"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sábado, 15 de novembro de 2003

A pre(tensão) de falar em nome próprio


[O sofrimento nos ameaça por três lados: em nosso corpo (...), fadado à decadência e à dissolução (...), no mundo externo, que encerra forças invencíveis e inexoráveis para se encarniçarem contra nós e nos aniquilarem; (...) e, por último, em nossas relações com os outros seres humanos.]


Freud, citado por Fréderic Schiffter


Com o slogam sedutor de Falar em Nome Próprio, o II Encontro Mundial de Psicanálise, promovido pelos Estados Gerais da Psicanálise, aqui no Hotel Glória, teve uma abertura, como era de se esperar, cheia de sumidades nacionais e internacionais, de holofotes, beijinhos, simpatias e gestos psicanalizados, homenagens póstumas, panegíricos mútuos, intelectualismos e professorismos multiscientes com frases multisignificantes e até enigmáticas que obrigavam a platéia, rigorosamente iniciada na arte de desfrutar do texto e do gozo da significação, a dar saltos e cambalhotas na história, indo de Freud e Klein a Vinicott, e de Lacan e Foucault a Dèrrida. Uma platéia de umas 500 pessoas, (croatas, paquistaneses, suiços, italianos, franceses, argentinos. mexicanos, norte americanos...) que aportou no Rio de Janeiro para, com os colegas brasileiros, retomar nestes quatro dias as intermináveis discussões sobre o inconsciente, sobre os sintomas, a dor, o sofrimento, tudo o que diga respeito a subjetividade contemporânea e ao mal estar das sociedades modernas, cada uma com seus paradoxos deprimentes e com sua democrática banalização do fútil e da crueldadeŠ Quatro dias de discussões e reinterpretações intermináveis, ora sobre a "armadura sagrada da sintaxe", ora sobre o furacão de gozo que a linguagem, em si, proporciona. Discussões sobre a ética tanto na transmissão como na prática psicanalitica, sobre as relações da psicanálise, como possibilidade de crítica, com o Estado e a política; da psicanálise com a psiquiatria e com as neurociências, com a mídia, com a cultura em geral e mesmo com a verdade que supostamente busca. Enfim, um show de erudição e uma verdadeira overdose de saber, acumulado da prática clínica e da obsessão livresca. Digressões sobre significados e significantes; sobre objetos do desejo e desejos por objetos; sobre a moda ligada à anorexia e a um corpo persecutório; sobre i dinheiro como objeto libidinal; sobre o gozo e suas mais disfarçadas formas de interdiçãoŠ Também se insistiu na questão da pulsão de poder, do narcisismo imperante, do barbarismo político pós-moderno, das democracias melancólicas, do fundo paranóico das guerras e do terrorrismo, enfim, das psicopatias governamentais que têm marcado forte presença neste período pós queda do muro de Berlim e pós 11 de setembroŠ E tudo na tentativa de inventar uma nova praxis psicanalitica, o mais distante possível daquela arcáica e conservadora marcada por um poder autoritário que, nos anos 60, aqui no Rio, chegou a dar lugar e voz a um conhecido colaborador da ditadura militar. E tudo com a pretensão de criar uma outra clínica, talvez até nômade, que tenha um maior alcance político-social, que não seja apenas um instrumento de pesquisa para se confirmar o que já se sabe, que possa ser incrementada e disponibilizada nos ambulatórios e nas comunidades, para aquelas pessoas que, num contexto cada vez mais caótico, são obrigadas a viver de forma concomitante, no centro de um vendaval civilizatório e no âmago da barbárie, pessoas que, de um dia para outro, imersas nesse meio sistêmico de angústia, num determinado dia se desestruturam, sucumbem ao sofrimento de processos mentais devastadores e que para as quais, os serviços de saúde existentes pouco ou nada podem fazer.

A cada final de tarde um conferencista de «reconhecido saber» relaxa e deleita o público com temas mais literatos, filosóficos e mais políticos do que psicanalíticos. Até Marco Aurélio Garcia, assessor da Presidência da República, esteve presente e invocou a importância da psicanálise na desconstrução dos mitos que oprimem na atualidade. Mesmo que não se diga com todas as letras, parece unânime o sentimento de que o Estado segue sendo um monstro. Foi curioso ouvir e ver o filósofo italiano Antonio Negri, ex militante das Brigadas Vermelhas, com sua gestografia típicamente romana, ironizando o capitalismo triunfante, fazendo filosofia política e insistindo na idéia de imanência perante uma seleta e atenta elite... Sua revelação acidental e emocional de que não acreditava no inconsciente, isto é, no Deus da psicanálise, não causou na platéia o espanto que era de se esperar. Já a fala do escritor paquistanês Tariq Ali , na parte referente ao sionismo e ao conflito Israel/Palestina, detonou angústia e indignação entre os psicanalistas judeus... lembrando a todos, que algumas categorias de traumas parecem ser incuráveis. No domingo, um pouco antes do encerramento, o diplomata Rouanet, que recentemente publicou Os amigos de Freud, discorreu sobre psicanálise e cultura.

