"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 23 de janeiro de 2001

Patmos: a longínqua caverna onde foi escrito o Apocalipse


"E se não vigiares, virei sobre ti como um ladrão,
sem dizer-te quando"
São João, Ap.3-3


Você leitor, que está lendo este texto confortavelmente em sua chácara, em sua cama ou no sofá de sua casa, com um capuchino fumegante sobre uma mesinha de mármore, não pode imaginar em que situação ele está sendo escrito. As mãos geladas, o peito comprimido, a garganta sêca e o estômago apertado. O barco turco, com capacidade para umas oitenta pessoas está literalmente perdido no meio de ondas homéricas do mar Egeu. Maldita hora em que decidi vir à ilha de Patmos para reescrever o Apocalipse! Se olho para a vidraça da esquerda vejo as ondas acima de minha cabeça; se viro os olhos para a direita diviso um abismo no meio das águas furiosas e se fixo o olhar para a frente, fico cara-a-cara com cataratas imensas, espumantes, velozes, barulhentas, que se espalham por todo o convés. Meu caderno está ensopado e as palavras que rabisco mal podem ser lidas. Se pelo menos houvesse outros passageiros! Mas não. Estamos apenas minha companheira e eu. Assim que este bailado tenebroso teve início, os marinheiros sumiram. Caralho! As xícaras e os copos da cafeteria voam de um lado a outro e se despedaçam contra as paredes de ferro. A cada solavanco, olhares de desespero e de cumplicidade. Na parte dos fundos, uma foto do primeiro ministro turco sóbrio e de perfil que, na semana passada, era acusado de ditador assassino numa manifestação de exilados em Paris. Dois marinheiros passam rápidos, falando num tom preocupado e examinando uma janela onde a água salgada bate com violência deixando um rastro de sal pegajoso. Tento decifrar suas expressões e até inventar um sorriso, mas descubro que meus maxilares estão tensos e quase paralisados. Ah, e com que sofrimento fui checar se os salva-vidas estavam sob o banco! Por incrível que pareça, não chove e não estamos no meio de uma borrasca e nem de uma tempestade clássiva. Um sol esplendoroso se espalha dionisiacamente por sobre o mar azul e a tragédia eminente parece estar relacionada apenas à velocidade do vento. Posseidom peidando lá nas profundezas das águas e nós, aqui em cima, fazendo de tudo para não naufragarmos na nossa própria paranóia, nas nossas próprias e tenebrosas fantasias, no nosso medo ontológico de sucumbir para sempre num mar filha da puta destes e, o pior, no mais absoluto anonimato. Únicos dois passageiros (não queira saber por quê) agarrados às mochilas como dois vermes que só sabem respirar na superfícieŠ Caralho! E é inadmissível saber que a apenas dois metros abaixo desse horror de ondas e de espumas reina uma paz e uma serenidade que nenhum Buda chegou a alcançar e que nenhuma filosofia haverá de brindar jamais aos homens. Percebo que minha escrita tende para algo terminal e minha covardia aumenta. Ondas indiscritíveis! De vez em quando aparece no meio do oceano em fúria uma ilhota árida e sêca que, com seus milhões de anos, assiste cínica e impávida ao nosso medo, aqui no meio das ondas.

Daria dois terços da vida que ainda me resta para estar lá, numa delas, nem que fosse para derreter ao sol grego, morrer de fome, ser atacado a noite pelas serpentes. Mas pelo menos estaria em terra firme, sobre as rochas sólidas, longe das águas, das profundezas e da náusea. A bandeira vermelha do antigo império otomano que no início da viagem tremulava soberba ao sol, agora está ensopada e enrolada nos cabos de aço que sustentam o mastro, como se quisesse eximir-se de qualquer eventualidade trágica. E esse horror durou uma hora e quarenta e cinco minutos. Depois, quando já estávamos exaustos e vencidos, o mar azul foi se acalmando e se exibindo como uma mãe monstruosa arrependida de ter torturado tanto a seus filhos. Nesta hora, mesmo cético, impossível não pensar num fragmento apocalíptico: "Assim, porque és morno e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca" (Ap. 3-16). Foi assim, nesse clima emocional que chegamos a ilha grega de Patmos, onde lá pelos anos 95 d.C, aportou um visionário judeu chamado João, exilado pelo governo do imperador Domiciano. Nos dois anos que viveu nessa ilhazinha encantadora, se confinou numa caverna no alto da montanha, onde teria tido a visão delirante daquilo que viria a ser um dos textos mais poéticos, misóginos e macabros do livro sagrado dos cristãos: o apocalipse.

