"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Errando pelas barrancas do São Francisco


"Para entender a falácia política atual é necessário lembrar que o Brasil sifilizou-se muito antes de civilizar-se"

O ziguezague do ônibus pelas estradas vai dando concretude à minha tardia Conquista do Oeste.
A poeira que cobre as cercas, as vacas, os casebres, os terrenos estéreis e as pilhas de lenha, vai aos poucos se acumulando também na lateral de meus olhos.

Latifúndios imensos, alambiques, tropeiros com suas latinhas de angu, antigos currais de gado que agora são também currais eleitorais, mocinhas desvirginadas e soltas na rota da prostituição infanto-juvenil ciscando no território dos cabras-de-aluguel que passam o dia inteiro encostados preguiçosamente nas porteiras das fazendas, iguais àqueles descritos na literatura, no teatro e no cinema… Olhares semi-áridos. Casebres, mansardas. Tudo convida a uma arqueologia do brejo. Você pensa que sabe, mas não sabe o que é um casebre. Dois metros quadrados por um e dez de altura, duas mulheres octogenárias mascando fumo e um show de escarros no meio daquela solidão! Apenas a porta de entrada, como uma caverna e como um túmulo. Fumaça, bicho-barbeiro, um cão enrolado ao lado do braseiro, uma criança catatônica. O morador é o tal eleitor e cidadão que os políticos de todas as idades e facções falam. O título eleitoral enrolado num plástico e colocado numa fenda na parede como um hábeas corpus e como uma procuração em branco para governos e políticos assassinos! Crápulas e profissionais da política, confinados longe daqui, em suas mansões blindadas com jagunços no portão. Criados para cá e para lá, pistoleiros engajados na causa cretina de seus amos, rezadores e a cachaça nas veias, como a sina triste e a deslavada desculpa nacional para esta neurose coletiva. Um imenso mundo ainda semifeudal e semifluvial, de faltas e de carências… O peixe saltitante na rede é quase um símbolo da condição humana e da autofagia. Uma humanidade de escamas, sangue frio, olho de carcará. A peixeira reluz ao sol, a bainha carcomida pela seca e pelo sal. Vida sertaneja, a pele das faces como a dos peixes, escamas longitudinais, o horror da rotina semi-árida.

Pela janela do ônibus já passaram a Serra da Canastra, a Serra do Espinhaço, a Chapada Diamantina, o Morro do Chapéu, a Serra Jacobina etc… Apêndices ou erupções telúricas que, de alguma maneira, sempre se comunicaram entre si. Povoados, prefeituras, igrejas, areões desolados, Alcoólicos Anônimos, botecos, mercearias, feiras, mercados públicos, açougues ao ar livre, postos de saúde, secos-e-molhados, corredeiras, bancos de areia, desempregados em viagem do oeste para o leste, jazidas desativadas, mangueiras, mandiocais, esquistossomose, mulheres de má vida –como dizia Saint Hilaire-, o patrimônio histórico despencando, uma carroça com as rodas no rio sendo carregada de areia e de cascalho, os desempregados imóveis nas praças, cigarros de palha, vendedores de frangos e de leitões, os grunhidos dos leitões, o cacarejo dos frangos confundidos com a submissão dessa gente aos políticos, aos donos de farmácias, aos médicos do local, aos policiais, aos vereadores, às pastorais, aos fazendeiros e a outros privilegiados que são os coronéis da modernidade… Por enquanto nenhuma livraria e nenhuma biblioteca. Se na África,

"chaque viellard qui meurt est une bibliothèque qui brûle"

como diz Boulou Hama- aqui, parecem não se ter compreendido que a ignorância é o solo fértil não apenas para o cretinismo, mas também para o emporcalhamento e o aniquilamento do rio. Entrecruzam-se gorduchas descendentes da casa-grande e desnutridos engendrados na senzala… Tudo temperado e costurado pelo mais primata dos messianismos. Inventário de misérias! Transmigração das águas franciscanas versus transmigração de almas. A fornalha e o inferno do sertão! O zumm zzuunmm das moscas, vestígios do antigo impaludismo, as águas turvas, um pneu de bicicleta boiando no rio, uma fabriqueta de rapadura, slogans fora de contexto, oito ovelhas triturando pedras na raiz de um mandacaru e o encanto natural das paisagens desérticas Carne de bode e peixe desidratando-se num sol infernal… Devassidão invisível! As duas freirinhas sorridentes e com tipo asiático que preenchiam umas fichas sobre a fome e o desespero dos ribeirinhos, ouviram do político cínico a quem pediram uma definição de pobreza esta debochada resposta:

-Querem que lhes responda desde quê ângulo? Do ângulo da filosofia? Do direito? Da psicanálise? Do marxismo? Do kardecismo? Ou segundo a visão mística do monge Francisco da Soledade?



Elas baixaram o olhar, intimidadas, e caíram fora, com seus passinhos de castas e imaculadas. Alguém menciona a FAO. Ainda existe a FAO? Até hoje, trinta anos após Josué de Castro não se disse a verdade sobre a miséria desta região e nem sobre suas variáveis. Às vezes é tratada como precioso material cinematográfico, outras, como graça cristã, outras como maldição hedonista… Dinheiro para filmes, dinheiro para teses, dinheiro para livros. Sem essa seca e sem essa miséria o que seria dos gigolôs da cultura e dos Céus? As próprias vítimas são confusas, transitam entre as explicações do assistente social marxista e as elucubrações malucas dos kardecistas, entre as leis do karma e as leis da grana, entre uma sina satânica e as transações de mercado, entre uma criança morta de fome e um crucifixo ensebado. Triste sina, triste karma, triste destino… Onde foi parar aquele projeto de Getulio Vargas (1942) que previa a navegabilidade do rio e uma Grande Civilização para o Brasil Central? No imaginário de cada ribeirinho a obsessão pela rota oeste-leste, pela periferia paulistana ou mesmo pelos morros cariocas ainda aparece como uma salvação para os futuros dias de estiagem… Todo mundo já teve ou tem alguém por lá, um irmão que é escravo nas construções, um pai que é bandido no Vidigal, uma mãe que limpa a bosta das elites ou uma irmã que trabalha depois da meia noite e que lhes manda mensalmente, pelos malotes dos correios, alguns reais. Retirantes e paus-de-arara que, independente do tempo que permaneçam distantes deste inferno, parafraseando Josué de Castro, não conseguem se libertar da crosta telúrica que recobre a sua pele e a sua alma.

Fóruns, ONGS, Pastorais, Sindicatos, sedes de partidos, charque, cana-de-açúcar, fumo, escoteiros afeminados, a foice do partido comunista desenhada num barraco, Conselhos régios, centros espíritas, casas de macumba, de crentes e de fanáticos de todos os gêneros, programas internacionais, pichações oficiais por todos os lados… alguns acampamentos dos Sem-Terra e uma certa nostalgia pelas antiga utopia das Ligas Camponesas, enquanto as cacimbas continuam abandonadas, as endemias se alastram e os intestinos dos mortos estão sempre vazios. Enquanto os antigos revolucionários se prostituíram, enfiaram a boca faminta nos cofres do Tesouro Nacional, se perverteram como aquela mulher moralista, ética e imatura que foi trabalhar num bordel e acabou virando puta. De quando em quando aparecem do nada uma das tais "ilhas de prosperidade", pastagem verde, açudes, cercas, ranchos, rebanhos imensos à sombra da caatinga. Quem são, afinal, seus verdadeiros donos? Apesar dos laranjas, todo mundo sabe que são os mesmos políticos, os mesmos jesuítas e os mesmos jagunços esclarecidos de sempre, descendentes dos antigos "donos" do rio dos currais, que agora estão ocultos na urbe. Aqui no sertão todo mundo sabe que quem é dono do rio é dono de tudo. No período colonial a margem direita era dos baianos e a esquerda dos pernambucanos.

São incontáveis os compulsivos, os loucos e os curiosos que fizeram este trajeto, ainda quando nem havia estradas por aqui. Atrás de quê? De nada. Talvez, apenas para, como dizia João Cabral de M. Neto, correr os olhos por essa paisagem defunta.