De vez em quando, no meio de um acalorado debate semântico ou hermenêutico, me permitia divagar ou pelos labirintos da história ou pelos becos da cidade. O que diria Freud se estivesse aqui presenciando o desdobramento de suas idéias, de suas teorias e até mesmo de seus equivocos? Que pensaria se tivesse dado uma volta lá pela Cinelândia ou pelos arredores deste luxuoso hotel, onde cruzaria invariavelmente com a fina flôr do lôdo humano, com a histeria esperançosa da classe média domesticada e com o horror niilista das multidões miseráveis? Cinco ou seis indigentes bébados nas escadarias da Biblioteca Nacional põem em dúvida a tese de Barthes de que o lugar mais erótico de um corpo é lá onde o vestuário se entreabre... outros três amontoados sob os arcos da Lapa, outros fucinhando um latão de restos, um outro caído sobre uma poça de sangue entre as rodas de um ônibus desgovernado. A fumaça dos escapamentos, o sol de 40º graus, a lábia e o instinto de morte dos meninos de rua querendo roubar-lhe a bengala. Que pensaria Freud se, num final de tarde, tivesse visitado os hospitais psiquiátricos da cidade? Lido os jornais e visto o resultado do tiroteio de ontem a noite no Morro do dendê? Que diria o velho vienense se tivesse circulado de madrugada pelos inferninhos ou pela rua Augusto Severo congestionada de travestis, pelas galerias do Bangú III ou precisado usar com urgência a toilete de um boteco? No centro da cidade, a desordem deprimente do sebo Édipo Rei o teria deixado irritado e ao mesmo tempo curioso para saber os limites exatos de uma alma sem interesseŠPor fim, fatigado e confuso, a confeitaria Colombo lhe encheria o coração de nostalgia e enquanto devorava dois ou três pasteis de avelã, repetiria em pensamentos a frase que um psicanalista havia mencionado lá no auditório: já que não se consegue ver claro o claro, vamos tentar, pelo menos, ver claro as obscuridades.

Ezio Flavio Bazzo

terça-feira, 2 de setembro de 2003

O Anarquismo Espontâneo nos Histéricos


Apesar de todas as objeções, temos que admitir que o Estado é um monstro que deu certo. Um monstro que tem tanta certeza de si que nem se abala com Jornadas e Simpósios como este, onde, a priori, a maioria dos participantes propugna por seu aniquilamento e por sua morte. Ou não? Como previu o autor do Leviatã, assistimos meio embasbacados e meio atordoados, o triunfo insensato e absoluto da máquina política sobre nossa mente, sobre nosso desejo e sobre nosso tempo... Experimentamos a falsificação das nossas paixões, a racionalização dos nossos sentimentos e dos nossos comportamentos, de acordo com a má fé das regras estabelecidas pelos políticos, pelos padres, pela imprensa e pelos funcionários do Estado...


