiros engajados na causa cretina de seus amos, rezadores e a cachaça nas veias, como a sina triste e a deslavada desculpa nacional para esta neurose coletiva. Um imenso mundo ainda semifeudal e semifluvial, de faltas e de carências… O peixe saltitante na rede é quase um símbolo da condição humana e da autofagia. Uma humanidade de escamas, sangue frio, olho de carcará. A peixeira reluz ao sol, a bainha carcomida pela seca e pelo sal. Vida sertaneja, a pele das faces como a dos peixes, escamas longitudinais, o horror da rotina semi-árida.

Pela janela do ônibus já passaram a Serra da Canastra, a Serra do Espinhaço, a Chapada Diamantina, o Morro do Chapéu, a Serra Jacobina etc… Apêndices ou erupções telúricas que, de alguma maneira, sempre se comunicaram entre si. Povoados, prefeituras, igrejas, areões desolados, Alcoólicos Anônimos, botecos, mercearias, feiras, mercados públicos, açougues ao ar livre, postos de saúde, secos-e-molhados, corredeiras, bancos de areia, desempregados em viagem do oeste para o leste, jazidas desativadas, mangueiras, mandiocais, esquistossomose, mulheres de má vida –como dizia Saint Hilaire-, o patrimônio histórico despencando, uma carroça com as rodas no rio sendo carregada de areia e de cascalho, os desempregados imóveis nas praças, cigarros de palha, vendedores de frangos e de leitões, os grunhidos dos leitões, o cacarejo dos frangos confundidos com a submissão dessa gente aos políticos, aos donos de farmácias, aos médicos do local, aos policiais, aos vereadores, às pastorais, aos fazendeiros e a outros privilegiados que são os coronéis da modernidade… Por enquanto nenhuma livraria e nenhuma biblioteca. Se na África,

"chaque viellard qui meurt est une bibliothèque qui brûle"

como diz Boulou Hama- aqui, parecem não se ter compreendido que a ignorância é o solo fértil não apenas para o cretinismo, mas também para o emporcalhamento e o aniquilamento do rio. Entrecruzam-se gorduchas descendentes da casa-grande e desnutridos engendrados na senzala… Tudo temperado e costurado pelo mais primata dos messianismos. Inventário de misérias! Transmigração das águas franciscanas versus transmigração de almas. A fornalha e o inferno do sertão! O zumm zzuunmm das moscas, vestígios do antigo impaludismo, as águas turvas, um pneu de bicicleta boiando no rio, uma fabriqueta de rapadura, slogans fora de contexto, oito ovelhas triturando pedras na raiz de um mandacaru e o encanto natural das paisagens desérticas Carne de bode e peixe desidratando-se num sol infernal… Devassidão invisível! As duas freirinhas sorridentes e com tipo asiático que preenchiam umas fichas sobre a fome e o desespero dos ribeirinhos, ouviram do político cínico a quem pediram uma definição de pobreza esta debochada resposta:

-Querem que lhes responda desde quê ângulo? Do ângulo da filosofia? Do direito? Da psicanálise? Do marxismo? Do kardecismo? Ou segundo a visão mística do monge Francisco da Soledade?



Elas baixaram o olhar, intimidadas, e caíram fora, com seus passinhos de castas e imaculadas. Alguém menciona a FAO. Ainda existe a FAO? Até hoje, trinta anos após Josué de Castro não se disse a verdade sobre a miséria desta região e nem sobre suas variáveis. Às vezes é tratada como precioso material cinematográfico, outras, como graça cristã, outras como maldição hedonista… Dinheiro para filmes, dinheiro para teses, dinheiro para livros. Sem essa seca e sem essa miséria o que seria dos gigolôs da cultura e dos Céus? As próprias vítimas são confusas, transitam entre as explicações do assistente social marxista e as elucubrações malucas dos kardecistas, entre as leis do karma e as leis da grana, entre uma sina satânica e as transações de mercado, entre uma criança morta de fome e um crucifixo ensebado. Triste sina, triste karma, triste destino… Onde foi parar aquele projeto de Getulio Vargas (1942) que previa a navegabilidade do rio e uma Grande Civilização para o Brasil Central? No imaginário de cada ribeirinho a obsessão pela rota oeste-leste, pela periferia paulistana ou mesmo pelos morros cariocas ainda aparece como uma salvação para os futuros dias de estiagem… Todo mundo já teve ou tem alguém por lá, um irmão que é escravo nas construções, um pai que é bandido no Vidigal, uma mãe que limpa a bosta das elites ou uma irmã que trabalha depois da meia noite e que lhes manda mensalmente, pelos malotes dos correios, alguns reais. Retirantes e paus-de-arara que, independente do tempo que permaneçam distantes deste inferno, parafraseando Josué de Castro, não conseguem se libertar da crosta telúrica que recobre a sua pele e a sua alma.