De Jatobá a Piranhas já houve uma estrada de ferro. Regredimos. Como porcos famintos devoramos os trilhos, os dormentes e os vagões. Preferimos as picadas no meio do sertão, as trilhas no meio da caatinga, as estradas cheias de buracos e de cruzes. Não somos um povo normal! A antiga estação é agora um arremedo de museu na vila de Piranhas, a mais fascinante de todo o vale. Algumas fotos, alguns objetos e algumas curiosidades dos tempos da colônia e dos tempos do cangaço remetem-nos vertiginosamente à nossa pobreza. Se não fossemos tão corruptos poderíamos ter nosso Louvre ao lado do rio, nosso MoMa entre as escarpas e as cachoeiras, nosso Taj Mahal ali no alto onde se vê os muros brancos do cemitério. Poderíamos ter construído uma estrada de ferro que margeasse o rio da foz até a nascente, com fins unicamente de lazer. Passear. Vagabundear. Ao invés de passar a vida inteira fantasiando ir de Paris à Istambul, todo mundo partiria de São Roque para Penedo, para Piranhas, para as dunas na esquina da terra com o mar. Em uma estação um jardim botânico, com a flora da caatinga replicada no meio de cachoeiras artificiais. Em outra, um viveiro natural com toda a fauna nordestina. Em outra, a história dos barqueiros, dos vaqueiros, dos vareiros, das tribos, dos alimentos, das doenças, dos piratas, dos mouros, dos muçulmanos que vieram entre os escravos. Em outra estação um imenso hangar com todos os barcos, vapores, gaiolas e meios de navegação usados nesses quinhentos anos. Em outra uma réplica dos pelourinhos. Em outra um engenho de cana de açúcar, de cachaça, de melado. Em outra uma biblioteca imensa, com absolutamente tudo o que se escreveu sobre o sertão, sobre os desertos, sobres os rios, sobre os bodes, jegues, piranhas, naufrágios, afogamentos. Uma academia de música onde sempre haveria algum repentista e algum cantador recitando, trovando, eternizando o cancioneiro sertanejo. E ainda se poderia acrescentar uma feira permanente de frutas regionais, um aquário imenso com todos os animais aquáticos do rio e, para os incuráveis religiosos, um templo de solidão, mármore e vitrais italianos contando a vida do tal São Francisco de Assis que deu nome a este rio. Mas não. Preferimos mergulhar na idiotice, na corrupção, no mau caratismo, na avidez, nas feijoadas com orelhas e rabo de porco. Preferimos roubar, não só o Tesouro Nacional, mas tudo o que estiver ao alcance de nossas miséria, depositar o roubo em contas clandestinas, mandar nossos filhos estudar no exterior, engordar e morrer como porcos, sem criar nada, sem inventar nada, sem realizar nada. Os trezentos anos de chicote dos portugueses nos deixaram com a coluna fraturada, o imaginário reduzido, envenenado pela modéstia e pela cristandade.

Pensão Maria Bonita, Piranhas (AL)

Ezio Flavio Bazzo

sábado, 23 de julho de 2005

Memórias da guilhotina


"Visão, é a arte de ver as coisas invisíveis"
Jonathan Swift



Segundo as anotações dos velhos marceneiros da história, as duas vigas verticais dessa máquina vingativa mediam 4,50 metros, e a separação entre uma e outra era de 37 centímetros. A lâmina pesava 7 quilos, era fixada por três esferas, (pesando 1 quilo cada uma) e presa num cabeçalho que por sua vez pesava 30 quilos, constituindo assim, um conjunto de 40 quilos, que percorria uma queda de 2,25 metros antes de cortar o pescoço do condenado. A viga esquerda da máquina pesava 69 quilos, a da direita, por conter o mecanismo de liberação da queda da lâmina, 73 quilos, totalizando, com a máquina já montada uns 580 quilos. Quem já presenciou um ritual desses confessa que ele não era apenas uma deslealdade macabra, mas uma verdadeira convulsão e um alarido de horror. Poderia ser diferente? Não. Pois, como lembrava Alexandre Vialette, a morte, geralmente não tem amigos sinceros.

Por mais que você se espante, a guilhotina faz parte da história recente da França, de Paris e do Estado Judicial implantado em praticamente todo o planeta. Aqui neste país da igualdade, fraternidade e liberdade, até bem pouco tempo (1981) essas «máquinas» eram montadas aqui e acolá, transportadas para o interior do país, para as colônias, para o fundo sombrio e ameaçador das prefeituras, para o meio das praças em alvoroço, enfim, para qualquer lugar onde houvesse cabeças dignas de serem decapitadas.

Quem visitou este território antes de setembro de 1981, correu o risco de passar por ela, de ver seu pescoço colocado nesse umbral estatal criminoso. E o que é mais atordoante ainda neste assunto, é que quem se der ao luxo de pesquisar, de rastrear os abismos por onde a «justiça» trafegou nos últimos séculos, descobrirá que em quase todos os horrores da tortura e das execuções havia também vestígios de perversão e de gozo sexual mórbido. Que na maioria dos massacres coletivos e das execuções individuais havia, associada, uma tormenta libidinosa, a irrupção de uma tara e de uma sexualidade gêmea do crime. Sim, um condenado em seu desespero e em sua agonia era, de alguma maneira, também o objeto do desejo do torturador e do verdugo. E não só o verdugo desfrutava dessa luxúria secreta e desse êxtase, também as massas curiosas e sedentas que lotavam as praças gozavam com a execução e com aquele corpo decapitado, sangrento e morto. Historicamente, parece que o sangue e toda a agonia que acompanha o fim de nossos iguais sempre foi experimentada como ícone erótico-afrodisíaco e como signo religioso. Não é por acaso que a religião mais popular do planeta tem como logotipo, há dois mil anos, um homem pregado numa cruz. Uma espécie de fogueira fálica e de ilusão sanguinária que reduz as pretendidas "revoluções", as pretendidas "justiças" e a própria condenação a meros pretextos. Pretextos para, de uma forma ou de outra, gozar. Em outras palavras, identifica-se sob os pretextos da «justiça» e sob os clamores da turba, aquilo que escrevia V.Hugo: "as unhas do verdugo!", a ereção neurótica das massas, a malícia de um Estado opressor, substituto disfarçado das monarquias e sem legitimidade que continua fazendo do populacho e dos mais indefesos, pólvora para cartuchos, desforra, adubo para vinhas, espantalhos para dispersar pelo campo nas noites em que se precisa afugentar os demônios...

Ao refletir sobre a guilhotina, qualquer um tem a estranha sensação de estar se transmutando numa hiena. (…) Acredito que seria um espetáculo imenso se fosse possível ressuscitar suas vítimas, devolver-lhes o sangue e exibi-las ao lado do Arco do Triunfo sob o som da Marseillaise e tendo ao fundo, enfileiradas, as velhas guilhotinas que o governo francês mantém escondidas do público. Por mim, se não fosse um mísero estudante do Institut des Hautes Etudes de L'Amerique Latine, as exibiria como prova do mau caratismo humano com suas lâminas manchadas de sangue e de merda, com seus carrascos vestidos a rigor, os cestos cheios de crânios decepados, os olhos agressivos de Robespierre, os místicos de Saint-Just, os meigos de Marie Antoinette e os sinceros de Ravachol. Sim, os de Ravachol com a íris intacta, a barba crescida, a testa sem rugas. Depois levaria a todos para jantar lá no Marais, colocaria Edit Piaf na radiola e encheria seus estômagos de qualquer tipo de comida, sem deixá-los opinar e sem me importar com seus regimes alimentares, porque comida, como sabemos, é matéria prima do esterco. (…)

Mas não se deve esquecer que o projeto do Dr. Guillotin teve também razões "humanistas", -me previne um professor da Paris IV-. Dizem que ele só propôs a fabricação da máquina que, aliás, herdou seu nome, para "diminuir o sofrimento" dos executados. Antes da guilhotina mecânica, todos sabem, os condenados eram submetidos, a longos suplícios e a difíceis processos de morte. O sabre nem sempre era usado com precisão e as cabeças acabavam sendo destroçadas, amassadas, praticamente arrancadas antes que a vítima morresse. A guilhotina, neste sentido, como escreve Bessette, e eu o reconheço, foi a típica filha des Lumières. Ela marcou, além de uma inovação no oficio de matar, a aurora dos tempos industriais, a invenção técnica própria para controlar as cabeças em série, tornando cegos os homens: a cabeça de um lado e o resto do corpo de outro. Máquina de aparência eminentemente democrática - ela opera um nivelamento pelo alto-, já que não pode se mostrar egalitaire, se mostrará em todo caso, egalisatrice.