Desde os discursos incendiários de Bakunin (1814-1876) e de Kropotkin (1842-1921), desde a filosofia pré-psicanalítica de Max Stirner (1806-1856) e das bravuras heróicas dos libertários menores que todos conhecemos, o Estado não recuou um só passo. Deu voltas, fantasiou-se, foi do autoritarismo feudal à beneficiência complacente, pintou-se os lábios, enquadrou-se à democracia platônica, voltou a exercer a intolerância e o regime ditatorial, fez-se novamente bonzinho, indenizou às famílias dos que foram jogados ao mar, auto denominou-se liberal, ético, laico, defensor máximo dos direitos humanos... etc, etc. E nesse tempo, enquanto estávamos bêbados ou hipnotizados pelo , astuciosamente reinvestiu em suas forças armadas, na polícia, no sistema judicial, na espionagem, nas técnicas de tortura, e inventou a cidadania, as fronteiras, a obrigatoriedade do passaporte, criou a ONU e, o mais espetacular: aperfeiçoou maliciosa e silenciosamente a Constituição, o Código Penal e os Presídios. Enquanto esbravejávamos quase messiânica e religiosamente à margem, nas universidades, nos botecos, nos sindicatos, nos motéis, nos estádios, nas caminhadas ecológicas, nos shoppings, nos barracões da Santa Sé ou do Reino de Deus, o Estado se travestia para poder seguir sendo o mesmo impostor brutal de sempre, só que mais sútil e mais carismático para não causar-nos mais tanto espanto. Sobreviveu à todas as maldições do rebanho desarmado, a todos os discursos em contrário, a todas as dissidências, a todos os atentados, a todos os motins, greves, idealizações revolucionárias e histerismos coletivos... E não apenas sobreviveu, mas re-atualizou seus truques de dominação e se fez mais Eficiente e mais Onipotente, derrotando e escravizando-nos de maneira absoluta. Querem uma prova dessa escravidão? Pensem nos impostos e nos tributos obrigatórios que somados, representam o equivalente a cinco meses de nosso rendimento anual. (água, luz, telefone, condomínio, IR, ISS como autônomo, ISS como funcionário, estacionamento, plano de saúde, seguro contra acidentes, CPMF, IPTU, IPVA, CRP e até licença para exercer a profissão... sem mencionar os impostos indexados à comida, à gasolina, aos remédios, aos livros e até ao caixão mortuário e ao coveiro que zelará por nossa tumba durante uns dez anos para que não nos desalogem e lancem em nosso lugar o cadáver de algum outro indigente. E se isto não for suficiente, pensem nos bancos e nos banqueiros. Nada simboliza mais a falência de nossos sonhos e a derrota de nosso pensamento do que a existência e o poder dos banqueiros... E é a partir deste olhar quase sinistro, , e que lhes pergunto: quê porra de anarquistas e quê porra de libertários somos nós? Nestes quase duzentos anos, quê conquistas e quê vitórias podemos lançar em nossa agenda, tanto no que diz respeito ao anarquismo como modo de vida como, ao anarquismo como visão de futuro? Aqueles que em sua trajetória não caíram na libertinagem despótica, conseguiram chegar, a ser, na melhor das hipóteses, libertários repúblicanos..

E para agravar ainda mais o contra-senso, todos aqui, de uma maneira ou de outra, somos servidores do Estado. Vocês, seus pais, mães, avós, tios, tias? eu e todos os palestristas que hoje e amanhã lhes dirão algumas palavras, somos casados na igreja e no civil, católicos, macumbeiros, teístas, aposentados, vacinados, e lacáios oficiais desse monstro. Inclusive este auditório e este microfone pertencem ao Estado. Basta a ordem de um DAS 2, de uma secretária terceirizada ou de um sub-chefe da segurança para que tenhamos que desocupá-lo de imediato. E não adiantará espernear, querer explicações, fazer abaixo-assinados, greves, abrir sindicância, ressuscitar o Roberto Marinho, jogar as cadeiras contra as paredes... Pois para tudo isto o Código Civil e Penal já dispõem de regras bem definidas, regras que os juízes, amparados por seus dezessete mil reais mensais fazem cumprir com apenas dois ou três ou com duas ou três ordens..

Por mais decepcionante e provocador que pareça, talvez seja o momento de admitir que o anarquismo foi sempre muito mais uma dramaturgia (uma liturgia?) e uma peça literária do que um movimento. Uma literatura dita de vanguarda que, pelos séculos a fora, tem servido aos mais antagônicos e cretinos interesses. Em 1987, por exemplo, o então Presidente de nossa República fez na ONU um discurso digno de qualquer um dos touros sagrados do anarquismo universal. Ouçam e imaginem o efeito destas frases no imaginário daquela platéia naturalmente hedonista, burocrática e indiferente:

"A paz de hoje ainda não é a paz, é a dissimulação da guerra"... "O mundo não pode ter paz enquanto existir uma boca faminta em qualquer lugar da terra, uma criança morrendo sem leite, um ser humano agonizando pela falta de pão"..."Depois da prosperidade, quando veio a recessão, passou a reinar mais a selva predatória de Hobbes do que a fecunda anarquia de Adam Smith".."Não seremos prisioneiros de grandes potências nem escravos de pequenos conflitos"... "Mais do que as hecatombes dos conflitos mundiais, mais do que o confronto estéril da guerra fria, a descolonização ficará como a grande contribuição do século XX à história da humanidade" etc, etc.etc.

E qualquer um de nós sabe muito bem que o conhecido latifundiário e autor destas frases, nunca foi trotskista e muito menos bakuninista...

É necessário reconhecer que se continua dando estatus escrever e vociferar desde o pedestal do socialismo libertário, é porque a platéia é sempre certa... e porque o texto (independente de Barthes, que em 1980 jogou-se debaixo das rodas da caminhonete de uma lavanderia), continua dando prazer, continua sendo, no momento de sua construção, uma espécie de lúxuria artificial, e no auge de sua exibição, algo como um strip tease. Para que a perversão privada do escritório tenha plenitude -sentimos- é necessário que se a complemente com a perversão pública do palco...