Com apenas três mil habitantes, essa pequena pérola do mar Egeu é considerada a mais preciosa do arquipélago grego. Quando o dia está claro, do alto da aldeia de Chora se pode ver não apenas a ilha inteira, mas também as ilhas de Samos, de Icaria e outras situadas nas costas da Ásia Menor (Turquia).
No porto, os moradores disputam quem chega, oferecendo seus hotéis ou mesmo suas moradias. Escolhemos ao acaso a de uma mulher seca e arrogante que, no final da história nos deu o golpe em dois mil dracmas. Ter estigmatizado preferencialmente os judeus como usureiros e obcecados por dinheiro foi uma parcialidade ingênua e uma ignorância histórica. Quem circular hoje pela Itália, Grécia, Turquia, etc., ficará espantado com o descaramento e com a cultura de rapina vigente. Um quarto duplo a uns 100 metros do porto. Uma varanda que dá para um quintal onde gatos e galos se deleitam ao sol. Flores, limoeiros, figueiras, cactus, varais, casinhas brancas coladas à montanha e um corvo, como o de Poe, que se equilibra misteriosamente sobre um fio de alta tensão. Três pequenas aldeias compõem a ilha: Scala, onde está o porto principal, Campos e Chora. Nesta última, instalada no alto da montanha, foi construído o Monastério de São João. A caverna do Apocalipse está no caminho entre Scala e Chora, e foi transformada numa ermita dos ortodoxos. O caminho antigo, por onde se subia no lombo de asnos, é agora uma estreita vereda de peregrinos, lunáticos, crentes, aventureiros, curiosos e apocalípticos de todo o mundo. Os cinco ou seis com quem tive oportunidade de fazer algum contato, pareciam transportados e movidos por algum tipo de distúrbio. Ou seriam apenas os sintomas da fé? "...E naqueles dias os homens buscarão a morte, e não a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles...".

Mesmo para quem não é um marinheiro de primeira viagem, é emocionante estar aqui! A beleza geográfica, o exotismo e a mitologia, somados à nossa cultura apocalíptica nos enchem de euforia. Afinal, qual é a criança do mundo ocidental que em algum momento de suas peripécias, não foi ameaçada por um dos monstros do apocalipse? Sinto que não é difícil pirar por aqui, ter um surto e tornar-se um lunático para sempre. Se não se coloca a razão acima de tudo, principalmente das tentações mórbidas, qualquer um pode de uma hora para outra cair de joelhos e começar a cantar em grego antigo diante das lendas, das ficções e das pressões que os séculos e os vivaldinos engendraram. Enquanto subo o caminho íngrime de pedras, com minha Canon engatilhada dentro da bolsa, vou recitando entre outros fanáticos um trecho da profecia: "...Ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras e qualquer que ama e comete a mentira..."

Subitamente me veio uma curiosidade: Por que os cães?