Paris, por mais que se negue e por menos que pareça, é uma cidade paradoxo! Uma espada com duas pontas! Uma tribo empoeirada e com penas de pombas que flutuam de um extremo a outro de suas pontes, de seus cafés, de seus "chambres de bonne"! Uma espécie de Portugal que deu economicamente certo! Algo que fascina e que intriga! Uma cidade que por um lado, exibe e se orgulha de seus esgotos (onde seus dejetos são tratados antes de serem lançados no Sena) e que por outro, gosta de colocar todo o mundo de joelhos diante da fineza de seus costumes alimentares. Uma cidade que pela manhã mostra os estandartes de sua democracia, e que pela tarde envia os imigrantes ilegais para a velha, famosa e temida Conciergerie, endereço que já foi a ante-sala para a guilhotina. Quem vai em romaria ao primeiro normalmente vai à segunda e vice versa. E aqueles que, além disso, tiverem a vontade mórbida de fazer uma excursão ou um tour pelos cemitérios do município e pelos sanitários de Goutte D'or, sairão da França quase com uma especialização em escatologia.

Consegui uma cópia do mapa geográfico das execuções, (Place de Grèves, Place da Révolution, etc, etc), mas não o tomo como referência porque é oficial, e porque grande parte das guilhotinas e das execuções que verdadeiramente me interessam foram invisíveis e sempre estiveram instaladas e funcionando no patíbulo cerebral dos homens, já que esse monstro erigido sobre duas vigas é apenas a materialização de um monstro mais antigo e mais devastador, de um monstro que de séculos em séculos se introduz numa forma nova de martírio e de sadismo, contra os seres.

Apesar dos ditos socialistas gostarem de lembrar que a guilhotina só foi abolida no governo de Mitterrand, é bom lembrar-lhes que nesta data, já havia sido construída a cadeira elétrica e que, por conseguinte, o velho frade poderia estar apenas se livrando de uma peça obsoleta e dando lugar amplo à modernidade. Sim, vemos que na América a modernidade judicial não se inibe e superando a máquina mecânica lança no mercado a máquina elétrica. Por outro lado, quando Mitterrand aposentou a máquina que, durante 200 anos aterrorizou o mundo, os nazis já haviam demonstrado que o gás e as Câmaras de gás também eram eficientes. Todos esses atos, (seja de extinção ou de inovação), podemos ver claramente, além de demagógicos, foram sempre inventos tiranos e covardes. Parafraseando e mesmo plagiando a Camus, é pertinente lembrar que os chamados legisladores, os assassinos legítimos, nunca gostaram de pensar e muito menos de admitir que a Lei é mais simples que a natureza, que quanto mais ela procura atuar nas regiões sombrias e cegas do Ser, mais ela corre o risco de ver aumentar sua impotência na redução da complexidade daquilo que ela quer ordenar. Por outro lado, e o que é mais mórbido, o Estado Judicial é a única entidade que informa a vítima com antecedência e em detalhes, do dia, da hora e da forma de sua sentença.

"Qual criminoso já reduziu sua vítima a uma condição de tão grande desespero e de tamanha impotência?"

Injeções venosas, choques, o azeite fervente, o pelourinho, o ferro em brasa, fuzilamentos, enforcamentos, esquartejamentos. A cicuta, a fogueira das paixões inquisitórias. O afogamento, o cianureto, a espada dos orientais na nuca dos traficantes, dos adversários e das mulheres adulteras.

A máquina da reprodução parece se mover sob o mesmo impulso que move a máquina da destruição. As mães engendram os corpos que o Estado ou a Lei fará em pedaços. Homens matam homens, a indústria da morte é como um escorpião ou como um vampiro que mantém em seu guarda-roupa mil disfarces e mil artimanhas, tudo porque os homens são mentirosos, geneticamente corruptos, arrivistas, exploradores, místicos, contadores de vantagens, uns dementes encurralados…

Em seu trabalho intitulado a História do Parlamento, Voltaire descreve algumas execuções de seu tempo, evidenciando como era canalizado e administrado o ódio sobre um determinado condenado e como se processava o ritual coletivo de sadismo. O espetáculo era, no mínimo, infame! O prisioneiro era amarrado pelos braços e pernas com grossas cordas que o ligavam a quatro cavalos irrequietos. Em seguida, o verdugo lhe queimava as mãos e o peito com azeite fervente, lhe arrancava a pele, os olhos, os dedos e por fim lhe enfiava um cabo de vassoura ou uma espada no cu. A turba estremecia ao mesmo tempo em que sentia um calafrio de êxtase,

O corpo do pobre desgraçado resistia às vezes, até por mais de uma hora. Os gritos de dor excitavam ainda mais tanto os cavalos como a platéia que havia dedicado o dia para assistir a tortura e o assassinato público. Tudo parecia durar bem mais tempo, mas o torturador tinha pressa e facilitava o trabalho dos cavalos dando um corte sutil de espada nos músculos do condenado: órgãos e sangue para todos os lados! Os membros do executado eram arrastados pela praça em festa, as tripas se abriam e a pasta fecal sujava a camisa dos mais curiosos. A justiça e seus lacaios, todos funcionários públicos, se sentia realizada, lavava as mãos, dava baixa de mais um nome nos cadernos contábeis e acreditava haver feito apenas o seu dever.

(Eu não sou mais que um instrumento é a justiça que mata).

O populacho assistia a barbárie como se estivesse na Sorbone assistindo uma aula inaugural ou como se estivesse no Cine Ritz assistindo a uma suruba no palco. (E é assim que se aprende a ter medo e tesão ao mesmo tempo). A repressão dança no fundo patético de sua córnea, e ele se surpreende, mais tarde, fazendo de tudo para ser um cidadão ambíguo, politicamente correto e perverso, já que acredita piamente que a honra aparente e a desonra secreta não conduz ninguém a guilhotina. Só que o pânico privado interfere no desempenho público. Só que as cabeças guilhotinadas não o deixam dormir, só que o medo se converte em ansiedade, em fobia que não se cura com a simples certeza de que o condenado será sempre o [outro].

Longos dias debruçado preguiçosamente sobre as toaletes e sobre as guilhotinas, mas de maneira nenhuma, como já disse, fazendo desses temas o assunto único de meus devaneios, nem o objeto de uma pesquisa acadêmica, onde o pesquisador precisa esgotar as fontes, colocar ordem, lógica, método, estilo e conclusão, além de trilhar um caminho domado por hipóteses e reprimido pela ciência, só porque precisa demonstrar uma idéia, defender uma tese, ser maior que sua obsessão e que sua cobiça. Só porque precisa seduzir um editor, ser recomendado por alguém, tornar-se substituto em alguma cátedra. Aqui não! Aqui tudo foi regido pela frouxidão de um pensamento anti metódico que não quer ter compromisso com absolutamente nada. Tudo foi engendrado no caminho entre a velha Casa do Brasil e as bibliotecas e sob o signo de uma liberdade inventiva e de um certo cinismo consciente, onde me permiti até a ver toaletes onde existia apenas um cofre, uma bússola ou uma caneca de gasolina, e vice-versa. Onde me permiti ver guilhotinas sob qualquer forma arquitetônica que aparecesse no meu caminho, fosse ela medieval, moderna ou futurista... Dois livros caídos na calçada da Gare de Lyon, por exemplo, me parecem duas comportas guardadas por cães sonolentos. Duas pilastras vindas de Côte D'Ivoir, me dão a impressão de ser uma caixa para proteger lentes de contacto ou mesmo um antigo diploma de pergaminho, porém, se vistas de lado, se subo num degrau das escadas para olhá-las do alto, então posso ver com clareza uma panela sem cabo, um tecido azul com manchas de sol ou uma mala usada e esquecida. A transmutação é tão interessante e variada, que se tivesse mais tempo e se buscasse outras posições, tenho certeza que poderia passar horas e horas vendo miragens e frivolidades como se tivesse ingerido um ácido ou queimado um pouco do tabaco marroquino. E é nesse "estado" que sigo sob a tirania imaginativa, meio ébrio, meio lúcido, como se estivesse num dos "fumódromos" da Belle Époque das drogas, cercado de princesas, de perfumes, de cachimbos e de prazeres. Gosto imensamente de rastrear os passos de uma determinada idéia, porque sei que logo a situação se inverte e é essa idéia que passa a colocar-se obsessiva, propositada e "magicamente" em meu caminho...