Fóruns, ONGS, Pastorais, Sindicatos, sedes de partidos, charque, cana-de-açúcar, fumo, escoteiros afeminados, a foice do partido comunista desenhada num barraco, Conselhos régios, centros espíritas, casas de macumba, de crentes e de fanáticos de todos os gêneros, programas internacionais, pichações oficiais por todos os lados… alguns acampamentos dos Sem-Terra e uma certa nostalgia pelas antiga utopia das Ligas Camponesas, enquanto as cacimbas continuam abandonadas, as endemias se alastram e os intestinos dos mortos estão sempre vazios. Enquanto os antigos revolucionários se prostituíram, enfiaram a boca faminta nos cofres do Tesouro Nacional, se perverteram como aquela mulher moralista, ética e imatura que foi trabalhar num bordel e acabou virando puta. De quando em quando aparecem do nada uma das tais "ilhas de prosperidade", pastagem verde, açudes, cercas, ranchos, rebanhos imensos à sombra da caatinga. Quem são, afinal, seus verdadeiros donos? Apesar dos laranjas, todo mundo sabe que são os mesmos políticos, os mesmos jesuítas e os mesmos jagunços esclarecidos de sempre, descendentes dos antigos "donos" do rio dos currais, que agora estão ocultos na urbe. Aqui no sertão todo mundo sabe que quem é dono do rio é dono de tudo. No período colonial a margem direita era dos baianos e a esquerda dos pernambucanos.

São incontáveis os compulsivos, os loucos e os curiosos que fizeram este trajeto, ainda quando nem havia estradas por aqui. Atrás de quê? De nada. Talvez, apenas para, como dizia João Cabral de M. Neto, correr os olhos por essa paisagem defunta.

De Jatobá a Piranhas já houve uma estrada de ferro. Regredimos. Como porcos famintos devoramos os trilhos, os dormentes e os vagões. Preferimos as picadas no meio do sertão, as trilhas no meio da caatinga, as estradas cheias de buracos e de cruzes. Não somos um povo normal! A antiga estação é agora um arremedo de museu na vila de Piranhas, a mais fascinante de todo o vale. Algumas fotos, alguns objetos e algumas curiosidades dos tempos da colônia e dos tempos do cangaço remetem-nos vertiginosamente à nossa pobreza. Se não fossemos tão corruptos poderíamos ter nosso Louvre ao lado do rio, nosso MoMa entre as escarpas e as cachoeiras, nosso Taj Mahal ali no alto onde se vê os muros brancos do cemitério. Poderíamos ter construído uma estrada de ferro que margeasse o rio da foz até a nascente, com fins unicamente de lazer. Passear. Vagabundear. Ao invés de passar a vida inteira fantasiando ir de Paris à Istambul, todo mundo partiria de São Roque para Penedo, para Piranhas, para as dunas na esquina da terra com o mar. Em uma estação um jardim botânico, com a flora da caatinga replicada no meio de cachoeiras artificiais. Em outra, um viveiro natural com toda a fauna nordestina. Em outra, a história dos barqueiros, dos vaqueiros, dos vareiros, das tribos, dos alimentos, das doenças, dos piratas, dos mouros, dos muçulmanos que vieram entre os escravos. Em outra estação um imenso hangar com todos os barcos, vapores, gaiolas e meios de navegação usados nesses quinhentos anos. Em outra uma réplica dos pelourinhos. Em outra um engenho de cana de açúcar, de cachaça, de melado. Em outra uma biblioteca imensa, com absolutamente tudo o que se escreveu sobre o sertão, sobre os desertos, sobres os rios, sobre os bodes, jegues, piranhas, naufrágios, afogamentos. Uma academia de música onde sempre haveria algum repentista e algum cantador recitando, trovando, eternizando o cancioneiro sertanejo. E ainda se poderia acrescentar uma feira permanente de frutas regionais, um aquário imenso com todos os animais aquáticos do rio e, para os incuráveis religiosos, um templo de solidão, mármore e vitrais italianos contando a vida do tal São Francisco de Assis que deu nome a este rio. Mas não. Preferimos mergulhar na idiotice, na corrupção, no mau caratismo, na avidez, nas feijoadas com orelhas e rabo de porco. Preferimos roubar, não só o Tesouro Nacional, mas tudo o que estiver ao alcance de nossas miséria, depositar o roubo em contas clandestinas, mandar nossos filhos estudar no exterior, engordar e morrer como porcos, sem criar nada, sem inventar nada, sem realizar nada. Os trezentos anos de chicote dos portugueses nos deixaram com a coluna fraturada, o imaginário reduzido, envenenado pela modéstia e pela cristandade.

Pensão Maria Bonita, Piranhas (AL)

Ezio Flavio Bazzo