"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005

Valparaíso, 1350 Graus


"A única paixão de minha vida foi o medo"
Hobbes

1.

Forno Crematório: Ah, sim, a morte… Sempre a morte, na raiz de cada sentimento, de cada negociata e de cada um dos mais mínimos de nossos atos dissimulatórios. Siempre la muerte...


Ah, sim, sempre ela… Sempre a presença da morte, nesse mundinho de minhocas, ninharias e de fábulas, envolto pela aura de um redentorismo miserando, por uma polidez decorativa, fictícia e, mais do que tudo, finita…

Sim, sim, sempre a morte e a necrofobia por debaixo dos alicerces da razão, por detrás das cercas eletrizadas e das muralhas onde ingenuamente nos confinamos e, claro, por detrás das bravatas de todos os pit-bulls que rosnam pelo mundo…

Apesar das permanentes e demoníacas conspirações, vindas tanto de fora como de dentro, a tarde indescritível e morna deste sábado de sol, faz de tudo para capturar-me nas redes sutis e sedutoras do "bom astral" e da "transcendência"…

E foi, talvez, numa espécie de desafio a esse "bonheur" sem sentido que resolvi, finalmente, ir a Valparaíso conhecer de perto e "fazer um contato íntimo" com o único crematório da região. Afinal, com 55 anos, numa cidade infestada de automóveis, de ratos, de vigaristas e de bandidos, a qualquer hora se pode receber uma bala de 45 pelas costas, ser esmagado por um desses carroções urbanos, engolir o hantavírus num pedaço de lingüiça ou a maldição incurável da vaca louca numa dessas fúteis e canibais churrascadas de domingo à tarde. Aliás, quem circulou pela Inglaterra nos últimos anos viu fogueiras imensas onde milhares de vacas eram cremadas… Exatamente como nos tempos da lepra, da peste negra, dos campos de Dachau…

Se até 2001 os mortos brasilienses deviam ser levados para outros estados para serem queimados, agora tudo ficou mais fácil. Um último investimento de setecentos e cinqüenta reais e ninguém terá mais notícias de nossa vã existência! No futuro será grátis. Em cada superquadra haverá um forno, como os que já existem nos hospitais, para cremar lixo ou como os públicos de Tanger, para fazer pão… Cada família levará seu bujão de gás às costas, queimará seu ente querido e pronto… Como dizia, agora já podemos saber com segurança que nossa última viagem será feita aqui mesmo, desta cidadela de novos intelectuais e de novos ricos, para Valparaíso, na traseira de uma Cabine Dupla. Da enfermaria do HDB, do HUB ou de uma outra clínica qualquer, a caravana tomará, em silêncio, a ampla Esplanada dos Ministérios. O governador de plantão, de qualquer uma das atuais facções políticas, estará lá em seu gabinete, cercado por lacaios e parasitas quando o cortejo fúnebre passar frente ao Buriti… Mais uns dois mil metros, ao chegar na rodoferroviária, a procissão dobrará à esquerda – como quem vai para Belo Horizonte. Dependendo dos semáforos, do trânsito e da buraqueira da BR 040, a viagem durará, no máximo, uns cinqüenta minutos até o destino final. Pode parecer muito tempo, mas que são cinqüenta minutos para quem vai na horizontal e já ingressou na eternidade? Regulei o marcador de quilômetros no centro do Plano Piloto, acionei novamente a faixa do Summertime e rumei para lá.

Era de se esperar que os mais estranhos pensamentos e que as mais inesperadas associações fossem brotar, fervilhar e dar piruetas em minha mente durante o trajeto. Mas não. Fui envolvido por uma espécie de vazio enquanto segurava firmemente o volante ao lado de caminhões de vinte ou trinta toneladas que iam ziguezagueando entre os buracos, enquanto a polícia rodoviária fazia seu teatro fiscalizatório no meio da pista; enquanto uma mulher negra ia sensualmente agarrada ao corpo tatuado do motoqueiro que descia em direção ao Catetinho... A estrada deslizava veloz por debaixo dos eixos e dos pneus. Ao lado da rodovia, agrupamentos de casebres, restos de construções, águas estagnadas, cavalos pastando no habitat para onde é empurrado o lupemproletariado, com a pobreza, a poeira e a ignorância que lhe corrói as artérias, os nervos, a mão-de-obra e a vida… Uma parte imensa dos moradores desta cidade agoniza na indigência da beira-das-estradas, no meio de restos de roupas, restos de remédios, restos de religiões, restos de piedade… Matam-se entre si por puro instinto e nem ao crematório lhes é permitido o acesso… Com muito esforço uma cova rasa… ou uma vala coletiva… Se a morte é um horror, a vida dessa gente não o é menos… Farrapos amontoados nos cortiços, em todos os tipos de filas, nos aterros, sob os andaimes das construções, de cócoras nos fundos dos restaurantes devorando com os cães as sobras… Em cada barraco um bêbado, um demente, um analfabeto, um retardo… piolhos, gonorréia, obesidade, ausência de dinheiro, crimes de todas as ordens… Além desse flashback social inconsolável, algumas palavras, alguns signos e algumas imagens relacionadas ao meu destino se debatiam obsessivamente entre meus pensamentos… Crematorium... Incineratório… Um imenso tambor de gás aceso, convidando a uma análise do fogo... a uma psicologia da fumaça... ou da chaminé… do forno… desse instrumento que, por sua anatomia, induz até um leigo a fazer associações com as entranhas maternas e, principalmente, com a matriz... Só que agora, sem a possibilidade de uma cesárea e com uma única saída, volátil, para cima, e em silêncio... Para onde mesmo, doutor? Para la disolución de los huesos y para la nada, hermano...