Paris! Uma das importantes redescobertas que se faz morando aqui, é que os grandes escritores, poetas, pintores, etc., que deram fama e notoriedade a esta cidade, viveram e escreveram suas melhores obras mergulhados na droga: vinho, ópio, éter, haschich, morfina, etc. Entre eles: Guillaume Apollinaire; Antonin Artaud; Charles Baudelaire; Jules Boissière; Paul Bonnetain; Jules Claretie; Jean Cocteau; Emile Cottinet; Charles Cros; René Dalize; Léon Daudet; René Daumal; Robert Desnos; Pierre Drieu La Rochelle; Edouard Dubus; Claude Farrère; Théophile Gautier; Alfred Jarry; Edmond Jaloux; Pierre Loti; Maurice Magre; Guy de Maupassant; Gérard de Nerval; Adolphe Rette; Marcel Schwob, e para que citar mais?

A cabeça do rei aparece sangrando e separada do corpo em diversas gravuras, o espetáculo é brutal, sanguinolento, cartesiano… Ícone máximo da anti-monarquia.

A Biblioteca Nacional guarda e cuida, minuciosamente, de todos os trabalhos sobre esse "período das lâminas", enquanto as edições modernas, os editores-abutres, voltam a explorar tudo de novo. Aqui se pode sentir que tanto a cultura como a vida são plágios repetitivos e descarados, uma reedição bastarda e absolutamente enjoativa...

Mas, além disso, uma coisa é certa: La machine, fille des Lumières, que havia, segundo Foucault, introduzido na França uma nova ética da morte legal, não está mais lá na praça da Revolução, nem nos fundos da casa da família Sanson. Agora retornou para o espírito de porco, podre e anêmico dos homens, do Estado republicano e da política universal em cujos bastidores se continua matando a coices e a socos, sempre para o bem-estar dos gerentes das Grandes Corporações, dos «laranjas» daquelas republiquetas que se orgulham publicamente de serem representantes da violência "legítima" e claro, das matronas dessa época melancólica e de prevaricações vergonhosas.

Voilá! Dizem os franceses.

De minha parte, enquanto me delicio diante da prateleira de História Medieval e desacredito cada vez mais da humanidade, vou pensando: pronto, eis aqui a prova de minha recaída, mais um pouco de meu stronzo, de minha vingança e de minhas imposturas.

Ezio Flavio Bazzo

terça-feira, 19 de julho de 2005

Uma pesudo-metafísica para os ribeirinhos


"Todos os rios correm para o mar e, contudo, o mar não transborda"… (Será?)

Livro do Eclesiastes, 1,7.

Em viagem à foz do Rio São Francisco:

..."O sujeito de chapéu e mais do que impertinente que viajava no mesmo ônibus que eu, em determinado momento de sua ansiedade colocou a mão em meu joelho e com o típico olhar provocador dos maníacos perguntou-me:

-Sabe qual foi a maior contribuição da ciência, até hoje, no campo social e político?

Enquanto buscava a resposta em minha memória ginasiana e listava a descoberta casual da insulina, o teste de Papanicolau, Fleming e a penicilina, os antihistamínicos, a roda, o rádio etc, exibindo-me a manchete de um jornal sobre os atentados em Londres, ele próprio respondeu o que havia me perguntado:

-A dinamite! Sim, a maior contribuição das ciências ao social, a devemos ao químico sueco chamado Nobel. Não podemos esquecer que foi a Suécia, esse paraíso socialista de bêbados, que deu ao mundo a dinamite… E só por curiosidade, observe que esse explosivo à base de nitroglicerina a que se adiciona uma substância inerte é uma palavra feminina…

Como percebeu meu espanto mas também minha empatia por sua teorização, justificou-a em voz alta, sem a mínima discrição:

-A dinamite, essa preciosa substância que pode ser levada dentro de um livro, dentro de um cachimbo, num bolsinho de cueca sem perigo algum, foi a melhor coisa que a ciência já produziu para os milhões e milhões de trabalhadores pobres, humilhados e fodidos do planeta… E digo isto porque com cinqüenta ou cem reais dessa substância se pode produzir mais mudanças sociais do que através das bolsa-escola, das cotas para negros e para índios, das cestas básicas, da suposta democracia, da suposta justiça e do suposto direito… Todo mundo sabe que mais de 3/4 da humanidade atolados como bestas na imundícia das religiões, da tirania disfarçada das repúblicas e dos partidos só não foi completa e absolutamente destroçada pela providencial existência da dinamite. Se Deus até agora só teve ouvidos para os ricos, para os corruptos e para os exploradores, então a dinamite foi uma revelação de Satanás para seu povo, a maioria dos fodidos da terra….

Como aquele era o meu primeiro dia de férias, inclinei a poltrona e dei um jeito de interromper sua fala e seu entusiasmo, sem contudo conseguir evitar que essa temática me acompanhasse da nascente até a foz do rio São Francisco, desse rio que, apesar dos ribeirinhos, dos ecologistas, dos esgotos e dos governos, desliza traiçoeiro e perigoso para o mar.

Ezio Flavio Bazzo

quinta-feira, 23 de junho de 2005

Assim Falou Vargas Vila


Foi num amontoado de livros desencapados e prestes a serem jogados no lixo que lá por 1968, focinhando numa loja de objetos usados, deparei-me, por primeira vez, com um exemplar do Rosal pensante, de autoria de um sujeito até então desconhecido e com um nome ridículo: José Maria de la Concepción Apolinar Vargas Vila Bonilla, nascido em 1860 na Colômbia e morto em 1933 em Barcelona. Só pensei em negociar o preço daquele verdadeiro restolho depois de ficar hipnotizado com a leitura destas duas linhas:

Curar-se de certas excentricidades, é fazer como os outros: cretinizar-se; a primeira condição de ser coletivo é ser abjeto.

Talvez hoje esta frase não tenha mais o efeito iconoclasta daquela época, quando tinha apenas dezenove anos, vivia no mundo da lua, confinado em casas estudantis, embriagado de idealismos, sem a mínima idéia de que o homem era um «animal méchant par excellence», e quando as veraneios chapas-frias do DOPS e do exército, em seu teatro ditatorial e burlesco subiam e desciam em alta velocidade, vinte e quatro horas por dia pelas ruas e becos gelados de Curitiba. O livro, além de ser um viveiro de traças, também fedia. De cócoras, fascinado, li e reli um segundo parágrafo:

"O escritor que fala por diminutivos, é porque pensa diminutamente; os heróis de Homero, não combatiam com alfinetes; quando leio versos cheios de «cabecinhas loiras», «virgenzinhas queridas», «manecitas liliales», penso instintivamente, em todos esses rimadores, com almas de costureiras sentimentais, que infestam nosso Parnaso..."

Foi meu primeiro e definitivo encontro com Vargas Vila, esse blasfemo furacão do verbo que não se assemelhava em nada aos da zoologia literária da época. Foi minha primeira leitura desse contemporâneo de Ruben Dario, autor de umas dezoito mil páginas, entre as quais as do famoso Íbis, texto que por ter levado diversas pessoas a se matarem ficou conhecido como a Bíblia do Suicídio.

Sem falar dos anarquistas e dos desvairados mexicanos que de 1979 a 1981 invadiam meu pequeno apartamento da calle Copilco a qualquer hora do dia e da noite para discutir os textos de Vargas Vila e nem da prostituta goiana que mantinha permanentemente sobre o criado mudo, ao lado de uma oração de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, um exemplar de seu Lírio Negro, foi o Jorge, do Armazém do livro usado de Taguatinga quem, em 1997, ligou para comunicar-me que havia comprado a obra vargasviliana completa da viúva de um dentista de Anápolis. Fechamos negócio por telefone. Nos dias seguintes, sob os estrondos da tempestade que caiu sobre a cidade, folhear um por um daqueles volumes publicados pela Sopena de Barcelona, e ainda por cima, rabiscados pelo dentista recém morto, foi uma viagem quase kardecista e quase nirvânica.

Estava lá, tudo lá o pouco que já sabia e tudo o que estava por saber da obra desse novelista militante, panfletário, jornalista, niilista, ateu, anticlerical e obsessivamente indignado com a palhaçada fastidiosa reinante na América Latina, principalmente com o carneirismo vergonhoso de sua política e de suas assembléias. Exageradamente ético, erótico e libertário, (apesar de ter vivido uma relação simbiótica e doentia com a mãe), V.V. odiava a velharia supersticiosa e os caudilhos criminosos que se sucediam por todos os países do continente, da mesma maneira que detestava a dominação imperialista dos yankees, contra quem escreveu Ante los bárbaros. Banido de sua terra natal viveu na Venezuela e em NY onde, em 1892, trabalhou como redator do jornal anticlerical Progresso e fundou as revistas Hispano-América e Némesis. Com sua mudança definitiva para a Europa, incluiu em sua agenda libertária a luta contra as conhecidas máfias intelectualistas, contra os fabricantes de filosofias para entregadores de pizza e contra os conhecidos PHDéspotas que só se valiam da escrita para ruminar e puxar o saco de quem estava no poder.