Por outro lado, depois de tanto tempo de servilismo nada voluntário e de tantas chacinas, agora todo mundo quer parecer bonzinho e politicamente correto. Que sempre foi difícil distinguir um anarquista de um padre beneditino ou de um rabino, ninguém tem dúvidas. Prestem atenção como em qualquer circunstâncias, nossos primeiros impulsos e movimentos são sempre complacentes, conciliatórios e beatos A literatura, o teatro, o rock, os pasquins estão cheios de textos anarco-insinuantes. O cinema norte-americano, francês e alemão idem. (Linguagem meretriz!) Até os apresentadores das nossas TVs, de vez em quando, relembram o heroísmo e a bravura de Sacco e Vanzetti, falam com entusiasmo da legendária comunidade anti-estatal dos Tupi-Guaranis, da Patagônia Rebelde, da Colônia Cecília e de um ou outro anarquista italiano que, sabe-se lá por quê, abandonou a luta para abrir uma pizzaria, etc, etc, Mas tudo não passa de palavras, de literatura e de apelos intelectuais que não movem como dizia Bobbio, uma palha da nefasta jaula social em que vivemos. Apelos que só servem para apaziguar nosso Ego sedento, nossa ansiedade e nosso caráter de subalternos. O próprio Bakunin já havia previsto que os intelectuais adotariam uma postura cada vez mais anarquista diante do mundo. Resta saber agora, afinal, o que é, e o que pode fazer um intelectual, no meio de uma multidão de ignorantes que não está de acordo com ele...

E depois, aqui entre nós, com exceção de um ou outro auto-didata, a grande maioria dos intelectuais têm um débito quase filogenético com a engrenagem do Estado. Não necessariamente por ter conseguido o Crédito Educativo, mas por ter se construído como intelectual nas escolas públicas, nas universidades estatais e com as bolsas de pós-graduação patrocinadas pelos governos. Além disso, 95% de vocês, amanhã, quando concluírem os cursos, se não quiserem engrossar as fileiras dos indigentes e ver vossas carreiras eclipsadas, não terão outra alternativa senão bater humildemente às portas do Estado. Mendigar um estágio, um contrato, um vínculo empregatício, um DAS. E é nessa hora de ruborização e de negação de si mesmo que o sujeito compreende -como dizia Cioran - que equivocar-se, viver e morrer enganados é o que fazem os homens. Que o inferno pode até ser um refúgio, se comparado com este desterro no tempo, com esta languidez vazia e prostrada onde, além dos movimentos do universo, nada nos interessa...

E para nós da América Latina o problema é ainda mais grave. Nossa ânsia de subversão não é apenas contra o Estado frio e calculista de Hobbes, mas contra um Estado de merda, regido num extremo por psicopatas e no outro por bandos de melancólicos auto destrutivos, que durante quinhentos anos têm investido contra si mesmos, se torturado, se prejudicado e por fim se aniquilado.

Pensem nos alimentos. É com a cumplicidade do Estado que os colonos e os produtores rurais, para aumentar a produtividade, têm envenenado sistematicamente com adubos e agrotóxicos os alimentos que comemos todos os dias. É com subsídios dos governos que as vacas, os porcos e as galinhas são inchadas de hormônios. Hormônios que vão tornar-nos obesos, cancerosos, diabéticos, broxas e dementes... e para , os médicos nos encherão de remédios, fabricados pelas mesmas indústrias que produziram os adubos e os hormônios... Como os remédios, por sua vez, também vão nos causar efeitos colaterais, vão exigir mais remédios, produzidos pelas mesmas empresas, pouco importando se são multinacionais ou não, já que o empresariado autóctone e nativo igual ao estrangeiro, tem assumido uma postura de abutre diante das questões da saúde... A própria longevidade, apesar de parecer uma conquista pessoal, é muito mais um triunfo das indústrias dos medicamentos. Um homem com mais de setenta ou um homem na UTI é comercialmente muito mais lucrativo que cinco ou seis jovens no auge da atividade.Observem a quantidade de farmácias que existe nas cidades latino americanas, e como esses países hipocondríacos, onde há mais farmácias quê livrarias, estão irremediavelmente condenados à mediocridade.