Valparaíso de Goiás, saída sul, km 4,7.

Uma enorme placa indica meu destino: Cemitério Metropolitano. Entro calmamente à direita. No barracão do ferro-velho dobro à esquerda e já posso ver os telhados curvos das diversas alas do cemitério. Alguma coisa neles lembra as igrejas da pós-modernidade, outras, por que não, alguns telhados bizantinos da Turquia, Istambul, Ankara… Mas nada que abale os cânones sagrados da arquitetura vigentes. Meras coincidências. Impressões produzidas na promiscuidade de um imaginário que sempre se exacerba quando lida com essa temática moribunda… Chego ao portão, diminuo a velocidade, faço de tudo para registrar emocionalmente a primeira impressão. Enquanto Baudrillard resmunga de um lado que estamos experimentando o tempo e a história como uma espécie de coma profundo, Beckett, meio intimidado, cochicha do outro , insinuando que morrer é descambar docemente para a vida eterna, recordando toda essa mesquinha desgraça, como se ela jamais tivesse existido… Parole… parole… parole…

Desligo o motor e permaneço imóvel por um longo tempo… Pelos buracos de plástico do painel, a beleza de Summertime.

2.

Antes de fazer qualquer tipo de contato com os plantonistas, caminho de um lado a outro. Uma mijada se faz eminente. Por preconceito, sinto que nem minha bexiga e nem meu pulmão funcionam na sua totalidade. A tarde continua estupenda. Pelos fundos do terreno um horizonte azulado, uma fileira de Sempre-Verdes, cinco ou seis corvos que planam sobre a estrebaria ou a pocilga de algum animal adoentado. Espio para dentro das diversas salas e vejo que numa há som ambiente, toalete privativo, ar condicionado, frigobar, serviço de café e de chá, castiçais elétricos e que a câmara ardente foi feita com ouro e prata… Uma das salas tem o vidro translúcido, é ali que família do morto que será queimado pode ficar em privacidade, sem, contudo tirar os olhos de seu ente que jaz na capela… Para a última vez, até que é tudo exageradamente suntuoso!

Baudrillard se intromete novamente em minhas idéias para lembrar que nos moldes futuros da civilização, onde a morte terá sido eliminada, os clones poderão pagar muito bem pelo luxo de morrer e de converter-se em mortais de novo de forma simulada, a cibermorte… Que a morte, que uma vez foi uma função vital, poderá vir a converter-se em um luxo, em uma diversão…

As ciências, os grandes laboratórios e os ladinos comerciantes de sempre debruçam-se esperançosos não apenas sobre a possibilidade de copiar e dar longevidade aos nossos gens, mas principalmente sobre a idéia de estancar o envelhecimento e de evitar o óbito… Óbito? De onde teria surgido essa palavra. Onde está meu dicionário etimológico?

Enquanto isto, vão se usando os fornos...

3.