Mais uns minutos montanha acima e lá está a construção branca que dá entrada à caverna sagrada. Na parte superior fica a moradia dos monges ortodoxos e as igrejas de Santa Ana e de São Nicolau. O que separa os ortodoxos dos católicos são filigranas políticas e históricas que ateu nenhum teria curiosidade em saber. Há uns dez dias, quando o papa visitou Atenas, os patriarcas ortodoxos exigiram que ele se desculpasse por uma dezenas de atrocidades que a igreja católica cometeu contra a igreja ortodoxa. Ele matreiramente se desculpou e tudo ficou por isso mesmo! Desço em ziguezague os 43 degraus que me levam a porta de entrada da caverna, sobre a qual existe uma imagem de São João e uma inscrição em grego traduzido para o inglês que diz: "Que assombroso é este lugar! É a casa de Deus e esta é a porta do paraíso." Um exagero, mas enfim! Entro na ponta dos pés, consciente de que não estou entrando em minha casa. Penumbra, incenso, esoterismo, cruzes bizantinas, candelabros, velas e um número abusivo de ícones que dá a caverna de pedra natural o clima denso e irreal dos ambientes fantásticos. Uns dez passos a frente e dois a direita me coloca de cara com os três pontos mais sagrados da caverna: o local onde João dormia, onde caiu quando foi tocado pela mão de Deus (ou pela epilepsia) e o lugar onde agarrou para se levantar. Os beatos e os peregrinos que entram ali vão logo beijando esses locais. Uma cruz milenar de madeira, que teria sido talhada pelo próprio santo; um símbolo da Santíssima Trindade e uma pintura de Tomas Bazas, representando São João prostrado e tendo visões de Deus, monopolizam minha atenção. Em seguida lembro da frase abusivamente citada pelos padres e pelos pastores: "Eu sou o Alfa e o Ômega..." (Ap.1-8) que, coincidentemente são as marcas de dois automóveis de luxo! Um religioso-menor de barbas e cabelos longos se agita obsessivamente nos bastidores da pequena ermita. Finge não perceber minha entrada e logo depois cobre a cabeça com um barrete preto. Quase colado ao local onde João teria recebido a revelação apocalíptica, um homem em pé respira com dificuldade enquanto lê um pequeno livreto de capa cinza: "...Eu repreendo e castigo a todos quantos amo, se pois zeloso, e arrepende-te..." (3-19). Passa longo tempo sem mover os olhos e quando me vê, não esconde sua indignação. Pelo seu olhar, não tenho dúvidas de sua insanidade. Pressinto, inclusive, que vai saltar sobre meu pescoço. Desvio o olhar. Ele permanece imóvel, voltado para mim, devorando-me odiosamente com olhos mal dormidos, como se me acusasse: "...Eu sei as tuas obras e onde habitas, que é onde está o trono de Satanáz..." (Ap.2-13).

Outras pessoas entram em silêncio e vão automaticamente beijar os lugares sagrados. Uma fila de peregrinos alemães. Outra de peregrinos espanhóis. Uma mulher do texas, meio pirada, com uma blusa transparente através da qual se pode admirar seus mamilos. A indignação parece geral e todos parecem querer lembrá-la do versículo (Ap.17-4) que diz: "...E a mulher estava vestida de púrpura e de escarlata, e adornada com ouro e pedras preciosas e pérolas, e tinha na sua mão um cálice de ouro cheio de abominações e da imundícia da sua prostituição...". Enquanto isto, lá na entrada superior, umas vinte pessoas formaram um círculo e cantavam hinos em um idioma que não pude identificar. Como nos arredores do Vaticano, aqui também boutiques vendem bijouterias sagradas e objetos da fé. A uns cinquenta metros da entrada da caverna, está a famosa Escola de Patmos, fundada em 1713 por Macarios Kalogerás e, finalmente, no ponto mais alto da ilha, no centro da aldeia de Chora, construído sobre rochas, o Monastério de São João. Apesar da beleza bizantina dos murais ser inigualável, o que me fascinou realmente foi a mitra do patriarca Neófitos VI (século XVII), feita com dois quilos e meio de ouro, e mais uma quantidade absurda de rubis que pertenceram ao imperador de bizancio. Hipnotizado diante de tanta beleza e tomado pelas tentações da cobiça, cheguei a pensar que com aquela peça poderia pagar todas as minhas dívidas e dar a volta ao mundo mais umas duzentas vezes.... Enquanto me deixava levar por esses malignos pensamentos, tive a sensação de ouvir novamente uma voz, agora do próprio João vinda de trás de um altar que me lembrava: "...Não sabes que és um desgraçado, um miserável, pobre, cego e nu..." (Ap.3-17).