Pensem nos automóveis. Na necessidade compulsória e infantil de possuir um desses caixotes ambulantes... sempre a um preço vinte vezes maior do que realmente vale... e que converterá seu proprietário num pobre consumidor de sub - produtos atrelados sempre ao Estado ou aos grandes capitais: a carteira de motorista, o seguro, o IPVA, a gasolina, o pedágio, os pneus, as peças, o espaço da rua para estacioná-lo. E essa imensidão de imbecis ao volante, como era de se esperar, vai gerar milhares de atropelamentos por dia, que gerarão milhares de mutilados, que vão lotar os leitos dos hospitais e o freezer das funerárias. Os que ficarão paraplégicos, retardados, cegos, loucos, mudos, etc, dando continuidade ao mencionado ciclo de escravidão econômica, passarão a usar próteses, drogas e equipamentos produzidos pelas mesmíssimas multinacionais que seguem recebendo subsídios para produzir mais e mais automóveis. Foi essa idiotice generalizada que fez com que as cidades se transformassem em imensos estacionamentos, e que a de cada um desses babacas, permaneça quase todo o tempo lá na garagem.

Sim, o Estado de merda é ainda pior que o Estado de Hobbes. Porque além de tudo é um Estado medíocre, burro e indiferente. Enquanto no Estado de Hobbes estão mapeando os genomas, no Estado de merda não se conseguiu ainda nem mapear as cáries. O Estado de Hobbes é aquele que foi destruir o Iraque, o Estado de merda é aquele que foi lá depois da guerra, recolher os destroços e articular a paz e o perdão. (mas como, diria o chato Dérrida: se só se perdoa o imperdoável). Se o Leviatã de Hobbes pisoteia os sentimentos e reduz o homem a uma máquina, o Estado de merda, com toda sua culpabilidade, fingindo ajudar, dá um jeito de piorar tudo, danificando, enguiçando e tornando a parafernália estatal ainda mais nefasta. Atolado em ambigüidades esquizóides, promove a auto-flagelação coletiva e por fim se suicida. (Seu único ato de grandeza).

Pensem na saúde mental. É rotina nos Estados de merda promover silenciosamente a desagregação mental das massas. No mês passado foi desativado em Planaltina (DF), um sanatório que funcionava ainda nos moldes daqueles que horrorizaram Pinel no século XVIII. As periferias, por mais que os professores e os políticos não saibam ou não mencionem, estão abarrotadas de doentes mentais. Homens e mulheres de todas as idades enfiados em seus casebres, com seus familiares também doentes e miseráveis, vivendo como zumbis, à margem do saber, da atenção e do consumo neurótico do hospício urbano...Cinco, seis, dez, vinte gerações de pirados... e seria ingenuidade ou mau caratismo acreditar que a engrenagem estatal não tem nada a ver com isso... e que a explicação para o frenesi popular deva ser buscada apenas lá no triângulo edipiano ou apenas lá nas falhas dos neurotransmissores... Com nosso equilíbrio e nossa saúde no limite, como não enlouquecer diante de tanta manipulação, de tanta ambigüidade e de tantos estelionatos? Mas é necessário resistir, porque enlouquecer é o fim. O louco é simplesmente um louco. Não interessa mais a Estado nenhum e a ninguém.. É reduzido a um bosta, que se antes da reforma manicomiária, ficava confinado, agora, é empurrado de volta para sua família caótica e daí para a sarjeta... É verdade que quando têm dinheiro, é resgatado temporariamente pelo comércio dos medicamentos de tarja preta, mas se for um fodido qualquer, esperneia por algum tempo nos fundos da casa, num manicômio provisório e depois recolhe-se aos seus delírios, vivendo de roer unhas, de remordimentos e de bebericar num e noutro copo de cachaça, até que um ônibus lhe esmague acidentalmente os miolos ou que um outro pirado lhe dê uma rajada pelas costas. Nestes verdadeiros hospícios que são as nações, parece não haver para os grandes rebanhos nenhuma outra saída. As comunidades alternativas silenciaram e faliram e a histeria de PAZ e AMOR dos anos 60, ficou na história como um luxo efêmero. Seus atores enlouqueceram e morreram fumando ópio e haxixe pelas montanhosas estradas de Machu-Pichu, de Katmandu e da India...

Pensem na questão da sexualidade. Sinto-me quase constrangido em estar repetindo aqui o que Emma Goldman (1869-1940), a velha anarquista russa já esbravejava no século passado. A emancipação das mulheres, no que era essencial, não aconteceu e a grande maioria continua frustrada e incomodada com o rito secular da vida amorosa. A emancipação exclusivamente exterior que conquistaram, longe de lhes garantir a soberania desejada, as empurrou para um lugar ainda mais ambíguo e artificial. O sexo, apesar do teatro da sedução permanente, continua sendo um assunto predominantemente masculino. Patrimônio de homens obsessivos e estressados que sem saber o que fazer com sua libido, odeiam a recusa e o recuo de suas mulheres e voltam aos poucos às fantasias da pré-genitalidade e à masturbação... (Pesquisadores australianos sugeriram recentemente 5 masturbações semanais como prevenção do câncer de próstata). É o fim.