A recepção é espontânea e calorosa. Talvez, no universo dos negócios, os empresários de cemitérios, de crematórios, hospitais, lapidários, floriculturas, assim como os donos desses armarinhos que vendem velas, tricoline, rosários, incenso, naftalina etc, sejam, despachadamente, os mais simpáticos…

Volto a circular por todo o espaço do cemitério, agora ao lado do administrador, que vai explicando em detalhes:

- Aqui é a recepção. Hoje está tranqüilo porque é sábado… Em Brasília, morrem umas 800 pessoas por mês e mais ou menos uns 3% delas são cremadas… Para diminuir a burocracia, a pessoa interessada em ser cremada quando vier a morrer, deve ir a um cartório público e declarar por escrito, com testemunhas, essa sua vontade. A cremação de corpo cadavérico humano é regida pela Lei Federal Nº 6.015, de 31 de dezembro de 1973; Pelo Decreto-Lei Nº 88, de 07 de agosto de 1969, regulamentado pelo Decreto 'E' Nº 3.707, de 06 de fevereiro de 1970 e pelo Decreto Nº 159 de 08 de outubro de 1975, pela Lei Nº 40 de 07 de dezembro de 1977, regulamentados pelo Decreto Nº 1.453, de 08 de março de 1978… (Ufa!) Veja que paisagem linda… O terreno do cemitério tem 285 mil metros quadrados… vai até a beira de um córrego, depois daquele morro…

Parece inacreditável, mas até para ser enfiado num forno, queimado, transformado em pó e banido do planeta é necessário um ato burocrático! Talvez a verdadeira origem da burocracia esteja na incurável e mútua desconfiança que uns seres sempre sentiram pelos outros… É curioso, e talvez "mera coincidência", que o primeiro Decreto-Lei sobre cremação tenha sido regulamentado no Brasil, na década de setenta, no auge da ditadura militar, quando presos políticos e até indigentes eram assassinados e cremados clandestinamente…

A nuvem que esconde o sol ficou repentinamente de uma cor laranja, deixando o cemitério sob uma imensa sombra. Querendo ir logo ao que me interessava, perguntei-lhe:

- Onde fica o crematório?

- Naquela parte lá… (aponta para uma das construções com vidro ray-ban na frente e um imenso tanque da Minasgás nos fundos.) Mas antes quero mostrar-te esta parte. Aqui é uma sala de velório; ali é o espaço reservado para a floricultura; aqui uma lanchonete; este é o carrinho moderno para baixar o caixão à sepultura; aqui é uma capela laica…Como dizem que já se listou nove milhões de nomes de Deus, para não ter problemas ideológicos com os clientes, é melhor que seja laica. Não sei se você sabe, mas este é um cemitério vertical. Cada tumba tem três andares, pode servir a três mortos… Já temos aqui uns 650 clientes… Esta sala é uma espécie de enfermaria ou ambulatório, se alguém passar mal vem para cá…

Enquanto caminhamos, fotografo os ângulos mais sugestivos e anoto tudo o que ele me diz… Mas, como já disse, meu interesse, quase neurótico, é pela parte onde está o forno. Por ser psicólogo, tenho a obrigação de lembrar que a neurose - como dizia Bataille - é a apreensão timorata de um fundo impossível. Agora o vento afastou as nuvens e o sol das quatro desce ferozmente sobre as minúsculas lápides cravadas no meio da grama. Numa delas, onde alguém deixou umas flores amarelas, para minha surpresa, o nome de meu amigo Oswaldino Marques, escritor e tradutor de William Blake e de T.S.Eliot. Sim, Oswaldino Marques… esse homem lúcido que não tinha dúvidas de que a idéia do céu era uma bobagem, e que na existência

"tudo são degraus para o deslumbramento,

tudo alcançará seu esplendor bem aqui no chão,

Bem assentado, bem plantado no chão desse globo,

Desse globo em cósmico – difícil – equilíbrio."

Permaneci em pé e meio atônito, por uns instantes, frente suas cinzas, enquanto resgatava outro fragmento desse seu mesmo texto:

"Quando te enfastiares de olhar para o alto,

olha também um pouco para baixo.

É preciso conhecer o chão lá o seu tanto…"

4.

Percebendo minha impaciência o gerente tomou finalmente o rumo do forno. Abriu com chave a porta que dá entrada à sala da frente.

- Quando a família traz o corpo só para a cremação, vem direto para cá. Esta é, digamos, a sala da despedida…

Uma mesa de mármore com roldanas na parte superior onde se deposita o caixão fica bem defronte à abertura na parede que dá para a sala onde está a fornalha. As lajes do piso têm o desenho de um tabuleiro de xadrez. Seria uma insinuação inconsciente do xeque-mate? Quando os familiares já consideram que é hora, um botão aciona as roldanas que transportam o féretro para o outro lado da parede, onde os "técnicos" dão início aos tramites verdadeiramente finais. Agora sim, é o adeus definitivo. Lá no outro lado, onde está o forno, não é permitida a presença nem dos familiares. Talvez este seja o momento máximo da impotência, da culpa e da dor…

Por uma porta dos fundos entramos na sala do forno.

