"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 23 de janeiro de 2005

Brasília: a monstruosidade de uma utopia


" Nada é pior do que uma utopia que se torna realidade.
Sim, porque a utopia é desalienante no imaginário
e opressiva na prática"


Michel Ragon

Nós que nunca levamos a sério os sonhos de Dom Bosco, que nunca achamos que Juscelino foi um estadista, nem que o Niemayer é um gênio e muito menos que o Cristovam pudesse governar diferentemente do Roriz, nós que nunca tivemos - pelo menos conscientemente - a intenção de compactuar ou legitimar a megalomania desses homens, nós não nos cansamos de ver a cidade de Brasília - apesar dos conhecidos ufanistas de plantão - como um aborto burocrático; como um equívoco urbanístico de primeira ordem e como um delirium tremens levado às últimas conseqüências por uma elite gabola, febril e gananciosa que, louca por copiar as falácias de Le Corbusier e por encher definitivamente os cofres de dinheiro, inventou esse quartel de caixotes verticais, de ruas vazias e de espaços empoeirados.

Pretensamente motivada por um ideal místico/funcionalista/ cartesiano/ stalinista de segunda ordem, na verdade, essas paredes rachadas, esse asfalto esburacado, essas moradias minúsculas, essas janelas que não deixam passar mais do que a cabeça de seus inquilinos são os símbolos maiores de uma encefalopatia corrupta e masoquista que, se por um lado tem fomentado a autofagia e institucionalizado a mediocridade, por outro têm garantido aos gatunos de turno a legitimação de um poder e de uma riqueza sem origens e sem fundamento. Como a Transamazônica que atraiu para si milhares de famílias e de aventureiros para depois traí-los e imolá-los na solidão da selva, a Capital Federal trouxe para cá escravos e lunáticos de todas as partes para enjaulá-los a uma arquitetura no mínimo abusiva e imbecilizante, e para subjugá-los a uma ordem tão totalitária como ilegítima.

- Ai meu Deus! Mas aqui tudo é calmo... espaçoso... verde... A qualidade de vida é quase um sonho... A lua parece nascer ali entre os braços da estátua da justiça... no centro da Praça dos Três Poderes... Os primeiros raios da manhã, quase como uma benção, despertam os Ministros, os Generais, os Presidentes e seus lacaios... Tudo aqui é Zen... Com suas trezentas e tantas seitas a cidade transborda energia cósmica! Os discos voadores dão razantes por sobre a Papuda como se quisessem convencer aqueles guardas e aqueles presidiários que será aqui, neste paraíso de politicagens, a megalópole-chave do Terceiro Milênio....

É assim que cacarejam obsessivamente as vítimas prematuras dessa engenharia monstruosa. E o quê mais? lhes perguntamos nós. Desde quando isto é suficiente para quem está vivo? Para quem tem os olhos postos para além do planalto, da planície e da manada? Desde quando isto é suficiente para quem tem consciência de que em outros pontos de um planeta imaginário as cidades fervilham, as noites transbordam de prazeres, de cultura, de rebeliões, de intimidades e de asco, muito asco contra qualquer um dos conhecidos e melancólicos regimes?

Para aqueles que, pela razão que for, "amam" a frieza destas lages, a superficialidade desses telhados, o tédio dessas construções literalmente inacabadas, a monotonia das Super-Quadras e a mesmice interminável dos botecos, a eles peço que olhem atentamente para todos os lados até perceberem o quanto ela se parece a uma imensa fazenda. Ao invés de carroças, muitíssimos carros; ao invés de vacas e cabras, multidões que só nos horários intermediários aparecem em rebanhos nas esplanadas e nos shoppings, mas que logo desaparecem, voltam a se enclausurar nas estrebarias estatais, em seus estábulos executivos para ruminar papéis, processos, propinas, novelas e intrigas domésticas. Olhai, olhai de vossas minúsculas janelas ou de vossas improvisadas varandas e vereis por todos os lados um prado imenso, com poeira no verão e lama nas épocas de chuva. Automóveis velhos, aos pedaços ou reluzentes e recém importados deslizam barulhentos em busca de retornos inexistentes. Um trator fura a terra vermelha onde os mesmos empresários de sempre levantarão outra dessas miseráveis colméias. Colméias para a classe média, para os proletários e "paus-de arara" disfarçados. O caminhão do lixo vai espalhando dejetos pelo asfalto, até a esquina, onde cinco ou seis taxistas esperam seus clientes sob uma choupana improvisada. É a diversidade arquitetônica, resmunga outro teólogo ecologista. Na TV, um corrupto chora e entre lágrimas, lembra que seu pai foi um dos fundadores e construtores da cidade. O governo se compadece e os suplentes o inocentam, dando margem à dedução de que uma vilania de origens congênitas teria se metamorfoseado numa vilania urbana.

Pela manhã o governador perfumado viaja de helicóptero para evitar a plebe, os eleitores e as retas. Se tivesse lido a Charte d¹Athènes de Le Corbusier, saberia que para o mestre urbanóide, as ruas tortuosas são para os asnos assim como as ruas retas são para os homens. Será? Cada vez que voltamos a olhar para os lados se nos agiganta a dúvida sobre este postulado.

Brasília... Chandigarh... A periferia de Paris, a Alemanha Oriental, Miami, qualquer lugar que tenha pobres e indigentes pode ser digno de uma "Vile-Machine", de uma cidade laboratório, de um zoológico humano cujas jaulas, se não têm serventia para proteger, pelo menos ativam a bestialidade sociológica do "modernismo". Mas nem mesmo os arquitetos mais cínicos dessas colméias escapam ao sentimento de culpabilidade. Em suas crises fóbicas e em seus remorsos parecem intuir e temer que o lobo Guará ainda possa, um dia, revirar suas tumbas para banquetear seus ossos. O próprio Niemayer, falando de sua obra para a opinião internacional, chegou a desculpar-se: ³Me sinto deprimido. Construí edifícios para os poderosos. Nada além disso. Nunca pude trabalhar para as classes desfavorecidas, para o mundo dos pobres que constitui a grande parte de meus irmãos brasileiros.² Demagogia tardia! Se não construiu nada que servisse para os pobres foi porque não quis, porque não viu irmão nenhum no meio das massas marginalizadas e dos rebanhos catatônicos e sem voz que, não conhecendo a analogia que existe entre doença e mito, sempre serviu de instrumento para a mistificação de todos os tipos de charlatanismos.

Se na Coréia - por exemplo - se pode beber a água do rio que cruza silencioso a cidade, aqui, a água do lago que enfeita a retaguarda das mansões dos suplentes é ainda um reservatório de stronzo, de turd e de merde.. E é até compreensível que uma cidade que milita contra si mesma feche suas livrarias e suas bibliotecas com o pôr-do-sol, marginalize seus expoentes culturais, fomente a teologia em detrimento da antropologia e clame embasbacada pela multiplicação da polícia ao invés de investir na conquista de seu próprio desejo e de sua própria liberdade.. Não, não... me desculpem, mas isto ainda não é uma cidade! É mais bem um laboratório luciferiano; uma Serra Pelada sem sombras de minérios, uma aldeota senil, um engendro monstruoso planejado para nutrir-se das entranhas de seus próprios habitantes, com suas nostalgias, suas falácias e seus pesares incuráveis...

Ah... e está longe, muito longe o dia em que em seus portões de entrada se poderá levantar uma faixa imensa com os seguintes dizeres: ³Entrem! Entrem que aqui todos serão bem vindos e que a quem ainda tem ouvidos para as coisas inauditas, retribuirei fogosamente com minha felicidade!

Ezio Flavio Bazzo