Apesar de toda sua erudição, Vargas Vila foi também um escritor popular, lido compulsivamente pelos marinheiros, pelos artesãos, pelos presidiários e marginais de todos os calibres. Contemporâneo de Freud, admirador de Ibsen, amigo de Pompeyo Gener e leitor de Stirner, deve ter navegado exaustivamente tanto pela psicanálise como pelo anarquismo individualista e ter arrancado daí não apenas o sentimento negativo com o qual construiu seu niilismo, mas também a sacação subterrânea do Ser, através da qual deu realidade e vigor tanto à sua filosofia como à sua análise dos homens, do mundo e da política latino americana, dessa parte quase maldita do continente, com seus sucessivos ladinos e empedernidos governantes de turno.

Com seus livros, sua vida e seu discurso radical, não apenas contra a ignorância e a bestialização social, mas também contra o absurdo da existência e contra todas as hipóteses divinas (Deus não me expulsou do céu, eu sim expulsei Deus de meus céus interiores. Nisso fui maior que Satã), era previsível que fosse abrir frentes de indignação, de ódio e de inimizades por todos os lados, mas, principalmente, entre os apóstolos da demagogia. Se nunca se rendeu a elas, foi porque era doentiamente convicto de que

"a verdadeira eloqüência deve produzir sobre os povos o efeito do furacão sobre as ondas, o efeito das chamas sobre o feno seco, da chispa sobre a pólvora, isto é, deve produzir a tormenta, o incêndio, a explosão e a tragédia irremediável".

E mais:

"Que aquele que põe fé nos outros, perde a única fé que salva: a fé em si mesmo".

Na Espanha de Franco seus livros foram marcados com o ponto vermelho da censura e na Colômbia a igreja ameaçava excomungar quem lesse suas novelas. Seus textos e fotos chegaram a ser queimadas em praça pública. "Em suas obras não é apenas o erotismo sensualista do naturalismo o que se respira, -dizia o padre Jesús M Ruano- ali se faz apoteose do pecado, a incitação aos crimes mais repugnantes. Ali brota como emanação pútrida o ódio sistemático à pureza dos costumes, à dignidade, à generosidade e à racionalidade do homem". Além dos padres e dos déspotas políticos, também os escritores que sempre florescem em abundância nos quartinhos de fundo dos palácios, das paróquias, da imprensa oficial e dos antros diplomáticos não se cansavam de tentar desqualificá-lo.

Não escrevo para deleitar, escrevo para combater, contestava–lhes Vargas Vila, em Prosas-laudes.

Em 1952, dezenove anos após sua morte, o crítico José J. Guerra afirmava em um artigo que em todos os livros de Vargas Vila "desde a primeira até a última página só se encontrava gritos satânicos de rebelião e de insultos contra tudo o que existe de mais nobre e mais sagrado para o homem".Até o velho Borges, o ilustre, cego e erudito diretor da Biblioteca Nacional Argentina, na única vez que fez referência a Vargas Vila, em Historia de la Eternidad, publicada no ano da morte de Vargas Vila (1933), no capítulo intitulado Arte de injuriar, referindo-se a uma crítica deste a Santos Chocano, tentou eclipsá-lo.

E é exatamente por isso, por Vargas Vila ter sido proibido por Franco, excomungado pela igreja colombiana e por ter causado tanta indignação entre a canalha detratora que o estamos revisitando e republicando.

Ressuscitá-lo no Brasil, principalmente em Brasília, nesta cidadela de caixotes, de burocratas errantes, de botecos, de novos ricos delirantes, de filhinhos e netinhos de agentes da ordem, de escritorzinhos engravatados e de shoping centers, neste momento histórico e político broxante, com a América Latina ainda mergulhada em seus esgotos e ainda de joelhos diante da mesma quadrilha de sua época, é quase um dever de quem pensa e de quem tem desprezo pela pobreza mental generalizada do cotidiano. É quase uma obrigação de quem tem horror a esses magotes ainda não nascidos plenamente que além da televisão e das feijoadas só conseguem dialogar sobre os ângulos e os pregos da cruz. Dever de quem se sente asfixiado no meio de toda essa ignorância instituída, desse atraso social incurável onde todos os projetos pretensamente revolucionários foram para a merda, e onde a vida se resume em falar mal dos outros, em ir às soirées, ter um emprego, uma casa, uma falsificação de Picasso, um carro e o certificado de filiação a uma das tantas e nefastas agremiações idólatras, idealistas e teológicas que, apesar do poder difamatório que dispõem, não são mais do que prostíbulos de infâmia.

Sim, é oportuno reeditá-lo neste momento, quando os capuchinhos da crítica literária nacional não conseguem fazer outra coisa além de bajular os vivaldinos do momento ou de reincensar Guimarães Rosa, Machado de Assis, Graciliano e outros vaselinas. Ah, será um gozo imenso fazer Vargas Vila circular pela cidade e por sua periferia onde a ralé desiludida se despedaça todos os dias a tiros, facadas e pauladas depois de ouvir os pastores, os padres e os gurus mentindo descaradamente nos palanques, nas dioceses ou nos programas de televisão! Acreditem: será um gozo imenso trazê-lo para o cenário, principalmente hoje, quando os mercenários, as matronas e os religiosos ocupam praticamente 90% das cadeiras no Parlamento. Quando os banqueiros, os donos de terras, os políticos, os representantes da imprensa, dos sindicatos, das igrejas e das indústrias (todo esse espectro vil das antigas monarquias) estão cada vez mais íntimos e próximos uns dos outros e quando são vistos juntos, enchendo a cara nos mesmos banquetes e fazendo pouco caso das desgraças que se abatem sobre cinqüenta ou sessenta milhões de pessoas. Quando são vistos abraçados tramando publicidades enganosas, ludibriando aos adolescentes com esportismos e porcarias tecnológicas, aos velhos com uma compaixão burocrática e com medicamentos falsificados e, às mulheres, com o modismo homomaníaco, obsessivo e burro de sempre.

Será mais do que oportuno republicar Vargas Vila agora, em português (esse idioma de pescadores), quando os estelionatários de todas as classes estão afinados e irmanados nos assuntos do agiotismo internacional, usando os mesmos ternos, as mesmas cuecas, as mesmas máscaras, as mesmas loções e a mesma linguagem. Quando a bandidagem republicana está silenciosamente rateando os fundos do Tesouro Nacional, devastando as matas nativas para plantar soja, loteando e explorando comercialmente os míseros prazeres e as míseras possibilidades de lazer acessíveis a uma multidão moribunda e deprimida que, por sua vez, não sabe fazer outra coisa além de competir, perseguir e infernizar-se mutuamente a vida, seja no confinamento doméstico ou nas arquibancadas desse prodigioso e olímpico circo. (y, ellos, se embriagan con el humo de la adulación, que la prosa mística de los conservadores, y la retórica plebeya de los jacobinos, les administran a alta dosis, y se creen eternos…). Delírio e desatino que realmente ninguém sabe quando terá fim, uma vez que os setores ditos cultos da atualidade –da literatura ao cinema, da tecnologia ao turismo e à sociologia etc, etc-, conspiram descaradamente para o engrandecimento da putaria política e para o aprofundamento da idiotia coletiva.

Por fim, este resgate da obra de Vargas Vila representa a realização máxima de minha vida de leitor. Considero esta releitura e esta publicação de seus textos como a mais importante de minhas contribuições na tarefa insólita de diagnóstico e de desmascaramento dessa opereta fajuta e desse music-hall pseudo-civilizatório em que nos atordoamos. Desse picadeiro patético onde até a pequenez própria –parafraseando Otto Fenichel- pode ser motivo de gozo quando serve para dar ao idiota a ilusão de que participa da grandeza do outro. Além de um maremoto nas consciências dos leitores, desejo que este livro também estremeça as estruturas frígidas e canônicas do palavrório irracional vigente e da língua.

Ezio Flavio Bazzo
Num café da Mouraria (Lisboa)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005

Valparaíso, 1350 Graus


"A única paixão de minha vida foi o medo"
Hobbes

1.

Forno Crematório: Ah, sim, a morte… Sempre a morte, na raiz de cada sentimento, de cada negociata e de cada um dos mais mínimos de nossos atos dissimulatórios. Siempre la muerte...