O sol surgiu antes do normal no dia de nossa partida e o mar parecia um espelho de prata quando o barco acionou os motores. Uma última foto feita do convés, a mochila cheia de livros e uma migalha de simpatia por aquele exilado lunático que não só acreditou ter feito um contacto com seu Deus, mas que, ainda por cima, conseguiu editar seu delírio em forma de texto e ser o autor mais lido durante estes últimos e longos mil e novecentos anos.

Ezio Flavio Bazzo

Tauromaquia: Um show de Instintos Perversos


"Minha guerra contra o homem se eterniza porque cada um de nós
reconhece no outro sua própria degradação."
Lautréamont


No Paseo Cristóbal Colón, o sol bate de cheio na parede onde se pode ler: Plaza de Maestranza de Sevilha. Como nunca havia entrado numa arena, (assim como nunca entrei num estádio de futebol e nem nas pocilgas de box) é normal que me sinta meio envergonhado. Uma certa satisfação em lembrar que foi aqui que em 1992, em duas corridas, os touros mataram dois toureiros.

Uma imitação bufa dos teatros gregos e dos coliseus romanos? Os vendedores de bilhetes, os fiscais, os administradores, os chefões dessa carnificina têm todos o perfil clássico do submundo. Duvido que tenham lido um livro na vida e que algum deles tenha perdido uma noite de sono tentando abrandar o «nó górdio» da cultura. Analfabetões como ocorre nos estadios de futebol ou como nos guetos de pugilistas. Que alguns intelectuais tenham feito elegias a essa barbárie e a essa ralé não significa nada.Me dizem que no subsolo, há um pequeno museu, com um desenho de Cocteau, a Capa rosa de Picasso e uma reprodução do touro que, em 1947 matou o famoso Manolete. Os turistas vão chegando, uns euforicos, outros visivelmente intimidados. Como os ecologistas lançaram sobre os apreciadores desse espetáculo e dessa epifania bovina os adjetivos mais grotescos e os palavrões mais escatológicos, muitos deles voltam para seus países e mantém em segredo essa «aventura», como se, de alguma maneira, se sentissem até responsáveis pelo assassinato dos touros. Domingo. Dezenove horas em ponto. As arquibancadas estão lotadas. Começam os rituais sádicos e medievas. O presidente dá o sinal de entrada. Vai iniciar o Primeiro Terço. Bandas, gritos, correrrias, portões que se fecham. Nunca estive tão ansioso. A troupe de matadores já se exibe na arena, um «não-sei-quê» de afeminados, com calças ridículas e apertadas que lhes salientam as nádegas e os genitais. Ainda não vi o touro mas já torço por ele. Nas arquibancadas os vendedores de bebidas, chapéus, fotos de toureiros e de postais se apressam. Cada idiota puxa sua câmera fotográfica, seu binóculo, sua filmadora. É necessário registrar a espada enterrada no corpo do touro ou, por que não, os chifres do animal estraçalhando o corpo do toureiro. Sinto que desejaria imensamente assistir a uma tormenta de chifradas, de coices e de imprevistos. Penso involuntariamente em Apis, o touro sagrado dos egípcios. Quando um touro morria e era «entronizado» um novo, era dados às mulheres apenas um período de quarenta dias para visitá-lo. Durante essas visitas elas levantavam as roupas e lhe mostravam a vulva. Penso no touro de Minos que, por uma artimanha dos deuses teria enrabado Pasifae. Penso nos touros de minha infância, que trepavam com sete ou oito vacas no mesmo dia; nos testículos desse animal que a peãozada toda comia achando que iriam provocar-lhes efeitos afrodisíacos. Enfim, parece impossível dissociar historicamente esse animal da sensualidade e da voluptuosidade. Quando teriam iniciado as touradas? Os mouros as teriam trazido para a Espanha e esta as teria exportado para o México, Colombia e etc? Não tenho a mínima idéia. Só sei que essa idiotice começou aqui na Espanha lá pelo século XIII, com as corridas de rua. Naquela época até os nobres e os reis faziam parte do espetáculo. Depois foi sendo deixado novamente para a plebe . Os dois mal encarados que me venderam os bilhetes na rua, fumavam como loucos e pareciam ciganos. Os ciganos que Lorca tanto elogiou...

