"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 20 de agosto de 2004

A psicopatologia do plágio


A história universal é pródiga tanto em sujeitos insensatos que volta-e-meia se acham plagiados, como em sujeitos delirantes que, por acreditarem que tudo o que é produzido no mundo «já foi pensado por eles» legitimam quase espontaneamente a apropriação daquilo que lhes interessa. Por um lado os arrogantes de sempre reclamando para si todo o saber do mundo, e por outro, os velhos e conhecidos megalomaníacos, certos de que o mundo é apenas parte de sua propriedade. E não estou me referindo apenas a personagens menores, seja da literatura, da música, das artes em geral e mesmo da ciência. É sabido que muitas personalidades dessas áreas, em determinados momentos de suas vidas, passaram pelo incômodo de sentirem-se plagiadas ou de serem acusadas de estarem plagiando. São clássicas as acusações que se fez contra Molière, contra Goethe, Shakespeare, D¹Annunzio e até contra Nietzsche e seu Zaratustra.


Em seu trabalho sobre atos impulsivos, o psicanalista W. Stekel, no capítulo dedicado à psicopatologia do plágio, sem duvidar de que a apropriação «consciente» do texto alheio é um roubo, discute a possibilidade dos grandes poetas, músicos, etc, correrem o risco de plagiar «inconscientemente», fenômeno que os psicólogos denominam criptomnésia. O caso de F. Nietzsche em seu (Zaratustra) plagiando quase textualmente (Blatter aus Prevost) de J. Kerner, seria um exemplo. Uma leitura feita por Nietzsche aos 12 anos teria reaparecido muito tempo depois e sido reimpressa em Zaratustra, como sendo própria. O mesmo teria acontecido com Beethoven em seu (septeto Op.20), que seria uma repetição de (Die Losgekaufte), uma canção antiga e popular de uma determinada região alemã. D¹Annunzio plagiou sutilmente a Verlaine e a Baudelaire, e estudos apontam a coincidência e a semelhança que há entre textos de Ovidio e de Geibel. Só que, com relação a este último, "trata-se de uma imitação consciente, já que era bom filólogo e que sabia certamente de memória o trecho de Ovidio. Sabe-se que, com frequência ­lembra Stekel- o conhecimento profundo de determinado autor pode deixar rastros insuspeitos na obra de um filólogo-poeta". Daí e de tantos outros exemplos, a dificuldade e o ridículo de «debater», tentando saber «o que é meu» e «o que é teu» já que, na verdade, não se tem como rastrear a origem de nada, muito menos a origem de nossas mesquinhas, superficiais e inúteis idéias.

É importante lembrar e tomar consciência de que, principalmente no chamado mundo artístico, onde todo mundo vive persecutoriamente se acusando de plágio, de cleptomania e de roubo de idéias, quase nada é de autoria originária e legítima de alguém. Todos se nutrem dos mais variados furtos intelectualóides, cuja propriedade e cujos direitos autorais, se fosse o caso, quase sempre pertenceriam a remotos e esquecidos cadáveres.

Mas... mesmo assim, mesmo sabendo de toda essa miserável e inevitável pequenez de nossas pretensões, nunca será demais um minimum de lealdade.

Ezio Flavio Bazzo