Se no Estado de Hobbes germinam paranóicos e psicopatas aos montes, no Estado de merda a tendência é produzir cada vez mais maníaco-depressivos. Até os quarenta anos, empurrado pelas mentiras sociais, pela propaganda enganosa, pelo esoterismo, pelos hormônios, pelas promessas, pelas ficções profissionais e transcendentes que brotam por todos os lados e pela busca compulsiva de independência, o sujeito encarna o MANÍACO. Depois dos cinquenta, quando percebe que tudo não passava de uma falácia, e que seus anseios eram apenas cofres vazios, vai mergulhando irremediavelmente no desânimo e na DEPRESSÃO, de onde, se não conseguir resignificar seu presente e sua história, não sairá nunca

Proliferam-se os shopings, as feiras, os sex shops e os mercados por todas as cidades e vilarejos... Os sociólogos, os psicólogos, os comunicólogos são recrutados cada vez mais pelos políticos e pelos comerciantes. É necessário criar sempre novas necessidades no rebanho, atrelar ao supérfluo uma chispa de transcendência ou de volúpia, e depois, apenas esperar e vender. O caso do telefone celular e do viagra são mais do que ilustrativos, duas interferências graves sobre nossa fala e sobre nosso phalo. Através desses dois produtos, obrigam-nos a falar e a trepar, mesmo quando a maioria dos usuários não consegue sair nem do monólogo e nem do onanismo.

No mundo das artes, depois que o Estado se dissimulou no grande financiador e mecenas, a promiscuidade nunca foi maior. E quando não banca ele próprio os filmes, os livros, as viagens, as exposições, os congressos, as obras de arte em geral, despacha o artista, com o rabo entre as pernas, para os comerciantes ou para os donos das grandes empresas. Sujeitos que, não por amor à arte, mas por interesse tributário, não perdem a chance de, por um lado, isentar-se de impostos e por outro, aniquilar as pretensões anarcóides e anti-sociais do pedinte, com apenas um punhado de dólares. E é inútil esse mendigo ilustrado tentar redimir-se perante os comparsas, ou tentar convencê-los da conveniência de manter, com discrição um pé no atelier libertário e outro nos escritórios das estatais. Provocará inveja e não será ouvido. Melancólico... terá forçosamente que reconhecer que para idealizar um paraíso fora de sí -como dizia Nietzsche- é inevitável fazer contato com as forças que espreitam no fundo de nosso próprio inferno.

Portanto, o Estado mecenas, se é que se pode chamá-lo assim, apesar do fascínio de alguns ingênuos, é apenas mais uma das tantas máscaras do Estado moderno. Mais uma das sofisticadas artimanhas inventadas para cooptar os inimigos espontâneos e para minimizar o asco que o populacho e as massas lhe dedicam. Vive malignamente em simbiose com os intelectuais, artistas e outros personagens do gênero, prosperando e se fortalecendo uns às custas dos outros.

Para concluir, quero dizer algumas palavras sobre crianças e livros. Apesar de toda mistificação e de todo o romantismo que ainda envolve o negócio dos livros, é chegado o momento de admitir que não corresponderam às expectativas que neles se depositou nos últimos mil anos, e que está praticamente eclipsado e aniquilado o clichê atribuído ao senhor Monteiro Lobato de que uma nação se faz com homens e livros. Balelas de todo escritor. A história tem demonstrado, do Oriente ao Ocidente, de Pequim ao Chile, das comunidades sanguinárias e canibais às melancolicamente democráticas dos últimos tempos, que as nações, prenhes de crueldade, se fizeram uma atrás da outra, apenas com armas, demagogia, sangue e dinheiro. Se os livros e a erudição tivessem servido para alguma coisa não estaríamos atolados nesta pasmaceira globalizada, com um exército imenso de vivaldinos pululando e bufando ao redor da terra, falando em paz e em liberdade, sem acrescentar absolutamente nada à incômoda obrigação de viver. Não seríamos quase a única espécie do planeta (ao lado apenas dos porcos e dos ratos) a massacrar e a destruir sistematicamente nossos próprios filhos. Apesar dos séculos de feitiçaria, das intermináveis discussões filosóficas, dos milênios de religiosidade, do chicote dos ditadores, das lágrimas dos humanistas, das promessas farmacológicas e médicas... a submissão, o infanticídio, a pedofilia e outros tipos de acosso e de abusos contra crianças, continuam sendo práticas exclusivamente humanas. Provas de um arcaico e incurável ressentimento que não está registrado apenas ali na delegacia da esquina, nos diários das vítimas ou lá nos relatórios das ONG`s internacionais, mas principalmente nas entranhas de praticamente todos os sobreviventes.