- Este é um forno americano, marca Cranfora. 375 mil dólares… Assim que o corpo entra aqui nesta sala, é retirado do caixão e colocado nesta maca. Por que não é queimado no caixão? Porque faria muita cinza escura, tipo carvão… Nesse momento é retirado do cadáver (se a família ainda não o fez) o relógio, os brincos, o celular, os piercings, colares, qualquer coisa que ele tenha em metal, inclusive o marca-passo já que leva uma bateria que pode explodir e danificar o forno… Se, por alguma razão o corpo não está legalmente autorizado para a cremação, fica nesse freezer –aponta para a esquerda- esperando a liberação…

Como se quisesse brincar com minha ansiedade, apertou o mecanismo que fez a porta do forno abrir-se bruscamente à minha frente, deixando-me de cara com aquele vazio incomensurável… e prosseguiu em sua aula:

- Vês estes pedacinhos de ossos? São do último corpo cremado. É impossível retirar 100% dos restos de um cadáver. Sempre ficam sobras, mas que se dissolverão completamente com o processo da próxima incineração…

Algo dentro de mim ia murmurando: Porra! Como negar a vitória da máquina! Do forno siderúrgico! Do gás! Do fogo! De Schopenhauer! Do instinto de morte freudiano! Do Eclesiastes! Como negar a derrota dos vícios! Dos sonhos! Da idéia de infinitude! Do capitalismo! Dos desejos! Do narcisismo! De todas as esperanças fossilizadas! Sim, aqui é o lugar onde acontece o mais insuportável de todos os escândalos: o desaparecimento… Mas é um projeto pueril querer abolir a morte sem pensar em abolir o nascimento.

-…como dizia, depois do corpo ser colocado aí dentro, acende-se as três chamas (uma em cima e duas embaixo) fecha-se e espera-se 3 horas. Se for uma pessoa muito gorda o tempo é maior - três horas a 1350 graus centígrados… As paredes ficam incandescentes como as dos fornos das siderúrgicas… pela chaminé sai uma fumacinha quase inodora… Não se sabe ainda qual a quantidade exata de dioxinas/furanos por cadáver queimado. Depois de três horas, quase tudo virou cinzas, menos o esqueleto que se fraturou em muitos pedacinhos e que se desmancha com facilidade. O crânio - por causa do cérebro - resiste mais…

Esta última frase, ao mesmo tempo em que mexeu com minhas tripas, fez-me também ruborizar. Respirei fundo e quando restabeleci o equilíbrio lembrei que, segundo Barthes, todo escritor tem suas ruborizações imbecis… Numa determinada região do Nepal, os mortos são deixados sobre as rochas para que os urubus lhes comam as carnes. Na Índia, ao redor das fogueiras de Benares, o mesmo sujeito que espantava os cães que insistiam em mordiscar os cadáveres, me dizia que a parte mais resistente ao fogo era o tórax. Sem nenhum esoterismo primata, arrisco uma indagação espontânea: por que lá o coração e,aqui, o cérebro? Alguma coisa a ver com o antagonismo entre Buda e Descartes…? Entre krishna e Kant…? Entre a afetividade oriental e o racionalismo do ocidente…?

- Com este rodo – continua em seu tom professoral - puxamos delicadamente os restos que vão cair por este funil até esta gaveta. Daqui, o material vai para aquela mesa, onde passamos este ímã para ver se há algum resto de metal. Às vezes, o morto usava algum tipo de platina no corpo que nem os familiares sabiam. Em seguida, os pedaços de ossos que sobraram são colocados neste triturador (uma espécie de panela de pressão) onde são triturados completamente. Daqui, as cinzas - uns dois quilos e meio em média - são empacotadas, lacradas e entregues à família…

Apenas dois quilos e meio de cinzas, em média… Quase o peso com que se nasce! Que farão com as minhas?

O homem é Ser-para morrer, resmungaria Heidegger. Os filósofos queimaram neurônios inutilmente pensando neste destino fútil e até vil… Buscar um sentido para o forno e para a vida é perder tempo… Uma espécie de consolo é saber que com os outros setenta ou oitenta quilos de banhas e de ossos se foram também os vírus, as bactérias, o colesterol, as disfunções cerebrais, a letargia, o material inconsciente, a passividade reacionária, a erudição, as teimosias, as megalomanias, as ficções humanitárias, a fé e o rancor… Principalmente o rancor.

- Algumas famílias as enterram aqui mesmo, outras alugam uma gaveta no columbário ao lado e outras vão embora, estressadas, com as cinzas do cadáver em baixo do braço…

Ezio Flavio Bazzo