"El gitano es lo más elevado, lo más profundo, más aristocrático de mi país, lo más representativo de su modo y el que guarda el ascua, la sangre y el alfabeto de la verdad andaluza y universal... "

Verdade ou apenas o velho, frívolo e conhecido elogio dos intelectuais burguêses para com os fodidos e os famigerados? Pelo menos os espanhóis de hoje não pensam e não sentem nada disso a respeito dos ciganos.

O portão é aberto e um touro mais preto que o azeviche entra em fúria, olhando para todos os lados, dando pequenos saltos como se fosse levantar vôo. Elege uma das bandeiras rosas e dispara contra ela. De seu nariz já escorre um líquido fumegante. Defeca, como se estivesse literalmente cagando para o mundo. Os toureiros se protegem atrás de paredes de cimento... Ele ameaça enfiar os chifres no concreto mas recua... Não é bobo. Os toureiros se exibem. Passos ensaiados para cá, passos ensaiados para lá. Parecem galos de briga depenados. O touro fecha os olhos e se lança sobre a capa vermelha. Não acha corpo algum. Derrapa na areia. Defeca. Dá uma rápida olhada para a platéia. Gritos. Silêncios. Cheiro de merda e de suor. O rabo para cima. Trezentos quilos de ódio e de fel. A língua para fora. De sua pica escorre um jato de sêmem. Alguém das arquibancadas grita repetidamente: la oreja... la oreja... la oreja... Os chifres passam a um milímetro do estômago do toureiro. Gritos. Assobios. Aplausos. Uma pequena interrupção para que entrem os dois cavalos, protegidos nas laterais por uma couraça e com vendas nos olhos. O touro se lança sobre um deles, enfia-lhe as duas aspas com tanta fúria que o levanta da areia. O cavaleiro lhe enfia o arpão no pescoço e o cavalo permanece indiferente, como se não tivesse a mais mínima idéia daquilo que estava acontecendo. Torço cada vez mais para meu herói negro e solitário, mas percebo que já está entregue. Num novo assalto contra o cavalo caí de joelhos... Gritos, xingamentos... É evidente que para o touro esta é uma luta perdida. A organização do espetáculo não permitiria qualquer possibilidade de vitória para ele. Desfilar pela arena com o toureito espetado nos chifres se esvaindo em sangue seria o fim. Soçobrariam os negócios, o sindicato dos toureiros e o pessoal dos Direitos Humanos iriam a ONU pedir providencias. As poucas vezes que houve uma chifrada fatal foi mais por negligência da equipe do que por bravura do touro. Goya desenhou exaustivamente essa barbárie e Lorca a cantou em poemas e em prosa. Picasso e outros espanhóis, apesar do folclore cult que pesa sobre eles, não passaram imunes a esse costume sanguinolento. Rafael Guerra, conhecido por «Guerrita» organizou em 1896 uma espécie de tratado, em 5 vol. sobre a tauromaquia. E um tal de Pascual Millán, em 1888 escreveu em 258 páginas Escuela de tauromaquia de Sevilla y el toreo moderno. O que significa, en última instância, que essa loucura vem de longe. O homem obeso, sentado ao meu lado, faz um esforço enorme para ver as horas em seu relógio de bolso.


-Já se pasaron siete minutos! Resmunga para si mesmo.