Quando se observa os processos, as motivações e as razões da família e dos nascimentos, assim como as relações entre o casal e entre pais e filhos, compreende-se a importância de reatualizar com urgência os conceitos sobre a e sobre a . Talvez Clitmenestra deva ser considerada, de uma vez por todas, o arquétipo de todas as nossas mães e de todas as nossas mulheres, e Urano o arquétipo de todos os nossos pais e de todos os nossos homens. Se a psicanálise tem demonstrado que levamos dentro de nós, ao lado da imagem de uma mãe boa, outra terrorrífica, que mata, destrói e come o filho... outros estudos também especulam com a possibilidade do pai assassino ser essencial à paternidade..

Pode ser que advenham daí, desse acosso perverso e dessa sujeição precoce, os elementos que vão predispor o sujeito, quando adulto, a todo tipo de servilismo e de subserviência, condição indispensável para que se renda e caia de joelhos não apenas diante do Estado mas de qualquer outro tipo de impostura.... Pode ser, também, que o Estado que tanto mal nos causa (fora), seja apenas uma projeção de um estado doentio que já levamos (dentro)... Mas isto é um assunto para uma outra Jornada.

Enfim, é bom ir parando por aqui.
Para que reste alguma coisa de meu ceticismo e de minhas palavras, parafraseando a Lacan, quero ressaltar que talvez, só a ciência e os velhos é que poderão vir a ser, um dia, verdadeiramente subversivos.

Ezio Flavio Bazzo

sábado, 31 de maio de 2003

A lábia encantadora de João do Rio


Nascido em 1881 à rua do Hospício, e fulminado por um colapso cardíaco 39 anos depois, no Catete, João do Rio conseguiu, mesmo neste curto período, construir uma obra densa e admirável.

Mergulhando deliberadamente nas ''sombras cúmplices da madrugada urbana'', no ''mundo opaco e indeciso'' e no ''mar alto da depravação'', onde sempre fervilha ''gente ordinária, marinheiros à paisana, fúfias dos pedaços mais esconsos da rua'', engendrou, à revelia dos sedentários e dos invejosos, uma literatura magnífica e diabólica, uma (quase) antropologia laica, uma sociologia selvagem, empírica e anárquica... livre tanto das algemas escolásticas como das pretensões da gramática ortodoxa... que, como uma ''Górgona de vício, à beira das igrejas, abria a fauce tragando as flores da ralé''. Que só tenha descoberto sua existência agora, depois de uns 35 anos de leitura e de freqüência obsessiva em sebos, alfarrábios e feiras de livros, é uma evidência, não só da gravidade de minha cegueira, mas de quão tendenciosa, parcial, falsa e fútil tem sido tanto nossa cultura literária como nosso mercado editorial.

Seu interesse pelo âmago das cidades, pela histeria permanente das ruas, pela vida mundana e conseqüentemente pelos seus atores: fanáticos religiosos, azeiteiros, cabotinos, pedófilos, cínicos, mendigos, pervertidos, larápios, presos, criminosos, imigrantes, charlatães, poetas, músicos, variolosos, em suma, pelo ''sistema social podre'', lhe renderam não só calúnias, mas socos, bombas e acusações literárias como esta, de Elisio de Albuquerque: ''É um temperamento doentio, sensibilidade exacerbada, usa de uma psicologia mórbida, atormentado pela preocupação do raro, do horripilante e até do sórdido''.

É evidente que os pobres moralistas tinham dificuldades para suportar um sujeito que, além do talento inegável, seguia afirmando que ''Toda a vida é luxúria. Que sentir é gozar, e que gozar é sentir até o espasmo. Nós todos vivemos na alucinação de gozar, de fundir desejos, na raiva de possuir. É uma doença? Talvez. Mas é também verdade. Basta que vejamos o povo para ver o cio que ruge, um cio vago, impalpável, exasperante. Um deus morto é a convulsão, é como um sinal de pornéia. As turbas estrebucham. Todas as vesânias anônimas, todas as hiperestesias ignoradas, as obsessões ocultas, as denegerações escondidas, as loucuras mascaradas, inversões e vícios, taras e podridões desafivelam-se, escancaram, rebolam, sobem na maré desse oceano. Há histéricas batendo nos peitos ao lado de carnações ardentes ao beliscão dos machos; há nevropatas místicas junto a invertidos em que os círios, os altares, os panos negros dos templos acendem o braseiro, o incêndio, o vulcão das paixões perversas.''