Ah, sim, sempre ela… Sempre a presença da morte, nesse mundinho de minhocas, ninharias e de fábulas, envolto pela aura de um redentorismo miserando, por uma polidez decorativa, fictícia e, mais do que tudo, finita…

Sim, sim, sempre a morte e a necrofobia por debaixo dos alicerces da razão, por detrás das cercas eletrizadas e das muralhas onde ingenuamente nos confinamos e, claro, por detrás das bravatas de todos os pit-bulls que rosnam pelo mundo…

Apesar das permanentes e demoníacas conspirações, vindas tanto de fora como de dentro, a tarde indescritível e morna deste sábado de sol, faz de tudo para capturar-me nas redes sutis e sedutoras do "bom astral" e da "transcendência"…

E foi, talvez, numa espécie de desafio a esse "bonheur" sem sentido que resolvi, finalmente, ir a Valparaíso conhecer de perto e "fazer um contato íntimo" com o único crematório da região. Afinal, com 55 anos, numa cidade infestada de automóveis, de ratos, de vigaristas e de bandidos, a qualquer hora se pode receber uma bala de 45 pelas costas, ser esmagado por um desses carroções urbanos, engolir o hantavírus num pedaço de lingüiça ou a maldição incurável da vaca louca numa dessas fúteis e canibais churrascadas de domingo à tarde. Aliás, quem circulou pela Inglaterra nos últimos anos viu fogueiras imensas onde milhares de vacas eram cremadas… Exatamente como nos tempos da lepra, da peste negra, dos campos de Dachau…

Se até 2001 os mortos brasilienses deviam ser levados para outros estados para serem queimados, agora tudo ficou mais fácil. Um último investimento de setecentos e cinqüenta reais e ninguém terá mais notícias de nossa vã existência! No futuro será grátis. Em cada superquadra haverá um forno, como os que já existem nos hospitais, para cremar lixo ou como os públicos de Tanger, para fazer pão… Cada família levará seu bujão de gás às costas, queimará seu ente querido e pronto… Como dizia, agora já podemos saber com segurança que nossa última viagem será feita aqui mesmo, desta cidadela de novos intelectuais e de novos ricos, para Valparaíso, na traseira de uma Cabine Dupla. Da enfermaria do HDB, do HUB ou de uma outra clínica qualquer, a caravana tomará, em silêncio, a ampla Esplanada dos Ministérios. O governador de plantão, de qualquer uma das atuais facções políticas, estará lá em seu gabinete, cercado por lacaios e parasitas quando o cortejo fúnebre passar frente ao Buriti… Mais uns dois mil metros, ao chegar na rodoferroviária, a procissão dobrará à esquerda – como quem vai para Belo Horizonte. Dependendo dos semáforos, do trânsito e da buraqueira da BR 040, a viagem durará, no máximo, uns cinqüenta minutos até o destino final. Pode parecer muito tempo, mas que são cinqüenta minutos para quem vai na horizontal e já ingressou na eternidade? Regulei o marcador de quilômetros no centro do Plano Piloto, acionei novamente a faixa do Summertime e rumei para lá.

Era de se esperar que os mais estranhos pensamentos e que as mais inesperadas associações fossem brotar, fervilhar e dar piruetas em minha mente durante o trajeto. Mas não. Fui envolvido por uma espécie de vazio enquanto segurava firmemente o volante ao lado de caminhões de vinte ou trinta toneladas que iam ziguezagueando entre os buracos, enquanto a polícia rodoviária fazia seu teatro fiscalizatório no meio da pista; enquanto uma mulher negra ia sensualmente agarrada ao corpo tatuado do motoqueiro que descia em direção ao Catetinho... A estrada deslizava veloz por debaixo dos eixos e dos pneus. Ao lado da rodovia, agrupamentos de casebres, restos de construções, águas estagnadas, cavalos pastando no habitat para onde é empurrado o lupemproletariado, com a pobreza, a poeira e a ignorância que lhe corrói as artérias, os nervos, a mão-de-obra e a vida… Uma parte imensa dos moradores desta cidade agoniza na indigência da beira-das-estradas, no meio de restos de roupas, restos de remédios, restos de religiões, restos de piedade… Matam-se entre si por puro instinto e nem ao crematório lhes é permitido o acesso… Com muito esforço uma cova rasa… ou uma vala coletiva… Se a morte é um horror, a vida dessa gente não o é menos… Farrapos amontoados nos cortiços, em todos os tipos de filas, nos aterros, sob os andaimes das construções, de cócoras nos fundos dos restaurantes devorando com os cães as sobras… Em cada barraco um bêbado, um demente, um analfabeto, um retardo… piolhos, gonorréia, obesidade, ausência de dinheiro, crimes de todas as ordens… Além desse flashback social inconsolável, algumas palavras, alguns signos e algumas imagens relacionadas ao meu destino se debatiam obsessivamente entre meus pensamentos… Crematorium... Incineratório… Um imenso tambor de gás aceso, convidando a uma análise do fogo... a uma psicologia da fumaça... ou da chaminé… do forno… desse instrumento que, por sua anatomia, induz até um leigo a fazer associações com as entranhas maternas e, principalmente, com a matriz... Só que agora, sem a possibilidade de uma cesárea e com uma única saída, volátil, para cima, e em silêncio... Para onde mesmo, doutor? Para la disolución de los huesos y para la nada, hermano...

Valparaíso de Goiás, saída sul, km 4,7.

Uma enorme placa indica meu destino: Cemitério Metropolitano. Entro calmamente à direita. No barracão do ferro-velho dobro à esquerda e já posso ver os telhados curvos das diversas alas do cemitério. Alguma coisa neles lembra as igrejas da pós-modernidade, outras, por que não, alguns telhados bizantinos da Turquia, Istambul, Ankara… Mas nada que abale os cânones sagrados da arquitetura vigentes. Meras coincidências. Impressões produzidas na promiscuidade de um imaginário que sempre se exacerba quando lida com essa temática moribunda… Chego ao portão, diminuo a velocidade, faço de tudo para registrar emocionalmente a primeira impressão. Enquanto Baudrillard resmunga de um lado que estamos experimentando o tempo e a história como uma espécie de coma profundo, Beckett, meio intimidado, cochicha do outro , insinuando que morrer é descambar docemente para a vida eterna, recordando toda essa mesquinha desgraça, como se ela jamais tivesse existido… Parole… parole… parole…

Desligo o motor e permaneço imóvel por um longo tempo… Pelos buracos de plástico do painel, a beleza de Summertime.

2.

Antes de fazer qualquer tipo de contato com os plantonistas, caminho de um lado a outro. Uma mijada se faz eminente. Por preconceito, sinto que nem minha bexiga e nem meu pulmão funcionam na sua totalidade. A tarde continua estupenda. Pelos fundos do terreno um horizonte azulado, uma fileira de Sempre-Verdes, cinco ou seis corvos que planam sobre a estrebaria ou a pocilga de algum animal adoentado. Espio para dentro das diversas salas e vejo que numa há som ambiente, toalete privativo, ar condicionado, frigobar, serviço de café e de chá, castiçais elétricos e que a câmara ardente foi feita com ouro e prata… Uma das salas tem o vidro translúcido, é ali que família do morto que será queimado pode ficar em privacidade, sem, contudo tirar os olhos de seu ente que jaz na capela… Para a última vez, até que é tudo exageradamente suntuoso!

Baudrillard se intromete novamente em minhas idéias para lembrar que nos moldes futuros da civilização, onde a morte terá sido eliminada, os clones poderão pagar muito bem pelo luxo de morrer e de converter-se em mortais de novo de forma simulada, a cibermorte… Que a morte, que uma vez foi uma função vital, poderá vir a converter-se em um luxo, em uma diversão…

As ciências, os grandes laboratórios e os ladinos comerciantes de sempre debruçam-se esperançosos não apenas sobre a possibilidade de copiar e dar longevidade aos nossos gens, mas principalmente sobre a idéia de estancar o envelhecimento e de evitar o óbito… Óbito? De onde teria surgido essa palavra. Onde está meu dicionário etimológico?

Enquanto isto, vão se usando os fornos...

3.