Já se foram uns sete minutos. Um dos matadores lhe crava certeiramente duas «puyas», de onde, como de um vulcão, jorram dois jatos de sangue. Psicologicamente já está derrotado e a platéia pede agora que o matador cumpra seu papel metafísico. Outros dois dardos. Outros dois jatos de sangue. Um mugido que causa estremecimento na platéia. Os fotógrafos preparam as câmeras, as mulheres tapam os olhos, o toureiro coloca em cena os movimentos ensaiados por mais de mil vezes diante dos espelhos. Narcisista e vaidoso de merda! Prepara a espada. Para mexer com a histeria da platéia, dá as costas ao touro que treme estático. Não entendo por que não o ataca agora. Tem dois chifres que são mais destruidores que qualquer espada. Poderia acertar-lhe os rins, a coluna, as costelas e acabar de maneira trágica com este espetáculo. Mas não atua. Me decepciona. Depois de tantos anos, talvez já haja uma submissão genética nesses animais. Uma ética e, por que não, até mesmo um instinto de morte. (No sentido freudiano, de ser atraído pelo próprio fim, pela desconstrução de si mesmo, por uma espécie de fascínio diante da possibilidade de «deixar de ser», de ver cada osso, cada órgão e cada célula desintegrar-se no nada, quase uma vingânça contra o porvir, contra todas as esperanças e contra a vida.) "Uma hora após a morte ­escrevia o narigudo Bergerac, em La mort d¹Agrippine-, nossa alma (a alma do touro) desfeita será o que foi uma hora antes da vida..." A multidão suspira. Aquele homenzinho estúpido se coloca agora diante do animal com a espada na posição do ataque. O touro parece hipnotizado e disposto só a seguir as orientações do amo. Este lhe diz alguma coisa, obriga-o a atacá-lo pela última vez... O touro obedece e recebe no corpo exausto a estocada final. Um palmo de aço enfiado em seu dorso. Urra, corcoveia, defeca, olha para a platéia, perde visivelmente a moral, toma consciência de que aquela era realmente sua última tarde de maio. Palmas, assovios, gozos secretos na platéia. Os sádicos se agitam, tagarelam, parecem exorcizar naquele ato os próprios crimes e as próprias culpas. Aquele corpo, uns dez quilos a menos, desaba. O toureiro levanta os braços, dá uma corridinha afeminada ao redor da arena, se exibe para a platéia. As mulheres atiram-lhe chapéus, «pañuelos blancos», flores, camisas e outros objetos que ele recolhe, dá um beijo e os lança de volta, ao léu. Esse frenesi feminino não parece ser para o «macho» como todo mundo sempre pensou, mas pelo que a platéia identifica que há de feminino e de cruel nele. Um açougueiro se aproxima do touro agonizante e lhe enfia várias vezes uma faca na nuca. É a apoteose. O momento de máxima crueldade. A fanfarra reinicia, sua marcha wagneriana, as arquibancadas se agitam, enquanto entram na arena as três juntas de mulas cuja função é arrastar o cadáver pela porta dos fundos. E a mesma história se repete seis vezes. Sempre com touros andaluzes, pretos e da mesma raça, criados especificamente para esse fim. Deixei as arquibancadas com uma indignação contida e pensando na música de Francis Cabrel sobre a idiotice dessa exibição criminosa:


"...Si, si hombre, hombre / baila baila / hay que bailar de nuevo / y mataremos otros / otras vidas, otros toros / Venga, venga a bailar..."

Ezio Flavio Bazzo

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1. "Já na pré-história o touro era venerado por sua potência e sua força, era respeitado como o símbolo solar da prosperidade e da fertilidade. (...) Nas civilizações da antiguidade, diversos hinos religiosos mencionam o Deus-Touro. Na Índia a vaca é considerada um animal sagrado, símbolo da estabilidade e da procriação. No Egito antigo, 3500 anos a.C. é generalizado o culto do rei-Touro. Os hititas, 2000 anos a.C fazem do touro o primeiro de seus deuses (...) O touro é também um signo solar na astrologia e tem um significado importante no cristianismo." (Lormier, D)
2. Romancero gitano, p.140
3. A linguagem das touradas é quase tão hermética e quase tão cheia de signos, significados e significantes quanto a dos lacanianos. Para decifrar o artigo intitulado Oreja de Consolación, que saiu no jornal do dia seguinte, sobre o desempenho dos toureiros, dependi da boa vontade da camareira do hotel. «rodilla en terra»; «incorrección del site»; «pasaportar al novillo devuelto»; «danzó por delante en un amago de cite al natural», etc, etc.
4. Disfarço o riso ao lembrar da frase de um gurú indiano que previnia: "nunca presenteie alguém com um relógio de bolso, porque isto simplesmente significa que você tem como certo que esse homem está acabado. O relógio é seu último presente e lhe servirá para saber quantas horas faltam para o sol se pôr..." (OSHO)
5. La corrida, música contida no CD Samedi soir sur la terre, Paris 1993.