Dizem os jornais da época que seu funeral mobilizou cem mil pessoas. Que os taxistas, emocionados, se prontificavam a transportar, de graça, quem quisesse seguir o féretro daquele homem que, sabia-se, ''amava o horror das coisas inacreditáveis''. Qual o autor nacional, por mais vaselina e plantador de vaidades que tenha sido, que já teve tamanho privilégio? Bobagem? Sim. Mas impressionante! Mesmo que essa multidão quisesse, morbidamente, apenas certificar-se de que havia realmente morrido (um veado e um filho de puta a menos no mundo!), mesmo assim é um número que impressiona. E insisto nisso porque a grande maioria dos escritores que morrem hoje em dia — mesmo os que se faziam passar por ícones da sapiência, os que passaram a vida lançando confetes aqui, serpentinas acolá, fazendo conchavos na academia, cumplicidade nas universidades e puxando o saco à torto e à direita de quem quer que fosse, mas principalmente dos endinheirados — além dos herdeiros e dos credores, só têm recebido ''postumamente'' a visita oportunista dos abutres da funerária.

João do Rio (Paulo Barreto), que chamou atenção para a vida encantadora das ruas, que não teve medo de acanalhar-se e nem de enlamear-se nos becos onde ''os corpos movem-se como as larvas de um pesadelo'', morreu de forma inusitada aos 39 anos, num táxi. Num velho táxi que circulava pelas ruas do Catete. Deixou uma obra fascinante, curiosa, lúdica, saborosa, nômade e, mais do que tudo, vagabunda... construída na clandestinidade, nos esgotos periféricos, à beira dos cortiços, na penumbra das antigas salas de redação dos jornais... e, inclusive, nos festins colonialistas das elites da época... onde ''as caras continuam emplastradas pelo mesmo sorriso de susto e de súplica, multiplicado em quinze beiços amarelos, em quinze dentaduras nojentas, em quinze olhos de tormento!'' Paradoxalmente, foi também um membro da Academia Brasileira de Letras... O primeiro a entrar naquele covil envergando o fardão vampiresco, aquela capa negra que mais desqualifica e que mais mumifica do que engrandece... ''A luz elétrica, muito fraca, espalhava-se como um sudário de angústias.'' Teve sérios conflitos com a vaidade estabelecida daqueles ''literatos'' que, por não terem nada que dizer e por não possuirem um mundo próprio, só falavam de literatura. Viu-se envolvido com a hipocrisia dos escritorzinhos... e com o rancor incurável que se prolifera à sombra das ''pocilgas literárias''... entre a turma das unhas pintadas e dos cuecões de seda... Entre os da laia narcísea dos conhecidos ''textos-super-limpos'', ''burilados'', ''impecáveis'', otimistas e estóicos... escritos sempre para os jurados de concursos, para as grandes editoras, para o clero e para os chefetes de turno no Congresso Nacional... instâncias onde ainda predomina intacta a mesmice secular, o tédio reacionário, o discurso prolixo, a metamorfose do caráter, a corrupção endêmica, a frouxidão genital indisfarçável e a necessidade histórica de perpetuar, miseravelmente, o jogo da burrice e de submissão entre o populacho... Que lástima a sobrevivência desse circo!... ''o clamor da súplica enche o quarto na névoa parda estrelejada de hóstias sangrentas''.

O que me atrai em sua obra, independente da beleza natural dos troteadores e dos ''rueiros'' é basicamente seu cinismo e seu deboche. A forma ora sutil e ora escrachada como cospe sobre a rabugice e a infâmia humana... Vibro com a tormenta de metáforas que inventa para descrever, não só a cloaca e o lupemproletariado mantido à margem (depravados, escravos, sádicos, jogadores, maxixes ordinários, coristas, putas, desempregados opiômanos) mas também a cloaca de colarinho branco (barões, condes, atrizes, políticos, charlatães, damas da recém-instalada república). Se foi um plagiador — como dizem —, um entreguista político, um ''portuguesófilo'', um decadente moral, um fresco e um dândi... isto, aqui, não tem a mais mínima importância. Se fez subliteratura, se foi, como outros, um ''pavão simbólico do Vício Triunfal'', se fez confusão entre um gênero e outro, se seu texto, além de ''empolado'' estava cheio de delitos gramaticais... isto tampouco diminui ou compromete seu fascínio e sua beleza. Não altera em nada o ângulo privilegiado através do qual ''escutava'' e fitava a urbe enfurecida e em delírio... Principalmente porque ele mais do que ninguém, sabia e afirmava que a ''literatura é o mirífico agente do vício''.

Ezio Flavio Bazzo