A recepção é espontânea e calorosa. Talvez, no universo dos negócios, os empresários de cemitérios, de crematórios, hospitais, lapidários, floriculturas, assim como os donos desses armarinhos que vendem velas, tricoline, rosários, incenso, naftalina etc, sejam, despachadamente, os mais simpáticos…

Volto a circular por todo o espaço do cemitério, agora ao lado do administrador, que vai explicando em detalhes:

- Aqui é a recepção. Hoje está tranqüilo porque é sábado… Em Brasília, morrem umas 800 pessoas por mês e mais ou menos uns 3% delas são cremadas… Para diminuir a burocracia, a pessoa interessada em ser cremada quando vier a morrer, deve ir a um cartório público e declarar por escrito, com testemunhas, essa sua vontade. A cremação de corpo cadavérico humano é regida pela Lei Federal Nº 6.015, de 31 de dezembro de 1973; Pelo Decreto-Lei Nº 88, de 07 de agosto de 1969, regulamentado pelo Decreto 'E' Nº 3.707, de 06 de fevereiro de 1970 e pelo Decreto Nº 159 de 08 de outubro de 1975, pela Lei Nº 40 de 07 de dezembro de 1977, regulamentados pelo Decreto Nº 1.453, de 08 de março de 1978… (Ufa!) Veja que paisagem linda… O terreno do cemitério tem 285 mil metros quadrados… vai até a beira de um córrego, depois daquele morro…

Parece inacreditável, mas até para ser enfiado num forno, queimado, transformado em pó e banido do planeta é necessário um ato burocrático! Talvez a verdadeira origem da burocracia esteja na incurável e mútua desconfiança que uns seres sempre sentiram pelos outros… É curioso, e talvez "mera coincidência", que o primeiro Decreto-Lei sobre cremação tenha sido regulamentado no Brasil, na década de setenta, no auge da ditadura militar, quando presos políticos e até indigentes eram assassinados e cremados clandestinamente…

A nuvem que esconde o sol ficou repentinamente de uma cor laranja, deixando o cemitério sob uma imensa sombra. Querendo ir logo ao que me interessava, perguntei-lhe:

- Onde fica o crematório?

- Naquela parte lá… (aponta para uma das construções com vidro ray-ban na frente e um imenso tanque da Minasgás nos fundos.) Mas antes quero mostrar-te esta parte. Aqui é uma sala de velório; ali é o espaço reservado para a floricultura; aqui uma lanchonete; este é o carrinho moderno para baixar o caixão à sepultura; aqui é uma capela laica…Como dizem que já se listou nove milhões de nomes de Deus, para não ter problemas ideológicos com os clientes, é melhor que seja laica. Não sei se você sabe, mas este é um cemitério vertical. Cada tumba tem três andares, pode servir a três mortos… Já temos aqui uns 650 clientes… Esta sala é uma espécie de enfermaria ou ambulatório, se alguém passar mal vem para cá…

Enquanto caminhamos, fotografo os ângulos mais sugestivos e anoto tudo o que ele me diz… Mas, como já disse, meu interesse, quase neurótico, é pela parte onde está o forno. Por ser psicólogo, tenho a obrigação de lembrar que a neurose - como dizia Bataille - é a apreensão timorata de um fundo impossível. Agora o vento afastou as nuvens e o sol das quatro desce ferozmente sobre as minúsculas lápides cravadas no meio da grama. Numa delas, onde alguém deixou umas flores amarelas, para minha surpresa, o nome de meu amigo Oswaldino Marques, escritor e tradutor de William Blake e de T.S.Eliot. Sim, Oswaldino Marques… esse homem lúcido que não tinha dúvidas de que a idéia do céu era uma bobagem, e que na existência

"tudo são degraus para o deslumbramento,

tudo alcançará seu esplendor bem aqui no chão,

Bem assentado, bem plantado no chão desse globo,

Desse globo em cósmico – difícil – equilíbrio."

Permaneci em pé e meio atônito, por uns instantes, frente suas cinzas, enquanto resgatava outro fragmento desse seu mesmo texto:

"Quando te enfastiares de olhar para o alto,

olha também um pouco para baixo.

É preciso conhecer o chão lá o seu tanto…"

4.

Percebendo minha impaciência o gerente tomou finalmente o rumo do forno. Abriu com chave a porta que dá entrada à sala da frente.

- Quando a família traz o corpo só para a cremação, vem direto para cá. Esta é, digamos, a sala da despedida…

Uma mesa de mármore com roldanas na parte superior onde se deposita o caixão fica bem defronte à abertura na parede que dá para a sala onde está a fornalha. As lajes do piso têm o desenho de um tabuleiro de xadrez. Seria uma insinuação inconsciente do xeque-mate? Quando os familiares já consideram que é hora, um botão aciona as roldanas que transportam o féretro para o outro lado da parede, onde os "técnicos" dão início aos tramites verdadeiramente finais. Agora sim, é o adeus definitivo. Lá no outro lado, onde está o forno, não é permitida a presença nem dos familiares. Talvez este seja o momento máximo da impotência, da culpa e da dor…

Por uma porta dos fundos entramos na sala do forno.

- Este é um forno americano, marca Cranfora. 375 mil dólares… Assim que o corpo entra aqui nesta sala, é retirado do caixão e colocado nesta maca. Por que não é queimado no caixão? Porque faria muita cinza escura, tipo carvão… Nesse momento é retirado do cadáver (se a família ainda não o fez) o relógio, os brincos, o celular, os piercings, colares, qualquer coisa que ele tenha em metal, inclusive o marca-passo já que leva uma bateria que pode explodir e danificar o forno… Se, por alguma razão o corpo não está legalmente autorizado para a cremação, fica nesse freezer –aponta para a esquerda- esperando a liberação…

Como se quisesse brincar com minha ansiedade, apertou o mecanismo que fez a porta do forno abrir-se bruscamente à minha frente, deixando-me de cara com aquele vazio incomensurável… e prosseguiu em sua aula:

- Vês estes pedacinhos de ossos? São do último corpo cremado. É impossível retirar 100% dos restos de um cadáver. Sempre ficam sobras, mas que se dissolverão completamente com o processo da próxima incineração…

Algo dentro de mim ia murmurando: Porra! Como negar a vitória da máquina! Do forno siderúrgico! Do gás! Do fogo! De Schopenhauer! Do instinto de morte freudiano! Do Eclesiastes! Como negar a derrota dos vícios! Dos sonhos! Da idéia de infinitude! Do capitalismo! Dos desejos! Do narcisismo! De todas as esperanças fossilizadas! Sim, aqui é o lugar onde acontece o mais insuportável de todos os escândalos: o desaparecimento… Mas é um projeto pueril querer abolir a morte sem pensar em abolir o nascimento.

-…como dizia, depois do corpo ser colocado aí dentro, acende-se as três chamas (uma em cima e duas embaixo) fecha-se e espera-se 3 horas. Se for uma pessoa muito gorda o tempo é maior - três horas a 1350 graus centígrados… As paredes ficam incandescentes como as dos fornos das siderúrgicas… pela chaminé sai uma fumacinha quase inodora… Não se sabe ainda qual a quantidade exata de dioxinas/furanos por cadáver queimado. Depois de três horas, quase tudo virou cinzas, menos o esqueleto que se fraturou em muitos pedacinhos e que se desmancha com facilidade. O crânio - por causa do cérebro - resiste mais…

Esta última frase, ao mesmo tempo em que mexeu com minhas tripas, fez-me também ruborizar. Respirei fundo e quando restabeleci o equilíbrio lembrei que, segundo Barthes, todo escritor tem suas ruborizações imbecis… Numa determinada região do Nepal, os mortos são deixados sobre as rochas para que os urubus lhes comam as carnes. Na Índia, ao redor das fogueiras de Benares, o mesmo sujeito que espantava os cães que insistiam em mordiscar os cadáveres, me dizia que a parte mais resistente ao fogo era o tórax. Sem nenhum esoterismo primata, arrisco uma indagação espontânea: por que lá o coração e,aqui, o cérebro? Alguma coisa a ver com o antagonismo entre Buda e Descartes…? Entre krishna e Kant…? Entre a afetividade oriental e o racionalismo do ocidente…?

- Com este rodo – continua em seu tom professoral - puxamos delicadamente os restos que vão cair por este funil até esta gaveta. Daqui, o material vai para aquela mesa, onde passamos este ímã para ver se há algum resto de metal. Às vezes, o morto usava algum tipo de platina no corpo que nem os familiares sabiam. Em seguida, os pedaços de ossos que sobraram são colocados neste triturador (uma espécie de panela de pressão) onde são triturados completamente. Daqui, as cinzas - uns dois quilos e meio em média - são empacotadas, lacradas e entregues à família…

Apenas dois quilos e meio de cinzas, em média… Quase o peso com que se nasce! Que farão com as minhas?

O homem é Ser-para morrer, resmungaria Heidegger. Os filósofos queimaram neurônios inutilmente pensando neste destino fútil e até vil… Buscar um sentido para o forno e para a vida é perder tempo… Uma espécie de consolo é saber que com os outros setenta ou oitenta quilos de banhas e de ossos se foram também os vírus, as bactérias, o colesterol, as disfunções cerebrais, a letargia, o material inconsciente, a passividade reacionária, a erudição, as teimosias, as megalomanias, as ficções humanitárias, a fé e o rancor… Principalmente o rancor.

- Algumas famílias as enterram aqui mesmo, outras alugam uma gaveta no columbário ao lado e outras vão embora, estressadas, com as cinzas do cadáver em baixo do braço…

Ezio Flavio Bazzo

domingo, 23 de janeiro de 2005

Brasília: a monstruosidade de uma utopia


" Nada é pior do que uma utopia que se torna realidade.
Sim, porque a utopia é desalienante no imaginário
e opressiva na prática"


Michel Ragon

Nós que nunca levamos a sério os sonhos de Dom Bosco, que nunca achamos que Juscelino foi um estadista, nem que o Niemayer é um gênio e muito menos que o Cristovam pudesse governar diferentemente do Roriz, nós que nunca tivemos - pelo menos conscientemente - a intenção de compactuar ou legitimar a megalomania desses homens, nós não nos cansamos de ver a cidade de Brasília - apesar dos conhecidos ufanistas de plantão - como um aborto burocrático; como um equívoco urbanístico de primeira ordem e como um delirium tremens levado às últimas conseqüências por uma elite gabola, febril e gananciosa que, louca por copiar as falácias de Le Corbusier e por encher definitivamente os cofres de dinheiro, inventou esse quartel de caixotes verticais, de ruas vazias e de espaços empoeirados.

Pretensamente motivada por um ideal místico/funcionalista/ cartesiano/ stalinista de segunda ordem, na verdade, essas paredes rachadas, esse asfalto esburacado, essas moradias minúsculas, essas janelas que não deixam passar mais do que a cabeça de seus inquilinos são os símbolos maiores de uma encefalopatia corrupta e masoquista que, se por um lado tem fomentado a autofagia e institucionalizado a mediocridade, por outro têm garantido aos gatunos de turno a legitimação de um poder e de uma riqueza sem origens e sem fundamento. Como a Transamazônica que atraiu para si milhares de famílias e de aventureiros para depois traí-los e imolá-los na solidão da selva, a Capital Federal trouxe para cá escravos e lunáticos de todas as partes para enjaulá-los a uma arquitetura no mínimo abusiva e imbecilizante, e para subjugá-los a uma ordem tão totalitária como ilegítima.

- Ai meu Deus! Mas aqui tudo é calmo... espaçoso... verde... A qualidade de vida é quase um sonho... A lua parece nascer ali entre os braços da estátua da justiça... no centro da Praça dos Três Poderes... Os primeiros raios da manhã, quase como uma benção, despertam os Ministros, os Generais, os Presidentes e seus lacaios... Tudo aqui é Zen... Com suas trezentas e tantas seitas a cidade transborda energia cósmica! Os discos voadores dão razantes por sobre a Papuda como se quisessem convencer aqueles guardas e aqueles presidiários que será aqui, neste paraíso de politicagens, a megalópole-chave do Terceiro Milênio....

É assim que cacarejam obsessivamente as vítimas prematuras dessa engenharia monstruosa. E o quê mais? lhes perguntamos nós. Desde quando isto é suficiente para quem está vivo? Para quem tem os olhos postos para além do planalto, da planície e da manada? Desde quando isto é suficiente para quem tem consciência de que em outros pontos de um planeta imaginário as cidades fervilham, as noites transbordam de prazeres, de cultura, de rebeliões, de intimidades e de asco, muito asco contra qualquer um dos conhecidos e melancólicos regimes?

Para aqueles que, pela razão que for, "amam" a frieza destas lages, a superficialidade desses telhados, o tédio dessas construções literalmente inacabadas, a monotonia das Super-Quadras e a mesmice interminável dos botecos, a eles peço que olhem atentamente para todos os lados até perceberem o quanto ela se parece a uma imensa fazenda. Ao invés de carroças, muitíssimos carros; ao invés de vacas e cabras, multidões que só nos horários intermediários aparecem em rebanhos nas esplanadas e nos shoppings, mas que logo desaparecem, voltam a se enclausurar nas estrebarias estatais, em seus estábulos executivos para ruminar papéis, processos, propinas, novelas e intrigas domésticas. Olhai, olhai de vossas minúsculas janelas ou de vossas improvisadas varandas e vereis por todos os lados um prado imenso, com poeira no verão e lama nas épocas de chuva. Automóveis velhos, aos pedaços ou reluzentes e recém importados deslizam barulhentos em busca de retornos inexistentes. Um trator fura a terra vermelha onde os mesmos empresários de sempre levantarão outra dessas miseráveis colméias. Colméias para a classe média, para os proletários e "paus-de arara" disfarçados. O caminhão do lixo vai espalhando dejetos pelo asfalto, até a esquina, onde cinco ou seis taxistas esperam seus clientes sob uma choupana improvisada. É a diversidade arquitetônica, resmunga outro teólogo ecologista. Na TV, um corrupto chora e entre lágrimas, lembra que seu pai foi um dos fundadores e construtores da cidade. O governo se compadece e os suplentes o inocentam, dando margem à dedução de que uma vilania de origens congênitas teria se metamorfoseado numa vilania urbana.

Pela manhã o governador perfumado viaja de helicóptero para evitar a plebe, os eleitores e as retas. Se tivesse lido a Charte d¹Athènes de Le Corbusier, saberia que para o mestre urbanóide, as ruas tortuosas são para os asnos assim como as ruas retas são para os homens. Será? Cada vez que voltamos a olhar para os lados se nos agiganta a dúvida sobre este postulado.

Brasília... Chandigarh... A periferia de Paris, a Alemanha Oriental, Miami, qualquer lugar que tenha pobres e indigentes pode ser digno de uma "Vile-Machine", de uma cidade laboratório, de um zoológico humano cujas jaulas, se não têm serventia para proteger, pelo menos ativam a bestialidade sociológica do "modernismo". Mas nem mesmo os arquitetos mais cínicos dessas colméias escapam ao sentimento de culpabilidade. Em suas crises fóbicas e em seus remorsos parecem intuir e temer que o lobo Guará ainda possa, um dia, revirar suas tumbas para banquetear seus ossos. O próprio Niemayer, falando de sua obra para a opinião internacional, chegou a desculpar-se: ³Me sinto deprimido. Construí edifícios para os poderosos. Nada além disso. Nunca pude trabalhar para as classes desfavorecidas, para o mundo dos pobres que constitui a grande parte de meus irmãos brasileiros.² Demagogia tardia! Se não construiu nada que servisse para os pobres foi porque não quis, porque não viu irmão nenhum no meio das massas marginalizadas e dos rebanhos catatônicos e sem voz que, não conhecendo a analogia que existe entre doença e mito, sempre serviu de instrumento para a mistificação de todos os tipos de charlatanismos.

Se na Coréia - por exemplo - se pode beber a água do rio que cruza silencioso a cidade, aqui, a água do lago que enfeita a retaguarda das mansões dos suplentes é ainda um reservatório de stronzo, de turd e de merde.. E é até compreensível que uma cidade que milita contra si mesma feche suas livrarias e suas bibliotecas com o pôr-do-sol, marginalize seus expoentes culturais, fomente a teologia em detrimento da antropologia e clame embasbacada pela multiplicação da polícia ao invés de investir na conquista de seu próprio desejo e de sua própria liberdade.. Não, não... me desculpem, mas isto ainda não é uma cidade! É mais bem um laboratório luciferiano; uma Serra Pelada sem sombras de minérios, uma aldeota senil, um engendro monstruoso planejado para nutrir-se das entranhas de seus próprios habitantes, com suas nostalgias, suas falácias e seus pesares incuráveis...

Ah... e está longe, muito longe o dia em que em seus portões de entrada se poderá levantar uma faixa imensa com os seguintes dizeres: ³Entrem! Entrem que aqui todos serão bem vindos e que a quem ainda tem ouvidos para as coisas inauditas, retribuirei fogosamente com minha felicidade!

Ezio Flavio Bazzo